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Power of God

por vítor, em 13.01.10

 

Deus é infinitamente mais perfeito do que a Al-Qaeda. Cem mil mortos e dezenas de milhares de feridos em menos de um minuto. Ainda por cima num dos mais pobres dos pobres: o Haiti.

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publicado às 23:35

Estava Frio na Tarde Poeirenta

por vítor, em 28.07.09

Estava frio na tarde poeirenta. Agarrou os sapatos e entrou descalço no cemitério. Algumas beatas místicas adoravam os seus mortos ruminando palavras silenciosas. Percorreu o corredor central e chegou-se à sepultura de uma mulher de óculos escuros sem lágrimas. Pousou os sapatos. Olhou as árvores repletas de caracóis e começou a assoviar baixinho. As beatas ruminavam a líbido esperando compaixão das almas inertes.

Passara um ano sobre a morte da mulher de óculos escuros sem lágrimas. Era a sua primeira visita.

O Outono descia as persianas. O Universo rodopiava, sem pressas, em volta do cemitério.

Subiu a colina suave da sepultura e sentiu os pés descalços a enterrarem-se na terra. À procura da raiz.

Há anos, quando repousava no seu regaço, sentia as mãos tremer de gozo. Lembrou-se das galochas que sempre quisera ter e nunca teve e que os rapazes da rua sempre tiveram.

Olhou o céu à procura de encontrar Deus a sorrir. Não existe. As beatas consumiram-No . Existe. Só existe o que se pode consumir.

Sentiu as mãos tremer de gozo. Os pés terrados .

Bruxas no sabat sem fim aproximaram-se do cemitério. Pensou nos mortos ricos e nos mortos pobres, que foram vivos pobres e vivos ricos. A loucura passa pela maior das normalidades quando tem um espaço onde se projecta. Só quando o pano de fundo desce, a loucura cai à rua: é doido varrido, vê pulgas na opa de sua majestade, quer saudar o infinito, satisfaz-se no vazio. A mais grave.

As viúvas místicas atingem orgasmos na penumbra das sepulturas.

Os espaços sagrados aparecem quando os seres do Além se fundem aos do Aquém e aqui começa o sabat. Fantasmas e vice-versa, num só, debatem os mais prementes problemas da Filosofia contemporânea.

Mãe, por que me abandonas-te? Acaricia-me os pés. Faz-me tremer as mãos. Vamos construir um mundo porreiro sem carimbos na consciência.

Parecia que o tempo não passara mas o Sol caíra atrás da parede do cemitério e como era preciso atravessar o ritual da morte para participar no sabat, o coveiro, homem devidamente encartado para tal, expulsou as almas do outro mundo para o outro mundo.

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publicado às 00:24

o maléfico e o restolho

por vítor, em 14.05.09

 

 

 

 

 

 Enquanto vou escarificando o restolho antigo encontro-me com gente diversa. Hoje foi o maléfico que rasgava as raízes do cereal ao meu encontro. A trajectória não era arbitrária. Era a mim que queria chegar. Deixei-o aproximar-se como se de nada  me tivesse sido possível descortinar. As cicatrizes que sulcávamos aproximaram-se perigosamente e encarei-o corajosamente. O que te leva a roçares os meus sentimentos desprezíveis, atirei à queima-pele. O que ouso é o impossível. É o que não quero nem posso desejar. A ti que ninguém possui nem qualquer dia possuirá. A quem nunca os deuses revelarão compaixão. A ti só pedirei uma palavra que me minimize a curiosidade que fere como brasa a alma que perdi algures. Deixa-me tocar nos sonhos que a penumbra obscurece e inebria. Quantos são os dias que levas escarificando o que resta? Que penas cumpres na imensidão dos elementos, na atómica imprecisão das palavras?

Recuei até poder não. E de longe, protegido pela incontornável panóplia de seres inexactos, dei a resposta que o tempo daria: vem sem medo do devir. Nem deus nem os demónios me entendem. A longevidade da esperança encontrará, um dia, sem espaço nas mentes envoltas em expressões que se contendem na noite, as alvas procissões dos indivíduos sem amor. Escarificaremos as plantas que sobejam da morte anunciada. De onde se levantarão os que alimentam a beleza e o encantamento.

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publicado às 19:35

O soluçar de deus

por vítor, em 16.03.09

Se tivessem tido um bateria como deve ser,  teriam ascendido ao mais alto patamar do Olimpo. Se não fossem eles teria sido o incompleto rapaz das aldeias insensatas. O que não diz quando sente a certeza das oblíquas afectividades avulsas. A sua presença foi alimento para almas esfomeadas na periferia do rebanho.

A revolução doi quando preenche os espaços vazios da solidão. Doi e corrompe a podridão do determinismo social.Do abjecto soluçar de deus.

 

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publicado às 22:55

Uma Epifania Anunciada

por vítor, em 13.07.08

 

 

Era uma epifania anunciada. Mesmo assim senti-me como Moisés perante a sarça- ardente, na península do Sinai. Deus chegou, como o anunciado, às 21 e 40. Nunca falou directamente à assembleia. Envolveu-a com parábolas, hipérboles, analogias e outras piruetas retóricas tão bem do agrado dos crentes. Deus antigo, não sorriu. Deus que sabe que só a Sua presença basta, não fez nada para agradar a quem precisa do espectáculo divino.

 

Tinha medo, medo da Sua presença. Nunca tinha estado tão perto de um dos meus deuses. Vivo. Um dos maiores. Ou talvez o maior. Zeus de um panteão não muito extenso.

 

Por norma, basta-me a Obra Divina. O encontro com Deus pode sempre constituir uma desilusão dolorosa e marcante até ao fim dos dias. Lembro-me amiúde da estória do sociólogo Jean Cazenneuve sobre o miúdo apaixonado por uma cantora de ópera, que a segue por todo o lado e que um dia, após um concerto, ganha coragem e invade clandestinamente os bastidores, para a abordar. Quando a encara, esta, está sentada na sanita a mijar. Toda a mágica se esvanece e o rapaz sai espavorido da cena deixando para trás uma mulher atónita. Nunca mais quis saber de óperas nem de cantoras de qualquer género musical. Os deuses também têm caspa...

 

Bob Dylan. Está ali. Um velhinho de vestes ridículas. Pernas abertas e tortas perante um  órgão baixo. São estas pernas que mais interagem com a música.  Uma voz roufenha e hoje incompreensível. Não mexe numa guitarra. Toca músicas que não conheço ou não entendo. As músicas que comigo atravessam os tempos são outras. Só a custo registo a balada de um homem magro (o melhor momento da liturgia). No final, como uma pedra rolante. A pergunta how does it feel, já não soa como uma pergunta. Like a Rolling Stone, já não soa como a resposta. No entanto as lágrimas assomam quando a harmónica soa na noite.

 

Registo com apreço a Sua recusa a envolver-se na sociedade em que tudo tem um preço. Nada de fotografias ou imagens para banalizar o mito. Ou comerciá-lo.

 

Desiludido? Não! Nunca! A um politeísta como eu. Na alma de quem os deuses são homens que se tornaram génios a obra é o que conta. Continuarei a evangelizar até ao fim. A Sua presença basta-me.

 

PS: Metido à  estrada com um filho de 18 anos, este on road again torna-se, por si só, outro momento mágico. Por ele o festival durou da 5 às 3 da madrugada. Eu não duraria muito mais e, quando o consegui sacar do cuduro dos BuraKa, estava à beira da rotura física e mental. Para um quinquagenário misantropo, 10 horas de festivais são demais. No entanto, hoje em que escrevo estas palavras, sinto-me muito reconfortado na minha auto-estima por ter aguentado tanto…

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publicado às 15:15



Completo hoje cinquenta voltas ao Sol. Uma viagem extraordinária pelos meandros infinitos do Universo.

Como todas as partículas que me acompanham, o meu complexo sistema atravessa campos favoráveis e adversos, felizes e  infelizes, eufóricos e deprimentes. Porém a viagem prossegue na esteira do autoconhecimento e da aventura sem rede: sem Deus. O amparo na longa deriva espacial será sempre o dos que quero e que me querem! As almas que transporto nesta confusa caminhada...

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publicado às 13:54

O patriarca e eu

por vítor, em 26.12.07



O Cardeal Patriarca de Lisboa D. José da Cruz Policarpo declarou, na sua homilia, que o "maior problema da humanidade é a negação de Deus". E insistiu que "todas as expressões de ateísmo,  todas as formas de negação ou esquecimento de Deus continuam a ser o maior drama da humanidade..."


 

Não me sabia tão perigoso para com a humanidade e o mundo! Ingenuamente pensei que problemas reais e muito preocupantes seriam os homens que se fazem explodir no meio de outros homens em nome de deus, as instituições religiosas que recusam o uso das camisinhas que poderiam impedir o alastramento da sida e outras coisitas do género.


 

Afinal a propagação do mal está em mim e noutros não crentes como eu. Ou será que o homem  tinha abusado do sangue de Cristo?



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publicado às 23:36

E o homem criou os deuses

por vítor, em 23.10.07

 

 

 

O homem criou deus ao longo de milénios. A obra é o que é. O homem o fez o homem o fará desaparecer. Perecerão juntos... e parece-me que, como sempre, a desconstrução  será mais rápida do que a construção. Muito mais rápida...

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publicado às 16:46


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