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Moisés Espírito Santo Bagagem

por vítor, em 01.04.25
Quando chegou à nossa primeira aula, na velhinha Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Nova, ainda a confundir-se com o quartel Trem Auto, no início dos anos 80, com os olhos muito vivos e rolantes, pousados no teto, de quando em vez olhando-nos rasando o alto do cocuruto; os seus esparsos cabelos revoltos, pensei tratar-se de um maquinista de comboio. Não, era o nosso professor de Sociologia, e Sociologia das Religiões, Moisés Espírito Santo Bagagem. Rapidamente se tornou um professor muito querido dos alunos e um mestre. Levava-os em trabalho de campo consigo (célebre ficou a ida à sua aldeia para os lados da Batalha) e discutia com eles no recreio e no bar a religião popular como se de um assunto da maior atualidade se tratasse. A sua humildade talvez lhe viesse do seu peculiar percurso académico: começou como carregador de material necessário ao trabalho de campo de sociólogos belgas, onde se tinha refugiado, e acabou por se licenciar e doutorar na disciplina.

Homem da ruralidade, tinha um sentido de humor fino, e às vezes corrosivo, e às vezes incompreendido, como o provam as dificuldades que parte dos seu pares lhe foi colocando no caminho da sua evolução na carreira.

Morreu hoje um mestre e um amigo. MESB (1934-2025)

PS. Esta página parece ter-se tornado, ultimamente, um necrotério, mas parece ser o destino das impressões de quem já tem uma certa idade.

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publicado às 19:16

Sinais de Fogo

por vítor, em 01.04.25
Sinais de Fogo

(um dos mais importantes livros da literatura portuguesa, esquecido porque sim)

Quando, no outono de 1980, atirado ao Terreiro do Paço, depois de uma demorada viagem no "correio", cheguei à capital do império para estudar Antropologia na FCSH - até se me encarapelam as penugens -, os meus colegas gostavam muito de me gozar, humilhar mesmo, um pacóvio com um sotaque esquisito vindo da província, com o facto, segundo eles, e não nos esqueçamos que estávamos na ressaca da revolução de Abril, do Algarve ser uma reserva de indígenas dominado pelos ingleses. Onde a linguagem das ruas, menus, reclamos, publicidade e, mesmo, indicações de locais, era a língua de Shakespeare. Onde determinados espaços, como restaurantes, piscinas, discotecas e aldeamentos turísticos, eram vedados aos autóctones, enquanto utentes de tais prazerosas zonas de lazer. Autóctones, esses, destinados a servir dócil e humildemente os senhores turistas, camones, como eram conhecidos, independentemente da sua nacionalidade.

Como dizia, tinha que ouvir com paciência, e alguma irritação, embora até concordasse com algumas das críticas formuladas por estes amigos da onça, estas boquinhas sobre a subserviência dos algarvios aos camones. Eu que deixara uma aldeia em que o tempo estava suspenso desde as arremetidas do Remexido.

Hoje, passados quarenta anos, uma parte significativa desses críticos dão aulas em inglês nas faculdades, escrevem artigos científicos em inglês, leem revistas e livros em inglês e, pasme-se, chegam a conversar em grupos com portugueses na bela língua de sir Alex Ferguson.

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publicado às 18:56

num sotão do fim do mundo

por vítor, em 25.03.13

 

O passado é uma terra estranha, lá as coisas funcionam doutra maneira...

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publicado às 23:55

jornalismo e jornais: um mundo paralelo

por vítor, em 10.04.09

Quem assim escreve e assim pensa tem a minha solidariedade. E estou-me cagando para quem namora com quem.

Como dizia o filósofo alcoólico da minha aldeia, Vivaldo Catraia, "Cada um é como cada qual e cada qual é como cada um."

 

PS: Lembro-me dela na FCSH, quando eu pertencia à Associação de Estudantes, e sempre me pareceu que era moça de antes quebrar que torcer. E parece que não me enganei.

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publicado às 14:14


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