Um poeta colossal lê pequenos poemas, talvez haicais, que os talheres do bar abafam. Entram poetas de idades avançadas, mulheres com rugas rompendo as camadas de creme esbranquiçado, cheirando a perfumes intensos, mas, talvez por isso, baratos. O colosso retira-se sob uma torrente ruidosa de aplausos sinceros: é uma estrela da televisão e dos grandes salões. Quem agora exige atenção cirúrgica e demorada é uma poeta de umbigo à mostra, barriga lisa e namorado babando, e bebendo cerveja, na primeira linha da assistência. Vira-se para trás mostrando desagrado com a colisão de metais, vidros e porcelanas, por dentro do balcão. Elege Robert Redford como sujeito poético e leva-nos a Hollywood sem livre-arbítrio. Foda-se!, entrou no estabelecimento comercial uma poeta com um rabo magnânimo. Sinto mesmo um prenuncio de ereção abortada. Como gosto de rabos bem proporcionados de poetisas (bem metida esta variação da palavra, hein!), cheirá-lo-ia como se de um cão fosse.
O umbigo em barriga lisa retira-se, perante o deslumbramento do poeta enamorado da primeira fila, e o cu soberbo, nalgas mágicas, impondo a tesão, mantem-se no meu campo de visão como elefante que se atravessa num pesadelo de criança.
Os leques andaluzes atenuam o bafo escaldante do vento, as mesas enchem-se de copos de tudo e um poeta chinês emerge, ou melhor, desce, da Serra de Aracena, onde porcos pretos transportam poemas nas suas pernas preciosas, poemas translúcidos fazendo babar os transeuntes. O vento Norte (?) açoita a rua e a barulheira de pratos, copos e talheres impõe o ritmo do evento.
Chega, entretanto, de súbito, a minha vez e subo ao palco baixo de onde se lançam as palavras. Levo, por debaixo do sovaco, o meu novo livro de poemas. Abro-o na página 27, como previsto, e início, com espanto e estranheza, o poema que por lá se escarrapacha. Titubeio e as palavras não me parecem minhas. É longo e a minha lenta leitura fazem-no quase ficar fora de prazo.
Saio debaixo de uma forte salva de palmas e meio almariado com o cheiro a sovaco.
Aborrecido como uma pedra ao Pôr- do-Sol.