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silicon valley

por vítor, em 15.10.18

 Em silicon valley os colaboradores de unicórnios dormem em autocaravanas à porta das startups para não perder tempo entre a casa e o trabalho, tomam pastilhas e tabletes para não gastar o tempo com refeições alienantes, trabalham, até, de fraldas para dispensar a frequência das insípidas casas de banho. Em silicon valley os teclados de computador têm triliões de espécies de vírus, bactérias e ácaros e os dedos dos criadores de sonhos e crenças para incréus rendilham figuras com os neurónios desassossegados, não passam de viajantes sem destino e sem memórias. Em silicon valley o inglês é a língua que fenece nos lábios fechados, ali se ergue, na rede que globaliza, a nova e indestrutível torre de babel, ali convergem os infelizes que inventam o novo mundo e programam o homem novo. Em silicon valley os logaritmos contagiosos rastejam nas redes sociais. O homem novo vomitado sem revolução, o homem digitalus, o homem tornado robô e desligado da natureza perversa em que o tigre devora a ensanguentada gazela. Em silicon valley os homens e as mulheres não fodem a não ser nas férias, que são raras e só quando a depressão é grande e a felicidade espreita. Masturbam-se com as mãos que se perdem nas teclas indigestas das máquinas e nos ecrãs tácteis. Em silicon valley, e no resto do vale, que é o resto do mundo, o amor foi esquecido e anda pelos abismos das noites sem néon à procura da humanidade cruel, continuando a errar e a apavorar o homem novo. Para que tudo seja perfeito e que as consciências atinjam o paraíso é preciso conquistar o sono: o capitalismo só será a vida, a vida inteira, quando a humanidade permanecer em eterna vigília. Em silicon valley os vermes, cookies divinos, governam o mundo a partir de intrusos que passeiam na tua cabeça. Não deixes acabar a noite fria.

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publicado às 17:10

Um dia grande

por vítor, em 16.08.18

 

Hoje, o dia será tão grande que ainda não nasci.
Foi hoje mesmo que Timoteo introduziu a 12.ª corda da lira
E o menino Mozart, depois de ter tocado cravo de olhos vendados para a corte aparvalhada, pediu Maria Antonieta, futura rainha
de França, em casamento (quando voltou a Paris já homem, ninguém lhe ligou peva).
Possivelmente o dia nem terminará enquanto não desceres até ao teu mundo interior,
À grande sombra da solidão dos outros. Poderá vir a ser o dia em que utilizarei
a inutilidade como meio de transporte até ti. Chegar a ti sem chegar a lado algum.
Fui lendo e interpretando a linguagem das nuvens refletidas no fundo do mar para passar o tempo que restava no dia dos dias. Sou o homem fantasma e viajo de mota
Pela estrada do pensamento pré-cartesiano, onde tudo pode existir sem existir e as personagens mais reais são as que nunca passaram de sombras ténues duma luz irreal.
Só a mota, sem mim, parece atravessar o emaranhado de vias, viadutos e túneis que M. C. Escher gravou a fogo nas minhas mãos. Sou o homem fantasma que vive nas páginas de Ovídio. Argonauta a caminho da Geórgia na procura do manto sedoso que nos há de trazer a riqueza inesgotável. O homem que previu o que aconteceria quando Einstein pusesse
a potência no C da fórmula das fórmulas: bocejou e foi dar um beijo na mulher, que sorriu como a Mona sorriu pela primeira vez a Leonardo.
O dia, como nos esquecemos tão facilmente das coisas desproporcionadas, avançou bruscamente (só por isso o percecionámos) anunciando o meu nascimento ao final da tarde. Quando nasci, já Nietzsche vivia na minha cabeça, depois de ter conhecido o cavalo de Turim e de ter adormecido na véspera do dia que nos transporta até hoje.
O chicote sibilino do cocheiro de VERDI lambeu a calote visível, the other side of the moon, do meu cérebro e fez-me navegante no dia que não tem fim.

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publicado às 16:54

a vida que me espera

por vítor, em 16.08.18

Há água, outras vezes fogo, muitas vezes fogo, na frente de um pente saltando à corda no quintal
de um parente de província. 
Uma máquina de café ampara uma faca e uma colher…
Tiro um café e a faca reage
ameaçadoramente fazendo-me a barba à escovinha.
Não sentes o odor a pintelho que sopra do 1.º andar?
Tomo o café… a sombra das cigarras
envolve o pescoço das liceais leitosas e púberes. Gostosas!
Moças sem rosto, de mamas sentadas na maldição
da poeira incandescente.
O problema não é com os sacanas, com os que saltam
de costas para os precipícios da fé, é-o com
Os que acreditam que são tão bons quanto
Os que dançam nus na tempestade, os que roçam
O vento e naufragam nas noites de sangue.
O café desaparece, frio, no quintal do meu tio-avô
E as malabáricas proezas do pente transferem-se 
Para o cabelo rebelde da maresia que emerge
Das sombras das cantoras da tarde.
De barba aparada e penteado cruel, saio para 
A vida que me espera no comboio sem fim.

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publicado às 16:52

Bairro da Lata

por vítor, em 16.08.18

 

Na leitura da cidade ensandecida,
Os carros apodreciam na palidez dos subúrbios
Enquanto, aí, as mulheres comandavam o mundo
A partir de tijolos empilhados nos dorsos
Das encostas íngremes, que ninguém quis e agora
Toda a gente quer. As mulheres abandonadas gerem
O invisível dos dias, e parecem felizes. Felizes por carregarem
Os filhos pelas lamas das ruas ensandecidas. Os homens
Dormem sobre cadáveres mornos de ontem e escaldantes
De amanhã, dormem sem sequer sonhar, até no sono,
Leve e inquieto, são escravos da tristeza. As mulheres riem
Mesmo quando choram, mesmo quando os mortos lhes vêm bater à porta
E pousar nos braços robustos. Os homens dormem. Adormeceram
Depois dos tiros que ecoaram no ricochete das paredes escalavradas
E incompletas. Adormeceram depois da incontinência verbal das armas.
Dormem no medo eterno exibindo a ignorância que os cobre
E separa do real onde habitam de costas para a luz. As mulheres
Tecem a luz, manipulam o fora e o dentro, fazem café na escura 
Podridão para servir os amantes, buracos dentro de buracos,
Pais dos filhos dos pais, mães do vazio que as enforma, máscaras saindo de túmulos prenhes de entes poliformes e frios.
Criaturas doentes escorrendo sangue dos corpos purulentos,
Desaparecendo nas valetas cegas da cidade.
(…) E as mulheres saem de casa caminhando sob a chuva,
Desejando ser putas e morrer numa página de um livro de fadas.
Na assombração dos limites do desejo.
Nas casas em construção, o sofrimento foi a primeira pedra.

Cativa
6/10/2017

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publicado às 16:50

palavras pálidas

por vítor, em 08.05.18

 

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publicado às 16:49

Tão velho quanto os pássaros

por vítor, em 27.03.18

 

Tenho mil anos, nasci em 1018.
Debutava o segundo milénio e ninguém tinha morrido. Ainda.
Era março do ano 19 do século XI. Tudo o que viria a seguir seria a repetição
Do que tinha sido aquele ano. Sou velho e quero a imensidão do infinito a gerar 
Rios de esperança onde há dor e todos querem os sacrifícios para serem jovens e 
Terminarem cedo os dias da incompleta solidão. Não somos o que éramos quando
O tempo vinha de mansinho trazer finitude aos sonhos, finitude aos amigos que deixáramos
na estrada. Nunca há tempo para estar com os outros nas sombras das árvores com pássaros.
Os pássaros voam quando não estamos sós, atravessam o coração de quem é feio e não
Nasceu para ser profeta. Todos os pássaros têm visões do inferno quando sonham alto. 
Todos os amigos te relembram constantemente que as primeiras chuvas de verão são
Vermes sugando o teu sangue nas correntezas do devir. Tenho mais de mil anos
e não sofro de artrites nas mãos. Tenho mais de dez séculos e não corro atrás da passarada dos vizinhos. Na terra em que nasci, os primeiros figos eram para os pardais. Quando a criançada lá chegava não encontrava senão grainhas das vidas passadas, das vidas mais antigas que a minha, das vidas com mais de mil anos. Mais do que eu mas mais novos que eu. Tão novos que, sendo eu novo, até parecia velho. Velho de um milhão de anos. De tempos antes de cristo, antes mesmo de buda e de todos os homens que quiseram ser como eu: apenas pessoas com mil anos. Matusalém podia ter sido meu amigo se os outro não olhassem para ele como se de um velho se tratasse. E, no entanto, era ligeiramente mais novo que eu.
Quantos suspiros tem um homem que atirar na tempestade para que as suas raízes se corrompam antes de morrer? Antes mesmo de deixar os abutres enlutados caírem da escarpa do esquecimento. Tão profunda como o universo que cavalga os titãs da raiva e do desespero.
Não, amanhã não será o dia da despedida. Será, apenas, tarde. E, por isso, levantar-me-ei, como sempre, cedo.

Cativa, 7 de março de 2018, 21:46

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publicado às 17:33

uma camisola ensanguentada

por vítor, em 14.12.17

ceci n'est pas un poème

Da janela escorria uma camisola ensanguentada.
Pingava na terra encharcando o vazio
Que se assomava por detrás das casas.
Três facadas na carne rasgando
Os tecidos nauseabundos, expulsando
O sangue em golfadas efervescentes.
A minha mãe já não mora aqui e o sangue,
Que também é o dela, cai no pântano
Morno cobrindo o chão da cozinha.
A camisola envenenando as ervas daninhas,
Alimentando os vermes que me consomem o corpo.
Agarrem-no!, ecoou como lâmina zurzindo
O ar brutal do bairro sórdido, não há crime
Sem castigo!, berrou o homem sem significado
Que assistia a tudo.
Nunca um crime foi sentido por mim
Nas fronteiras da solidão, respondi eu
Cobrindo a retaguarda.
Ratazanas sem compromissos escapuliram-se
Nas sarjetas iluminadas pelo odor dos enjeitados.
O vizinho do 2º dtº deu a primeira facada.
As outras que me rasgaram a pele e trincharam os ossos
Foram, no calor da refrega, atribuídas a incertos.
Conhecidos mas não identificados nas complexas
Poeiras que ensandeciam a tarde. A camisola
Aspergindo o espetro rastejante da pobreza,
Nunca ninguém fugiu de si próprio deixando
Um rasto de informação apelando
Aos caçadores de infinitos
O odor que os levará ao covil da presa,
Ao definhar do ritual do fogo e do sangue
Que rege o ordálio crepitando nas mentes
Experimentadas no silêncio, na viagem
Interrompida por deus.
A multidão rumina dissolvendo as persianas
Ululantes das personalidades elementares.
O crime percorre as ruas por entre
Conceitos duvidosos e ideias lancinantes
Abandonadas pelos que temem os estrangeiros
Nascidos entre os nossos. A matéria
Que compõe os heróis regurgita no princípio
Da noite, cadinho onde se fundem as ilusões
E o crime assume a vertigem da virtude
Incontestável e una.
O sangue que brotoeja das feridas escancaradas
Sacraliza as ruas por onde prossigo procurando
A caverna dos prodígios labirínticos, a degeneração
Do corpo que reproduz o regresso ao fim.

Duma janela apontando a noite pinga
Uma camisola ensanguentada.

Vrsa 13/11/12

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publicado às 14:43

nos lábios entreabertos o sangue

por vítor, em 06.06.14

 

a lâmina cinde a carne
abre como cicatriz abismo
nos lábios entreabertos o sangue
preenche a fenda profunda
afogando a dor dilacerante
os mornos momentos
da planta de pedra
que fumega na planície
inundada
conflito latejante
na exatidão dos arrepios
da noite dançando
na convulsa e febril
paz da morte.

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publicado às 15:14

os dedos impróprios

por vítor, em 10.09.13

 

 

apresentem-se as facas e os garfos, e os gargalos do vinho novo,

recomendados pelas casas de pasto antigas

 

e todos seremos nada no intervalo

das coisas - algo que se agiganta nas solenidades invulgares do esquecimento -,

nada na imensidão

 

apresentem-se os candidatos a artistas

convidados, artistas entre artistas,

todos os que se arrastam

na efemeridade dos tempos entre a vida

e a morte, a genética das volumetrias disformes

que derrama a cortina de lágrimas

incandescentes na matriz do sexo digital

 

(os últimos devem ser sempre

substituídos segundo a previsão meteorológica

atempadamente indicada para os locais a visitar

e a legislação revogada nos anos pares)

 

e todos seremos nada no intervalo das coisas

nos dedos impróprios agonizando

na imprecisão da pele lavrada,

esquecendo os porquês da contradição

dos dias caídos. quem iludir os encantadores de incautos

escavadores de vocábulos malditos

será entronizado monarca do reino das traições serenas:

primeiro entre sombras de um mundo desaparecido;

depois navegante sem mar, albatroz rasgando o vazio

 

o calendário não conduz os passos

na direção da penumbra...

 

VRSA

4/9/13

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publicado às 13:57

o negócio das esplanadas

por vítor, em 03.12.12

 

Algumas vezes os milagres acontecem

Nas esplanadas do café, não chegam a horas

Para acordar quem precisa de repousar

Das loucas filas que se estabelecem

Nos esconsos armário da felicidade.

 

Há pessoas que tomam pílulas para dormir

Quando descobrem que a vigília é um estado

Terminal que visa perpetuar as conversas ambulantes,

As serpentes que perseguem as caras que emergem das noites.

Pesadelos ambiciosos no sono inútil, cancro que se instala

Nas ideias que fumegam nas chávenas de café.

 

O café é forte e o empregado atende as velhas

Com malandrice concupiscente. Ali, só a morte

Impõe o cumprimento da vida. Se não morrêssemos,

Ninguém largaria uma conversa a meio, ninguém

Se levantaria da esplanada fria sem se despedir

Para sempre. Todos fumávamos e ríamos e troçávamos

Da inflação, não haveria subsídio de férias, nem paraísos fiscais,

Nem mesmo bancos na Suíça. As férias seriam eternas

E a sobrevivência estava assegurada pela imortalidade.

Não haveria ambivalência nos escritórios onde

Se negoceiam as dívidas soberanas e as agências

De rating não fariam poemas atirando dados.

 

Nas esplanadas continuar-se-ia a tomar café,

Talvez aguardente de medronho da serra, as velhas

Seriam mais velhas, pois a morte nunca chegaria,

E os coveiros frequentariam workshops, fazendo

up grade dos ossos que manipulavam,

E passariam a exercer carreiras de sucesso

No mundo da alta finança.

 

No crescente e rentável negócio das esplanadas,

O tráfico de influências daria lugar a happenings

De solidariedade social, performances plásticas

Sem redundância nenhuma, sorteios de ganâncias

Desprovidas de valor ou meetings de pontos de vista dejá vus.

O vil metal chegaria de mercedes-benz, e de carro funerário,

E no coche barroco do falecido d João 5º.

Falecido??!! O que é isso?, perguntariam as crianças

Post mortem. No passado as pessoas morriam,

Ausentavam-se para sempre, explicaria um transeunte

Manhoso, erguendo, respeitosamente, os olhos ao céu.

 

Há cadáveres famosos que nos enformam os desejos.

Teimam, mesmo defuntos – descansados sejam -, em alienar-nos

O pensamento, em gritar fazendo estremecer as pedras

Tumulares. Se não morrêssemos, o futuro não seria o vazio

Que tentamos escravizar, o mundo que não conseguimos

Desocultar quando avançamos na escuridão.

 

Na esplanada os pássaros depenicam partículas

Recebidas por correio eletrónico, provocam os adultos

Com peidos monumentais e sorriem às crianças

Que os escolhem para amigos desinteressados.

 

Se não morrêssemos os cientistas deixariam

De tentar explicar as coisas e tentariam interpretar o nada,

O nada e a sombra que anuncia o fim sem fim. Nem é fácil

Imaginar o poder dos mecanismos que regem os mercados,

Nem fácil colocar bombas nas instalações dos bancos de investimento.

O grito fascista que ecoou na Ibéria profunda encontra

Seguidores nos caminhos irregulares dos desvalidos.

Viva la muerte, será o regresso às origens onde o vento

Açoita a tarde.

 

Nas esplanadas voltarão a ouvir-se os lamentos

Das vozes que reverberam as parangonas dos jornais.

 

VRSA, 21/11/12

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publicado às 14:59


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