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Rio da Morte

por vítor, em 09.05.23

O pus que escorre desta ferida aberta inicia o rio. Onde começa a dor de me tornar velho. Sim, na ferida aberta, a nascente deste rio sem esperança, a viagem cansada por terras estranhas, traga a planície lenta em meandros de sangue azul cobalto desenhando veias e artérias rompendo a pele. O mar imenso da morte espera a corrente que o procura. Tudo desliza para o mar sem fim. Tudo se despenha na renúncia de continuar. É desespero e sapiência a torrente de lama que arrasta os últimos a sorrir. A cobarde morte esconde o trabalho intenso dos vermes devorando a carne devoluta. A podridão da vida.



Oceano emético de pus iridiscente, lavoura sanguinolenta castrando os antigos temores a deus. Nebulosa opaca ardendo no fim dos dias, atraindo os ossos dos defuntos ao abismo das árvores petrificadas, onde o vento range nas folhas tatuadas pelo verbo insano, verborreia inútil no clamor do silêncio. A morte sempre vence as desvalidas carcaças nauseabundas, envergando os paramentos dos profetas fraudulentos como são todos os videntes encartados.

Quando o rio se perde na lagoa que engole a vida, os patrões da noite sem memória atingem orgasmos monumentais roçando o renascimento das almas eméritas. São portas sólidas as que te oferecem para arrombar.

16/17.2.2023

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publicado às 01:07

Cantando o vazio dos dias

por vítor, em 09.05.23

Queria cantar eventos grandes, dignos de um aedo, mas na minha vida tudo o



que tem acontecido tem sido normal e indistinto. Os meus cavalos mastigam romãs enquanto viajo por pensamentos ignóbeis. Quando vejo o futuro vir ao meu encontro, reparo nos dias inúteis que me esperam. São todos dias sem memória e que se não fossem vividos nada acrescentariam à triste vida que prossigo. Se fosse um homem habilidoso, poderia editar o futuro e transformá-lo a meu favor. Os meus cavalos gostam de romãs. E ouço-os ruminar a carne granulada, sorrindo ao tempo que passa. Se parasse agora, diria que a minha vida não teria valido a pena, mas isso só o sei agora. Não poderia agir sobre nada, como não se pode editar o que vai acontecer sem o conhecer. Agora, que encaro o futuro como se fosse o presente exposto num ecrã à minha frente, posso acreditar na sua manipulação, na possível mutação dos dias inúteis. Poderia, até, tornar muitos dias em dias interessantes e memoráveis. Dias sem história que se pudesse contar aos amigos depois de os ter vivido. Com gargalhadas de gente solitária e ensimesmada. Gente feliz com futuros radiosos resvalando para abismos perplexos. Multidões ululantes construindo felicidade à medida, para todos. Dias repletos de eventos excecionais. Momentos de alegria e paz, de ódio e iniquidade, como são todos os que ficam na consciência coletiva da humanidade. O meu futuro será o meu passado. Continuarei, com a tristeza dos dias comuns, a criar cavalos. As romãs que os equinos devoram livrar-me-ão da insuportável imortalidade.



26.02.2023

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publicado às 01:03

...

por vítor, em 09.05.23

O poema nem interroga, nem responde: o poema é um resgate impossível do nada.



O poema nem interroga, nem responde: o poema é um resgate impossível do nada. Uma porta aberta para o vazio. Ainda antes de ser dito, já fede a cadáver santificado. Antes de escrito revela já a cicatriz que o devora. Só o poeta desconhece a inutilidade da criatura neófita. Tudo o que resta dessa criatura será um rasto de sangue e sombra. Uma cicatriz feita estrada que nos conduz e oprime: um desfiladeiro de dor, grito, escorrendo para a noite. Sentado nas bordas do penhasco, o poeta crê que as acelerações da corrente são o resultado da força impagável das palavras. Varado pelo destino entontecido, perecerá.



março de 2023, Cativa

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publicado às 01:01

Na noite a sua foz

por vítor, em 09.05.23

Se um rio transporta a tua indelével solidão, é na noite a sua foz. Muitos levarão candeias para te procurar. Sem saber que é na luz que se esconde o olhar suspenso das sombras.

Não podemos esquecer o fluir dos dias isentos de dor, inúteis e de efeitos secundários maléficos. Não podemos deixar de saudar os que confortáveis navegam à boleia da corrente.

- adeus amigos, tornaremos a ver-nos no passado! Abracemos o que nunca conhecemos. Adeus!

É então que surgem na paisagem inclemente os indigentes palavrosos exibindo roupagem já gasta pelo futuro. Mentem com a sabedoria misteriosa dos bichos acantonados na tua cabeça. Rompemos a fina película das imagens e atravessamos para o interior desconhecido apenas acessível a quem já morreu.

Pela estrela irregular que o corpo rompeu na citoplásmica fronteira, a luz ilumina as trevas onde navegarás o passado irrecuperável. A quietude dos teus sonhos é um resgate impossível do amor.



Cativa, 21.03.2023

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publicado às 00:57

o vento sopra de frente

por vítor, em 09.05.23

Não há como sentir a animação que vai lá para trás. O vento pela proa torna-nos mais fortes. Mais eternos!

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publicado às 00:52

vanity press

por vítor, em 09.05.23
Com as vanity presses, ao menos sabe-se ao que se vai. Funcionam, nos dias que passam, quase; na poesia, quase sempre; da mesma maneira do que as editoras tradicionais, mas não conseguem ocultar o rabo. As outras, sérias, são especialistas em camuflagem de partes baixas. As primeiras, ao menos, poupam os amigos...

Havendo dinheirinho, haverá circo. E se o circo não for vistoso, mudam-se os palhaços.

vanitas vanitatum et omnia vanitas.

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publicado às 00:47

Fede o chapéu do ortónimo

por vítor, em 09.05.23

 



Viste o que o que a sua voz trouxe

de novo à questão do mundo? Ainda nem tinham passado as dores de cabeça ao senhor Pessoa quando o sinal vermelho caiu. Os pássaros atravessaram a rua e cagaram no chapéu do ortónimo. Voaram para bem longe: o plumitivo não era para brincadeiras e transportava uma pandilha de gente doida na cabeça. Não podemos esquecer a situação dos entes estranhos que dançam de mansinho no pudor da solidão sangrenta. O caminho é um casamento entre o sonho e a morte: nunca das veredas da dor se escapuliu um defunto que atravessasse os olhos do devir. A manada que prossegue, gemendo, a caminho do matadouro. Não esperem clemência da dor. Do esplendor da realidade. Não podemos ser obrigados a dançar as valsas da demente orquestra. Da ritualidade sinistra dos maestros assassinos, oráculo onde os cavalos esquálidos enfrentam as náuseas tormentosas dos cemitérios.

- Quem rege os pássaros que espreitam no fim da estrada de sangue? Que singularidade é a tua que te arrasta no alcatrão cansado à procura de luz?

O Poeta não nasceu nem cresceu. Não sabe o que o dia de amanhã trará! Finge de mim e não me concede vontade para nada. Dançamos como pedras antigas, metamorfizadas, rangendo nas noites antigas. Somos o rodopio do vento burilando o tempo. Se não olhares, nunca verás o Poeta desaparecendo na esquina da vida: das vidas múltiplas sem regresso. O chapéu fedendo a podridão alada.



Cativa

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publicado às 00:43

As Vozes do Artista

por vítor, em 07.12.22

Uma das mais importantes conquistas do artista, e relevo sempre, na minha modesta opinião, que o artista é igual a qualquer outra pessoa, e que qualquer outra pessoa pode ser, já o é em bruto, um artista, é a sua voz. Não é suficiente, mas é, seguramente, condição necessária. Só quando o artista é possuído pela sua voz, se torna um criador singular. E um artista!

Como podemos facilmente constatar, hoje, e em todos os tempos, os que campeiam na praça usam, e alguns abusam, das vozes de outros. Brilham, muitas vezes sem dar por isso, e orgulhosos disso, dessa voz, nos salões, exposições e concursos, por esses campos afora.

Muitas vezes, quase sempre eles, ganham prémios e mordomias. Muitas vezes com vozes extraordinárias. Só que são vozes extraordinárias de outros. Um "plágio" subliminar, difícil de provar e, por isso, legal.

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publicado às 18:40

Um ser estranho

por vítor, em 04.11.22

Nada há de mais medonho do que a imortalidade. O ser para sempre. Sem obstáculos nunca haveria sombras. Eras, enquanto te conheci, um ser estranho: procuravas na obscuridade desejos insondáveis.

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publicado às 13:28

Dizias: éramos eternos. Conduziam-nos os ventos. Ouve as letras do Dylan que fundem

almas mortas. Quantas vezes pediste aos ventos a carícia das tempestades? Quantas vezes sentiste a espuma da maresia a trepar pelo corpo até te aspergir o rosto incendiado pelo Pôr-do-Sol?

A mulher caminha à beira do precipício. Lá em baixo, o mar entrega-se à inútil, e eterna, luta contra os penedos escuros que desenham a costa irregular. As espumas trepam os rochedos procurando as fendas irrepetíveis. Brancas, azuladas; liquefeitas, evanescentes e vaporosas. Elevando-se até atingir as bordas sinuosas das falésias. A mulher ardendo!

Para quem caminha nas tortuosas linhas do abismo, o espetáculo é deslumbrante. Magnético. O Sol esmorece tombando devagar na massa azul-cobalto que se estende até ao fim do mundo. Desenha uma estrada de luz a caminho do fim. Do fim dos dias, princípio das noites. Das noites eternas. Doces e inalcançáveis por quem pretende descansar da vida atormentada de outrora. O passado funciona como o lastro que nos liga à vida e impede a fuga dos dias vindouros.

Dali, as aves planam de costas viradas à vida. Flutuam de asas abertas, suspensas na nortada que tudo move. Envergaduras diversas adaptam a plumagem ao fluir do humor das aragens. Gaivotas gritam na tarde que se esvai.

A mulher caminha devagar. Os pés calcam a areia dos trilhos calcados por outros com um cuidado inusitado. Deixando pegadas suaves na superfície granulosa. Marcas que não durarão mais que minutos, padrões geométricos de umas sapatilhas de marca. Aqui e ali, baixa-se. De cócoras, e observa a vegetação rasteira, colhe uma ou outra flor e leva-as ao nariz. Às vezes à boca. Cheira-as e morde-as, mastiga-as, como botânica experimentada. Volta a caminhar contornando as rochas que afloram do caminho. Os cabelos e o vestido branco, incomum, agitam-se adaptando-se às flutuações da barometria. Às linguagens do vento. Lá em baixo, muito em baixo, o mar avança contra a verticalidade da rocha. Avança e retira-se, para voltar a avançar, esverdeado, libertando a espuma que não pertence ao sólido nem ao líquido. Alguns rebordos estão resguardados por cercas de madeira. Toros grossos protegendo transeuntes distraídos ou ariscos. Ou possuídos das duas características.

Encosta-se a um espesso travessão. Olha a paisagem campestre que morre na penumbra que se impõe. A diversidade desaparece na sombra do entardecer. A sul a Serra de Sintra ergue-se, violeta, com o castelo dos mouros rasgando a noite. Navio imponente coroado por um palácio grotesco. Gávea de amores certificados e furtivos. Etéreos e efémeros. Volta-se para o mar. O Sol baixou aproximando-se da linha do mar que toca o céu. Já nada impede a sua contemplação. Os olhos absorvem o dourado das águas e enchem-se de lágrimas. Lágrimas de ouro escaldando, escalavrando, o rosto. A memória que se desvanece enquanto filme cronológico (ou só lógico) enformando a existência.

Alguns batólitos emergem e voltam a mergulhar no tempo sem fim atingindo, caoticamente, o pensamento que se estilhaça. Criam-se e desfazem-se como a espuma que se liberta das ondas.

Ultrapassa a barreira protetora e aproxima-se da beira do abismo. Do abismo que se estende pelo silêncio da cratera hiante. Que asperge de lonjura as mnemónicas linguagens do prazer.

A imensidão do mar enegreceu e cresceu e estende-se, espesso e denso, até ao longe do mais longe.

Cheira as flores que colheu. Concentra o olhar na negritude do mar.

As últimas aves suspensas atravessam a penumbra virando costa à vida A espuma do mar recebe sem par. Quantas almas serão precisas para compor a melodia do que nos traz serenidade?

Na face da mulher entrevia-se a tristeza dos dias de antanho. Só o cair da noite desnudava as rugas que lhe cicatrizavam a alma.

Parou, subitamente. O pensamento avançou, alguns diriam, recuou; como luz na escuridão, até algures no passado. Um lugar onde jazia um homem no chão indefinido da paisagem. O sangue que encharcava a poeira breve refulgia na tarde que o amor apagara.

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publicado às 17:32


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