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MI ABRIGO DE ESCRITOR

por vítor, em 10.07.18

 

Salgo de casa con un abrigo negro comprado en zara, un abrigo de escritor barato y con muchos bolsillos, y paseo por la calle silbando knockin on heaven's door de dylan. Voy a un festival literario. El abrigo negro me está largo, pero me da un aire de pedante, y así me voy deslizando por la calzada gastada de la vieja calle. Piso mierda de perro, y tan sólo yo avanzo en la oscuridad de los días sin regreso. Hotel pagado y comida en un restaurante de dudoso gusto, abrazos y besos en la pajarera circundante, selfies para siempre con camaradas del arte de las palabras y, con suerte, con alguna estrella del firmamento distante. Sonrío. ¡El abrigo me sienta tan bien! Sonrío al que pasa y el que pasa piensa que es un loco el que pasa.
- Con un abrigo de esos…

Espero el autobús 16 al final de la calle. Voy desde Venda Nova y el 16 sale de allí mismo por Puertas de Benfica. ¡Joder!No me hablen del Benfica que hasta me mareo. De fútbol no sé nada, pero sufro por esta mierda de equipo que sólo me da disgustos y arritmias. Aquí voy, feliz como una piedra lanzada al aire que cae en la cabeza de algún, que se joda mi amiga Ladislaia que no soporta que escriba de algún; quiero decir de algún niño. Mi abrigo ocupa dos asientos en el autobús: el mío y el que debía ser para la señora que va agarrada a la barra vertical del coche. La barra es de metal plata incandescente y me hace recordar, ay la puta memoria que siempre me arrastra a lugares intangibles y escurridizos, cuando fui con otros tres poetas a una casa de putas con una barra en medio del salón. Estábamos tan bebidos que hasta yo bailé en la barra. Y mire, ahora que nadie nos oye, hasta tenía garbo. Lo peor fue cuando una chica, con mucho encanto, me metió la mano en un lugar que hace que me ruborice sólo de pensarlo. Los tres poetas gozando con la escenita y yo encendiendo la casa con mis vergüenzas.

Y, joder, aquí voy en el autobús 16 con mi abrigo de escritor, que en honor a la verdad, me está un poquito largo. Me miro en un escaparate y parezco mismamente lo que soy: un idiota vestido de escritor camino de una fiesta de idiotas vestidos de escritores. Me bajo en una parada cualquiera. Knock, knock on the heaven's door. El abrigo aletea en la brisa y me lo ajusto. Como es largo deja entrar el frío que del mar se levanta.

tradução, gentilmente ofertada, de Pedro Sanz.

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publicado às 00:57

palavras pálidas

por vítor, em 08.05.18

 

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publicado às 16:49

Tão velho quanto os pássaros

por vítor, em 27.03.18

 

Tenho mil anos, nasci em 1018.
Debutava o segundo milénio e ninguém tinha morrido. Ainda.
Era março do ano 19 do século XI. Tudo o que viria a seguir seria a repetição
Do que tinha sido aquele ano. Sou velho e quero a imensidão do infinito a gerar 
Rios de esperança onde há dor e todos querem os sacrifícios para serem jovens e 
Terminarem cedo os dias da incompleta solidão. Não somos o que éramos quando
O tempo vinha de mansinho trazer finitude aos sonhos, finitude aos amigos que deixáramos
na estrada. Nunca há tempo para estar com os outros nas sombras das árvores com pássaros.
Os pássaros voam quando não estamos sós, atravessam o coração de quem é feio e não
Nasceu para ser profeta. Todos os pássaros têm visões do inferno quando sonham alto. 
Todos os amigos te relembram constantemente que as primeiras chuvas de verão são
Vermes sugando o teu sangue nas correntezas do devir. Tenho mais de mil anos
e não sofro de artrites nas mãos. Tenho mais de dez séculos e não corro atrás da passarada dos vizinhos. Na terra em que nasci, os primeiros figos eram para os pardais. Quando a criançada lá chegava não encontrava senão grainhas das vidas passadas, das vidas mais antigas que a minha, das vidas com mais de mil anos. Mais do que eu mas mais novos que eu. Tão novos que, sendo eu novo, até parecia velho. Velho de um milhão de anos. De tempos antes de cristo, antes mesmo de buda e de todos os homens que quiseram ser como eu: apenas pessoas com mil anos. Matusalém podia ter sido meu amigo se os outro não olhassem para ele como se de um velho se tratasse. E, no entanto, era ligeiramente mais novo que eu.
Quantos suspiros tem um homem que atirar na tempestade para que as suas raízes se corrompam antes de morrer? Antes mesmo de deixar os abutres enlutados caírem da escarpa do esquecimento. Tão profunda como o universo que cavalga os titãs da raiva e do desespero.
Não, amanhã não será o dia da despedida. Será, apenas, tarde. E, por isso, levantar-me-ei, como sempre, cedo.

Cativa, 7 de março de 2018, 21:46

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publicado às 17:33

um menino sábio

por vítor, em 14.12.17

Vendendo poesia nos mercados de gado, poemas gordos,
Anafados, cheirando a suor, mancha penetrando
O clamor da clientela, levantando poeira espessa
No chão que as palavras pisam.
- olha!, que animais estranhos, comentou uma criança curiosa.
- Cala-te!, cala-te! ou levas, não vês que as palavras se assustam!,
Cortou a mãe. São tão sensíveis as palavras!...
- são tão lindas as patinhas que as transportam, aventou o filho.
- Não vês que não são patinhas, são sinais do vento agreste
Roçando as proas dos navios qua as transportam, navios sem rosto
Atravessando o sangue vomitado em segredo pelas mulheres
Que cobrem as chagas escarlates, as escaras que balançam nas fezes dos animais.
Animais sem imagem, peados e prisioneiros das metáforas, caminhando pesadas,
Aspergindo as clientelas voláteis com o seu odor silencioso. Palavras
Náufragas nas peles suadas, náufragas na lama paralisante dos dias,
Nos lábios acorrentados à voz púrpura dos rebanhos.
- mas, continuou a criança já exausta, eu só vejo bichos com tabuletas ao pescoço.
Tabuletas com preços e quilos. Tantas tabuletas, mãe!
- Tabuletas, tábuas, palavras. Conceitos indissociáveis. Tudo o que resta será
Pensado outra e outra vez como o tudo que o Álvaro de Campos queimou com um cigarro,
Que o tempo lhe concedeu, o tudo que não era senão a tabuleta do gerente da Tabacaria.
Olha como as palavras se encostam umas às outras como se o amanhã fosse hoje 
E o mar fosse um só. E o infinito afinal não passasse de um sonho que o pensamento
Não faz existir. Foda-se toda a interpretação das palavras, das tessituras da linguagem
E dos malditos que a escarram nas noites de solidão. E blá e blá e blá. E outra vez, blá.
Um dia, que o futuro arrastará até nós, as minhas palavras serão tuas
O menino, sábio, tinha adormecido com o mugir das vacas.
(…)

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publicado às 14:48

um casaco negro

por vítor, em 14.12.17

Agora mesmo, no arame laminoso:

Saio de casa com um casaco negro comprado na zara,
Um casaco de escritor barato e com muitas gavetas, e entro pela rua
Assobiando knockin on heaven's door do dylan. Vou a um festival literário.
O casaco negro está-me largo, mas dá-me um ar gingão, e assim vou
Deslizando na calçada gasta da velha rua. Piso merda de cão, e sou só eu
Que avanço na escuridão dos dias sem regresso. Hotel pago e comida
Num restaurante manhoso, abraços e beijos na passarada envolvente, 
Selfies para sempre com camaradas da arte das palavras e, com sorte,
Com alguma estrela do firmamento distante. Sorrio. O casaco assenta-me tão bem!
Sorrio a quem passa e quem passa pensa que é um doido que passa.
- Com um casaco daqueles…
Espero o autocarro 16 no fim da rua. É que eu vou da Venda Nova e o 16
Começa mesmo ali pelas Portas de Benfica. Foda-se! Não me falem de Benfica que até fico embriagado. 
Da bola não percebo nada, mas sofro por esta merda de clube que só
Me dá desgostos e arritmias.
Cá vou eu no 16 feliz como uma pedra atirada ao ar que cai na cabeça
Duma, foda-se que a minha amiga Ladislaia não gosta nada que se escreva duma;
Digo, de uma criança. O meu casaco ocupa dois lugares no autocarro: o meu
E o que devia de ser da senhora que vai agarrada ao varão vertical do corredor. 
O varão é de metal prata incandescente e faz-me lembrar, ai a puta da memória 
a atirar-me sempre para lugares intangíveis e escorregadios, quando fui com mais
três poetas a uma casa de putas com um varão no meio do salão. Estávamos tão bêbedos
que até eu dancei no varão. E olhem, aqui que ninguém nos ouve, que até tinha jeito .
O pior foi quando uma menina, bem engraçada, por sinal, me meteu a mão num lugar
Que me faz corar só de pensar onde. Os três poetas a gozar o pratinho e eu alumiando a casa 
Com as minhas vergonhas. Mas, foda-se, cá vou eu no autocarro 16 com o meu casaco
De escritor que, diga-se em abono da verdade, me fica um bocadito largo...
Miro-me no vidro da viatura e pareço mesmo quem sou: um palerma vestido de escritor
A caminho de uma festa de palermas vestidos de escritores.
Saio numa paragem qualquer. Knock, knock on the heaven`s door. O casaco esvoaça na brisa
E aperto-o. Como é largo deixa entrar na mesma o frio da maresia que se alevanta.

Cativa 23/11/2017

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publicado às 14:45

uma camisola ensanguentada

por vítor, em 14.12.17

ceci n'est pas un poème

Da janela escorria uma camisola ensanguentada.
Pingava na terra encharcando o vazio
Que se assomava por detrás das casas.
Três facadas na carne rasgando
Os tecidos nauseabundos, expulsando
O sangue em golfadas efervescentes.
A minha mãe já não mora aqui e o sangue,
Que também é o dela, cai no pântano
Morno cobrindo o chão da cozinha.
A camisola envenenando as ervas daninhas,
Alimentando os vermes que me consomem o corpo.
Agarrem-no!, ecoou como lâmina zurzindo
O ar brutal do bairro sórdido, não há crime
Sem castigo!, berrou o homem sem significado
Que assistia a tudo.
Nunca um crime foi sentido por mim
Nas fronteiras da solidão, respondi eu
Cobrindo a retaguarda.
Ratazanas sem compromissos escapuliram-se
Nas sarjetas iluminadas pelo odor dos enjeitados.
O vizinho do 2º dtº deu a primeira facada.
As outras que me rasgaram a pele e trincharam os ossos
Foram, no calor da refrega, atribuídas a incertos.
Conhecidos mas não identificados nas complexas
Poeiras que ensandeciam a tarde. A camisola
Aspergindo o espetro rastejante da pobreza,
Nunca ninguém fugiu de si próprio deixando
Um rasto de informação apelando
Aos caçadores de infinitos
O odor que os levará ao covil da presa,
Ao definhar do ritual do fogo e do sangue
Que rege o ordálio crepitando nas mentes
Experimentadas no silêncio, na viagem
Interrompida por deus.
A multidão rumina dissolvendo as persianas
Ululantes das personalidades elementares.
O crime percorre as ruas por entre
Conceitos duvidosos e ideias lancinantes
Abandonadas pelos que temem os estrangeiros
Nascidos entre os nossos. A matéria
Que compõe os heróis regurgita no princípio
Da noite, cadinho onde se fundem as ilusões
E o crime assume a vertigem da virtude
Incontestável e una.
O sangue que brotoeja das feridas escancaradas
Sacraliza as ruas por onde prossigo procurando
A caverna dos prodígios labirínticos, a degeneração
Do corpo que reproduz o regresso ao fim.

Duma janela apontando a noite pinga
Uma camisola ensanguentada.

Vrsa 13/11/12

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publicado às 14:43

Palermices à beira duma pneumonia...

por vítor, em 04.04.16

 

Poema "Ossos", nunca publicado em livro, lido, barbaramente, pelo autor, Vítor Gil Cardeira (aproveitando a voz de gripe).

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publicado às 23:42

anos sessenta...

por vítor, em 22.03.16

Porque ontem foi o dia da poesia:

vítor poesia pela paz.jpg

 

Estilhaços

Depois dos românticos, a melancolia é a alma da poesia...
No princípio, era o desejo. Só o desejo.
Na terra dos antepassados que nos pré-existem e que nos sucederão, onde o princípio e o fim, o nascimento e a morte, fecham o ciclo da cultura, apresentaremos o brutal teatro que nos envolve a vida.
A peregrinação é um processo de envolvimento no vazio.
Não acreditem. Foi só uma mudança de pele. Agora, a nossa própria pele.
Quanto mais te aproximas de ti maior é a revolução que se estende para lá de ti.
Antes do recolhimento, o fogo...

A amizade engrandece...
Strange days: já se comem nêsperas em Fevereiro e as gaivotas pairam há um mês nos ares da quinta.
Trabalhar para nada, a mais bela das ocupações...
cada um sofreu à sua maneira, da mesma maneira.
A felicidade é o que temos antes de termos,
Ainda agora os pássaros me seguiam atrás do trator, debicando minhocas e outros entes que habitam nas entranhas da terra...
Quando algo acontece mesmo no fim, então a felicidade dura mais tempo...

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publicado às 00:22

última dissolvência

por vítor, em 22.11.15

 

ela sorriu transportando a paisagem
que reforça o intervalo entre o fim e o
princípio num lago de nudez abreviada,
sorriu e chamou a pertença consagrada
nos limites, parceria indisponível transcrita
no lugar, dúvida importada, preconceito inicial.

O escuro manso dissolveu a responsabilidade
em escaramuças militantes, entendimentos da viagem
desvalorizada, última dissolvência impaciente
perdendo o consenso na distância coreográfica

do sorriso da mulher que percorre o olhar
ingrato da única vitória dos abstencionistas
curiosos, maioria significando a aposta
nas flores, diz-nos da crueza do obstáculo,
da dor na noite recuperada da berma do caminho,
legitimidade do pesadelo indocumentado,
metade da dor marginal, sorriso do poder
que se eleva nas faenas do sexo consumidor
dos corpos raivosos e sectários,
discurso ressentido e parcial

da atenção do outro que não reflete o estado
de embriaguez vazia que conduz
a relativização da evidência, transformação do novo
interpretando a inocente figura que emana
do sorriso absoluto

e gere a desorientação responsável pelo ruído
da alma vestida de palhaço incompleto,
reduz o exemplo da hierofânica verdade dissoluta
no lodo evidente, sonsura dominante nas cicatrizes
do calor, da insânia sedimentada nos ritos
do calendário social que alguém parodiou
no equilíbrio sem paixão dos convertidos, explicação
corrosiva no pó que se eleva nos atalhos
petrificados da memória.

ela sabe como podar as ideias
que se desprendem do oculto sabor a derrota,
mutilar o chão onde navegamos à vista
e contendemos com os ossos que se erguem do tempo.

ela é um implante na paralisia do medo,
na arte de inventar placebos, paixão
na imensidão do caos.

sorri e não colhe. As manadas assentam
os cascos na viscosa película dos afectos.

20140826_195658.jpg

 

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publicado às 23:10

o canto suave das aves negras

por vítor, em 24.06.15

Fotografia1623.jpg

 

queria acompanhar os melros ao cair da tarde,
sentar-me nos torrões vermelhos do poente e respirar
o canto suave das aves negras. seguir os passos de veludo
da minha gata aproximando-se por entre as hastes de funcho
penduradas nos caminhos que levam às penugens negras da noite. os grilos preparam-se para invadir o ar húmido e quente
das laranjeiras acabadas de regar. não há melhor hora nos dias
que teimam em não passar do que as do lusco-fusco das tardes
que tombam nas noites mornas de verão, arrastando na sombra espessa os figos lampos inchando o sexo que ressuscita no céu
ardente na serra a noroeste. Os últimos suspiros da luz surpreendem a longa jornada convidando à reflexão os amantes inquietos. Os amantes que se movimentam nas levadas frescas bordejando os caminhos onde as pedras soltas conduzem os passos dos corpos ao silêncio que soçobra em galopes de cavalos inúteis celebrando o solstício.
Regresso aos melros de antanho e converto-me ao silêncio que reverbera no fim da tarde calmosa que nos abandona.


Cativa 22/6/15

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publicado às 21:45


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