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três vezes Marraquexe

por vítor, em 15.12.25
Fui a Marraquexe três vezes. A primeira, em 1983, à boleia e de comboio. Desci na cidade com um dos meus maiores amigos, o Pedro Arroio, que já só nos acompanha no coração, depois de uma longa e indescritível viagem desde Meknés em terceira classe com bancos de madeira. Tudo fizémos, rejeitando toda a espécie de guias dedicados, para nos perdermos na medina. E tantas vezes o conseguimos como o desconseguimos, como dizia a outra. Jovens sem preocupações com o futuro, dormíamos na açoteia de um riad desprezível, mas de biliões de estrelas. O regresso foi horrível, o Pedro adoeceu e Marraquexe ficava num outro mundo. A viagem à boleia durou semanas e a febre só baixou quando atravessámos o Guadiana de barco para a nossa margem.

A segunda, em 1985, foi de carro. Um velho Renault 4, de traseira arredondada e generosa para mochilas e dormidas de ocasião. Éramos 2 rapazes e três raparigas. Uma delas já tinha ocupado o meu coração para sempre. O outro miúdo era, e é, o meu mais antigo amigo, desde a aldeia genética até ao mundo, das outras duas meninas, que enloqueciam os autóctones, podemos dizer que eram do Norte, Gaia e Famalicão, e que uma faz anos hoje. A viagem foi, como não poderia ter deixado de ter sido, com cinco jovens e um 4L, aventurosa e mágica e, só para vos dar um cheirinho, vou-vos relatar dois momentos da nossa estadia na cidade vermelha caricatos e cómicos: quando chegámos, instalámo-nos no riad Essaouira, onde eu, já, e único, conhecedor da cidade, dormira por noites na tal açoteia estrelada, num quarto para cinco. Na primeira noite as baratas eram tantas que o chão parecia negro. As meninas aos saltos em cima dos frágeis divãs, os heróicos rapazes de jornais dobrados em riste esmagando e desbaratando, literalmente, os omnipresentes insectos. No último dia quando nos deslocámos para a generosa viatura que, acauteladamente deixáramos perto de uma esquadra de polícia, e por onde passámos uma ou duas vezes durante a semana de estadia na cidade, para ver se estava tudo bem, dirigiu-se-nos um sujeito a informar-nos que tinha estado a guardar o carro durante a sua permanência no local. Exibia, até, um crachat que, supostamente, lhe dava autoridade legal para o referido serviço prestado. Alegámos que não tínhamos requerido o serviço e, atabalhuadamente, perante os protestos veementes do guardador de automóveis e uma chusma de curiosos que se aproximava do local da discórdia, quiçá cúmplices do despeitado, metemos a tralha que trazíamos no carro e acomodámo-nos na viartura. Quando o condutor deu à chave, uma, duas, e mais umas quantas vezes, o dimarré não deu a resposta desejada. O carro não pegava! Tivémos que recorrer à mão-de-obra ali à mão, passe a redundância, para empurrar o carro e o pôr a trabalhar com sucesso, depois de bem os remunerar antecipadamente, brincas!? Deixámos a cidade, com o carro aos solavancos, saudados com aplausos, festa e apoteose. A apoteose dos espertalhões europeus, claro.

A terceira vez, na sexta-feira, cheguei a Marraquexe de avião. Um horita desde a capital do reino dos Algarves. Nada de especial para contar das viagens: uma hora para lá, uma hora para cá. De resto, tudo continua igual: viagem com amigos e uma medina caótica, exótica e fervilhante. Seguramente mais turistas e mais motas e menos burros e carroças. Mais fumo e menos bosta.

Tão rápido como ir de Tavira a Portimão.

Parabéns Henriqueta! Minha Quitinha!

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publicado às 14:01

A viagem é uma terra estranha

por vítor, em 15.12.25
Sempre me irritou que os que vinham da cidade à minha aldeia soubessem falar das suas belezas e idiossincrasias melhor que eu e do que os que nela viviam. Falavam da aldeia como eu nunca a tinha visto nem pensado. Mais tarde, quando já tinha viajado até às cidades longínquas, e voltava à terra que me tinha visto nascer, também eu via e sentia coisas que nunca tinha visto e sentido antes. O inebriante cheiro da flor de laranjeira. O silêncio denso das alfarrobeiras. O corte de cabelo dos homens. O cheiro inimitável das tabernas. Os lenços cobrindo as velhas. As camisas de franela aos quadros dos pescadores. A melancolia dos caminhos. Quando voltei a primeira vez, sentia-me um estranho na minha própria terra. Até, no meu corpo. E esta nova perspetiva ainda mais me doía do que a que sentira em criança perante a opinião dos forasteiros de antanho. Tão infeliz e triste que jurei nunca mais sair das suas fronteiras porosas. E quando a aldeia se afastou dos seus antigos moradores, tornei-me um forasteiro numa terra nova. Já não saio dela quando saio dela.

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publicado às 13:48

De lambreta voo

por vítor, em 15.12.25

Levantei-me tarde, como sói acontecer aos poetas num país de poetas, e voei de lambreta até à cidade. Ia oferecer o meu novo livro escrituras a uma amiga. Quando se chega de lambreta à cidade, nunca há problemas de estacionamento. Deixei o motociclo no passeio em frente à casa da minha amiga e toquei a campainha. Espreitou à janela do 1.º andar uma moça nova, bonita e simpática, pedi desculpa pelo engano. Premi a tecla do outro lado e ouvi um clique de porta a abrir no referido andar. Subi constrangido pelo estado em que, supostamente, iria encontrar a minha amiga: sofria de doença cancerígena grave há uns meses. Quando atingi a porta certa, esperava-me sorrindo. De barba e bigode, de pelos à volta dos olhos, sem dentes, de rosto amarelecido e de barriga proeminente. Sorria! As radiações que curam também são as mesmas que matam. A mim só me vinha à cabeça o monstro da bela e o monstro. Sorria! Sorri! Cumprimentámo-nos como sempre. Como se nada do que estivesse a acontecer estivesse a acontecer. Mentindo sem palavras, com apreço um pelo outro. Como fora em dezenas de vezes, em outras circunstâncias.



Ficou muito sensibilizada com a minha oferta. Agradeceu! Agradeci!

Descuidei-me e perguntei-lhe como estava. Que estava bem. Tinha ido ao tratamento no dia anterior. Disse-lhe que, se quisesse, não falássemos nisso.

Queres um café?

Sim, pode ser. Estou com pressa, tenho uma reunião às 4, menti-lhe. Sem saber quanto tempo ia aguentar e preparando a fuga. Levou uma eternidade a fazer o café. Talvez gozando a presença. Quem só sai quando vai ao hospital deve apreciar as visitas.

A casa dava para o rio e entretive-me a ver passar os transeuntes na borda d`água. Quase todos turistas. Como se de um filme se tratasse. Passavam para não mais voltar. As águas da maré subiam a grande velocidade. Marés vivas: Lua Nova: Lua Nova e Lua Cheia maré alta às duas e meia, dizem os antigos. Peguei nuns binóculos que estavam numa estante perto da janela e olhei as margens do rio. As esplanadas dos restaurantes, cheias àquela hora de sol radiante.

Costumo espreitar os caranguejos violino na maré vaza, com eles. Este ano acho-os mais pequenos, não sei bem porquê. Com o café nas mãos. Sorria.

É ainda primavera, no verão serão maiores, aventei, sem que percebesse, ou me interessasse saber, alguma coisa de caranguejos.

Sentámo-nos à janela a tomar o café. Estava bem quente. Como o tempo que parara.

Disse-me que quando ia ao hospital, quando saía, punha a máscara para esconder as pilosidades faciais. Toda a gente o devia fazer, acrescentava eu. Com as bactérias que se apanham por lá.

Falámos dos filhos, dos animais domésticos que tínhamos e dos que tinham partido (não dei pelo gato que sempre teve), de alguns amigos comuns. De alguns, com pinças da minha parte, que haviam falecido. Da autópsia (sempre a morte a vir à tona da mente) que ela, com a minha incompetente assistência, tinha feito a uma araucária da Quinta da Cativa, que, depois de anos de crescimento vigoroso, tinha secado (bem contornada a morte hein) de repente. Autópsia inconclusiva, como era de esperar. Disse-lhe que me ia reformar este ano e ficou contente com isso. Vi-lhe nos olhos.

Acabámos o café em silêncio.

Ainda fumas, perguntou-me enquanto acendia um cigarro de enrolar.

Não, há cinco anos que não pego num cigarro. Com remorsos do tamanho de um pedregulho incontornável.

Há muitas formas de morrer, pensei eu.

Bem minha querida, tenho que ir. A maldita reunião, menti-lhe sem remorsos evidentes.

Despedimo-nos como sempre! Talvez para sempre.

Desci as escadas com os olhos nublados da dor. Dei à chave da lambreta e cavalguei-a para longe. Tão longe que não sei aonde fui parar.



Cativa, 9.5.24

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publicado às 13:25

o pranto do crocodilo arrependido

por vítor, em 15.12.25

O pranto que por aí vai com o passamento do Jornal de Letras. Meus amigues! Foi só o desligar da máquina: o ruim defunto já estava em estado comatoso há muitos lustros. Acreditem que, talvez assim, possa surgir uma criatura neófita das suas cinzas. Do caldo literário que repousa frio e quedo, neste país acomodado, vai ser difícil nascer algo. Mas acreditemos! Pior, asseguro-vos, não ficamos. E, é sempre bom recordar: é da podridão que emergem as melhores árvores. DEP.

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publicado às 13:20

Acabei de ler a biografia do Herberto Helder, pelo João Pedro George, Se eu quisesse enlouquecia, e gostei muito. Gosto de biografias agrestes e que não bajulem, ou beatifiquem, o autor. Tem falhas? Tem, como todas as biografias. Quem quiser mergulhar na Lisboa do último quartel do século XX, tem aqui um filme denso e fluído, movimentado e pormenorizado da vida nos cafés de muitos dos nossos artistas mais conhecidos.

Só um caso delicioso descrito no livro que cito de memória: tendo saído um livro de António Ramos Rosa, amigo do biografado e seu primeiro crítico, com uma apreciação bem positiva, que foi, vagamente, acusado de conter poemas plagiados a Helder, o poeta algarvio atira-se de uma janela, tentando pôr fim à vida. Por sorte cai em cima de um robusto arbustro que lhe salva a vida. Por acaso, passa na zona da ação uma sua vizinha a poetisa Maria Teresa Horta. Vendo o despeitado escritor aflito, entra num café e telefona para os bombeiros, ou para o 112, ou para a polícia, sei lá. Para espanto das entidades referidas e dos atónitos presentes no café, põe-se, aflita, a gritar para o bocal "depressa, venham depressa! Está um poeta pendurado numa árvore!"

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publicado às 13:16

da deformação do antropólogo...

por vítor, em 15.12.25

A minha deformação de antropólogo faz-me, muitas vezes, deixar o conforto do sofá para, curioso, assistir a eventos estranhos e singulares. Hoje, para mergulhar no maior espetáculo jamais havido em Tavira, lá fui ao tão publicitado concerto dos Calema. Não conhecia nenhuma canção, mas lá me meti a caminho. Como conheço a cidade há muitas décadas, não me foi difícil arranjar um lugarzinho fácil e relativamente perto do evento. Constatei que, realmente, se tratou do maior concerto já realizado na cidade, e manifestamente muito profissional e eficaz. Ouvi os dois primeiros temas e fui-me dali beber uma cerveja ao centro da cidade, estranhamente calmo. No caminho, a análise antropológica foi-me remoendo as sinapses. Paradoxos da vida: milhares de pessoas, sendo no Algarve, e tendencialmente jovens, mais de metade, seguramente, votantes no chega, celebrando dois rapazes negros, imigrantes, de S. Tomé e Príncipe cantando canções com sonoridades africanas! Como quase sempre, a abordagem do antropólogo traz mais, e mais difusas, dúvidas e questões do que interpretações aceitáveis. Já a cerveja só apresenta uma simples questão: sagres ou super bock?

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publicado às 13:14

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TERESA RITA LOPES
Há pessoas que atravessam a nossa vida como torrentes de luz e nos arrastam pelos caminhos da sabedoria e do amor, que, afinal, são os mesmos, só que por voltas e veredas diversas. A Professora, Mestre, Teresa Rita Lopes foi, e será sempre, uma dessas pessoas luminosas e boas que alumiam os terreiros por onde passamos.
Teresa Rita Lopes, algarvia de Faro, acompanhou a vida da Casa Álvaro de Campos durante quase 40 anos, participando e organizando sessões de poesia e conferências sobre Álvaro de Campos e, o seu criador, Fernando Pessoa, desde 2010 até ter adoecido gravemente em 2022. No aniversário do heterónimo nascido em Tavira, no dia 15 de outubro, fazia sempre questão de estar presente. A poetisa e professora era madrinha da Casa Álvaro de Campos e sua sócia honorária, e, quando a doença a encerrou em si mesma, no ano de 2022, preparava, com a sua equipa de investigadores pessoanos e com a direção da CAC, um congresso internacional sobre Álvaro de Campos.
No início dos anos 60 matriculou-se na Faculdade de Letras e logo se envolveu nas atividades culturais da academia e da cidade, o que atraiu sobre si o interesse da PIDE. Em 1963, antes de ser presa pela famigerada polícia política, meteu-se no Sud Express e exilou-se em Paris. Na cidade das luzes, doutorou-se na Universidade Sorbonne Nouvelle com a tese “Fernando Pessoa e o drama simbolista — legado e criação”, e tornou-se professora na referida e prestigiada instituição. Em Paris, continuou a sua atividade criativa e literária intensa e apaixonada, tendo convivido, e conspirado contra o regime do Estado Novo, de forma cúmplice e solidária com a comunidade artística portuguesa exilada.
A sua tese de doutoramento irá ser o fio condutor da sua vida académica e de investigadora futura, fazendo de Teresa Rita Lopes uma das mais extraordinárias, inquietas e profícuas estudiosas de Fernando Pessoa. Segundo a Professora, antes dos seus estudos, ninguém conhecia Fernando Pessoa em Paris. Começou a vir a Portugal depois da queda de Salazar da cadeira e mergulhou a fundo, em apneia sôfrega, no baú deixado pelo poeta da Mensagem, único livro publicado em vida, trazendo-os, organizando-os e divulgando-os, à superfície, aos leitores, a maravilhosa, e sempre em reconstrução, obra do então esotérico e pouco conhecido poeta dos heterónimos. Consta até que, movendo conhecimentos privilegiados com o, à época, ministro da Educação José Hermano Saraiva, irmão do seu companheiro de então, António José Saraiva, conseguiu manter o espólio do poeta, prestes a ser adquirido para Inglaterra, em Portugal. Regressou a Portugal em 1976, tornando-se professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, onde chegou a professora catedrática e desenvolveu, com uma apaixonada equipa, os seus estudos pessoanos.
Para além desta intensa e apaixonada entrega aos estudos pessoanos, à Professora sobrou-lhe, ainda, talento e arte para escrever uma importante e diversificada obra de poesia, teatro e ensaios.
Ao longo da carreira, foi distinguida com diversos prémios, entre os quais se destacam, na poesia, o Prémio Cidade de Lisboa (1988) e o Prémio Eça de Queirós (1997), e no ensaio, o Grande Prémio de Ensaio Unicer/Letras & Letras (1989), o Prémio Pen Club (1990) e o Prémio de Teatro da APE (2001). Era membro da Academia de Ciências. Em 2019, recebeu a Medalha de Mérito – Grau Ouro – atribuída pela Câmara Municipal de Faro, e, em 2024, foi distinguida com a Medalha Municipal de Mérito pelo Município de Tavira.
Nascida em Faro e com família em Vila Nova de Cacela e Alcoutim, encontramos na sua obra estas sulinas paisagens da infância; as cores, os cheiros, os sabores, as brisas do seu Sul. A sua infância, a mãe e as tias, os velhos camponeses são o seu chão sagrado para uma criança que nasceu depois da morte do pai.
É pois, com profundo pesar, que nos temos de confrontar com a sua ausência física, mas com o eterno consolo de que a teremos para sempre nas nossas vidas, e que o seu legado será lembrado na história da literatura portuguesa.
Os seus olhos da cor do mar, a sua sôfrega procura de saber, a sua conversa solta sem fim e a sua gargalhada livre e feliz nunca se apagarão das nossas memórias.
Teresa Rita Lopes, pelo seu amigo Mário Botas

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publicado às 13:07

O fotógrafo de Cesariny

por vítor, em 15.12.25

O tempo passa sem as pessoas interferirem. Entro na casa do surrealismo e sou recebido pelo funcionário dedicado, outra vez. Publicita catálogos. Para depois.



Carrego no botão do elevador para o 2.º andar e subo sozinho. “Visto a Luz”, não resisto: é um telemóvel novo oferecido no Natal e registo. Splash, uma a uma. Talvez não possa, mas não há aviso algum e subo a rampa da galeria. Ascendo às voltas. Splash, splash, splash, as luzes que incidem nos pedaços do Mário refletem-se na máquina vindas das paredes que regressam outra vez. Estou a meio da subida escatológica e via-sacra da luz. Splash! O elevador escancara-se para mim e o funcionário dedicado, e diligente, atrapalhado, sai e admoesta: não pode!

Desculpe-me, não há aviso. Não tem flash, é só splash. Ficou a meio. O homenzinho, mais só do que nunca, desce até ao chão no elevador triste. Continuo a subir até ao fim. Mais só do que o próprio elevador triste.

Desço pela caixa vertical receando o funcionário dedicado, encalacrado. Não está ninguém na saída. Respirando o ar frio do carrossel de crianças que anda à volta do tempo, entro no cenário, exposto às pessoas que nunca interferem.

“Ama como a estrada começa”. Falta-me lastro trágico para ser coerente. Ser como as árvores no inverno.

Os catálogos? Ficarão para depois.



V.N. Famalicão, 29 de dezembro de 2011

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publicado às 12:59

Eu gosto de imigrantes

por vítor, em 15.12.25
Eu gosto de imigrantes, e, já agora, também gosto de emigrantes. Gosto de movimento de pessoas. Não gosto de muros a separá-las. Por mim, todas as fronteiras deviam estar abertas, mesmo escancaradas. Claro que os migrantes teriam sempre que cumprir as leis dos espaços por onde se deslocam. Então viriam em massa, chegariam de todos os lados, e seriam, até, mais do que nós, e seria o caos, diriam alguns, vá lá, muitos. Bom. Em primeiro lugar, só abandona a sua terra, e sempre com sofrimento, quem não têm condições na sua (não vêm para Portugal imigrantes suíços, ou canadianos, ou japoneses), e procuram sempre países desenvolvidos. Por experiência de 40 anos de ensino, sendo professor de imensos filhos de imigrantes, constatei, com tristeza, que grande parte dos imigrantes usa Portugal como plataforma para conseguir emigrar para outro país, os tais mais ricos. Passam um dois anos em Portugal e, quando podem, lá vão para a Suécia, Bélgica, Inglaterra e outros que tais. Em segundo lugar, as pessoas só vão para lugares onde possam arranjar trabalho e, assim, melhorar a sua vida e a dos seus. Podem bem estar as fronteiras escancaradas que, se não houver trabalho, ninguém as cruza. Finalmente, e muitas mais explicações poderiam ser avançadas para não haver deslocações massivas para o nosso país, o mal estar, injustificado, nas comunidades de chegada, como são exemplo as vitórias eleitorais, e a força crescente, dos partidos de extema-direita, racistas e fascistóides, levam a um refluxo dos migrantes.

Dir-me-ão: mas, teoricamente, com fronteiras escancaradas todos os migrantes que quiserem podem entrar em Portugal. Podem, teoricamente, mas nunca na realidade. Também, teoricamente, todos os habitantes de Lisboa podem tentar apanhar o Alfa das 16.20 para o Porto. Podem, teoricamente, mas nunca na realidade.

Há quem lhe escorram lágrimas pela face quando vêem a festa do Senhor Santo Cristo na Califórnia, levada a cabo por emigrantes açorianos, quando ouvem povos do sudoeste asiático trautear um "malhão malhão ", deliram com as igrejas católicas em Goa ou Macau, com ruínas de fortalezas portuguesas na costa africana, ou, ainda, com os nomes nos mapas de Península do Labrador, Flores e estreito de Magalhães. Já quando se encontram com um sickh com a sua cabeça coberta, uma festa de Eid-al-Fitr, uma simples mesquita, ou um elefante chamado Ganesha, desorientam-se e tornam-se violentos como aimais selvagens.

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publicado às 12:56

Nem de coisa nenhuma

por vítor, em 15.12.25

O homem é a medida de todas as coisas. Mas, o determinante artigo definido que antecede o axioma, aqui, é indefinido: o homem não sou eu nem tu: pode ser um homem qualquer. Nenhum homem é a medida de todas as coisas. Nem de algumas coisas. Nem de coisa nenhuma.



É, será?, por isso mesmo, que os limoeiros só dão limões depois de barbaramente maltratados: espancados com um pau dos duros, nunca de citrino, e, finalmente, se lhes espeta um prego no tronco. No lugar, se as árvores o tivessem, do coração.

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publicado às 12:55


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