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eu sou a sombra do vento

por vítor, em 18.04.11

Eu sou a sombra do vento,

a silhueta das almas que penetram

a caverna onde repousas os dias

sem retorno. Eu renasço

nos teus lábios quando

a  loucura se esconde no reflexo

do espelho acorrentado, renasço

para morrer em seguida no teu olhar.

Olhar que ampara a dor dos momentos

calados, inerte complexidade da rebeldia

projetada na parede turva do esquecimento.

Eu sou a morte que caminha

ao encontro dos sentimentos que se levantam

na planície instável, ao encontro

dos outros que emergem da noite

e espalham o medo na nostalgia dos incautos.

As tuas mãos afagam-me o cabelo sinuoso

e acalmam a podridão que escorre das pedras.

Só assim se compreende a inquietude das bocas

moribundas, escancaradas na exaustão

das fraturas reverberando o sexo encantatório.

Eu cubro a pele que me recebe pulsando

nas calmarias do pesadelo de sangue, espojo-me

no suor erótico das membranas latejantes

atingindo orgasmos irretletidos.

No barco em que navego ao encontro

das janelas da alma diviso o murmúrio

 dos vagabundos que se aventuram

nos campos ébrios da batalha sem fim,

imprimo os passos que lavram os planos

divergentes da memória coletiva.

Eu sou a sombra do vento e ardo

nas tuas coxas voláteis.

 

Cativa 10/4/2011

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publicado às 15:30

confusa espera

por vítor, em 18.02.10

 

(... cheguei sem sentir o vento) Na rua,

enquanto esperava a tua voz,

percebi que o colapso era uma confissão

lenta de frenesim anunciado.

Os caminhos, de bermas floridas,

levam à cidade que ocupa o horizonte

pejado de aves sangrando

na placidez dos tempos.

A voz que não ecoa do alto

das montanhas sombrias

constrange a ação dos miseráveis

apelos da rua silenciosa,

da vida suspensa que arde na calçada insuportável.

Os passos desajustados calcam

presas insensíveis ruminando

milenares crenças no mistério

do labiríntico ciúme

transferência dos desejos ocultos da comédia.

 

(... agora já sinto a brisa) Na rua,

o silêncio impera tolhendo a dor

que asperge os incautos,

rodopiando nos corpos suspensos da cidade

que não cumpre os bizarros ditames da multidão,

a voz que se espera, confessora

da impotência crescente da paixão.

 

Os dias que se erguem na confusa

espera do som que aclama

a crua rebentação das águas

virão enaltecer o polivalente

rumorejar da ilusão pétrea.

 

Tavira (4 águas), 8/02/2010

 

 

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publicado às 16:12

Um Antropólogo Competente

por vítor, em 28.04.08

  Um homem, que pelo que a senhora do café disse, cigano, mijou na casa –de- banho. E onde está o mal pergunta-se?

   Malditos ciganos, não sabia o vento levá-los, guinchou a mulher do café  ( presumo que a dona do estabelecimento, entendendo o café como edifício que alberga efemeramente transeuntes carentes), armada de balde e esfregona farfalhuda.

   Mijou à parede, mesmo ao lado da sanita, nojento! vociferou impiedosamente, colocando uma cara-de-boca-de-cu.

   O homem, provavelmente levado pela ventania, não se encontrava nas redondezas, enquanto a relinchante esfregadora procurava o unânime assentimento dos carentes, efémeros clientes da globalização. Eu, que tudo sei, poderia adiantar que o vi agora mesmo entrar no barbeiro do quarteirão seguinte. Mas que interesse tem isso para agora...

   Depois do árduo trabalho de limpeza da retrete, a senhora empresária sentiu-se aliviada. A sua alteridade reforçara-se. O “nós” consolidara em ritual suspenso e ávido de movimentos de nucas.

   O dia começava a raiar quando o antropólogo entrou no café. Trazia, como sempre que trabalhava no ofício, a pele de outro. Confundia-se com o objecto de estudo. Mimetizava-se de “homo falsus”, para ser levado a sério.

   Sentou-se com a barba de cem dias. Pediu café. E, para agradar aos fregueses, uma aguardente velha. Seguramente mais velha que a sua barba e mais nova que a sua vida. A aguardente é claro. O que nada nos adianta sobre a sua idade. A dos dois é claro. A não ser que ambos tinham mais do que cem dias. O que já antes era óbvio: ninguém, com menos de cem dias, pede uma aguardente e nenhuma aguardente velha que se preze tem menos de cem dias. Que confusão. Quem disse que o caminhante fazia o caminho?! Voltemos ao caminho.

   Tragou primeiro o café com cheirinho e depois, devagar, em pequenos goles a bebida ardente. Socializando-se com gozo. O tempo parou por breves instantes. Só o vento se ouvia inquieto.

   O antropólogo sentia a nova pele aconchegar-se ao "velho" corpo enquanto um prazer intelectual profundo o colocava nos interstícios do tecido social e lhe corrompia a identidade. O tempo, como atrás víramos, parara e era preciso dar-lhe vida. A festa não pode ser eterna. A sociedade é um fluir incessante que não pode parar. Parar, como tão bem Lapalisse frisou, é morrer. Ficar encantado à espera do sapo. Ou do príncipe?

   Esticou o gozo até onde pôde e subitamente levantou-se e pagou. Antes de sair foi ainda à casa-de-banho. Depois, despedindo-se com um claro “até-logo”, entrou no vento e desapareceu rapidamente na direcção do quarteirão seguinte. Alguns fregueses pensaram a medo: que cigano simpático...

  O café entrou no remanso turbilhão (rodando para a direita como sempre acontece no hemisfério norte) da normalidade. As conversas de catação voltaram a escorrer sem fio afrouxando as tensões. Só o vento se ouvia inquieto.

   Mas o tempo, que não é previsível, logo voltou a entrar em turbilhão        ( agora rodopiando para esquerda como sempre acontece, com os turbilhões catastróficos, no hemisfério pobre) gerando uma confusão momentânea na ignorância dos clientes.

    A dona do café, que não era ingénua, tinha ido espreitar à casa-de-banho.

    Malditos ciganos, uivou. Não sabia o vento levá-los, guinchou.

   Alguns fregueses pensaram sem medo: os ciganos são sempre falsos.

   Eu, utilizando as mesmas premissas, cheguei a outras conclusões: nunca se pode confiar num antropólogo enquanto trabalha. E, manuseando outras premissas, diria mesmo: muito menos quando não trabalha.

 

   Seriam umas onze horas, duas horas passadas sobre os dramáticos acontecimentos ocorridos, quando o antropólogo voltou a entrar no dito estabelecimento comercial. Alguns fregueses, especialmente freguesas, seguiram o seu deambular ondulante, pelo café, até à mesa escolhida para pousar. Roupas primaveris e uma cara escanhoada pareciam fazê-lo mais novo. 

Mais novo que certas aguardentes velhas.

   Sentou-se e pediu um café e um queque com passas. Mordiscou o queque enquanto ia bebendo o líquido quente, devagar. Adorava a mistura dos dois. Molhou mesmo o bolo no café.

   O ambiente não se alterou significativamente com a entrada do estranho. Um caixeiro-viajante, pensou uma mulher mais nova, mergulhando em viagens para longe. O vento amainara lá fora.

  O cheiro a mijo ainda não se tinha dissipado completamente apesar da esfregadela profissional. A dona do café estava feliz. A vida corria sem sobressaltos e os momentos eram dentes em roldanas de velho relógio com corda para uma semana.

   Passado um bom bocado, e depois de umas miradas com interesse à telenovela da hora do almoço que corria na televisão, o antropólogo levantou-se, dirigiu-se ao balcão, pagou, foi à casa-de-banho e saiu despedindo-se:” até sempre”. Os fregueses responderam-lhe cordialmente e retomaram a postura de efémeros carentes sem lugar nem futuro.

      O cheiro a mijo tinha aumentado consideravelmente.

   Malditos ciganos.

   A dona do café atribuiu-o ao vento que amainara lá fora.

    

 

 

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publicado às 21:43


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