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almadrava atuneira

por vítor, em 21.07.13
 
Eu andava por aqui quando as filmagens se realizaram. Talvez com 3 anos. Depois descobri o filme quando entrei na FCSH, na receção aos caloiros. Cravei logo o António (Loja Neves) do Cine Clube Universitário para o trazer a Tavira. Eu o Mário Rosário e o António organizámos uma mostra de cinema em Conceição e este filme foi o grande acontecimento do ano, a primeira vez que era apresentado na terra que o pariu. Com o saudoso Zé Martins atrás da máquina de projetar fizémos sessões contínuas do filme em Conceição e em Cabanas. Havia sempre alguém que aparecia para o ver e os cabanense e os conceiçanenses não se cansavam de o ver, uma vez e outra. Muita gente via os seus familiares e amigos que já não lhes faziam companhia. outros reviam, ou viam pela primeira vez, entes queridos que mal tinham conhecido ou nunca tinham visto. Foi uma loucura. Um acontecimento hierofânico inesquecível...
Infelizmente perdi o cartaz da mostra que eu e o Mário tínhamos feito para o evento. Tudo à mão que computadores era coisa que ainda não tinha chegado ao SuL...
Este filme extraordinário de António Campos está no Museu do Homem, em Paris, como património humano de qualidade estética e valor antropológico únicos.

Toda a Armação da Abóbora, que é vista neste filme, desapareceu com um forte temporal nos anos 60. Nada resta nos areais da ilha...

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publicado às 02:14

a leste de tavira

por vítor, em 29.03.12

 

Agora, pelos caminhos pedregosos da Antropologia. O Algarve como nunca o viu, como um romance... Descarregamento gratuito. Capa ainda sujeita a retoques...

 

Dormiu 22 anos numa gaveta. Batida numa velha máquina de escrever. Resolvi-me, finalmente. a passá-la para o computador. Noites à lareira a reviver o passado. Duplo passado: o destas terras do fim do mundo e o meu. Cá está o resultado em mais uma edição Cativa.

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publicado às 15:28

No dia 23 de Abril de 1974, o meu irmão entrou para a tropa no Quartel da Atalaia em Tavira. Tinha o destino traçado: a Guerra Colonial. A família destroçada. Dia 25 de Abril tornou-se um soldado de Abril. A festa foi total.

 

Dia 25 de Abril, o meu pai escrevia no pontão que atravessa o ribeiro da aldeia "Viva Spínola". Passados alguns dias  caiava o nome que tinha grafitado antes e discursava na Casa do Povo da aldeia que lhe corriam nas veias glóbulos brancos, glóbulos vermelhos e glóbulos socialistas...

No 1º de Maio de 1974, eu e outros rapazotes como eu pintámos uma enorme faixa onde se lia Viva a Liberdade e fomos a pé, gritando "o povo unido jamais será vencido, até Tavira para a grande manifestação que aí se realizou.

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publicado às 18:24

descansado*

por vítor, em 01.08.10

 

Fui hoje, sob - que mais parecia sobre -, um sol escaldante, "acompanhar" o meu amigo Mané até ao cemitério da Conceição. Há alguns anos que pouco falávamos. No final da adolescência, eu saltei do seu barco, ou melhor, foi ele que saltou do nosso barco, que abandonou a navegação à vista, e enveredou por uma rota que nos trouxe até aqui. Eu vivo e perturbado. Ele defunto e sereno.  O contrário das suas vidas. Ele caminhando à beira do precipício. Gozando o medo dos outros e sua própria vertigem: o suicídio lento e doloroso da embriaguez permanente. Da festa sem fim. Vivia sozinho desde cedo. A morte prematura do pai e a migração da mãe (com a irmã) para a Suíça dava-nos, egoístas, um fantástico covil para as piratarias da juventude. Depois de noites memoráveis pela praia e os bares de Cabanas, recolhíamos a sua casa até a madrugada desembocar no dia. Noites de muita loucura. Noites incontáveis. Eu,e outros, sabendo que a festa não é eterna fomos entrando, aos poucos, na vida séria. O Mané continuou o seu percurso até ao fim.

Fininho, de rabo de cavalo longo, sempre de negro era das figuras mais carismáticas de Cabanas. Sobretudo da noite. Com uma alegria transbordante e um humor inteligente, seco e corrosivo, ninguém lhe ficava indiferente. Não havia visitante da povoação que não o viesse a conhecer. A sua vida intensa e no fio da navalha não o impediram de trabalhar sempre. Como barman (sic), empregado de cozinha, empregado de mesa e outros ofícios ligados ao turismo. Namorador e apreciador da beleza feminina, o amor de uma austríaca (conhecida na noite local), leva-o à Áustria onde vive algum tempo trabalhando em restaurantes. Volta revoltado com vitória da extrema direita. A degradação das bordas do precipício levam-no, cada vez mais, a aproximar-se do fundo. Uma amiga minha tinha-o visto há poucos dias numa cadeira de rodas empurrada pela austríaca. Pensei ir vê-lo à "nossa casa". Tinha medo de o encontra no limbo. Ontem na feira da Conceição, e na noite de baile e cerveja que lhe está associada, soube da notícia. O Mané tinha partido para a terra de onde veio toda a gente e para onde toda a gente vai.

No cemitério, que une os mortos de Cabanas e Conceição, está parte da minha vida. Uns sairam no final da cerimónia. Outros ficaram. O Mané, com uma cerveja numa mão, coloca-me a outra no ombro, contorce-se ligeiramente e solta uma gargalhada que ecoará para sempre nas terras da ria.

 

*Nestas terras do Sotavento, quando alguém refere um falecido, coloca o adjetivo "descansado" antes do nome do referido não vá o dito vir incomodar o referente.

 

PS: Por ironia do destino, quando me meti no carro para ir "acompanhar" o Mané, liguei o rádio e começou a tocar a música que acima inseri. Os Doors acompanharam-nos e acompanham-nos para sempre.

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publicado às 18:03

 

No dia 25 de Abril, pela manhã, fui ao lançamento de uma primeira pedra.Não uma primeira pedra no sentido bíblico. A de um lar para a "terceira idade". Foi a minha primeira pedra. Pedra pedra, bem entendido.

O acto em mim atraía-me tanto quanto um concerto do António Carreira. Foi a fragilidade da minha mãe ( na tal 3ª idade e dinamizadora do projecto) que me arrancou do generoso leito e me arrastou até ao terreiro onde irá ser implantado o "equipamento social". O evento não contou com a cumplicidade do tempo que se apresentou frio e ventoso. Uma nortada cortante e impiedosa  que fustigava os que se apresentavam para presenciar o piedoso acontecimento. Cheguei bastante cedo que a minha mãe estava ansiosa. Embora tenhamos combinado de véspera, já me tinha telefonado temendo a minha crónica irresponsabilidade. Apresentou-se-me de traje de cerimónia com broche e tudo. Eu, como já se calculava, de gangas e casaco de cabedal coçado.. Uns ténis de um dos meus filhos, deslavados e gastos (pareceram até à minha mãe rotos).A senhora não gosta mas já entranhou. E a companhia bastava-lhe. Gozou-a até aos limites da sua tensão arterial, cronicamente já alta. Chegámos ao terreiro poeirento e desolado e já por lá andavam, cabelo ao vento (ralos e esparsos) muitos dos futuros utentes do lar. Trajes de festa, uns aguardando as individualidades, outros dedicados à logística dos comes e bebes pós-discursos, lutando contra o vento que ameaçava arrastar para fora das mesas os mimosos pastéis de bacalhau e outras iguarias apetitosas.

Ai como o menino está tão novo. Está mesmo igualzinho a Sr.. Fernando. Ainda há pouco, estou mesmo a vê-los, andava na brincadeira como mê Zé no ribeiro que pareciam uns patinhos todos enlameados... e a minha mãe babada. A minha gente. Tenho-os no coração sempre e para sempre.

Começam a chegar as individualidades: o presidente da junta, o da câmara e, ano de eleições obriga, os novos candidatos ao município: o delfim do actual ( o que detém o cargo concorre à câmara da capital) e o pretendente da oposição. O padre da freguesia, o presidente da Casa do Povo, os presidentes das freguesias vizinhas e, o mais eloquente e nervoso, o presidente da associação que vai lançar a obra.

Chegam alguns amigos da minha idade. Poucos que na noite anterior houve baile na Casa do Povo e a tertúlia foi longa.

A minha mãe já está na primeira fila em redor do local onde há-de ser colocada a primeira pedra. Numa terra pequena e num município pouco populoso, toda a gente se conhece. As individualidades são todas minhas amigas ou conhecidas. Cruzámo-nos na escola, no futebol ou, pura e simplesmente, encalhámos frequentemente nos caminhos estreitos da paisagem envolvente.

A minha mãe delira com tão íntima relação. Fatos azuis contra ténis "dread", mas ela já nem repara.

Dentro de um cilindro é colocada uma carta com os nomes dos envolvidos mais relevantes no longo processo que vem da ideia até ao presente momento. Carta da memória aos vindouros que um dia abrirão a missiva e honrarão os de antanho.

O padre, tão magro que o vento quase o leva, benze a pedra com o aspersor sagrado. Diz umas coisas sobre as obras dos homens e as obras de Deus. Aproximo-me para ouvi-lo. Foi meu professor de História há 35 anos e quero relembrar essa histórica voz. Desilusão. Já não é a mesma voz. Ou os meus ouvidos já não são os mesmos? No entanto fiquei a saber (que vergonha tão tarde) que benzer é dizer bem. Disse-o o padre. Nunca tinha pensado nisso.

Vai agora pegar na palavra, iniciando as hostilidades, o director da segurança social do Algarve e candidato à câmara pelo partido da oposição. De improviso vai fazendo a cronologia do apoio prestado e, timidamente, faz crer que esse apoio foi "mais relevante" para o bom desenvolvimento que o apoio da câmara. O actual detentor do cargo, dinossauro da política que se alavanca a outro concelho mais "valeroso", regista e sorri. Já vamos ver porque sorri. Não é ele que vai ripostar ao orador inicial. É um homem desinteressado... É a sua vice presidente (e candidata reincidente) que está frente à pedra. Discurso escrito (brincas, não...). As palavras saem duras e o vento açoita com elas o candidato da oposição. Novo nestas contendas, lá vai encaixando como pode. Com dignidade, registe-se. O dinossauro sorri... desinteressado.

Finalmente, momento há muito aguardado, que as barrigas também têm as suas razões que a razão não desconhece, o discurso do presidente da instituiçaõ de solidariedade social que ali se materializa. Individualidade exterior  às contendas políticas hodiernas (por ora), balbuciou umas palavras de circunstância  a que pouca gente ligou (excepto a minha mãe que foi a principal responsável pela ascensão do orador à presidência, pareceu-me mesmo ver-lhe assomar uma lágrima no canto do olho). Não fora ter-se esquecido do presidente da junta na elencação das personalidades que contribuíram para o sucesso da empreitada e ninguém teria registado qualquer parte do discurso.

Todas as individualidades pegaram, à vez,  na colher de pedreiro e afagaram e acariciaram o cimento que colava a primeira pedra à eternidade. Confesso que temi que na vez do meu irmão, uma das individualidades presentes - porventura a mais importante a seguir à minha mãe - as calças se descosessem durante o acto de se baixar para afagar a pedra. De resto, com o seu fato azul escuro às riscas e de cravo vermelho ao peito ( a única individualidade com tal símbolo ao vento) encheu-me de vaidade e orgulho. Quando a mole humana (fosga-se que isto é que é falar. Influência dos distintos oradores?) se trasladou para as mesas convidativas e abandonou a primeira pedra à sua sorte, achei por bem retirar-me. A política é linda. É uma ficção encenada com emoção e empenho  onde os actores representam o melhor que sabem e podem. 

  Deixei a minha mãe a cargo do meu irmão e desloquei-me para o almoço tradicional do 25 de Abril com os meus camaradas. Daqui a nadinha estaremos a entoar  amanhãs que cantam e a querer cumprir o 4º e o 5º mês...

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publicado às 22:44

os animais da cabeça (cena II)

por vítor, em 16.02.09

 

 

Trabalho gráfico e audiovisual de Adão Contreiras, um dos algarvios que o ALLgarve censura por omissão.

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publicado às 21:57

Fernando Pessoa e Tavira

por vítor, em 13.06.08

 

Há 120 anos nascia em Lisboa o maior génio que esta terra à beira-mar plantada viu nascer.

 

Um dos maiores que a Humanidade acolheu no seu seio. Um homem infeliz que trouxe a alegria e a sabedoria aos que vão ao encontro das suas palavras. Legou-lhes também a aconchegante solidariedade da tristeza.

 

Com ligações familiares a Tavira e, principalmente, à Conceição, a minha aldeia, fez aqui nascer o seu heterónimo Álvaro de Campos.

 

Ainda hoje, um número significativo de casas do núcleo antigo da Conceição pertencem à sua família, mais precisamente ao seu sobrinho, o engenheiro (como Álvaro de Campos) Jacques Pessoa. Vivendo numa espécie de castelo no centro da aldeia, é a figura chapada do escritor e transporta a presença dos múltiplos "eles" que o poeta carregava. Tenho a honra de ser seu amigo e da sua mulher.

 

Deixo-vos um poema para  Álvaro de Campos escrito por Pedro Jubilot ( um poema tão pessoano que me enganou pensando-o do próprio "engenheiro)  parecendo  ter sido escrito na "Praça da Alagoa", uma das mais belas praças ajardinadas da nossa cidade e onde, parece, o poeta tinha casa. Todo o poema respira e transpira Tavira: a ponte romana, o rio Séqua, o largo da alagoa, Veneza (Tavira é muitas vezes comparada a Veneza), o rio na maré baixa, o "engenheiro-na-cidade"...

 

"a última visita de álvaro de campos a tavira"

a paisagem vista da mesa do café
imagem de infância : largo da alagoa
igreja da nossa senhora da ajuda

o homem que de gabardine cinzenta
atravessa a pé a velha ponte romana
olhando para o rio de uma maré baixa

o homem que de roupa interior branca
atravessa o corredor da residencial sécqua
olhando para o espelho acendendo um cigarro

uma mulher chegando num carro preto
olhando para o edifício fugindo da chuva
toca a campainha e sobe apressada

uma mulher musa que traz cartas e mapas
projectos e quer saber a porta do quarto
do senhor engenheiro bate e ele abre-a

o homem alto e magro cabelo liso aparado
tem febre e escreve : “cada rua é um canal
de uma Veneza de tédios” a frase solitária
premindo as teclas da underwood"

 

 

de Pedro Jubilot

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publicado às 17:19

Telefona-me mãe

por vítor, em 16.03.08
Ainda não sei bem porque não hiberno nestas noites tristes de Inverno
olho para a televisão e estou numa loja de gravatas fúteis
tenho nas mãos vazias várias facas
para cada cinismo
para cada face engraxada
na banalidade das carcomidas
palavras carcomidas

Telefona-me mãe!

Fala-me das alfaces das couves
fala-me do ritmo lunar dos pintainhos
das oliveiras por apanhar
da roda verde dos caracóis e dos netos
a perseguirem o gato preto
pois já não há papoilas para brincar ao sol das flores.

Telefona-me mãe!

Atirei um galo de barro ao ecrã ruidoso da porra (puta ) da televisão
Acertei numa Fátima qualquer (há sempre uma Fátima qualquer a azucrinar-nos a carola)
Mas de qualquer forma

Telefona-me mãe!


(poema do meu amigo, o poeta e artista plástico de Conceição/Cabanas, Rui Dias Simão)

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publicado às 10:48

Hipantropias

por vítor, em 03.11.07



O meu amigo Rui, aliás, o poeta Rui Dias Simão, autografando o seu livro de poesia Hipantropias , no dia do seu lançamento, na ponte romana de Tavira.

A obra tem a chancela das Edições Cativa ligada, como não podia deixar de ser, a este blogue.

Depois de intensas tertúlias no Café Aliança em Faro ( o centro vital da poesia portuguesa), o poeta prepara-se para dar à luz uma nova obra. Mais uma vez serão 69 poemas a rasgar o panorama cultural do país. É pena que o dito ande tão distraído e não se aperceba das luzes que riscam os céus  a Sul...

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publicado às 22:54

 

            Entre 1945 e 1948 havia todos os Domingos sessões de cinema em Vila Nova de Cacela.

            Estas sessões realizavam-se numa sala do rés-do-chão duma antiga fábrica de moagem desactivada e que foi adoptada para o efeito.

            Durante parte da semana eram afixados, junto da loja do João Trindade, os “quadros” com imagens do filme e também ali se podiam marcar lugar e comprar bilhetes. Também todos os Domingos à tarde era posta a funcionar uma aparelhagem sonora, através da qual se publicitava o filme a exibir e se emitia música, destacando-se um célebre swing ” que, passados mais de 50 anos,  ainda é transmitido com frequência por diversas estações de rádio.

            Cerca de meia hora antes do início das sessões começava, no próprio cinema, a venda dos bilhetes sobrantes e a admissão dos espectadores. Havia duas categorias de bilhetes, os mais baratos eram os da parte da frente e os mais caros, na parte de trás.

            Nos lugares mais caros instalavam-se as elites de Cacela, constituídas pela famílias Antunes, Cristos, Dragos , Rosas, Tamissas , Trindades e Tengarrinhas . Nos restantes lugares ficavam as camadas populares,

            Quando os filmes eram portugueses também costumava assistir o padre Brito, acompanhado da sua sobrinha. Este padre era o dono da fábrica de moagem e foi ele que a mandou adaptar a cinema e era um dos seus sobrinhos que fazia a projecção dos filmes.

            Ele não tinha paróquia e por vezes lamentava-se porque o padre Terramoto, da paróquia de Cacela, não lhe dispensava nenhuma missa para ele assim ganhar alguns escudos.

            A sua assistência aos filmes portugueses, acompanhado da sobrinha, devia-se ao facto de ela, apesar de jovem e aparentemente perfeita, ser completamente invisual. Assim, embora não visse as imagens, ouvia a linguagem dos artistas.

            Nesse tempo predominavam os filmes americanos de guerra, de amor e de cowboys. Os astros estrangeiros mais apreciados eram Clark Gable , Charles Chaplin , Errol Flynn , Humphrey Bogart , Spencer Tracy e Trone Power ; as estrelas estrangeiras mais queridas eram Bette Davis, Deborah Keer, Ingrid Bergman, Lauren Bacal, Mauren D`Hora, Olívia de Havyland e Vivien Leyg.

            Nos artistas portugueses destacavam-se Beatriz Costa, Hermínia Silva, Maria Matos, Amália Rodrigues, Milu, António Silva, João Vilaret, Vasco Santana e Vergílio Teixeira.

            Entre os melhores realizadores estrangeiros contavam-se Antonioni, Edmundo Lewis, Jonh Huston e Michael Curtis e entre os portugueses António Lopes Ribeiro e Leitão de Barros.

            Nessa altura Cacela não era abastecida de energia eléctrica e a iluminação pública era feita por candeeiros a petróleo. Para fazer cinema era necessário um gerador que, accionado por um pequeno motor a gasolina, fornecia a electricidade para iluminar a sala e para fazer funcionar a máquina de projecção.

            Durante as sessões notava-se sempre o barulho de assistentes, que liam as legendas para companheiros analfabetos.

            Os filmes de então eram muito recatados no aspecto moral, por isso ser prática a nível mundial e também devido à férrea censura a que o governo português os submetia. As estrelas não usavam saias acima do joelho e tanto os vestidos como a blusas eram de manga ou meia-manga, só os decotes é que por vezes eram generosos, mostrando uma pequena parte dos seios. Nunca os artistas, quer femininos, quer masculinos se despiam para fazer amor. Mesmo em cenas de praia os fatos de banho para homem eram sempre inteiros e com alças e os das senhoras semelhantes, mas de corte direito em baixo, tapando inteiramente as ancas. As cenas de amor não iam além de apertos de mão, abraços e beijos fugazes e simples. Para se chegar aos beijos havia uma encenação prévia, geralmente acompanhada e música, que preparava a assistência para o evento. Quando a cena do beijo demorava, alguns espectadores mais atrevidos gritavam. Atira-te a ela ou frases semelhantes. Quando os beijos se concretizavam havia sussurros e assobios de aprovação da parte de alguns assistentes.

            Por vezes a sessão era interrompida porque a fita se partia. Após este acontecimento havia protestos dos que afirmavam que, ao fazer a colagem, tinham encurtado mais do que o necessário o tamanho da fita.

            Em 1946 foram utilizados os meios publicitários do cinema, para anunciar uma sessão inteiramente preenchida com a actuação de um ilusionista.

            Nessa noite o tempo estava chuvoso, mas mesmo assim a sala esgotou.

            O ilusionista intitulava-se Conde de Aguillar e apareceu no palco de chapéu alto e vestido de casaca preta, calças de fantasia, camisa branca e papilon; a sua ajudante envergava um vestido de cetim vermelho com lantejoulas. O seu repertório era vasto e, com habilidade notável, o artista, com a colaboração da ajudante, fazia desaparecer vários objectos, que de seguida fazia aparecer com a sua magia.

            A assistência seguia com interesse a sua actuação, quando, para surpresa de todos, o Conde Aguillar interrompeu o seu trabalho e interpelou um assistente, que estava no meio da plateia com um guarda-chuva aberto. O artista perguntou-lhe qual o motivo de tão estranho procedimento, tendo aquele dito que o fazia porque chovia no local onde se sentava. Face a esta afirmação o prestidigitador falou para a assistência dizendo que tinha trabalhado em Bruxelas, Londres, Lisboa, Madrid, Roma e muitas outras cidades e era a primeira vez que via um espectador com um guarda-chuva aberto. Depois pediu-lhe para o fechar que faria um golpe de magia para a chuva parar. O visado obedeceu e o espectáculo prosseguiu o seu curso e terminou com o truque número um do seu repertório que consistia em fazer desaparecer uma pequena gaiola de arame com um canário.

            O espectador atingido pela chuva era o Dr. Campos Palermo, proprietário da farmácia local e não sei se depois de fechar o guarda-chuva ainda apanhou alguns pingos, ou se mudou de lugar. Só sei que assistiu ao espectáculo até ao fim sem se queixar.

            Cerca de 1950, o padre Brito vendeu o cinema e os novos proprietários continuaram com os mesmos espectáculos, mas, passados alguns anos, não resistiram à concorrência da televisão e o cinema fechou as suas portas para sempre.

 

Em, Memórias Escritas, de Fernando Gil Cardeira.

           

 

 

 

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