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o sorriso da loucura

por vítor, em 19.05.11

Deu-me uma branca e esqueci o meu nome. A mania

que imaginara enquanto enfiava a roupagem

do lobo mau, fez-me detestar as cócegas que os filmes

de polícias e ladrões me presentearam.

Na ginástica, ninguém saltava mais alto que eu, dizia catapultando

o corpo por cima dos automóveis engarrafados.

Deu-se-me uma branca e o queijo que roía, distraído, não

me sabia a nada.

Olá!, atirou-me o anúncio da pepsodent. Gosto

 de gajas e a mulher do sorriso branco desafia-me

os instintos que adquiri na selva. Foram baratos

e, por isso, voavam sobre rios e precipícios. Às vezes

era preciso ser campeão de espeleologia para aceitar os convites

da vizinha antes do anoitecer. Mal transpunha a porta

via a loira pepsodent e esquecia-me da vizinha boazona

que me outorgara o convite. Começada a brincadeira

 com a outorgante; que não tinha olhos azuis, nem cabelos loiros,

nem sorriso uniformizado; ficávamos tão felizes que os corpos nus

pareciam saídos de um documentário sobre lontras no pacífico sul,

ou de uma telenovela mexicana em tempos de crise.

Grandes tempos aqueles! O que dava pena era ver o marido

 e o papagaio a brincar às gaiolinhas enquanto esperavam o jantar.

 

Queres ir ao circo?, perguntou-me ainda o papagaio antes

da minha saída pela escada de incêndios.

Não, obrigado, e… boa noite senhor doutor.

Pareceu-me entristado,  o cumprimentado anfitrião e vizinho

dedicado: o trabalho de doutor devia ser um bocado chato,

concluí, puxando o fecho eclair até acima.

A vizinha atarefada controlava os tachos quentes

na cozinha nublada.

 

Deu-me uma branca e nem sequer a minha identidade reconheço.

Aliás o que vira na televisão era uma mancha branca

Por entre os lábios da confusão.

 

MG 19/5/2011

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publicado às 14:49

última dissolvência

por vítor, em 14.02.11

 

 

 

 

ela sorriu transportando a paisagem

que reforça o intervalo entre o fim e o

princípio num lago de nudez abreviada

sorriu e chamou a pertença consagrada

nos limites, parceria indisponível transcrita

no lugar, dúvida importada, preconceito inicial.

 

O escuro manso dissolveu a responsabilidade

em escaramuças militantes, entendimentos da viagem

desvalorizada, última dissolvência impaciente

perdendo o consenso na distância coreográfica.

 

o sorriso da mulher que percorre o olhar

ingrato da única vitória dos abstencionistas

curiosos, maioria significando a aposta

nas flores, diz-nos da crueza do obstáculo,

da dor na noite recuperada da berma do caminho,

legitimidade do pesadelo indocumentado,

metade da dor marginal, sorriso do poder

que se eleva nas faenas do sexo consumidor

dos corpos raivosos e sectários,

discurso ressentido e parcial.

 

A atenção do outro não reflete o estado

de embriaguez vazia que conduz

a relativização da evidência, transformação do novo

interpretando a inocente figura que emana

do sorriso absoluto.

 

gere a desorientação responsável pelo ruído

da alma vestida de palhaço incompleto,

reduz o exemplo da hierofânica verdade dissoluta

no lodo evidente, sonsura dominante nas cicatrizes

do calor, da insânia sedimentada nos ritos

do calendário social que alguém parodiou

no equilíbrio sem paixão dos convertidos, explicação

corrosiva no pó que se eleva nos atalhos

petrificados da memória.

 

ela sabe como podar as ideias

que se desprendem do oculto sabor a derrota,

mutilar o chão onde navegamos à vista

e contendemos com os ossos que se erguem do tempo.

 

ela é um implante na paralisia do medo,

na arte de inventar placebos, paixão

na imensidão do caos.

 

sorri e não colhe. As manadas assentam

os cascos na  viscosa película dos afectos.

 

MG 25/1/11

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publicado às 10:41

o sorriso da chuva

por vítor, em 23.11.10

 

Dizes sempre alguma coisa antes de contemplarmos o sorriso

da chuva a lamber a vidraça. O cabelo envolve

as palavras frias das pessoas sem ritmo musical

continuando a viajar na lucidez das ausências nunca anunciadas.

 

Dizes o que não traz nome, chave postiça que viola a explicação

simples na revelação da leitura impune, quando

interiorizas o eterno guião da mudança.

 

A tua responsabilidade no crescer do esquecimento

assume-se como rejeição do tempo intransponível. Somos

aquilo que o olhar procura, aquilo que desaparece na mecânica

do desejo acomodado.

 

Rejeitas o que dizes antes de o dizer, exiges a rara leitura

da distância, o sopro do discurso que éramos na

ocasional confusão dos corpos enlutados.

 

Nenhuma agressividade se liberta do que dizes

na acomodação do desejo, na rigidez dos significados

das palavras murmuradas que nos explicam a legitimidade

da  insensível brusquidão da loucura.

 

Podemos dizer, sem exprimir a acomodação dos sentidos,

a irrecusável notícia do mensageiro apocalíptico que nos

surpreende  enquanto paradoxo reunido à mesa

dos  esqueletos brumosos da comunidade.

 

O sorriso da chuva é uma ameaça à necessidade

exasperante dos sinais exteriores de melancolia.

Dizes e não ouves.

 

(Monte Gordo – 23/11/10)

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publicado às 19:12


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