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Cão, Calceteiro de Letras 2025

por vítor, em 15.12.25

O nosso amigo Rogério Cão, um algarvio de Vila Nova de Famalicão, é o Prémio Calceteiros de Letras 2025. Este Prémio, uma espécie de óscar algarvio, foi-lhe atribuído pela sua carreira de actor, poeta, diseur, divulgador cultural e, digo eu, pela excelência enquanto ser humano, foi, e é, mais do que merecido. Viva o Rogério Cão!

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publicado às 14:04


Entre ... e ... também corre um deserto de pedras.



Uma borboleta pousou numa nespereira morta.

Uma abelha morta no meio do cus-cus.

Nunca digas que os santos não mordem e que as divas em vias de extinção não atiçam fogo no coração dos galãs postiços. Pastor de criaturas sedentas numa terra sem ervas. Segue os rios secos do deserto e desafia para a caminhada as mulheres que se cobrem de raiva e medo e se acocoram nas bermas do destino. Contempla as árvores de argan e rejeita os apelos das torres altas da medina. Recolhe os excrementos das cabras que povoam as árvores, visita a cooperativa das mulheres que fabricam os unguentos e besunta o teu corpo do óleo sagrado de argan. Procura o caminho do mar. Sempre o caminho do mar, e, quando o encontrares, lava-te nele de todos os desejos insanos. Insanos e belos. E antigos como os pomares esquálidos de argan.



Quando abandonares as areias de sangue da praia de Mogador, e as ilhas de púrpura, onde colherás o molusco roxo que trouxe as barcas, serás outro. Outro mais antigo do que o que aqui restará.

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publicado às 13:59

agropoesia

por vítor, em 15.12.25
O tempo não abranda, e as estações do ano impõem o seu ritmo repetitivo, circular, inadiável. Alguém tem que o fazer, e cá ando eu a filosofar pelo pomar de sequeiro, pelas mais doces sombras das sombras: as das alfarrobeiras. Vizinhos dizem-me que nem vale a pena. Estão a 5 euros a arroba. Mas eu sou como elas, um produto do tempo que vale o que vale, quando vale.

O meu editor telefona-me e manda-me meiles. Os versos são tão compridos, como os vamos espalhar pelas folhas? Vou a casa, abro o texto e envio propostas. Aproveito e vejo o João Almeida a atrasar-se na Vuelta.

Volto. Volto sempre. Voltarei sempre.

PS - Por aqui perto está a sepultura do nosso cão Matrix, que cavei docemente. Guarda a Quinta quando se chega.

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publicado às 13:40

Os rios dos laranjais

por vítor, em 15.12.25

Sou eu quem conduz os rios pelo laranjal.



As águas seguem o que a enxada rasgou

Pelos torrões de barro, até às caldeiras

Que ocupam as sombras das árvores. No meio, o mastro de uma nave de frutos luminosos clamando pelos transeuntes.

Na terra sequiosa, as raízes absorvem os nutrientes

Da água que chega, das fissuras da terra que se encharca saem insetos apressados e toupeiras entontecidas pela luz que viola os seus olhos cegos. É um banquete farto para as galinhas da vizinha

Que seguem o mergulhar das águas. Por

Pura maldade, matam as toupeiras que abandonam destroçadas na charca que se esvazia. Fecha-se uma porta e abre-se

Uma outra repetindo o ritual da função que o passado tranporta. O calor instala-se por entre as árvores resvalando do barrocal sem fim. Acendo um cigarro e espero que uma nova árvore se alimente das águas subterrâneas que a enxada lhe oferece. Os pintassilgos cantam anunciando a maturidade dos dias e a plenitude das vidas.

O tempo estaciona em frente das poupas que escavam os caminhos e dos noitibós que dormem nas folhas que forram o chão.

Vindos da casa branca de cal que se ergue do meio do pomar

De laranjeiras vêm chegando risos de crianças.

Trazem os barcos para navegar nos caudalosos rios, e aportar nas mansas e frescas lagoas, nas sombras das laranjeiras.

Perante o espanto receoso das galinhas e o transbordante amor de quem manobra a enxada.

(agora mesmo, sem rede, na Casa Inglesa, em Portimão)

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publicado às 13:34

Teresa Rita Lopes

por vítor, em 15.12.25








A nossa querida amiga Teresa Rita Lopes morreu. A mulher que mergulhou no bau de Pessoa e o trouxe à luz do dia, para todos nós, uma das mais extraordinárias estudiosas do poeta maior, uma algarvia emergindo do meio da cal, das alfarrobeiras e das figueiras, uma poetisa singular, uma mulher que gostava de viver, de viver com os outros, uma antifascista que teve que deixar o nosso país para o exílio, uma feminista militante, enfim: uma mulher que viveu uma vida única e dedicada aos outros, e distribuiu amizade, solidariedade e amor pelos caminhos que percorreu.

Na última vez que estivémos juntos, antes da doença que a prendeu em sim mesma, num jantar da Casa Álvaro de Campos, tendo ficado lado a lado, contámos histórias, rimos e brindámos com tinto pela noite fora. A Professora era uma contadora de histórias fabulosa. Falava das grandes vedetas da arte em Portugal como falava dos camponeses de Cacela ou de Alcoutim. Sobretudo dos pés-de-barro dos colunáveis da cultura.

Estaremos, para sempre, à volta da eira nas sombras densas das alfarrobeiras.



Rumo ao Sul



Bichos somos de um certo chão

o único

em que nossos passos encontram seu verdadeiro

sítio e som e ritmo

e nossos sentidos desabrocham

suas mais íntimas pétalas.

Sou daqui. Só aqui pertenço

aos três reinos da Natureza simultaneamente. Sei que

fomos originariamente pó de estrelas

mas só as estrelas algarvias me reconhecem :

piscam-me o olho e pestanejam com fulgor.

Sou filha do casamento da terra com o mar.

Meus olhos não sabem viver sem uma paisagem de água

e meu corpo precisa de assentar neste chão

de aqui vir

ritualmente acertar-se com esse sopro interior a que

chamamos alma.

No exílio reinventei com palavras

todos os sítios em que nasci e cresci

e agora são mais meus

porque assim os dei de novo à luz.

Meus deuses são morenos

como a terra e têm olhos de mar

como eu.

Um dia encontrei um na praia todo nu com um camaleão

no ombro e fugi.

Às vezes são venerados como santos

nas igrejas:

vestem-lhes a esplendorosa nudez

e dão-lhes nomes cristãos e tarefas a cumprir:

a de curar os olhos

ou os ossos ou a garganta

e há também um que protege

os animais.

Têm à volta bonecos de cera com a forma das partes

do corpo ou dos bichos que curaram.

Mas nas noites

de lua cheia fogem do bafio dos altares para o ar livre

e alegremente convivem com os deuses não domesticados

que continuam a viver à solta como bichos vadios

e juntos

cortejam as mouras encantadas que se evadem de suas cisternas

e ficam com eles a namorar

até de madrugada.



Teresa Rita Lopes

(Faro)
















 







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publicado às 13:01

Um mar de vidro

por vítor, em 15.12.25

Ora, chegando ali sem dificuldades



Não encontrei o meu irmão pássaro que por ali deveria estar.

E descemos pelo caminho das piteiras-da-índia

Para junto dos homens e eles disseram: o pássaro

Morreu, ide em Paz. Porque te contemplas

Como se a culpa fosse tua?

Ninguém é livre para decidir o que contempla, respondi.

Para estes homens, espreitando das açoteias de barro,

Certamente, o perfume da morte detém a morte!

Porventura nunca chegarão a louvar-se a si próprios,

Porque eu os entristeço e manifesto a fragrância

Do que não existe. Deveis consolá-lo e não esquecê-lo!

Os pássaros creem, fazei, pois, o que admiram

E amam mesmo se esta não for a lei da multidão.

Vós que estais contaminados pelo ódio entoai

Cânticos diante dos anciãos e dos animais, diante

Das suas chagas reluzentes e mortais, perante

O medo dos homens comprados como se de primícias

Se tratasse e que nas suas bocas não se encontre o engano.



Vi, então, a sua cabeça ferida de morte e pus-me sobre a areia

Da praia gritando sobre as suas cabeças chifrudas:

É blasfémia a vossa guerra. Sobre os pequenos e grandes rios,

Os pequenos e grandes servos e indigentes será aposto

Um sinal que anunciará a vinda de um mar

De vidro da cor do vinho.



Cativa, 22 de março de 2025

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publicado às 12:44

O fogo que te assombra os desejos

por vítor, em 15.12.25

Eu tenho medo de andar sobre o fogo.



Os meus pés são de seda e cetim. Não sou tão novo quanto

Os dias de antanho e os meus sonhos soçobraram perante o grito

Das saudades dos que caminham sob a chuva sem casaco.

Sou feliz quando acordo com os pés negros de caminhar

Sobre as cinzas incandescentes, as brasas mornas do tempo por

Parir. Os meus sonhos, sabe-lo bem, são como pedras semeadas

No chão pisado dos caminhos perdidos onde se esperam os

Caprichos vagos da podridão perdida. Nunca os nossos passos se fizeram

Sentir sobre os teus ombros, nos sótãos da consciência vazia. Nunca

Os meus pés caminharam sobre o inferno que te assombra os desejos.

A solidão só apascenta as almas ao emergir do crepúsculo. As ervas daninhas são o seu

Sustento e a sua alegria contida. Nem só de paz vivem os que da luta fazem caminho. Só da

Inação acrescentam ao que não bebe do suor da lavra indelével e crua. Dos lentos

Envolvimentos da luz saem linhas de sombra encobrindo as quimeras do enlameado

Canto das sereias. Apaga-se a claridade dos anjos. Dos apetecíveis manjares do reino

Das cruzes justificando o mal que nos refreia a cruel ilusão da morte. Agora que

Os lamentos de deus se infiltram nos interstícios da penumbra e se instalam

No rude restolhar das fogueiras, que as virgens assomaram às portas escancaradas

Do devir, não contes comigo para caminhar sobre o fogo que as tuas mãos acenderam

No chão das tormentas vadias. Não contes com o meu pavor ao teu afago da pele: da minha pele magoada pelas tuas carícias infundadas.

O meu medo será o teu medo: as excrescências impolutas dos sentidos. O que de raro se incendeia e se ateia aos que nunca foram senão o que nunca foram.

Pássaros gigantes que transportam os mármores devolutos da sombra. Os cantos dos que

Objetam perante o amor. Teimosia breve encarando o tempo das remotas heresias. Das imensas alegrias que o outono acarreta.

Caminhas sobre o incêndio que me devora. O negro que o mar oferece sustenta

As mãos cansadas de te dizer o que a loucura asperge na lentidão das noites.

Cativa, 27.6.2024

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publicado às 12:10

bocas

por vítor, em 01.04.25







Bocas



Eu posso, e passo a explicar...

A vida não é senão uma dança sem fim do que somos com o que fomos.

O tempo voa no nosso pensamento mas aquieta nas nossa vontades.

Nunca chegar a chegar.







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publicado às 19:11

Confortável crepúsculo

por vítor, em 11.07.23

 



Confortável crepúsculo que te introduz

Na noite velha. Gafanhotos de metal assomam-se por entre a chuva cansada

Que asperge as ostras renegadas, cidades condicionadas aos tempos rudes de antanho. O que a noite rege trará novas feitiçarias aos nossos olhos e rasgará cicatrizes de vinho nos calcanhares dos que calcam o chão consagrado. Assim renegamos o vírus que se desprende da pele e oraremos sem dor ao longo do caminho ensanguentado. Viagem ao corpo impróprio do anacoreta sem rosto, à superfície áspera da pele escamosa e queimada pelo tempo inclemente dos animais sem linguagem. Quando viramos a embarcação para Levante, os rios parecem desenhar deltas pantanosos na imaginação dos peixes. Navegamos, então, com o vento pela proa, os cabelos soltos enredados no mastro que se ergue do cavername, a vontade de enfrentar o mar imenso. A vontade de erguer os braços ao teu encontro. O cobalto que tinge as águas inquietas é um convite à nossa cumplicidade letal, a possibilidade de continuarmos juntos através das marés inúteis revela a profundidade do oceano emético do amor. Continua com as mãos rente à face das ostras vagabundas repetindo os sinais que ocorrem no final da tarde adormecida. Ninguém sabe como se chamava o silêncio ardente que flutuava na planície do aquário. Ninguém é capaz de criar uma imagem do passado quando caminha para trás: é do futuro que as rosas cobardes enleiam as pessoas inertes. É do futuro que as tempestades arrancam as memórias travestidas de verdade. A ti quero enraivecido de desejo.

Não podemos esquecer os tormentos da caminhada que iniciámos juntos: a dor de desistir conduz-nos ao vazio das horas inacabadas, da impossibilidade hiante das criaturas insanas. Nunca seremos o que nunca fomos quando se vê ao longe a intensa claridade da morte.



14.6.23

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publicado às 17:59

O cabelo de Bowie

por vítor, em 09.06.23

O cabelo cai-me pelo peito,



Bowie soa no spotify do telemóvel. Angel or devil

I don`t care. Como já acontece

anos, és tu que danças à minha volta com pentes

E tesouras enquanto cortas o meu longo cabelo.

Estamos no meio do pomar de laranjeiras, as moscas

Pousam-me no peito desnudo, chatas, o Sol torra

E eu em cuecas sentado numa cadeira branca.

Quando me penteias com as mãos abertas e me acaricias

O couro cabeludo, sinto-me a flutuar com os pássaros

Que visitam as laranjeiras. Corta, corta, corta e o cabelo cai

Até ao chão rodopiando na terra escura. Angel or devil

I don`t care, o Sol escalda! Curto? Sim que o verão é quente.

Corta, corta, corta e penteia: com o pente de osso e as mãos em pente.

As moscas pousam na pele e enxoto-as. O cabelo rebola em madeixas

Pelo corpo até ao chão. Rodopia ao vento entre as árvores cansadas.

Quando, os que dançam na tarde, consideram a obra razoável,

Retiro a toalha dos ombros e sacudo-a. Várias vezes. Sacudo o corpo.

O cabelo atinge o solo como cortina em contraluz.

Enquanto recolhes os apetrechos, apanho o cabelo do chão

E levo-o para o caixote do lixo. Uma parte de mim é lixo!

Angel or devil I don`t care.



Monte Gordo 21/6/22

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publicado às 14:18


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