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Contos da Ria

por vítor, em 05.08.08
 
MICROFICÇÃO

pedro jubilot                                                    

‘atira-te ao mar’

contos na ria formosa

 

 

 

-Marque! Ó Marque! Alevanta-te! -gritava o avô à porta da salinha dirigindo-se para a cozinha de chávena de tófina na mão.

 -Conte na valia aquele cafézinhe chê de borras que tu me fazias-me com sopas conde ê cá endava da secada, desabafa António José.  

Ao que obtém a resposta da mulher:

-Pô era...e sejava cafeteras, fegão...e o moçe cada vez tá pior. Côme chega cêde ainda se põe a ver vides da telervisão até de manhazinha.

Mestre Toino foi de novo à porta da sala um pouco mais chateado e gritou :

 -Marque Entoine! Alevanta-te já desgraçade! Daqui a pouque tenhe o barque em seque.

 Pegando no boné saiu falando entre dentes:

  -O tê pai e a tu mãe é que tom bem lá da alemonha e ê que me charingue páqui  contigue. Vô ma é endande pá do 7 estrelas. Se na apareces lá daqui a dé menutes bem podes ir trabalhar pá zobras que cá nan te dô ma denhere denhum pó reste das féras.

 A avó liga a radio atlântico(ela gostava mais da antiga radio restauração do sr. Julinho, ali ao pé da rua de faro mas agora mudaram aquilo e só tocam músicas estrangeiras e estão sempre a falar das bichas de carros em lisboa) e locutor fala pelos cotovelos:

  -São 8 e 49 estão já 22 graus e agora o novo êxito dos Iris da Fuzeta para este verão: “Atira-te ao mar”. A avó aproveita a embalagem: -Marquinhe, vai já ter com o tê avô ca maré hoje é boa pa ganhares uma nota.

Por fim o rapaz levantou-se, meteu um ice-tea no bolso e foi comendo uma sandes de queijo preparada pela avó. Levava também, mas metida na cabeça a música com que acordara, e já se sabe o que acontece nestes casos -ela não nos larga para o dia.

Apanhou o avó à porta da taberna: - Tá no ir ó não.

Mestre Toino que já tomara 2 de 5 resmungou:

-Vê lá se te alevantas má cêde quê já tô velhe pa trabalhar pa ti… ainda ê usava fraldas e já ia ó mar.

Ao que o Marco comentou trocista:-devia ser même bué da fixe o avó de dodotes assentade a borde do savêre. E o velho deu-lhe uma carolada na orelha enquanto retorquia: 

-Se calhar pensas que do mê tempe avia cá essas mariquices.

 Lá empurraram o barco para a água e fizeram-se à Ria Formosa, que já era tarde e o calor apertava. Daí a pouco começaram a labuta.

Mas a teimosa melodia lá vinha à boca do neto:

Mó, o qué que fazes aqui».                                                                                         

O avó esclareceu-o: -Pouque barulhe qu’zolhes das amenjoas se fechem.

Mas mesmo com tanto suor entre as cavadelas fundas feitas na areia Marco não conseguia deixar de pensar na música:

Má per qué que me dexaste da mão».

Passadas umas boas 3 horas de trabalho à torreira do sol o avô decidiu dar por terminada a tarefa e de regresso ao barco continuava a canção do momento :

Dá-me um bêje da boca e chama-me trazan».

O velho pescador já nada dizia, apenas abanava a cabeça, pensando com os seus botões, enquanto se dirigiam para o bote. Quando foi ver o resultado da apanha pelo neto não se conteve em puni-lo:

-Même assim ainda apanhástes muntas amenjoas...com um côrpe desses. Tem ma é vergonha, tem.

E como se fosse uma desgarrada, agora o moço:

Tá o mar fête dum cão, nan à choque nem brebegão».

Resposta pronta de Mestre Toino:

-Já me tás a enretar com essa merda de múseca. Ainda levas ma é uma cheparlada do mê da cara.

Para piorar a situação o motor do barco não parecia responder ao apelo manual de iniciar marcha, pelo que Marco se tornou voluntário à força:

-Agarra ma é dos rémes. Do mê tempe e até do tempe do tê pai conde era môçe remávamos o dia tôde. Estes moçes dagóra parecem fêtes de caca.

Ao ver-se ofendido o rapaz usou de novo a canção:

Tens cá uma mania que até dá dó».

Mestre Toino percebera a indirecta e quando o jovem se levantou para pegar os remos, ele desviou-se  bruscamente para o mesmo lado do barco em que Marco se encontrava, e então -homem ao mar!.. ou melhor, moço ao mar.

Marco esbracejava estragado da vida enquanto na sua cabeça estalava novamente o refrão, desta vez entoado pelo avô:

Atira-te ó mar e diz que te empurrarem».

Mas dá a sensação que o Sr. António já tinha aquela fisgada, pois o motor do barco, que se afastava com a corrente, pegou logo a seguir. Marco, esse teve de nadar até à doca, que apesar de tudo não era muito longe.

À noite, depois do jantar, Mestre Toino e a mulher sentaram-se como de costume à porta de casa a falar com os vizinhos, comentado a quantidade de água gasta pelo neto, que finalmente vinha a sair, e ainda magoado com a partida do avô apenas dirigiu um:

-Boa noite avó, até amanhã!

Ela chamou-o: - Olha Marquinhe, espera aí que o tê avô tem uma coisa pa te dar.

Cinco contos para gastar no Festival do Marisco dessa noite. Marco agarrou na nota, que afinal era a paga do seu trabalho, e foi orgulhosamente rua abaixo sem agradecer ao avô.

Mestre Toino não resistiu e comentou:

-Fó mó, o chêre a prefume é má que munte. Tu é que tens uma mania que até dá dó. 

 

(Um conto do meu amigo Pedro tecido (bilros?) com uma música  dos Íris da Fuzeta, onde nos podemos deliciar com o

extraordinário falejar de Olhão)

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publicado às 00:30

Este é o meu mundo

por vítor, em 10.07.07

Ontem fui a um funeral. Quando era novo não ia a funerais. Toda a gente que morria me era distante e, mesmo os falecidos da minha aldeia, vagamente conhecidos. Lembro-me de só ter ido aos funerais dos meus avós e de um amigo colega de turma do quinto ano (quinto antigo). Aliás minto! Fui, como todos os rapazolas da aldeia, a alguns funerais de soldados mortos na Guerra Colonial. Nem os conhecíamos. Só lá aparecíamos para ver as salvas de honra (?) em memória dos, por certo pensávamos nós, heróicos lutadores e para colhermos as cápsulas que saltavam das G3, que depois utilizávamos nas nossas guerra particulares. Ainda hoje estou a ver os caixões, devidamente selados, ladeados por garbosos soldados que, metralhadoras apontadas ao ar, disparavam em honra dos

“ mártires da pátria” enquanto as cápsulas das balas(?) saltavam em todas as direcções.

 

Depois, à medida que fui envelhecendo e entrando naquela que apelidam de “meia idade”, comecei a reparar que os falecidos cada vez me eram mais próximos e  mais queridos. Comecei a “acompanhar até à última morada” alguns. Como acompanhava a minha mãe nestes pequenos cortejos, a conversa, o caminhar conjunto e a companhia, qual saliva canina de Pavlov, começou a ronronar-me docemente no cérebro. O encontro com velhos amigos que não via há muito e até umas cervejolas que bebíamos no final do ritual, também era gratificante. E cá estou eu um regular frequentador de funerais. Não tanto como o Presidente da Câmara e da Freguesia, ou como a maior parte dos  habitantes das aldeias da zona, mas não falhando um cortejo em que um amigo ou pessoa que me toque o coração, seja o “corpo”.

 

Assim foi ontem. O Francisco era um velho pescador que, não obstante a diferença de idades (20 anos) sempre tratei por tu. Desde menino que o fazia sem a menor exitação. O Francisco morreu anteontem. De cancro galopante. Felizmente, que esta ceifeira costuma alongar o sofrimento até aos píncaros da humilhação corpórea. Para ele e para todos, que eram todos, os que tinham a honra e o orgulho de o ter como amigo. Nunca casara e vivia com uma irmã também solteirona. De um humor corrosivo, quando deixava os amigos, depois de umas noites de copos, dizia que tinha que ir pois  o marido estava à espera. O marido era a irmã, está bem claro de ver. Homem do mar, com  profundas rugas cavadas na face e a cor dos homens das ondas, era muitas vezes escolhido como modelo de pintores que vagabundeavam nas margens da Ria Formosa. As suas histórias, quase sempre as mesmas, eram infindáveis. Nasceu numa casa  junto às águas e na mesma deixou de respirar. Quando, por velhice e crise das pescas, se tornou um “mestre de terra”, passava a maior parte dos seus longos dias sentado na marginal de Cabanas olhando os aspectos dos tempos: dos ventos e do mar. Adivinhava os “Levantes” e quando acalmariam as investidas irregulares do “Norte”. Adorava conversar e mesmo com o seu humor difícil, não se lhe conheciam inimigos.

 

Ontem, quando subia a íngreme ladeira que nos leva da igreja ao cemitério ( a minha mãe desta vez não aguentou toda a subida, os 40 graus à sombra não aconselhavam brincadeiras), ia ouvindo as suas histórias sobre os homens do mar, sobre os barcos, a pesca e o tempo. Cá atrás no pelotão ia revendo os homens e mulheres que comigo subiam a ladeira. Conhecia-os a todos. Talvez não me lembrasse já dos nomes de muitos. Uns que tinham andado na escola comigo, outros com quem tinha jogado à bola, com outros tinha calcorreado os bailes da vizinhança, com algumas tinha namoriscado. Dos  mais velhos tinha aprendido a ir vivendo, com as suas histórias e conselhos. Vi também que os pescadores, a maioria dos acompanhantes, já não usam as conhecidas camisas aos quadros. Será que é por ser Verão e estas serem de flanela? Reparei também, e pude compará-lo com os não pescadores, que não havia pescadores gordos. Todos secos e rugosos. O padre, velhinho e doente, também era um meu velho conhecido. Foi o primeiro a ter televisão na aldeia e onde se juntava todo o povo em ocasiões especiais tipo Festival da Canção. Foi até meu professor de História algures no tempo. Todos a evidenciar o fluir do tempo. Menos cabelo, mais curvados, mais ornamentados de óculos, menos dentes e os problemas de saúde de pobres e velhos. É sempre uma alegria ver o Rui, meu ídolo, que defendia as balizas  da terra ainda aos 40 e muitos, com o cabelo todo branco e com o aspecto de um velhinho simpático, ou, ainda no futebol, o Juanico, dos grandes defesas centrais de Tavira (com quem ainda tive a felicidade de jogar) a arrastar-se encosta acima para levar um amigo até ao fim. Ao fim do bio, não do ser. Esse resistirá enquanto os que o seguem cá andarem. O Zé Armindo, o maior armador aos pássaros do Universo, com uns óculos fundo de garrafa que não lhe permitem distinguir uma cegonha de uma lambreta. E para terminar a olhadela pelos amigos de sempre, deixem-me dizer-vos que ali vem o mestre Mário, pai do meu amigo Mário. É uma sombra do homem alegre que sempre foi. Arrastando-se com dificuldade à entrada do cemitério, faz-me vir, finalmente as lágrimas aos olhos. Quantas gargalhadas em conjunto, as pescarias, as petiscadas… A velhice é terrível e só se aproveitam a beleza dos rostos e as recordações de outrora. Era bom que me convencesse que era de outra forma porque caminho para lá. Mas não tenho ilusões este fim não é como no filmes americanos. Só nos resta o acompanhamento dos amigos. Na vida a e na morte.

 

Esta é a minha gente. Eu pertenço a este mundo onde cresci e aprendi tudo o que sei. O Francisco continua a ser um dos meus. Do nossos!

 

 

 

 

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