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Não há, não conheci ainda, ninguém como eu a cozinhar couve dourada, a bem da verdade, não se trata de couve, mas de repolho. Talvez porque tenha sido eu a inventar a receita. E é tão fácil confecionar! Talvez por ser tão fácil, ninguém se interesse por aprender a cozinhá-la. A facilidade é uma impostora e, por isso, afasta os que procuram. Aloura-se, no azeite, a cebola em rodelas finas, junta-se o repolho também cortado em rodelas. Quando o repolho fica cozido, junta-se-lhe mostarda de Gijon, quer dizer, de Dijon, e curcuma bem amarela qb. Mistura-se tudo bem com uma colher de pau (a mesma colher com que se iniciou o alourar da cebola) e acrescenta-se o sal. Pouco, que os tempos não estão fáceis para o sal e para os seus apreciadores. A saúde escraviza-nos. Finalmente juntam-se os ovos mal batidos com pimenta preta e folhas de orégão. Sempre revolvendo todo o composto, desliga-se o fogão quando o ovo está cozido. O resultado é uma fusão deliciosa que espanta sempre os comensais. O que não correu nada bem da última vez foi que quando guardava a mostarda no frigorífico a deixei cair no meio da cozinha: havia vidros e mostarda por todo o lado. Depois de tudo limpo, vidros e vidrinhos difíceis de encontrar espalhados pelo chão, juntei-me à mesa feliz que me acolheu como a um herói.



Da cozinha escapava-se um ligeiro odor a mostarda.

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publicado às 14:16

Do Determinismo Literário

por vítor, em 02.06.23

 



A cena literária nacional é tão pequena, tão circunscrita, que, quando te pões a falar mal de alguém, se te descuidas, já estás a falar mal de ti próprio. E, para teu alívio, e espanto, isso sabe-te tão bem!

A literatura deixou de servir para inquietar ou contaminar. Sabemos, no entanto, que os agentes literários, leitores, escritores, editores, livreiros, críticos, entidades oficiais e oficiosas, premiadoras do mérito e do demérito, formatados pelas correntes redutoras dos meios artísticos, ao menor desvio da regra não inscrita, do caminho já pisado, fremem de indignação e malham

nos que se atravessam nesta estrada da inquietude oficializada e canónica.

Nada há de mais perturbador do que um sujeito em contramão na

autoestrada. Nadando contra a corrente do rio grosso e manso.

O novo escritor será um mártir literário. Não lhe bastará a pobreza e a inutilidade das escritas, ainda precisa de ser maltratado por leitores, pares e críticos. Quanto mais desconsiderarem e rebaixarem a sua escrita, mais feliz se sentirá. Como a um mártir, o castigo só reforça o martírio: curiosamente, e a cultura judaico-cristã-islâmica é terrível e exemplar nestes domínios do martírio, castigador e castigado, escritor e leitor, retiram prazer do castigo.

Quando alguém elogia o escritor, por caridade, dever ou admiração, vê-lo-emos a planar, sem chão, vazio e aparvalhado. Quase sempre, enveredará por outros caminhos que se afastem da bajulação do leitor: o leitor é, continuará a ser, por incrível que pareça, a medida de toda a escrita.

Criador e criação, sendo um outro e outro um, numa dança sem fim rodopiando convulsivamente ao som de uma música gravada a fogo na memória coletiva da humanidade. A lassidão das peias deterministas, que libera loucos e dementes das pesadas correntes do determinismo social, faz destes os potenciais inovadores mais fecundos de entre os criadores. As obras de ponta serão o resultado, cruel e vazio, de mergulhos, em apneia, de pescadores descomprometidos no profundo e vasto inconsciente. Pescadores

sem rede, de pérolas inúteis.

Tudo o que fazes se liberta do que somos. A autoria é sempre uma obra coletiva sem autor. Inimputável. O que a IA nos vai trazendo, aos trambolhões, não é senão o acentuar e adensar deste pastoso manto que vai transportando e moldando a nova literatura. Resta-nos a voz. A voz que a tecnologia nunca encontrará.



(texto, sobre o tema "o fim da literatura", da Espúria, lido pelo Paulo Moreira no encerramento da Feira do Livro de Olhão)

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publicado às 15:33

Rio da Morte

por vítor, em 09.05.23

O pus que escorre desta ferida aberta inicia o rio. Onde começa a dor de me tornar velho. Sim, na ferida aberta, a nascente deste rio sem esperança, a viagem cansada por terras estranhas, traga a planície lenta em meandros de sangue azul cobalto desenhando veias e artérias rompendo a pele. O mar imenso da morte espera a corrente que o procura. Tudo desliza para o mar sem fim. Tudo se despenha na renúncia de continuar. É desespero e sapiência a torrente de lama que arrasta os últimos a sorrir. A cobarde morte esconde o trabalho intenso dos vermes devorando a carne devoluta. A podridão da vida.



Oceano emético de pus iridiscente, lavoura sanguinolenta castrando os antigos temores a deus. Nebulosa opaca ardendo no fim dos dias, atraindo os ossos dos defuntos ao abismo das árvores petrificadas, onde o vento range nas folhas tatuadas pelo verbo insano, verborreia inútil no clamor do silêncio. A morte sempre vence as desvalidas carcaças nauseabundas, envergando os paramentos dos profetas fraudulentos como são todos os videntes encartados.

Quando o rio se perde na lagoa que engole a vida, os patrões da noite sem memória atingem orgasmos monumentais roçando o renascimento das almas eméritas. São portas sólidas as que te oferecem para arrombar.

16/17.2.2023

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publicado às 01:07

heróis de antanho

por vítor, em 09.05.23

Se a superação do que julgavas impossível te levar ao trono dos heróis de antanho, podes acenar do alto dos teus sonhos aos que te precederam na cruel jornada.

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publicado às 01:06

...

por vítor, em 09.05.23

O poema nem interroga, nem responde: o poema é um resgate impossível do nada.



O poema nem interroga, nem responde: o poema é um resgate impossível do nada. Uma porta aberta para o vazio. Ainda antes de ser dito, já fede a cadáver santificado. Antes de escrito revela já a cicatriz que o devora. Só o poeta desconhece a inutilidade da criatura neófita. Tudo o que resta dessa criatura será um rasto de sangue e sombra. Uma cicatriz feita estrada que nos conduz e oprime: um desfiladeiro de dor, grito, escorrendo para a noite. Sentado nas bordas do penhasco, o poeta crê que as acelerações da corrente são o resultado da força impagável das palavras. Varado pelo destino entontecido, perecerá.



março de 2023, Cativa

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publicado às 01:01

Na noite a sua foz

por vítor, em 09.05.23

Se um rio transporta a tua indelével solidão, é na noite a sua foz. Muitos levarão candeias para te procurar. Sem saber que é na luz que se esconde o olhar suspenso das sombras.

Não podemos esquecer o fluir dos dias isentos de dor, inúteis e de efeitos secundários maléficos. Não podemos deixar de saudar os que confortáveis navegam à boleia da corrente.

- adeus amigos, tornaremos a ver-nos no passado! Abracemos o que nunca conhecemos. Adeus!

É então que surgem na paisagem inclemente os indigentes palavrosos exibindo roupagem já gasta pelo futuro. Mentem com a sabedoria misteriosa dos bichos acantonados na tua cabeça. Rompemos a fina película das imagens e atravessamos para o interior desconhecido apenas acessível a quem já morreu.

Pela estrela irregular que o corpo rompeu na citoplásmica fronteira, a luz ilumina as trevas onde navegarás o passado irrecuperável. A quietude dos teus sonhos é um resgate impossível do amor.



Cativa, 21.03.2023

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publicado às 00:57

La liberté du Chien

por vítor, em 09.05.23






Enquanto passeio o meu cão, vamos sempre falando em francês. É um hábito que temos desde há muito: eu em voz alta, deliciando os transeuntes que connosco se cruzam (coitado, nem animal o salva); ele sem emitir som algum: parle avec les yeux. A vida dos cães não é muito diferente da dos homens: cheirar merda nos caminhos, o cu dos seus semelhantes e mijar por todo o lado marcando território. Até uma trela nos conduz pelos destinos que trilhamos. Quando cheiramos um osso, somos capazes de esgravatar a terra e desenterrá-lo mesmo a grandes profundidades. A terra e as pedras esgravatadas atiradas para cima dos outros, cobrindo de pó as superfícies. Sujando quem se atravessa. Viens! Ne me quittes pas! O meu cão é teimoso como uma pedra. É quando tenho pressa que ele mais se aprimora na sua atividade arqueológica. Chega mesmo à arte da espeleologia. Se lhe desse tempo chegava à Nova Zelândia. Às vezes, tenho que ser bruto e puxo-lhe a trela com força. Esganando-o. Tu me emmerde, chien! Olha para mim com os seus olhos tristes de incompreensão e faço-lhe umas festa como que a pedir desculpa. Mon ami. Escusez moi! Quando era novo, o canídeo, andava à solta pela quinta e pelos campos em redor. Era feliz! E eu também: porque o via feliz e porque não tinha que o passear pela trela. Só que, como seria de esperar para um humano medianamente inteligente, cão à solta igual a problemas à solta. O malandro começou a frequentar quintas vizinhas com galinhas livres e a trazê-las para casa. Quer dizer, a trazer as suas carcaças. Um dia a minha mulher tropeçou numa metade de galinha à porta de casa. Partiu os dois dentes da frente do maxilar superior e a brincadeira custou-nos para cima de quinhentos euros.Outra vez apareceu-me a GNR em casa com uma queixa de um vizinho que tinha sido perseguido pelo Matrix na sua zundhapp. E, o que determinou a sua vida futura, foi a cena bíblica com que me deparei um dia quando cheguei a casa depois de um duro dia de trabalho: uma mulher gorda, enorme, de grande chapéu de palha, esperava-me com uma galinha gigante pendurada numa mão, enquanto com a outra geria os saltos raivosos do animal, com um valente cajado sem moca. Lá acalmei o cão, arretez toi, tais toi!, e a mulher com uma nota de 20 euros. Era galinha do campo e já estava encomendada na cidade. Ainda ponderei pedir a demonstração da prova do crime, mas, conhecendo bem o criminoso, achei por bem não o fazer. Conflitos com vizinhos são o pior dos infernos da vida no campo. O próprio homem da mulher da galinha, disse-mo um outro vizinho, já tinha ameaçado dar "um tiro no cão e outro no dono". Uma tarde, já bem tarde, depois de desaparecido por três dias, o pobre animal, chegou a casa, desorientado e em pânico, com uma corda atada ao rabo com meia dúzia de latas dependuradas. Tive que tomar decisões drásticas e, quanto a mim, acertadas: criminoso em prisão preventiva, de factum perpétua, no quintal, e longos passeios pela quinta com a caçadeira do meu avô ao ombro. Não disparava, a dita, um tiro há mais de 50 anos, mas isso só eu o sabia. O presidiário era contemplado com dois passeios diários pela trela. Exigia-os quando chegava a hora e parecia tão feliz quando passávamos a portada retentora que me parecia mais feliz com esta nova situação do que quando era totalmente livre. A liberdade a conta gotas torna-se num vício definitivo. Continuámos, é claro, a conversar na língua de monsieur de La Palice.












 

 

 


 



 




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publicado às 00:55

vanity press

por vítor, em 09.05.23
Com as vanity presses, ao menos sabe-se ao que se vai. Funcionam, nos dias que passam, quase; na poesia, quase sempre; da mesma maneira do que as editoras tradicionais, mas não conseguem ocultar o rabo. As outras, sérias, são especialistas em camuflagem de partes baixas. As primeiras, ao menos, poupam os amigos...

Havendo dinheirinho, haverá circo. E se o circo não for vistoso, mudam-se os palhaços.

vanitas vanitatum et omnia vanitas.

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publicado às 00:47

O incómodo pólen das flores.

por vítor, em 09.05.23

O pólen das belas flores, dos magníficos arranjos florais, que tão gentil e genuinamente são ofertados em ocasiões especiais, em rituais institucionalizados; ou, simplesmente, como forma de afeto; é, delicadamente, extirpado por sapientes mãos. É só para evitar os espirros. Já viram o que era toda a gente a espirrar numa capela mortuária? Ou numa cerimónia matrimonial? Ou na posse do senhor presidente de alguma coisa! Ou na apresentação de um livro de poesia!



A autenticidade é uma intrusão indesejada na cultura.

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publicado às 00:46

ombro algum

por vítor, em 15.03.23

Nunca conseguirei chorar em ombro algum. Parto e uma parte de mim fica. Resiste.

Eu mesmo plantei a flor que dei

no dia em que resolvi partir, iniciar a caminhada para esquecer. Sei que nesse caminho procurarei a distância que me poderá trazer o esquecimento, uma jornada tão longa quanto possível. De bermas envenenadas por palavras cruéis e falsas, por margens lamacentas onde crescem sacerdotisas profanas. Não sei se o sabor das ervas mastigadas, o odor intenso da daninha fragrância, é o que se desprende da pele, se o vazio que, sobressaltado, transporto . Se as sombras que me ocultam o caminho serão obstáculos insanos que a tristeza impõe, se balizas que me conduzem ao longo estertor da ausência. Seguirei, no entanto, sem olhar o que para trás ficou, levando apenas as minhas lágrimas de alegria. O antes não perturbará o que hoje conduz ao amanhã: o futuro não existe sem as inquietações de quem amanhece no princípio dos tempos, nem acorda sem esfregar os olhos como se tudo fosse como era antes de ter acontecido. Tudo renovado como se aprendêssemos a renegar a garantia do retorno. Do regresso ao que já não existe: mesmo que o queiras, que nós o queiramos, nada se mantém como era! Da manutenção do eterno emerge a potência que gera a mudança, que varre o passado e faz emergir, na onda imparável, medonha e terna, o coração que carrega a dor de se querer inerte. Riem as magnólias nas ruas desertas. O ser que erra envolto em luares sombrios derrama pelas calçadas húmidas o clamor dos peregrinos perplexos, o clamor dos maestros insolventes. Vou para além dos pensamentos antigos, onde delírios se decompoem em silencioso pulsar de desprezo. Onde a última vez foi um casamento entre opostos divinos. Não chovera nos primeiros alvores dos dias infelizes. Nunca conseguirei chorar mais do que o sacrifício dos meus dedos cansados. Os rios morrem, e, por isso mesmo, as dores dos que mortos transportas e vivos permanecem são vozes mais rebeldes do que as de vagabundos à procura de poetas da verdade, poetas exibindo a sapiência da tragédia, renegando o poder de convocar as resistências da maldade.

Um dia voltarei ao lugar que nos prende e arremessa no precipício da noite virginal.



Cativa, 19 de dezembro de 2022

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publicado às 15:58


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