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Podes Sempre Voltar Atrás

por vítor, em 03.06.24

 



Se me dissessem que a minha primeira casa seria uma gaiola dourada de pássaro canoro, o resto do meu dia seria passado a roer as grades dessa tão bela e cómoda casa. Sendo expectável que o aço resistiria aos meus dentes, nada mais aceitaria que se comesse, de forma a me tornar tão magro que pudesse atravessar o vazio das barras metálicas. Os pilares do que em mim se erguia! E se, mesmo assim, prevalecesse o frio da prisão imaginada, e se ao meu corpo escanzelado não fosse permitida a ausência do espaço a que, sem ter consciência do poder da música residencial, me acomodara, ousaria então a escapatória restante e final: montaria o cavalo selvagem da imaginação, sulcando a galope por entre vagas doutrinárias e sereias compreensivas. Quando a aspereza do ar, saturado de ameaças e alegrias, me fizesse tombar do equino, seguiria, então, o novo caminho. Nada do que vira antes me rodeava os passos. O espanto comovia-me e chorava. Ria, até. As bermas flamejantes do sonho que empreendera conduziam-me eufórico, ataráxico e vazio, bebendo tudo o que de belo a pradaria sem fim me oferecia. O que em mim olhava os passos de antanho, contemplando os dias sombrios da eternidade acumulada nos ossos dos transeuntes, apenas observava o pássaro doente na gaiola de fogo e sangue. A canção escapava-se no crepúsculo do entardecer e as asas da ave rocegavam o pântano fumegante. No desespero da dor, voltaria atrás. A liberdade amaldiçoou os meus dias e juntei-me a quem das trevas poderia criar luz.

Um pássaro que finge poder voar no vento cansado!

 

Cativa, 21/2/2024   in, Espúria

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publicado às 17:29

Do Determinismo Literário

por vítor, em 02.06.23

 



A cena literária nacional é tão pequena, tão circunscrita, que, quando te pões a falar mal de alguém, se te descuidas, já estás a falar mal de ti próprio. E, para teu alívio, e espanto, isso sabe-te tão bem!

A literatura deixou de servir para inquietar ou contaminar. Sabemos, no entanto, que os agentes literários, leitores, escritores, editores, livreiros, críticos, entidades oficiais e oficiosas, premiadoras do mérito e do demérito, formatados pelas correntes redutoras dos meios artísticos, ao menor desvio da regra não inscrita, do caminho já pisado, fremem de indignação e malham

nos que se atravessam nesta estrada da inquietude oficializada e canónica.

Nada há de mais perturbador do que um sujeito em contramão na

autoestrada. Nadando contra a corrente do rio grosso e manso.

O novo escritor será um mártir literário. Não lhe bastará a pobreza e a inutilidade das escritas, ainda precisa de ser maltratado por leitores, pares e críticos. Quanto mais desconsiderarem e rebaixarem a sua escrita, mais feliz se sentirá. Como a um mártir, o castigo só reforça o martírio: curiosamente, e a cultura judaico-cristã-islâmica é terrível e exemplar nestes domínios do martírio, castigador e castigado, escritor e leitor, retiram prazer do castigo.

Quando alguém elogia o escritor, por caridade, dever ou admiração, vê-lo-emos a planar, sem chão, vazio e aparvalhado. Quase sempre, enveredará por outros caminhos que se afastem da bajulação do leitor: o leitor é, continuará a ser, por incrível que pareça, a medida de toda a escrita.

Criador e criação, sendo um outro e outro um, numa dança sem fim rodopiando convulsivamente ao som de uma música gravada a fogo na memória coletiva da humanidade. A lassidão das peias deterministas, que libera loucos e dementes das pesadas correntes do determinismo social, faz destes os potenciais inovadores mais fecundos de entre os criadores. As obras de ponta serão o resultado, cruel e vazio, de mergulhos, em apneia, de pescadores descomprometidos no profundo e vasto inconsciente. Pescadores

sem rede, de pérolas inúteis.

Tudo o que fazes se liberta do que somos. A autoria é sempre uma obra coletiva sem autor. Inimputável. O que a IA nos vai trazendo, aos trambolhões, não é senão o acentuar e adensar deste pastoso manto que vai transportando e moldando a nova literatura. Resta-nos a voz. A voz que a tecnologia nunca encontrará.



(texto, sobre o tema "o fim da literatura", da Espúria, lido pelo Paulo Moreira no encerramento da Feira do Livro de Olhão)

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publicado às 15:33


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