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Peixe frito e torresmos

por vítor, em 19.11.21

Em minha casa comíamos muito peixe frito. Carapaus e charros, sardinhas, cavalas, mecharrinhas, peixe-aranha, bicas e até bogas. Quando o rei fazia anos, talvez um linguado, ou um parracho, primo afastado deste último. Só às bicas fazia cara feia. O raio do peixe avermelhado parecia-me sempre bastante seco. Também comíamos peixe assado no carvão vegetal que o meu avô produzia fazendo arder lenha debaixo de montes de terra. Com umas chaminés para que a combustão não se extinguisse. Ao fim de uma semana, quando deixava de sair fumo pelas chaminés dos montes, cavava-se os ditos e, no meio da terra calcinada, lá se destacavam as pepitas negras do precioso carvão. O peixe assado era no bom tempo. Quando os dias e as temperaturas, em conformidade, cresciam. Era outro ritual. Era sempre eu que acendia o fogareiro. Daqueles redondos em ferro forjado, de colocar no chão ou em qualquer suporte amigo das costas. Eu acendia-o sempre no chão. Uma página do Diário Popular, de que o meu pai era correspondente, e que, por isso, recebia à borla todos os dias, com um dia de atraso, que a capital do império ficava longe, amarrotado, umas palhinha e uns gravetos apanhados atempadamente, uma mancheia de carvão fino e... fogo. Acendia quase sempre à primeira, para orgulho do acendedor e espanto da minha mãe. Depois de bem arejado com o respetivo abanico de palhinha, e as brasas rubras, entregava o resto do trabalho à minha mãe que assava o peixe e o levava à mesa montada no quintal. Quase sempre ao almoço, quase sempre ao fim de semana. Os quatro, a nossa família, ao ar livre vivendo a tarde. Bem, mas era do peixe frito que me tinha lembrado e de que falava: os peixes eram fritos em óleo abundante, cobrindo-os, e a elevadas temperaturas. Como não éramos ricos, poupávamos o mais que podíamos no óleo. Faziam-se várias fritadas com o mesmo óleo. Só quando o fundo da frigideira começava a ficar castanho escuro com o depósito da saturação da combustão é que se utilizava novo óleo. Gostávamos todos muito de peixe frito e despejávamos no prato, regando o peixe nele jazente, o maravilhoso e saborosíssimo líquido acastanhado que o tinha frito. Molhávamos ainda generosamente o pão, que a avó tinha cozido no forno de lenha, no molho onde o peixe esperava. Não fora isso e o óleo durava muito mais tempo. Muitas vezes, levava para a escola a marmita de esmalte azul cheia de peixe frito para comer ao almoço. Quase sempre cavalas. Ao almoço, os moços do campo e das aldeias juntavam-se a comer peixe frito frio sentados no muro que rodeava a escola. Não gostava muito de peixe frito frio. Às vezes, alguns meninos levavam toucinho e torresmos para almoçar. Claro que toda a gente gostava de toucinho cortadinho às fatias sobre o pão das avós e, sobretudo, de torresmos. Ainda hoje não resisto a um bom par de torresmos. De peixe frito frio é que continuo a não ser grande apreciador.

PS - por falar em peixe frito. Gostava de vos anunciar que o meu amigo Luís Gorgulho inaugurou, por um dia destes, a Rua do Peixe Frito, em Santa Luzia. Vi uma fotografia, já não me lembro bem onde, da nova placa da rua e do Luís a descerrá-la, e estavam lindos.

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publicado às 16:27

Cacela-a-Velha, deuses e demónios

por vítor, em 16.02.08
Cacela Velha é um lugar fantástico. Onde convergiram e convergem epifanias diversas dando a este monte- sobre-a-ria um magnetismo inexcedível . Estou a esta terra profundamente ligado desde os tempos da minha mais tenra meninice. Cacela, embora pertencendo a outra freguesia e a outro concelho, integrava-se na paróquia da Conceição e o padre das duas povoações era, portanto, o mesmo. Desta forma o pároco transportava no seu automóvel (raro naqueles tempos) os jovens da Conceição, onde residia, para o ajudarem na missa e noutros serviços religiosos. Eu, embora não baptizado e filho de ateu militante, lá ia às escondidas: a minha perdição era o repicar dos sinos. Sim porque o toque dos sinos é uma arte semiológica complicadíssima que não vem agora ao caso. Enquanto o padre despachava assuntos do foro clerical e outros..., nós batíamo-nos em jogos de futebol com os "serrenhos" de Vila Nova de Cacela ou calcorreávamos falésias e sapais somente pelo gozo de cabriolar. Brincando às escondidas ou procurando, sei lá, os deuses naquela sua morada.
Também me ligam a esta pérola-sobre-o-mar a "última morada" de muitos familiares como é o caso, entre outros, do mais ilustre: José Gil Cardeira. O "bom filho e esposo, pai e amigo" que jaz no único sepulcro que restou no cemitério velho aquando da abertura do "novo" cemitério.
É por isso que me custa o estado de abandono e de desleixo a que está votada a praça forte que foi conquistada  não pela sua importância estratégica ou política, mas pela sua beleza. Como tão bem o cantou Sophia num dos seu poemas mais de fazer pele de galinha.

Par vos mostrar beleza e desleixo deixo-vos com alguma fotografias recentes por mim registadas.

PS: Para saber mais sobre a vida deste aventureiro que jaz no cemitério velho e do qual corre nas minhas veias o mesmo sangue, consultar o livro "Memórias Escritas" onde, para além de outras histórias sobre a região, meu pai, Fernando Gil Cardeira, conta as mirabolantes estórias deste alentejano de Alvito e da "cobra  grande", que enviou para o seu Alentejo natal e que "depois de morta foi transportada em três carros de bois e o rabo ainda ia arrastando pelo chão".











Monte Gordo ao fundo,


A flamejante Ria Formosa, que aqui começa e aqui acaba...






Não se poderiam esconder fios e antenas?

E agora o desprezo:

Casa Paroquial

Uma casa de taipa ao sabor dos elementos...


O meu parente abandonado e salpicado de cal...



Uma curiosa chaminé Allgarvia ...

Há mais, muito mais mas dói-me trasladá-las para este post

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publicado às 15:31

Blogue à beira de um ataque de nervos.

por vítor, em 01.08.07


Filho adolescente no Festival do Sudoeste. Cinco dias de desassossego.

E não é que o pai foi dos tais que passou pelo mítico Vilar de Mouros? A setecentos quilómetros de casa e, vejam só, sem telemóvel.

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publicado às 14:41


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