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saudades inadiáveis

por vítor, em 27.07.10

 

Estas fotografias têm  27 (?) anos. Uma banda em pleno ensaio no estúdio do Ramiro na Amadora. Não faço ideia de quem as tirou. Chegaram-me ao mail pelo baixista da banda. Uma banda que podia ( e de qualquer forma fez) ter feito história. Os Kubrir. Podemos ver nas fotografias o baterista Dadinho, os guitarristas e vozes Domingos e Rui, o baixista Pedro e o, enorme, viola solo Miguel. Lamentavelmente não aparecem dois elementos da banda. O teclista Eurico e o lendário vocalista e líder da banda que agora não me ocorre o nome.

 

Saudades inadiáveis de dias sem tempo.

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publicado às 02:28

Nuvens à Esquerda

por vítor, em 04.12.08

 

  Nuvens à esquerda. Qualquer coisa entre mim e o Sol poente.

  Tinha um ar tão grave quanto se podia imaginar e mesmo assim sorria. Sorria às coisas. Pronto. Tudo se passou como uma brisa contra a tempestade ( aliás previra-o ). Quantos calafrios a atravessar a noite poeirenta. A vida.

  Apeteceu-me chorar pedaços de carne. Da minha carne.

  Há um mundo a desabar sobre o meu ( que já não chamarei mundo nem terei coragem de apelidar ), com asas grandes a afastar as únicas borboletas que restam do meu amor. Uma auto - estima inútil e nua. Perdi todas as correntes e esqueci todas as portas. Quase todas... ( é próprio dos moribundos agarrar freneticamente um sonho esfaqueado )

  O céu fundia-se como o ribombar dos trovões na mente dos aflitos. Multidões de gritos, como abutres, esperam o cair da noite. À noite as flores entregam-se a si. À noite ninguém assassina flores.

  Não existem recordações de infância onde os sentimentos flutuam em convulsões febris. A minha dor não tem memória, mesmo não podendo imaginar dores sem memória, por isso é irreversível, sem origem. Como a noite que cai...

  Nas asas do sono brincam sorrisos rodopiando eternamente ao vento.

  Há nuvens à esquerda incapazes de me tocar, receando perder a capacidade de estar sós.

  Perdão, a noite cai. O Sol, e eu, vamos para o outro lado da penumbra.   

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publicado às 14:07

Escarafunchando num passado inexistente

por vítor, em 18.06.08

 

 

O calor cresce lá fora. Enquanto a calmaria se precipita do céu violeta, dou por mim a revolver os resistentes socalcos da memória. Alguns substratos profundos são compostos por sedimentos de memórias partilhadas. Escarafuncho e os sedimentos esboroam-se e invadem outras camadas confusas do antro cavernoso do pretérito, aumentando a confusão e ocultando a massa disforme que tento penetrar.

Por vezes recorro a memórias externas que se cruzaram nos caminhos que percorri e vou tentando compor pequenos e difusos fragmentos que me permitam chegar mais fundo. Colar fragmentos de de um mosaico, ou melhor,  de uma película irrecuperável mas que, à maneira do digital, possa fazer sentido e sarar feridas escancaradas de outrora.

Continua a crescer o calor lá fora. O cão uivou pressentindo inquietudes nas pessoas que se afundam na História incompleta. (há uns dias, por brincadeira só falei inglês com ele: come on on Matrix, your food Matrix, you are the especial one Matrix. Foi-se embora e só voltou dois dias depois. As memórias dos cães são mais selectivas do que as dos homens). Como eu ia dizendo, o Matrix uiva nas sombras. A liberdade só é possível num sistema sem memórias: quando esburacas num passado inexistente. Só perante a vida. Caminhando, sem olhar para trás, nas numinosas paisagens onde as pegadas se apagam antes de os pés assentarem nas areias. Caminhando em intermináveis socalcos metafísicos. 

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publicado às 21:54

O Caos Nocturno da Memória

por vítor, em 01.05.08



Às vezes recomeço a arrumar o caos que me atafulha a memória. Recomeço sabendo que é um trabalho vão. A violência que por lá jaz envolta em pó enoja-me e impede-me de  enfrentar outra vez o sofrimento atroz de antanho.

Só é arrumado quem tem poucas coisas que arrumar. Sobretudo na cabeça. Peço, no entanto, desculpa aos que me trazem à superfície bocados de violência por mim derramada e que os atingiu de forma voluntária e brutal. Especialmente àqueles que amo.

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publicado às 00:20



Embora vizinho da cubista cidade de Olhão, já há alguns tempos que por lá não passava. Hoje atravessei-a pela estruturante "rua" 125 e qual não foi o meu espanto  quando ao passar na zona do velho Estádio Padinha* não o ter vislumbrado. Em lugar das velhas ruínas das fábricas conserveiras que o limitavam a Sul, uma vedação metálica envolvia o espaço sagrado daquele pelado mágico. Na mesma vedação o futuro: Ria Shopping . Mais do mesmo. Um espaço insonso para parolos sem sonhos. Os promotores do novo buraco negro de afecto e integridade, é claro.

Neste estádio  joguei dos mais belos desafios da minha juventude e tive a oportunidade única de conviver com alguns  dos meus ídolos de sempre. Quando o meu Desportivo Tavirense (até se me arrepia a penugem) se deslocava à terra vermelha do maravilhoso pelado,  para enfrentar o mítico Sporting Club Olhanense, aos Domingos de manhã (começo sem falhas às 11), quando à saída do balneário nos deparávamos com os "cromos" da bola que começavam a chegar ao balneário para o desafio da 1ª Divisão, da tarde ou quando me deslocava, fim-de-semana sim, fim-de-semana não, para os grandes desafios do meu Glorioso e dos outros grandes do futebol nacional, aos Domingos à tarde. O fim-de-semana não estava destinado às deslocações ao Estádio Municipal de S. Luís,  9 quilómetros ao lado, onde se exibia o grande rival dos olhanenses, o Sporting Club Farense. Todos sporting ,  mas todos desculpados pela admiração sem fim dum jogador apaixonado. Como tinha cartão de jogador de futebol e passe de comboio porque estudava no liceu de Faro, assistia a todos os jogos do Farense e do Olhanense em casa, sem pagar um tostão.

Como vos disse o Estádio Francisco Padinha* *  já só existe na memória dos que o gozaram até não poder mais, dos que não perdoam a trágica perda e dos que sentiram os travessões e os pitões a agarrar na aveludada terra vermelha. Até a torre de tijolo de burro da fábrica se foi. Aqui onde, por décadas fizeram morada gerações de cegonhas das quais se dizia dependiam os resultados da equipa da casa no seu terreno. Se as cegonhas tivessem no ninho, o resultado seria a contento da equipa da casa, se andassem a petiscar nas lamas dos sapais da Ria, quem  petiscaria seriam os visitantes. Ao menos a alta e esguia palmeira junto aos balneários ainda lá está aspergindo a memória dos que a não respeitam

Não resisto a contar-vos um episódio que, por insólito, me marcou até aos dias de hoje e de sempre. Jogava O Glorioso no pelado do Padinha* um prélio importantíssimo contra o também glorioso SCO . Lotação a 150%, jogo intenso nos primeiros minutos. Guaraci ,  defesa central olhanense,  um guarda-fato da cor do carvão, vindo dos confins do Nordeste (aqui se calhar estou a exagerar, ou é o tempo que o está) dirige-se, qual panzzer , na direcção de uma bola que entra na sua grande área. Na direcção da mesma bola dirige-se, não menos veloz, o gracioso e frágil Nené O choque dá-se em plena meia-lua (estarei a exagerar outra vez na precisão GPS, ou é o tempo que está?) milhares interrogam-se sobre a integridade física do jogador encarnado. Quando o pó assenta, Guaraci está mais imponente do que nunca, Nené (está vive, está vive!) parece um zombie, não sabe o que lhe aconteceu, no entanto mantém, como sempre, os calções religiosamente brancos. Outra figura negra dirige-se agora imperativamente para a poeira suspensa, na zona frontal à baliza. É o suspense total. Leva o braço levantado aos céus e na mão fechado um cartão vermelho agressivo e soberano. Sem hesitações , exibe-o a um ainda apatetado  Nené que,  educado no cumprimento das leis, o aceita humildemente. Nas bancadas os risos, os aplausos e os assobios. O homem de negro introduz o ígneo  rectângulo no traseiro, salvo seja, orgulhoso. Onze rubi-negros contra dez  vermelhos (não me lembro bem o ano - 1976?- mas era certamente pós-25 de Abril). Iria o Olhanense impor a sua superioridade numérica? Sol de pouca dura. O Glorioso, comandado por esse génio de relvados e pelados que dava pelo nome de Vítor Baptista, alavanca-se para uma exibição estratosférica e cilindra os algarvios por sete bolas a uma. Nené, banhinho já dado, sorria no banco.

Foi de certeza a única vez que o jogador dO Glorioso foi expulso ao longo da sua longa e brilhante carreira. Mas a sua conduta irrepreensível não ficou manchada com o episódio. Até, dizem alguns, o envaideceu bastante. Uma pitada de sal numa biografia que até chateava de tão certinha e previsível.

*
O Estádio Padinha* (assim designado em homenagem a Francisco Padinha* * , um grande atleta de Olhão, campeão de luta e de pesos e halteres), inaugurado a 29 de Março de 1923, foi utilizado até 1984, quando o Olhanense se mudou para o actual José Arcanjo. Ali jogaram até à presente temporada as equipas dos escalões jovens, que vão agora mudar-se para o Estádio Municipal (piso sintético).

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publicado às 21:09


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