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Da soberania da Multidão

por vítor, em 15.01.19

Há que destacar; e só quem não tem competências para desocultar o que está por detrás do que ocorre na sombra da memória o poderá pôr em causa; as consequências brutais do teu gesto. Não será nunca desprezível o elenco de citações que podem interpretar e avaliar a brutalidade da ação.
Eu que conheço a imprevisibilidade do comportamento humano, que aprecio a diversidade e até comungo contigo o prazer da mudança, não sei como a magia dos princípios pode canibalizar o estertor do fim. No meu caso, é a mudança exterior ao pensamento que me habita o cinzel transformador da alma.
Quando vieste até mim, percorrendo o caminho insensato dos sentimentos de antanho, irradiando clareza na confusão inata da nossa vida, reconheci de imediato que nunca tinha sido a ausência a explicação da separação. A proximidade física é uma fonte de mal entendidos. A lonjura atómica potencia a exaltação dos afectos incorruptíveis. Não há distância na solidão. Nem solidão absoluta na imensidão das terras habitadas pela criação cultural.
O teu gesto, que emergiu na noite, é uma aclamação silenciosa e triste. Um salto na vacuidade do sonho, na cumplicidade da mecânica amorosa adjacente.
Sabes o que convoca a dor e almeja a sabedoria, a sabedoria dos relapsos altruístas. Sabes onde a lança penetra as fragilidades da alma. Onde se alojam os trovadores da realidade inatingível, os que conhecem os limites insondáveis do efémero retorno.
Quando o desejo é concorrente doutro querer, rejeitado pelo corpo carente, o parecer favorável da multidão é soberano e requer a impossibilidade do despojo total.
O gesto que ostentas perante a minha inquietude não inscreve a violência que transporta, na carne devoluta que te ofereço. É essa brutalidade do gesto: a violência que desejamos não encontra o alvo do desejo que sempre procurámos. O medo inviabiliza o desejo, ampliando a dor da paixão inerte.
Alguns não desconhecem o que se revolve sob a coberta que esconde da curiosidade sagaz da multidão, os murmúrios do resvalar delirante dos tempos. Serão esses que, um dia, gravarão o gesto na memória do futuro.

Monte Gordo, 19 de Julho de 2010

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publicado às 10:08

Camaleão Acinzentado

por vítor, em 13.12.18

Já não era sábado, mas também ainda não era domingo. A hora mudara agora mesmo, como sempre acontece quando a estação das carraças se inicia.

Isto perturbava o camaleão acinzentado como noite incompleta:não as carraças, que não lhe interessavam para nada, não lhes apreciava o sabor acre, nem a crocante quitina, e não tinha problemas com a sua agressividade doentia. E a amabilidade era-lhes, aliás, correspondida: não as atraía o sangue frio e a pele viscosa.

O que o preocupava, realmente, era a imprecisão do tempo. Se a noite avançava como sempre. Se a liquidez do devir se transmutasse na ciclicidade prescrita. Se a noite, inexorável, regia o sono merecido dos que, como ele, usavam os dias para manter os corpos e garantir o futuro.

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publicado às 16:17

O Que Não Precisas

por vítor, em 13.12.18

Procura sem a ânsia

de seres grande, procura sem cessar

o que não entendes.

O que não precisas. As sementes dos santos.

Levanta-te ao encontro da solidão honesta

e vã, desenha em ti a podridão do novo

como como se tudo emergisse

das ideias confusas da singularidade,

dos caminhos já trilhados

por outros, da cegueira obscena

e sôfrega de sangue virginal.

O que encontramos são murmúrios

só entendíveis a iniciados nas longas

procissões de vagabundos

à procura

das areias escaldantes, da nauseabunda e escarlate

mãe de todas as dores. As dores que apoquentam os mortos.

Murmúrios conspirativos renegando o passado

perdido atrás de paredes transparentes,

o oculto transgressor rompendo

o discurso básico dos profetas. Enigma

de antanho onde a memória

emerge dos pés mergulhados em cerimónias

do esquecimento, escaldantes, brasas rasgando as vestes

dos risos alarves, xamânicos, onde os rostos

de cadáveres orgulhosos são possuídos

pelo medo convulso das tardes. Procura os que te

arrastam até ao fim das sombras do desejo.

 

Monte Gordo, 3-11-2016

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publicado às 16:15

Se o ódio se adianta

por vítor, em 13.12.18

se o ódio se adianta

e te prescreve a dor,

doma-o e sai para a rua,

grita como se o labirinto

que as flores desenham

no torso da nuvens

se rasgasse

em cicatrizes invisíveis

ao sentido dos duendes imorais,

grita até sentires

o eco das paredes

te atirarem no precipício

da carne a latejar de desejo

se o ódio persistir, enraivecido,

regendo os medos e as sombras,

sai do teu corpo e abandona

o odor crepuscular,

o rumor brando das entranhas,

deixa-te levar por entre as casas

do lugar, por entre a claridade

que atravessa os dias

tatuados nos sonhos incandescentes

do profeta desconhecido

estranhos tempos estão encantando

o coração das cidades, as guelras dos peixes

emergindo das redes sociais,

saudando o ódio que nos enforma

e conduz, as esculturas de lixo

rasgando a pele de animais degolados

ao entardecer, sangrando palavras

 

vrsa, 21-o3-17

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publicado às 16:12

o resto da tua vida

por vítor, em 03.12.18

Se dormisses como dormias antes de ter atravessado o rio que dividia a tua juventude do resto da tua vida, serias capaz de entender os sonhos que agora se recusam em aparecer nas sombras da noite. O que quer que fosse, não te traria a juventude de volta.

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publicado às 09:41

silicon valley

por vítor, em 15.10.18

 Em silicon valley os colaboradores de unicórnios dormem em autocaravanas à porta das startups para não perder tempo entre a casa e o trabalho, tomam pastilhas e tabletes para não gastar o tempo com refeições alienantes, trabalham, até, de fraldas para dispensar a frequência das insípidas casas de banho. Em silicon valley os teclados de computador têm triliões de espécies de vírus, bactérias e ácaros e os dedos dos criadores de sonhos e crenças para incréus rendilham figuras com os neurónios desassossegados, não passam de viajantes sem destino e sem memórias. Em silicon valley o inglês é a língua que fenece nos lábios fechados, ali se ergue, na rede que globaliza, a nova e indestrutível torre de babel, ali convergem os infelizes que inventam o novo mundo e programam o homem novo. Em silicon valley os logaritmos contagiosos rastejam nas redes sociais. O homem novo vomitado sem revolução, o homem digitalus, o homem tornado robô e desligado da natureza perversa em que o tigre devora a ensanguentada gazela. Em silicon valley os homens e as mulheres não fodem a não ser nas férias, que são raras e só quando a depressão é grande e a felicidade espreita. Masturbam-se com as mãos que se perdem nas teclas indigestas das máquinas e nos ecrãs tácteis. Em silicon valley, e no resto do vale, que é o resto do mundo, o amor foi esquecido e anda pelos abismos das noites sem néon à procura da humanidade cruel, continuando a errar e a apavorar o homem novo. Para que tudo seja perfeito e que as consciências atinjam o paraíso é preciso conquistar o sono: o capitalismo só será a vida, a vida inteira, quando a humanidade permanecer em eterna vigília. Em silicon valley os vermes, cookies divinos, governam o mundo a partir de intrusos que passeiam na tua cabeça. Não deixes acabar a noite fria.

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publicado às 17:10

Um dia grande

por vítor, em 16.08.18

 

Hoje, o dia será tão grande que ainda não nasci.
Foi hoje mesmo que Timoteo introduziu a 12.ª corda da lira
E o menino Mozart, depois de ter tocado cravo de olhos vendados para a corte aparvalhada, pediu Maria Antonieta, futura rainha
de França, em casamento (quando voltou a Paris já homem, ninguém lhe ligou peva).
Possivelmente o dia nem terminará enquanto não desceres até ao teu mundo interior,
À grande sombra da solidão dos outros. Poderá vir a ser o dia em que utilizarei
a inutilidade como meio de transporte até ti. Chegar a ti sem chegar a lado algum.
Fui lendo e interpretando a linguagem das nuvens refletidas no fundo do mar para passar o tempo que restava no dia dos dias. Sou o homem fantasma e viajo de mota
Pela estrada do pensamento pré-cartesiano, onde tudo pode existir sem existir e as personagens mais reais são as que nunca passaram de sombras ténues duma luz irreal.
Só a mota, sem mim, parece atravessar o emaranhado de vias, viadutos e túneis que M. C. Escher gravou a fogo nas minhas mãos. Sou o homem fantasma que vive nas páginas de Ovídio. Argonauta a caminho da Geórgia na procura do manto sedoso que nos há de trazer a riqueza inesgotável. O homem que previu o que aconteceria quando Einstein pusesse
a potência no C da fórmula das fórmulas: bocejou e foi dar um beijo na mulher, que sorriu como a Mona sorriu pela primeira vez a Leonardo.
O dia, como nos esquecemos tão facilmente das coisas desproporcionadas, avançou bruscamente (só por isso o percecionámos) anunciando o meu nascimento ao final da tarde. Quando nasci, já Nietzsche vivia na minha cabeça, depois de ter conhecido o cavalo de Turim e de ter adormecido na véspera do dia que nos transporta até hoje.
O chicote sibilino do cocheiro de VERDI lambeu a calote visível, the other side of the moon, do meu cérebro e fez-me navegante no dia que não tem fim.

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publicado às 16:54

a vida que me espera

por vítor, em 16.08.18

Há água, outras vezes fogo, muitas vezes fogo, na frente de um pente saltando à corda no quintal
de um parente de província. 
Uma máquina de café ampara uma faca e uma colher…
Tiro um café e a faca reage
ameaçadoramente fazendo-me a barba à escovinha.
Não sentes o odor a pintelho que sopra do 1.º andar?
Tomo o café… a sombra das cigarras
envolve o pescoço das liceais leitosas e púberes. Gostosas!
Moças sem rosto, de mamas sentadas na maldição
da poeira incandescente.
O problema não é com os sacanas, com os que saltam
de costas para os precipícios da fé, é-o com
Os que acreditam que são tão bons quanto
Os que dançam nus na tempestade, os que roçam
O vento e naufragam nas noites de sangue.
O café desaparece, frio, no quintal do meu tio-avô
E as malabáricas proezas do pente transferem-se 
Para o cabelo rebelde da maresia que emerge
Das sombras das cantoras da tarde.
De barba aparada e penteado cruel, saio para 
A vida que me espera no comboio sem fim.

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publicado às 16:52

MI ABRIGO DE ESCRITOR

por vítor, em 10.07.18

 

Salgo de casa con un abrigo negro comprado en zara, un abrigo de escritor barato y con muchos bolsillos, y paseo por la calle silbando knockin on heaven's door de dylan. Voy a un festival literario. El abrigo negro me está largo, pero me da un aire de pedante, y así me voy deslizando por la calzada gastada de la vieja calle. Piso mierda de perro, y tan sólo yo avanzo en la oscuridad de los días sin regreso. Hotel pagado y comida en un restaurante de dudoso gusto, abrazos y besos en la pajarera circundante, selfies para siempre con camaradas del arte de las palabras y, con suerte, con alguna estrella del firmamento distante. Sonrío. ¡El abrigo me sienta tan bien! Sonrío al que pasa y el que pasa piensa que es un loco el que pasa.
- Con un abrigo de esos…

Espero el autobús 16 al final de la calle. Voy desde Venda Nova y el 16 sale de allí mismo por Puertas de Benfica. ¡Joder!No me hablen del Benfica que hasta me mareo. De fútbol no sé nada, pero sufro por esta mierda de equipo que sólo me da disgustos y arritmias. Aquí voy, feliz como una piedra lanzada al aire que cae en la cabeza de algún, que se joda mi amiga Ladislaia que no soporta que escriba de algún; quiero decir de algún niño. Mi abrigo ocupa dos asientos en el autobús: el mío y el que debía ser para la señora que va agarrada a la barra vertical del coche. La barra es de metal plata incandescente y me hace recordar, ay la puta memoria que siempre me arrastra a lugares intangibles y escurridizos, cuando fui con otros tres poetas a una casa de putas con una barra en medio del salón. Estábamos tan bebidos que hasta yo bailé en la barra. Y mire, ahora que nadie nos oye, hasta tenía garbo. Lo peor fue cuando una chica, con mucho encanto, me metió la mano en un lugar que hace que me ruborice sólo de pensarlo. Los tres poetas gozando con la escenita y yo encendiendo la casa con mis vergüenzas.

Y, joder, aquí voy en el autobús 16 con mi abrigo de escritor, que en honor a la verdad, me está un poquito largo. Me miro en un escaparate y parezco mismamente lo que soy: un idiota vestido de escritor camino de una fiesta de idiotas vestidos de escritores. Me bajo en una parada cualquiera. Knock, knock on the heaven's door. El abrigo aletea en la brisa y me lo ajusto. Como es largo deja entrar el frío que del mar se levanta.

tradução, gentilmente ofertada, de Pedro Sanz.

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publicado às 00:57

A água parece fria

por vítor, em 10.07.18

 Uma mulher magra desce a calçada íngreme e os jacarandás estão floridos. Roxas as árvores, melancólica a mulher. A mulher está só. Os pés colam-se nas pedras dispostas geometricamente. Paralelepípedos de uma rua igual a tantas outras e diferente como tantas outras. Pés que a calçada prende e ilumina. O mar está próximo e os pássaros estão felizes por isso. Tão felizes que viajam como se não estivessem poisados nas árvores. A mulher continua só, desce ainda mais e aproxima-se do mar que brilha no dia solarengo. Da orla que lambe a praia. Está longe a noite e perto o mar. É já na areia que a mulher magra caminha. Os sapatos ficaram para trás e as gaivotas afastam-se, temerosas, dos pés que escrevem na areia. Rescrevem sobre os caminhos que trilharam. Linhas cruzando o tempo perdido. Sobre as histórias que os caminhos tatuaram nas palmas dos pés. Não há nuvens no céu, e o mar parece cansado. A mulher mete o pé delicadamente na água e sente o frio a percorrer o corpo. A água parece fria mas a mulher sorri. Monte Gordo, 26-6-2018

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publicado às 00:18


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