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numa tarde de chuva

por vítor, em 16.11.12

pintura de Rui Dias Simão

 

Da janela escorria uma camisola ensanguentada.

Pingava na terra encharcando o vazio

Que se assomava por detrás das casas.

Três facadas na carne rasgando

Os tecidos nauseabundos, expulsando

O sangue em golfadas efervescentes.

A minha mãe já não mora aqui e o sangue,

Que também é o dela, cai no pântano

Morno cobrindo o chão da cozinha.

A camisola envenenando as ervas daninhas,

Alimentando os vermes que me consomem o corpo.

 Agarrem-no!, ecoou como lâmina zurzindo

O ar brutal do bairro sórdido, não há crime

Sem castigo!, berrou o homem sem significado

Que assistia a tudo.

Nunca um crime foi sentido por mim

Nas fronteiras da solidão, respondi eu

Cobrindo a retaguarda.

Ratazanas sem compromissos escapuliram-se

Nas sarjetas iluminadas pelo odor dos enjeitados.

O vizinho do 2º dtº deu a primeira facada.

As outras que me rasgaram a pele e trincharam os ossos

Foram, no calor da refrega, atribuídas a incertos.

Conhecidos mas não identificados nas complexas

Poeiras que ensandeciam a tarde. A camisola

Aspergindo o espetro rastejante da pobreza.

Nunca ninguém fugiu de si próprio deixando

Um rasto de informação ofecendo

Aos caçadores de infinitos

O odor que os levará ao covil da presa,

Ao definhar do ritual do fogo e do sangue

Que rege o ordálio crepitando nas mentes

Experimentadas no silêncio, na viagem

Interrompida por deus.

A multidão rumina dissolvendo as persianas

Ululantes das personalidades elementares.

O crime percorre as ruas por entre

Conceitos duvidosos e ideias lancinantes

Abandonadas pelos que temem os estrangeiros

Nascidos entre os nossos. A matéria

Que compõe os heróis regurgita no princípio

Da noite, cadinho onde se fundem as ilusões,

E o crime assume a vertigem da virtude

Incontestável e una.

O sangue que brotoeja das feridas escancaradas

Sacraliza as ruas por onde prossigo procurando

A caverna dos prodígios labirínticos, a degeneração

Do corpo que reproduz o regresso ao fim.

 

Duma janela apontando a noite pinga

Uma camisola ensanguentada.

 

Vrsa 13/11/12

 

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publicado às 16:36

Poemas do Banco de Trás

por vítor, em 19.12.09

O novo livro do poeta Rui Dias Simão já borbulha, ígneo, nas rotativas do tempo próximo. Poemas do Banco de Trás, assim se nomeará o dito (so?), sairá (saltará)  para a luz dos dias nos alvores de 2010. A editora, a de sempre. A que existe para o editar (e celebrar:) Edições Cativa.

 

Só para  vos deixar hiantes de perplexidade, aqui vai um cheirinho daquele que irá ser, seguramente, o grande acontecimento literário nacional do ano que vem.

 

COMPREI UNS SAPATOS NOVOS

 
 
                                   Não sei como nem porquê mas regresso

                                   assiduamente à derriça que me envolve

                                   o corpo, este corpo de lama, que sempre

                                   fecha as portas ao silêncio vivo.

                                   Não sei como nem porquê, entrei numa

                                   casa e trouxe uns novos sapatos novos.

 

                                   Este grito lunissolar que me apaga

                                   os olhos, resmunga nos espaços entreabertos

                                   e moribunda o caminho que adivinharia

                                   a simplicidade interior.

 

                                   Não sei ainda dizer adeus às flores mortas,

                                   aos rios apagados, às veredas cansadas,

                                   aos labirínticos dizeres das pessoas

                                   dos outros.

                                   Mas existe, existe algum lume

                                   para dizer mais do que esta página

                                   riscada pelo avançar da noite, quase

                                   rosnando para a quimera da falta

                                   dos espaços planetários

                                   de mim?
 

                                   Não sei como nem porquê mas

                                   regresso de muito em vez à sombra

                                   dos lugares que me apagam a pele.

 

                                   Onde estás tu, ó amplexo fantástico

                                   das vozes luminosas - tal qual -

                                   pois não sei como nem porquê mas

                                   já se percebe o estiolamento prematuro

                                   deste animal num fogo diurno 

                                   dos seus aparentes dias azuis.

 

                                   Comprei uns sapatos novos.

 
 Rui Dias Simão

 

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publicado às 14:45

4 águas na cidade - 69 poemas de amor

por vítor, em 20.12.08

A  4 águas editora apresentou e apresentou-se na livraria Bulhosa com o livro de Casimiro de Brito, "69  poemas de amor"

 

 

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publicado às 15:34


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