Os meus pés são de seda e cetim. Não sou tão novo quanto
Os dias de antanho e os meus sonhos soçobraram perante o grito
Das saudades dos que caminham sob a chuva sem casaco.
Sou feliz quando acordo com os pés negros de caminhar
Sobre as cinzas incandescentes, as brasas mornas do tempo por
Parir. Os meus sonhos, sabe-lo bem, são como pedras semeadas
No chão pisado dos caminhos perdidos onde se esperam os
Caprichos vagos da podridão perdida. Nunca os nossos passos se fizeram
Sentir sobre os teus ombros, nos sótãos da consciência vazia. Nunca
Os meus pés caminharam sobre o inferno que te assombra os desejos.
A solidão só apascenta as almas ao emergir do crepúsculo. As ervas daninhas são o seu
Sustento e a sua alegria contida. Nem só de paz vivem os que da luta fazem caminho. Só da
Inação acrescentam ao que não bebe do suor da lavra indelével e crua. Dos lentos
Envolvimentos da luz saem linhas de sombra encobrindo as quimeras do enlameado
Canto das sereias. Apaga-se a claridade dos anjos. Dos apetecíveis manjares do reino
Das cruzes justificando o mal que nos refreia a cruel ilusão da morte. Agora que
Os lamentos de deus se infiltram nos interstícios da penumbra e se instalam
No rude restolhar das fogueiras, que as virgens assomaram às portas escancaradas
Do devir, não contes comigo para caminhar sobre o fogo que as tuas mãos acenderam
No chão das tormentas vadias. Não contes com o meu pavor ao teu afago da pele: da minha pele magoada pelas tuas carícias infundadas.
O meu medo será o teu medo: as excrescências impolutas dos sentidos. O que de raro se incendeia e se ateia aos que nunca foram senão o que nunca foram.
Pássaros gigantes que transportam os mármores devolutos da sombra. Os cantos dos que
Objetam perante o amor. Teimosia breve encarando o tempo das remotas heresias. Das imensas alegrias que o outono acarreta.
Caminhas sobre o incêndio que me devora. O negro que o mar oferece sustenta
As mãos cansadas de te dizer o que a loucura asperge na lentidão das noites.
Cativa, 27.6.2024