O tempo passa sem as pessoas interferirem. Entro na casa do surrealismo e sou recebido pelo funcionário dedicado, outra vez. Publicita catálogos. Para depois.
Carrego no botão do elevador para o 2.º andar e subo sozinho. “Visto a Luz”, não resisto: é um telemóvel novo oferecido no Natal e registo. Splash, uma a uma. Talvez não possa, mas não há aviso algum e subo a rampa da galeria. Ascendo às voltas. Splash, splash, splash, as luzes que incidem nos pedaços do Mário refletem-se na máquina vindas das paredes que regressam outra vez. Estou a meio da subida escatológica e via-sacra da luz. Splash! O elevador escancara-se para mim e o funcionário dedicado, e diligente, atrapalhado, sai e admoesta: não pode!
Desculpe-me, não há aviso. Não tem flash, é só splash. Ficou a meio. O homenzinho, mais só do que nunca, desce até ao chão no elevador triste. Continuo a subir até ao fim. Mais só do que o próprio elevador triste.
Desço pela caixa vertical receando o funcionário dedicado, encalacrado. Não está ninguém na saída. Respirando o ar frio do carrossel de crianças que anda à volta do tempo, entro no cenário, exposto às pessoas que nunca interferem.
“Ama como a estrada começa”. Falta-me lastro trágico para ser coerente. Ser como as árvores no inverno.
Os catálogos? Ficarão para depois.
V.N. Famalicão, 29 de dezembro de 2011