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De onde descem os cabelos que envolvem a noite

que subtraem imaginação às falhas do nosso Outono?

 

O espantalho que se ergue na tarde poeirenta anuncia

escrúpulos estilhaçando o tempo na parede

de vidro onde os cabelos se refletem devagar.

 

As ruas enchem-se de putrefação que embriaga a noite,

o vento manipula os filamentos que a música anuncia

desde a casa silenciosa, ordenando os solavancos do devir

plasmados nos dias sobressalentes do espelho inútil. Inútil

porque reflete o que já existe nos paramentos que a luz

enverga revelando a nudez dos ossos.

 

Continuam a atravessar a cortina que separa

a violência da claridade. A escuridão é apenas um sussurro

na convivência inexpressiva dos pássaros migrantes.

Uma viagem em redor da consciência moral das catedrais,

momento compósito num puzzle construído ao acaso,

uma viagem pela margem do todo inacabado, confronto

com a impossibilidade de abarcar a vida que emerge do caos.

 

Às vezes a solidão torna-se o tema específico das escrituras

 que comandam o lento fluir das partituras imbecis da multidão

oculta. É na aridez das sombras que os novos dragões

do templo parem os descendentes das criaturas que rasgaram

os códices do silêncio. Serão os nasciturnos do mundo novo,

os portadores dos cabelos malditos que descem ao abismo

sangrento, cabouco instável na estrutura brutal dos sonhos.

As linhas soltas que ocultam as palavras indicam os limites

para a imaginação tentacular do pesadelo estético e paranóico.

 

A loucura desenvolve-se na rede que autoriza a complexa

aparição dos cabelos sorvendo as raízes da noite.

 

M.G.    21-09-2011

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publicado às 22:38


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