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80 anos da nossa vida

por vítor, em 23.01.13

 

A minha adorada mãe fez no dia 13 de Janeiro 80 anos. Em grande forma, parte para mais uma década de vida intensa e com imensos projetos para cumprir.
Aqui vai um dos seus poemas:

Não me perguntes quem sou
não te poderei dizer agora
sou um corpo sem alma
que a vida deitou fora...
Maré cheia e calma
num vaivem constante
murmúrios do mar
que o vento conhece
e os ouve distante,
sou sombra ao luar!
que de amor padece serei tudo e nada!
lamento ou tristeza...
grito de alvorada não tenho a certeza!
Não me perguntes quem sou,
não me conheço
no universo onde estou
e onde pertenço.

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publicado às 23:09

BOAS FESTAS E BOM ANO NOVO

por vítor, em 26.12.10

Hoje, para vos desejar BOAS FESTAS e um belíssimo ANO NOVO, vou deixar-vos um poema da minha mãe. Sim, a minha mãe Rita é poetisa com obra publicada, com prémios vários e carreira consistente, aqui para o Sul. Não tenho distância suficiente para apreciar a sua poesia, embora me pareça distante. Mas, também, o que é que isso interessa? Eu, até, em regra, não gosto de poesia.

E, já que estamos de sentimentos à flor da pele, convidemos o meu pai para as festas.

 

 

 

segui sem rumo pela estrada da vida

caminhei a seu lado em curvas tortuosas

pisei as pedras que me olharam vencida

e voltei atrás em passadas vagarosas.

 

devagar retornei ao ponto de partida

já cansada dos sonhos de caminhante

como utopia na luta já perdida

da vida já vivida e tão distante.

 

vencida olhei os céus do meu destino

como afago as estrelas me mostram

na torre da igreja aquele sino

aonde as horas da vida me marcaram.

 

parada fiquei na beira da estrada

não segui para diante o desconhecido

da minha alma saiu rouca gargalhada

do meu peito o grito há tanto reprimido.

 

 

Maria Rita Baptista - Sonhar Poesia -2001

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publicado às 17:39

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publicado às 00:28

Estava Frio na Tarde Poeirenta

por vítor, em 28.07.09

Estava frio na tarde poeirenta. Agarrou os sapatos e entrou descalço no cemitério. Algumas beatas místicas adoravam os seus mortos ruminando palavras silenciosas. Percorreu o corredor central e chegou-se à sepultura de uma mulher de óculos escuros sem lágrimas. Pousou os sapatos. Olhou as árvores repletas de caracóis e começou a assoviar baixinho. As beatas ruminavam a líbido esperando compaixão das almas inertes.

Passara um ano sobre a morte da mulher de óculos escuros sem lágrimas. Era a sua primeira visita.

O Outono descia as persianas. O Universo rodopiava, sem pressas, em volta do cemitério.

Subiu a colina suave da sepultura e sentiu os pés descalços a enterrarem-se na terra. À procura da raiz.

Há anos, quando repousava no seu regaço, sentia as mãos tremer de gozo. Lembrou-se das galochas que sempre quisera ter e nunca teve e que os rapazes da rua sempre tiveram.

Olhou o céu à procura de encontrar Deus a sorrir. Não existe. As beatas consumiram-No . Existe. Só existe o que se pode consumir.

Sentiu as mãos tremer de gozo. Os pés terrados .

Bruxas no sabat sem fim aproximaram-se do cemitério. Pensou nos mortos ricos e nos mortos pobres, que foram vivos pobres e vivos ricos. A loucura passa pela maior das normalidades quando tem um espaço onde se projecta. Só quando o pano de fundo desce, a loucura cai à rua: é doido varrido, vê pulgas na opa de sua majestade, quer saudar o infinito, satisfaz-se no vazio. A mais grave.

As viúvas místicas atingem orgasmos na penumbra das sepulturas.

Os espaços sagrados aparecem quando os seres do Além se fundem aos do Aquém e aqui começa o sabat. Fantasmas e vice-versa, num só, debatem os mais prementes problemas da Filosofia contemporânea.

Mãe, por que me abandonas-te? Acaricia-me os pés. Faz-me tremer as mãos. Vamos construir um mundo porreiro sem carimbos na consciência.

Parecia que o tempo não passara mas o Sol caíra atrás da parede do cemitério e como era preciso atravessar o ritual da morte para participar no sabat, o coveiro, homem devidamente encartado para tal, expulsou as almas do outro mundo para o outro mundo.

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publicado às 00:24

 

No dia 25 de Abril, pela manhã, fui ao lançamento de uma primeira pedra.Não uma primeira pedra no sentido bíblico. A de um lar para a "terceira idade". Foi a minha primeira pedra. Pedra pedra, bem entendido.

O acto em mim atraía-me tanto quanto um concerto do António Carreira. Foi a fragilidade da minha mãe ( na tal 3ª idade e dinamizadora do projecto) que me arrancou do generoso leito e me arrastou até ao terreiro onde irá ser implantado o "equipamento social". O evento não contou com a cumplicidade do tempo que se apresentou frio e ventoso. Uma nortada cortante e impiedosa  que fustigava os que se apresentavam para presenciar o piedoso acontecimento. Cheguei bastante cedo que a minha mãe estava ansiosa. Embora tenhamos combinado de véspera, já me tinha telefonado temendo a minha crónica irresponsabilidade. Apresentou-se-me de traje de cerimónia com broche e tudo. Eu, como já se calculava, de gangas e casaco de cabedal coçado.. Uns ténis de um dos meus filhos, deslavados e gastos (pareceram até à minha mãe rotos).A senhora não gosta mas já entranhou. E a companhia bastava-lhe. Gozou-a até aos limites da sua tensão arterial, cronicamente já alta. Chegámos ao terreiro poeirento e desolado e já por lá andavam, cabelo ao vento (ralos e esparsos) muitos dos futuros utentes do lar. Trajes de festa, uns aguardando as individualidades, outros dedicados à logística dos comes e bebes pós-discursos, lutando contra o vento que ameaçava arrastar para fora das mesas os mimosos pastéis de bacalhau e outras iguarias apetitosas.

Ai como o menino está tão novo. Está mesmo igualzinho a Sr.. Fernando. Ainda há pouco, estou mesmo a vê-los, andava na brincadeira como mê Zé no ribeiro que pareciam uns patinhos todos enlameados... e a minha mãe babada. A minha gente. Tenho-os no coração sempre e para sempre.

Começam a chegar as individualidades: o presidente da junta, o da câmara e, ano de eleições obriga, os novos candidatos ao município: o delfim do actual ( o que detém o cargo concorre à câmara da capital) e o pretendente da oposição. O padre da freguesia, o presidente da Casa do Povo, os presidentes das freguesias vizinhas e, o mais eloquente e nervoso, o presidente da associação que vai lançar a obra.

Chegam alguns amigos da minha idade. Poucos que na noite anterior houve baile na Casa do Povo e a tertúlia foi longa.

A minha mãe já está na primeira fila em redor do local onde há-de ser colocada a primeira pedra. Numa terra pequena e num município pouco populoso, toda a gente se conhece. As individualidades são todas minhas amigas ou conhecidas. Cruzámo-nos na escola, no futebol ou, pura e simplesmente, encalhámos frequentemente nos caminhos estreitos da paisagem envolvente.

A minha mãe delira com tão íntima relação. Fatos azuis contra ténis "dread", mas ela já nem repara.

Dentro de um cilindro é colocada uma carta com os nomes dos envolvidos mais relevantes no longo processo que vem da ideia até ao presente momento. Carta da memória aos vindouros que um dia abrirão a missiva e honrarão os de antanho.

O padre, tão magro que o vento quase o leva, benze a pedra com o aspersor sagrado. Diz umas coisas sobre as obras dos homens e as obras de Deus. Aproximo-me para ouvi-lo. Foi meu professor de História há 35 anos e quero relembrar essa histórica voz. Desilusão. Já não é a mesma voz. Ou os meus ouvidos já não são os mesmos? No entanto fiquei a saber (que vergonha tão tarde) que benzer é dizer bem. Disse-o o padre. Nunca tinha pensado nisso.

Vai agora pegar na palavra, iniciando as hostilidades, o director da segurança social do Algarve e candidato à câmara pelo partido da oposição. De improviso vai fazendo a cronologia do apoio prestado e, timidamente, faz crer que esse apoio foi "mais relevante" para o bom desenvolvimento que o apoio da câmara. O actual detentor do cargo, dinossauro da política que se alavanca a outro concelho mais "valeroso", regista e sorri. Já vamos ver porque sorri. Não é ele que vai ripostar ao orador inicial. É um homem desinteressado... É a sua vice presidente (e candidata reincidente) que está frente à pedra. Discurso escrito (brincas, não...). As palavras saem duras e o vento açoita com elas o candidato da oposição. Novo nestas contendas, lá vai encaixando como pode. Com dignidade, registe-se. O dinossauro sorri... desinteressado.

Finalmente, momento há muito aguardado, que as barrigas também têm as suas razões que a razão não desconhece, o discurso do presidente da instituiçaõ de solidariedade social que ali se materializa. Individualidade exterior  às contendas políticas hodiernas (por ora), balbuciou umas palavras de circunstância  a que pouca gente ligou (excepto a minha mãe que foi a principal responsável pela ascensão do orador à presidência, pareceu-me mesmo ver-lhe assomar uma lágrima no canto do olho). Não fora ter-se esquecido do presidente da junta na elencação das personalidades que contribuíram para o sucesso da empreitada e ninguém teria registado qualquer parte do discurso.

Todas as individualidades pegaram, à vez,  na colher de pedreiro e afagaram e acariciaram o cimento que colava a primeira pedra à eternidade. Confesso que temi que na vez do meu irmão, uma das individualidades presentes - porventura a mais importante a seguir à minha mãe - as calças se descosessem durante o acto de se baixar para afagar a pedra. De resto, com o seu fato azul escuro às riscas e de cravo vermelho ao peito ( a única individualidade com tal símbolo ao vento) encheu-me de vaidade e orgulho. Quando a mole humana (fosga-se que isto é que é falar. Influência dos distintos oradores?) se trasladou para as mesas convidativas e abandonou a primeira pedra à sua sorte, achei por bem retirar-me. A política é linda. É uma ficção encenada com emoção e empenho  onde os actores representam o melhor que sabem e podem. 

  Deixei a minha mãe a cargo do meu irmão e desloquei-me para o almoço tradicional do 25 de Abril com os meus camaradas. Daqui a nadinha estaremos a entoar  amanhãs que cantam e a querer cumprir o 4º e o 5º mês...

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publicado às 22:44

Telefona-me mãe

por vítor, em 16.03.08
Ainda não sei bem porque não hiberno nestas noites tristes de Inverno
olho para a televisão e estou numa loja de gravatas fúteis
tenho nas mãos vazias várias facas
para cada cinismo
para cada face engraxada
na banalidade das carcomidas
palavras carcomidas

Telefona-me mãe!

Fala-me das alfaces das couves
fala-me do ritmo lunar dos pintainhos
das oliveiras por apanhar
da roda verde dos caracóis e dos netos
a perseguirem o gato preto
pois já não há papoilas para brincar ao sol das flores.

Telefona-me mãe!

Atirei um galo de barro ao ecrã ruidoso da porra (puta ) da televisão
Acertei numa Fátima qualquer (há sempre uma Fátima qualquer a azucrinar-nos a carola)
Mas de qualquer forma

Telefona-me mãe!


(poema do meu amigo, o poeta e artista plástico de Conceição/Cabanas, Rui Dias Simão)

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publicado às 10:48


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