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palavras pálidas

por vítor, em 08.05.18

 

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publicado às 16:49

Tão velho quanto os pássaros

por vítor, em 27.03.18

 

Tenho mil anos, nasci em 1018.
Debutava o segundo milénio e ninguém tinha morrido. Ainda.
Era março do ano 19 do século XI. Tudo o que viria a seguir seria a repetição
Do que tinha sido aquele ano. Sou velho e quero a imensidão do infinito a gerar 
Rios de esperança onde há dor e todos querem os sacrifícios para serem jovens e 
Terminarem cedo os dias da incompleta solidão. Não somos o que éramos quando
O tempo vinha de mansinho trazer finitude aos sonhos, finitude aos amigos que deixáramos
na estrada. Nunca há tempo para estar com os outros nas sombras das árvores com pássaros.
Os pássaros voam quando não estamos sós, atravessam o coração de quem é feio e não
Nasceu para ser profeta. Todos os pássaros têm visões do inferno quando sonham alto. 
Todos os amigos te relembram constantemente que as primeiras chuvas de verão são
Vermes sugando o teu sangue nas correntezas do devir. Tenho mais de mil anos
e não sofro de artrites nas mãos. Tenho mais de dez séculos e não corro atrás da passarada dos vizinhos. Na terra em que nasci, os primeiros figos eram para os pardais. Quando a criançada lá chegava não encontrava senão grainhas das vidas passadas, das vidas mais antigas que a minha, das vidas com mais de mil anos. Mais do que eu mas mais novos que eu. Tão novos que, sendo eu novo, até parecia velho. Velho de um milhão de anos. De tempos antes de cristo, antes mesmo de buda e de todos os homens que quiseram ser como eu: apenas pessoas com mil anos. Matusalém podia ter sido meu amigo se os outro não olhassem para ele como se de um velho se tratasse. E, no entanto, era ligeiramente mais novo que eu.
Quantos suspiros tem um homem que atirar na tempestade para que as suas raízes se corrompam antes de morrer? Antes mesmo de deixar os abutres enlutados caírem da escarpa do esquecimento. Tão profunda como o universo que cavalga os titãs da raiva e do desespero.
Não, amanhã não será o dia da despedida. Será, apenas, tarde. E, por isso, levantar-me-ei, como sempre, cedo.

Cativa, 7 de março de 2018, 21:46

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publicado às 17:33

uma camisola ensanguentada

por vítor, em 14.12.17

ceci n'est pas un poème

Da janela escorria uma camisola ensanguentada.
Pingava na terra encharcando o vazio
Que se assomava por detrás das casas.
Três facadas na carne rasgando
Os tecidos nauseabundos, expulsando
O sangue em golfadas efervescentes.
A minha mãe já não mora aqui e o sangue,
Que também é o dela, cai no pântano
Morno cobrindo o chão da cozinha.
A camisola envenenando as ervas daninhas,
Alimentando os vermes que me consomem o corpo.
Agarrem-no!, ecoou como lâmina zurzindo
O ar brutal do bairro sórdido, não há crime
Sem castigo!, berrou o homem sem significado
Que assistia a tudo.
Nunca um crime foi sentido por mim
Nas fronteiras da solidão, respondi eu
Cobrindo a retaguarda.
Ratazanas sem compromissos escapuliram-se
Nas sarjetas iluminadas pelo odor dos enjeitados.
O vizinho do 2º dtº deu a primeira facada.
As outras que me rasgaram a pele e trincharam os ossos
Foram, no calor da refrega, atribuídas a incertos.
Conhecidos mas não identificados nas complexas
Poeiras que ensandeciam a tarde. A camisola
Aspergindo o espetro rastejante da pobreza,
Nunca ninguém fugiu de si próprio deixando
Um rasto de informação apelando
Aos caçadores de infinitos
O odor que os levará ao covil da presa,
Ao definhar do ritual do fogo e do sangue
Que rege o ordálio crepitando nas mentes
Experimentadas no silêncio, na viagem
Interrompida por deus.
A multidão rumina dissolvendo as persianas
Ululantes das personalidades elementares.
O crime percorre as ruas por entre
Conceitos duvidosos e ideias lancinantes
Abandonadas pelos que temem os estrangeiros
Nascidos entre os nossos. A matéria
Que compõe os heróis regurgita no princípio
Da noite, cadinho onde se fundem as ilusões
E o crime assume a vertigem da virtude
Incontestável e una.
O sangue que brotoeja das feridas escancaradas
Sacraliza as ruas por onde prossigo procurando
A caverna dos prodígios labirínticos, a degeneração
Do corpo que reproduz o regresso ao fim.

Duma janela apontando a noite pinga
Uma camisola ensanguentada.

Vrsa 13/11/12

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publicado às 14:43

nos lábios entreabertos o sangue

por vítor, em 06.06.14

 

a lâmina cinde a carne
abre como cicatriz abismo
nos lábios entreabertos o sangue
preenche a fenda profunda
afogando a dor dilacerante
os mornos momentos
da planta de pedra
que fumega na planície
inundada
conflito latejante
na exatidão dos arrepios
da noite dançando
na convulsa e febril
paz da morte.

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publicado às 15:14

os dedos impróprios

por vítor, em 10.09.13

 

 

apresentem-se as facas e os garfos, e os gargalos do vinho novo,

recomendados pelas casas de pasto antigas

 

e todos seremos nada no intervalo

das coisas - algo que se agiganta nas solenidades invulgares do esquecimento -,

nada na imensidão

 

apresentem-se os candidatos a artistas

convidados, artistas entre artistas,

todos os que se arrastam

na efemeridade dos tempos entre a vida

e a morte, a genética das volumetrias disformes

que derrama a cortina de lágrimas

incandescentes na matriz do sexo digital

 

(os últimos devem ser sempre

substituídos segundo a previsão meteorológica

atempadamente indicada para os locais a visitar

e a legislação revogada nos anos pares)

 

e todos seremos nada no intervalo das coisas

nos dedos impróprios agonizando

na imprecisão da pele lavrada,

esquecendo os porquês da contradição

dos dias caídos. quem iludir os encantadores de incautos

escavadores de vocábulos malditos

será entronizado monarca do reino das traições serenas:

primeiro entre sombras de um mundo desaparecido;

depois navegante sem mar, albatroz rasgando o vazio

 

o calendário não conduz os passos

na direção da penumbra...

 

VRSA

4/9/13

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publicado às 13:57

o negócio das esplanadas

por vítor, em 03.12.12

 

Algumas vezes os milagres acontecem

Nas esplanadas do café, não chegam a horas

Para acordar quem precisa de repousar

Das loucas filas que se estabelecem

Nos esconsos armário da felicidade.

 

Há pessoas que tomam pílulas para dormir

Quando descobrem que a vigília é um estado

Terminal que visa perpetuar as conversas ambulantes,

As serpentes que perseguem as caras que emergem das noites.

Pesadelos ambiciosos no sono inútil, cancro que se instala

Nas ideias que fumegam nas chávenas de café.

 

O café é forte e o empregado atende as velhas

Com malandrice concupiscente. Ali, só a morte

Impõe o cumprimento da vida. Se não morrêssemos,

Ninguém largaria uma conversa a meio, ninguém

Se levantaria da esplanada fria sem se despedir

Para sempre. Todos fumávamos e ríamos e troçávamos

Da inflação, não haveria subsídio de férias, nem paraísos fiscais,

Nem mesmo bancos na Suíça. As férias seriam eternas

E a sobrevivência estava assegurada pela imortalidade.

Não haveria ambivalência nos escritórios onde

Se negoceiam as dívidas soberanas e as agências

De rating não fariam poemas atirando dados.

 

Nas esplanadas continuar-se-ia a tomar café,

Talvez aguardente de medronho da serra, as velhas

Seriam mais velhas, pois a morte nunca chegaria,

E os coveiros frequentariam workshops, fazendo

up grade dos ossos que manipulavam,

E passariam a exercer carreiras de sucesso

No mundo da alta finança.

 

No crescente e rentável negócio das esplanadas,

O tráfico de influências daria lugar a happenings

De solidariedade social, performances plásticas

Sem redundância nenhuma, sorteios de ganâncias

Desprovidas de valor ou meetings de pontos de vista dejá vus.

O vil metal chegaria de mercedes-benz, e de carro funerário,

E no coche barroco do falecido d João 5º.

Falecido??!! O que é isso?, perguntariam as crianças

Post mortem. No passado as pessoas morriam,

Ausentavam-se para sempre, explicaria um transeunte

Manhoso, erguendo, respeitosamente, os olhos ao céu.

 

Há cadáveres famosos que nos enformam os desejos.

Teimam, mesmo defuntos – descansados sejam -, em alienar-nos

O pensamento, em gritar fazendo estremecer as pedras

Tumulares. Se não morrêssemos, o futuro não seria o vazio

Que tentamos escravizar, o mundo que não conseguimos

Desocultar quando avançamos na escuridão.

 

Na esplanada os pássaros depenicam partículas

Recebidas por correio eletrónico, provocam os adultos

Com peidos monumentais e sorriem às crianças

Que os escolhem para amigos desinteressados.

 

Se não morrêssemos os cientistas deixariam

De tentar explicar as coisas e tentariam interpretar o nada,

O nada e a sombra que anuncia o fim sem fim. Nem é fácil

Imaginar o poder dos mecanismos que regem os mercados,

Nem fácil colocar bombas nas instalações dos bancos de investimento.

O grito fascista que ecoou na Ibéria profunda encontra

Seguidores nos caminhos irregulares dos desvalidos.

Viva la muerte, será o regresso às origens onde o vento

Açoita a tarde.

 

Nas esplanadas voltarão a ouvir-se os lamentos

Das vozes que reverberam as parangonas dos jornais.

 

VRSA, 21/11/12

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publicado às 14:59

eu sou a sombra do vento

por vítor, em 18.04.11

Eu sou a sombra do vento,

a silhueta das almas que penetram

a caverna onde repousas os dias

sem retorno. Eu renasço

nos teus lábios quando

a  loucura se esconde no reflexo

do espelho acorrentado, renasço

para morrer em seguida no teu olhar.

Olhar que ampara a dor dos momentos

calados, inerte complexidade da rebeldia

projetada na parede turva do esquecimento.

Eu sou a morte que caminha

ao encontro dos sentimentos que se levantam

na planície instável, ao encontro

dos outros que emergem da noite

e espalham o medo na nostalgia dos incautos.

As tuas mãos afagam-me o cabelo sinuoso

e acalmam a podridão que escorre das pedras.

Só assim se compreende a inquietude das bocas

moribundas, escancaradas na exaustão

das fraturas reverberando o sexo encantatório.

Eu cubro a pele que me recebe pulsando

nas calmarias do pesadelo de sangue, espojo-me

no suor erótico das membranas latejantes

atingindo orgasmos irretletidos.

No barco em que navego ao encontro

das janelas da alma diviso o murmúrio

 dos vagabundos que se aventuram

nos campos ébrios da batalha sem fim,

imprimo os passos que lavram os planos

divergentes da memória coletiva.

Eu sou a sombra do vento e ardo

nas tuas coxas voláteis.

 

Cativa 10/4/2011

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publicado às 15:30

poemas do banco de trás, na rua

por vítor, em 20.05.10

 

Saiu hoje para a rua. Debruce-se para dentro de nós e entre para o banco de trás. Venha respirar o futuro.

 

 

quando inclino o corpo

 

 

Quando inclino o corpo para a lentidão

redonda dos teus seios, vejo atentamente

que ainda não respiro o futuro.Sabes,

o pólen cai na boca dos que abrem

o silêncio. Sobra talvez uma fuligem em

cada pulso, levanta-se um leve vento,

mas os dias animados sequer encolhem

quando enlouqueces com as tuas baças

unhas amarelas...

 

Não é assim a casa desta manhã quando

os pintassilgos folheiam os cardos, e a cama

é devagar ao lado duma fogueira desmaiada.

As cabeças estremecem um pouco no

regresso do sol das dunas, há um navio

que deambula ainda no corpo, na exígua

memória duma guitarra e outras cordas e peixes.

Sim, alguém se debruça para dentro de nós,

quer sacudir a profunda alegria de sermos

uma realidade com sonho aberto...

 

Todavia temos os castelos que inventámos

após o murmúrio dos pinheiros altos, onde

guardámos as amoras, os medronhos

secos. Bebemos agora a água que resta

doutro vinho, proclamamos a prenhe volição,

a visceral palavra, e embora com uma ramela

a descansar em qualquer labirinto disponível

somos um carrossel de emoções descobrindo

aquilo que pressagiámos durante a vária

areia. Inclinamos o corpo e vemos atentamente

que ainda não respiramos o futuro...

 

Rui Dias Simão, Maio de  2010, edições CATIVA.

 

À venda neste modesto estabelecimento pela módica quantia de 7,5 euros (+ envio).

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publicado às 23:07

o albatroz

por vítor, em 16.05.10

 

L'Albatros

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

À peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.


[Baudelaire]

 

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publicado às 20:58


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