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na rua

por vítor, em 01.04.25

(... cheguei sem sentir o vento) Na rua,

enquanto esperava a tua voz,

percebi que o colapso era uma confissão

lenta de frenesim anunciado.

Os caminhos, de bermas floridas,

levam à cidade que ocupa o horizonte

pejado de aves sangrando

na placidez dos tempos.

A voz que não ecoa do alto

das montanhas sombrias

constrange a ação dos miseráveis

apelos da rua silenciosa,

da vida suspensa que arde na calçada insuportável.

Os passos desajustados calcam

presas insensíveis ruminando

milenares crenças no mistério

do labiríntico ciúme

transferência dos desejos ocultos da comédia.



(... agora já sinto a brisa) Na rua,

o silêncio impera tolhendo a dor

que asperge os incautos,

rodopiando nos corpos suspensos da cidade

que não cumpre os bizarros ditames da multidão,

a voz que se espera, confessora

da impotência crescente da paixão.



Os dias que se erguem na confusa

espera do som que aclama

a crua rebentação das águas

virão enaltecer o polivalente

rumorejar da ilusão pétrea.



Da penumbra do corpo

solta-se um aroma rosáceo

que me envolve os dedos tontos

sussurrando ventos na pele arrepiada



Quem não entende as cicatrizes do tempo

passará a fronteira do desejo

resvalando nos socalcos palpitantes

da carne em sangue rumorejando

nas inconfidências do silêncio.



As palavras não produzem os efeitos

que projecto nas consciências obliteradas

jazendo em muros

sentadas na planície incompleta

as palavras só rastejam quando a noite

bordeja os caminhos repletos de obstáculos

insaciáveis

onde a chuva de Outono se esvai por entre o sexo

que nunca percorre os meandros

da podridão aconchegante.



Agora o nunca torna-se no sonho

utópico da viagem

acorrentando as pernas dos desconhecidos

que se amam

nas grades frias do paradoxo

animalesco dos genitais.



Não posso sentir a volúpia da tua intranquilidade

prostrada nos dias sem luz

na ausência que afunda o frágil

fluir da viciante entrega

ao outro.

Não posso dizer o que não existe no mundo

das palavras frouxas e malditas

sons sem espelho onde a vida se esconde e reflecte.



do olhar vago

que rejeita a inscrição bélica

aparentemente tocada pela luz,

da incompleta voz que elabora linhas perplexas

na morna superfície dos teus sonhos

escapa-se um inútil desejo de regresso;

de regresso a um lugar estranho

onde a memória prevalece

e a existência sobrevive efémera agarrada

a jangadas de sangue

do olhar vago

sem fracturas no tédio da noite,

da expressão que esconde o sorriso das árvores

o registo das cicatrizes pelágicas

que atravessarão o futuro,

o destino que fará eclodir os desafios tentaculares

das palavras desavindas;

é o lugar de onde avistas a fortaleza que recua,

que recusa acolher-te no interior das possantes penumbras,

a fortificação desejada pelo tórax oprimido

que te torna os dias cruéis

cansados da sinuosa trajectória

em que persistes na manipulação dos pés

quando te aproximas da impossibilidade serena do fim

tempestade à distância dos olhos entre desejos

que contendem no plástico campo de batalha

onde tempo e inquietude se aliam

em brutais teatros sem personagens;

para quê estar à espera do tempo que é pedra?

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publicado às 19:06


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