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       Zé Valongo era natural de Vila Nova de Cacela e residiu na sua zona ocidental, próximo de Santa Rita, entre os fins do século XIX e meados do século XX.

   Dedicava-se à agricultura, cozia fornos de cal e fazia pequenos negócios. A sua actividade agrícola era reduzida, pois só possuía uma pequena propriedade. Em Outubro semeava trigo, favas e griséus e em Fevereiro semeava milho, feijão, grão de bico e melões e plantava batatas e tomateiras. Tudo para consumo próprio e para os animais que possuía. Tinha habitualmente uma vaca e a sua cria, um porco, uma mula e uma cabra.

   Para a sua actividade industrial, de cozer cal, enchia a caldeira do seu forno de lenha e depois enformava devidamente as pedras de calcário a partir da base circular do mesmo, em volta da caldeira, e fazia uma “parede” que ia alargando e terminava em abóboda. Depois dava fogo ao forno e, uma vez consumida a lenha da caldeira, ia alimentando a combustão com mais lenha previamente reunida, em quantidade suficiente, para manter o fogo sem interrupção umas 36 horas. Como não aguentava tantas horas de trabalho seguidas arranjava um colaborador para o ajudar.

   Este trabalho era infernal principalmente no Verão em que além do calor da estação, tinha de suportar a alta temperatura que vinha da porta do forno.

   Uns dias depois de terminada a cozedura, a temperatura do forno já dava acesso e começava a retirar a cal para vender. Esta operação era conhecida como “dar cal”.

    Produzia uma parcela maior de cal preta, que nesses tempos era muito utilizada na construção de paredes e seus rebocos. A cal branca servia para estuques e para caiar. A cal branca que não vendia à porta do forno, carregava-a na sua carroça de tracção animal e ia vendê-la nas localidades próximas, apregoando “cal branca”, e ia dizendo que a cal era de Santa Rita, pois esta tinha fama de ser mais branca que todas as outras.

   Na área dos negócios actuava no sector das lenhas, que comprava na mata de Santa Rita e vendia nas padarias de Cacela e Vila Real de Santo António, e nas fábricas de conserva desta cidade, onde era utilizada para cozer o peixe.

   Também comprava e vendia favas, nesse tempo muito utilizadas nas rações de mulas, burros e cavalos, e milho, este muito utilizado na alimentação humana e de animais.

   Nos dias que ia vender produtos a Vila Real abalava de casa de madrugada, pois a viagem de carroça com carga era demorada.

   Depois de entregar a carga, ia pôr a carroça na estalagem do Hortinha e dava ração à mula. Depois dava uma volta pela vila, ia beber café nas Caves do Guadiana, passava pelo mercado para fazer algumas compras e dirigia-se à Casa Capa para comprar artigos de mercearia.

   Foi ali que ao ver o preço a que vendiam o milho, comentou que o mesmo estava muito caro. Um dos muitos clientes da casa confirmou a justeza do seu comentário e disse-lhe que nos arredores de Lisboa, havia um lavrador a quem ele comprava o milho muito barato. A conversa continuou e daí a pouco estavam ambos à mesa duma taberna a beber uns copos de vinho e a falar sobre negócios. O Valongo ficou muito admirado quando o seu interlocutor o informou do preço a que comprava o milho e mostrou-se interessado na compra de uma boa partida.

   O outro disse-lhe que tinha um camião e que por vezes vinha de Lisboa carregar conservas de peixe a Vila Real, pelo que podia trazer-lhe o milho, cobrando um frete insignificante, mas tinha que ir a Lisboa para fazer o negócio. Na viagem de regresso podia apanhar boleia consigo no camião. Acrescentou que daí a uns oito dias vinha novamente carregar conservas. De seguida combinaram o dia e a hora dum encontro na estação do caminho de ferro do Rossio.

   Valongo não dispunha de muito dinheiro e teve que vender uma vitela, para poder comprar o milho.

   Nas vésperas do dia combinado embarcou no comboio correio, que chegava a Lisboa no dia seguinte de manhã.

   Ele conhecia histórias de carteiristas e de outros amigos do alheio que actuavam em Lisboa e, para evitar ser roubado, colocou a carteira com o dinheiro para a compra do milho dentro das ceroulas, próximo do tornozelo, e atou bem os seus nastros. Para algumas despesas extra levou algum dinheiro no bolso do casaco.

   Chegado à estação do Terreiro do Paço dirigiu-se para a estação do Rossio. No percurso encontrou um conterrâneo, seu conhecido, que lhe perguntou o que fazia em Lisboa, ao qual respondeu laconicamente, “o segredo é a alma do negócio”.

   Chegado à estação do Rossio, ali encontrou o seu “amigo camionista”, que lhe disse que o “lavrador” do milho chegava ali no próximo comboio. Após a chegada do “lavrador”, o “camionista” negociou com ele a compra de uma porção de milho, que pagou a pronto, tendo recebido um vale para apresentar ao empregado que o iria levantar e depois fazer a sua entrega numa propriedade dos arredores. Em seguida apresentou o “amigo” que tinha vindo do Algarve para comprar milho. O “lavrador” mostrou-se aborrecido dizendo que já tinha pouco milho. Mas depois, de alguma insistência do “camionista” que lhe fez ver a maçada da viagem e a sua própria culpa na lastimosa situação, lá lhe dispensou o milho pretendido para ele não fazer a viagem em vão.

   O Valongo para fazer o pagamento arregaçou as calças e desatou os atilhos das ceroulas para tirar a carteira, e assim, perante os sorrisos maliciosos dos dois vigaristas, entregou ingenuamente o dinheiro que tinha em bom recato.

  O vendedor despediu-se amavelmente de ambos e foi à sua vida.

  O “ camionista”, entregando o vale de levantamento ao algarvio, disse que tinha de ir à casa de banho e afastou-se.

   Como não mais apareceu o Valongo entrou em pânico e apresentou queixa na polícia, a qual concluiu que ele, mesmo sendo prevenido, tinha sido burlado.

   As autoridades nada conseguiram apurar e o nosso homem, com algum dinheiro que tinha no bolso do casaco, comprou o bilhete de regresso ao Algarve.

   Aqui chegou derrotado, triste e descrente do velho ditado que diz “homem prevenido vale por dois”.

 

 em, Memórias Escritas, de Fernando Gil Cardeira

 

 

( texto publicado no Jornal do Algarve em 2 de Outubro de 1997)

 

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publicado às 22:57

A CURA DE SANTA RITA

por vítor, em 23.10.08

Tinha, há alguns tempos atrás, prometido ir publicando a estórias escritas pelo meu pai, Fernando Gil Cardeira, e recolhidas no livro "Memórias Escritas". Comecei com a "História Breve do Cinema de Cacela" e, se não me engano, "Um Casaco de Peles que não Chegou a Sê-lo" Como não encontrei a diskete onde tinha reunido estas estórias, escrevi-as a partir do livro. No entanto, por falta de tempo e porque não queria estragar o livro a scaneá-lo, nunca mais tinha postado nada. Hoje encontrei a dita diskete e recomeço a postar as estórias que considero muito importantes para compreender um tempo que já lá vai mas que é essencial para interpretar  o hoje, das zonas do sotavento algarvio compreendidas entre Tavira e Vila Real de Santo António e a sua evolução nos últimos 50 anos.

O livro "Memórias Escritas" esgotou rapidamente após a sua publicação e, portanto, só pode ser lido, em exclusivo aqui no "quinta".

 

  

Santa Rita é uma pequena povoação situada na parte Oeste da freguesia de Cacela, concelho de Vila Real de Santo António.

   Desde data imemorável que ali se realiza a cura de Santa Rita. No seu início devia ser feita por uma só mulher que a idealizou e pôs em prática, com o decorrer dos anos essa mulher deve ter transmitido o seu saber a uma ou mais das suas filhas, pois as curas eram sempre feitas por mulheres e sempre da mesma família, que transmitiam de geração em geração o segredo das suas praxes. Contudo só algumas descendentes femininas faziam curas.

   Em Santa Rita nunca houve mais de três curandeiras ao mesmo tempo, mesmo havendo mais do que três descendentes mulheres.

   As curandeiras guardavam religiosamente o segredo da sua arte, mas sabia-se que para preparar o remédio elas utilizavam sal moído e outras substâncias sólidas, também moídas, e um líquido feito com a infusão de erva de Santa Maria. Esta erva é expontânea e abundante nesta região.

   O preparado era exposto durante algumas noites ao luar de um determinado mês.

   Faziam-se duas curas por ano, a primeira era feita na primeira Lua cheia de Maio e a segunda na primeira Lua de Junho. Porque as fases da Lua não coincidem com o início ou o fim de mês, por vezes só era considerada pelas curandeiras, como a primeira Lua cheia de Maio a primeira Lua cheia de Junho e então só nessa altura se fazia a primeira cura, sendo a Segunda em Julho.

   Em cada cura eram aplicadas três doses do remédio, uma dose um dia antes de ser Lua cheia, outra no dia de Lua cheia e outra no dia seguinte.

   Para fazer a cura a curandeira esperava sentada pelos pacientes, estes também se sentavam e deitavam a cabeça com o lado direito para cima, numa almofada que aquela tinha sobre os joelhos. A curandeira então com uma espátula, aplicava-lhe dentro do ouvido uma porção do remédio em pó. Em seguida com uma almotolia especial, deitava também dentro do ouvido algumas gotas da infusão herbanácea, colocando em seguida um pequeno tampão de algodão no ouvido. Depois a operação era repetida no ouvido esquerdo. Os pacientes então amarravam um lenço ou um bocado de pano a tapar os ouvidos, para que o remédio fizesse melhor efeito.

   O pagamento era feito após as três aplicações e não havia um preço estipulado para o efeito. As curandeiras recebiam o que as pessoas queriam dar e estas já sabiam por tradição ou conversas o que era costume pagar, pelo que não havia conflitos.

   Durante os dias de cura afluíam a Santa Rita muitas pessoas para esse fim vindas dos diversos pontos do Algarve, que utilizavam na sua deslocação comboio, autocarros, automóveis, bicicletas, carroças e bestas. Os que moravam longe aguardavam no local até completar a cura e dormiam nas carroças que os transportavam, ao relento ou alugavam quartos para dormir aos residentes locais.

   Era tão grande a afluência de pacientes, que as curandeiras tinham de arranjar uma ou duas colaboradoras para ajudar e mesmo assim, chegavam a fazer curas até próximo da meia-noite.

   Muitas pessoas acreditavam que as curas lhes faziam bem a diversas doenças que tinham. Entre as doenças tidas como mais susceptíveis de cura com aquele tratamento destacava-se a escrofulose ( uma espécie de tuberculose infantil). Contudo as pessoas residentes em Santa Rita e num raio de uns cinco quilómetros raramente se curavam.

   Uma descendente da família das detentoras do segredo foi residir para Faro e também aí fazia a cura, mas não teve êxito porque o povo só tinha como genuína a cura de Santa Rita.

   Nos dias da cura vivia-se em Santa Rita num ambiente misto de feira e festa. Havia bailes de tarde e à noite e também se instalavam barracas de quinquilharias, utilidades domésticas, doces, etc. Também havia sempre três ou quatro botequins onde mulheres, com uma pequena mesa e quatro cadeiras, vendiam suspiros, biscoitos e copos de aguardente de figo a troco de pouco dinheiro. Tudo isto atraía ali muita gente, dos mais diversos lugares, que não ia às curas.

   Nos últimos anos só uma senhora, de avançada idade, pratica a cura, e a pouco mais de uma dúzia de clientes fiéis, que acredita que só aquele tratamento contribui para aliviar os seu males.

 

em, Memórias Escritas, de Fernando Gil Cardeira

 
 

(artigo enviado para o Jornal do Algarve a 16 de Janeiro de 1997)

 

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publicado às 16:47


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