(... cheguei sem sentir o vento) Na rua,
enquanto esperava a tua voz,
percebi que o colapso era uma confissão
lenta de frenesim anunciado.
Os caminhos, de bermas floridas,
levam à cidade que ocupa o horizonte
pejado de aves sangrando
na placidez dos tempos.
A voz que não ecoa do alto
das montanhas sombrias
constrange a ação dos miseráveis
apelos da rua silenciosa,
da vida suspensa que arde na calçada insuportável.
Os passos desajustados calcam
presas insensíveis ruminando
milenares crenças no mistério
do labiríntico ciúme
transferência dos desejos ocultos da comédia.
(... agora já sinto a brisa) Na rua,
o silêncio impera tolhendo a dor
que asperge os incautos,
rodopiando nos corpos suspensos da cidade
que não cumpre os bizarros ditames da multidão,
a voz que se espera, confessora
da impotência crescente da paixão.
Os dias que se erguem na confusa
espera do som que aclama
a crua rebentação das águas
virão enaltecer o polivalente
rumorejar da ilusão pétrea.
Da penumbra do corpo
solta-se um aroma rosáceo
que me envolve os dedos tontos
sussurrando ventos na pele arrepiada
Quem não entende as cicatrizes do tempo
passará a fronteira do desejo
resvalando nos socalcos palpitantes
da carne em sangue rumorejando
nas inconfidências do silêncio.
As palavras não produzem os efeitos
que projecto nas consciências obliteradas
jazendo em muros
sentadas na planície incompleta
as palavras só rastejam quando a noite
bordeja os caminhos repletos de obstáculos
insaciáveis
onde a chuva de Outono se esvai por entre o sexo
que nunca percorre os meandros
da podridão aconchegante.
Agora o nunca torna-se no sonho
utópico da viagem
acorrentando as pernas dos desconhecidos
que se amam
nas grades frias do paradoxo
animalesco dos genitais.
Não posso sentir a volúpia da tua intranquilidade
prostrada nos dias sem luz
na ausência que afunda o frágil
fluir da viciante entrega
ao outro.
Não posso dizer o que não existe no mundo
das palavras frouxas e malditas
sons sem espelho onde a vida se esconde e reflecte.
do olhar vago
que rejeita a inscrição bélica
aparentemente tocada pela luz,
da incompleta voz que elabora linhas perplexas
na morna superfície dos teus sonhos
escapa-se um inútil desejo de regresso;
de regresso a um lugar estranho
onde a memória prevalece
e a existência sobrevive efémera agarrada
a jangadas de sangue
do olhar vago
sem fracturas no tédio da noite,
da expressão que esconde o sorriso das árvores
o registo das cicatrizes pelágicas
que atravessarão o futuro,
o destino que fará eclodir os desafios tentaculares
das palavras desavindas;
é o lugar de onde avistas a fortaleza que recua,
que recusa acolher-te no interior das possantes penumbras,
a fortificação desejada pelo tórax oprimido
que te torna os dias cruéis
cansados da sinuosa trajectória
em que persistes na manipulação dos pés
quando te aproximas da impossibilidade serena do fim
tempestade à distância dos olhos entre desejos
que contendem no plástico campo de batalha
onde tempo e inquietude se aliam
em brutais teatros sem personagens;
para quê estar à espera do tempo que é pedra?