Sinais de Fogo
(um dos mais importantes livros da literatura portuguesa, esquecido porque sim)
Quando, no outono de 1980, atirado ao Terreiro do Paço, depois de uma demorada viagem no "correio", cheguei à capital do império para estudar Antropologia na FCSH - até se me encarapelam as penugens -, os meus colegas gostavam muito de me gozar, humilhar mesmo, um pacóvio com um sotaque esquisito vindo da província, com o facto, segundo eles, e não nos esqueçamos que estávamos na ressaca da revolução de Abril, do Algarve ser uma reserva de indígenas dominado pelos ingleses. Onde a linguagem das ruas, menus, reclamos, publicidade e, mesmo, indicações de locais, era a língua de Shakespeare. Onde determinados espaços, como restaurantes, piscinas, discotecas e aldeamentos turísticos, eram vedados aos autóctones, enquanto utentes de tais prazerosas zonas de lazer. Autóctones, esses, destinados a servir dócil e humildemente os senhores turistas, camones, como eram conhecidos, independentemente da sua nacionalidade.
Como dizia, tinha que ouvir com paciência, e alguma irritação, embora até concordasse com algumas das críticas formuladas por estes amigos da onça, estas boquinhas sobre a subserviência dos algarvios aos camones. Eu que deixara uma aldeia em que o tempo estava suspenso desde as arremetidas do Remexido.
Hoje, passados quarenta anos, uma parte significativa desses críticos dão aulas em inglês nas faculdades, escrevem artigos científicos em inglês, leem revistas e livros em inglês e, pasme-se, chegam a conversar em grupos com portugueses na bela língua de sir Alex Ferguson.