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a vaidade

por vítor, em 14.12.17

A vaidade, vanitas, é tão antiga quanto o homem. Tão antiga quanto a cultura. É a figura humana, e não a dos bichos, que aparece mais na arte rupestre. O homem precisa de se ver fora de si para se entender. No entanto, a vaidade, vital para a sobrevivência e reprodução das espécies, tornou-se anacrónica. Ritual de aproximação ao sexo que possibilita a perpetuação de nós próprios, bailado nupcial que nos ilumina e altiva, que nos projeta na cena onde se digladiam os aspirantes à eternidade, rito complexo catapultado pela tesão, virou, nos tempos atuais, um comportamento ridículo, grotesco e desnecessário, contraproducente, na maioria dos casos, nas sociedades globais cosmopolitas e digitais. O pavão de antanho corrompeu o bailado e invadiu, ruidosamente, a aula de ioga. Como a feroz apetência pelo açúcar, que sendo raro na natureza nos impelia sem descanso na sua procura, se tornou um empecilho pois continua a atirar-nos para o doce quando ele se encontra por todo o lado e nos mata pela proximidade, ubiquidade e acesso fácil e, invariavelmente, consumo excessivo. A vaidade não mata mas ridiculariza. O que mais espanta é a vaidade dos que tudo isto sabem. Não arrepia o jovem adolescente acelerando a sua mota ruidosa e levantado a roda frontal em erecção brutal. Não perturba o homem feito saindo do seu Ferrari de smartfhone colado ao ouvido e olhando de soslaio os transeuntes. Não espanta mesmo o tolo que comprou o último grito de farda imposta pela moda e se pavoneia ignorante da troça das elites, que já se passaram para o outro grito. A velocidade estonteante da moda desorienta mesmo os criadores que a repetem à exaustão e tornam moderno o antigo. Paradoxo de ser o ontem mais moderno que o hoje. O que arregala os olhos e arrepia as pilosidades dos corpos é a vaidade refinada de escritores, cientistas e outros pensadores. Na mais lamacenta das fluorescências da luz, vivem encandeados com a sua própria beleza. Criadores e criaturas. Narcisos que resistem ao mergulho nas suas luminosidades reflexas. Quem nunca os viu e ouviu e que por eles foi submerso pela áurea divina, que atire a primeira pedra. Pedra de luz, está claro. Meteorito atravessando a sombra do eleito. Suprema vontade de rir, de enlouquecer com a volúpia de ser. Não há escória que resista a tanta luz do metal em fogo. Fundido e fodido. Criaturas nadando na sua própria espuma inútil. E, destes todos, é o escritor o mais altivo e arrogante: veste-se de palavras inúteis, cria um mundo paralelo onde navega, flutuante e besta, no caminho da glória. É certo que o ridículo e a pobreza moral matam. Mas nem a morte os detém. É a eternidade que os motiva, que os anima e conduz. Quando são bons e criadores de excelência, esquece-se o homem e vangloria-se a obra. Quando medíocres, dão dó, pena. Quase todos se autonomeiam de humildes. De apaixonados eternos. Contradições que nem compreendem: a humildade é, hoje, um valor inflacionado e precioso; a paixão, por natureza – e definição – efémera. São todos solitários, como amam a solidão!, veneram a arte e a cultura, o silêncio, oh, o silêncio!, a amizade, o vinho, as mulheres, e os homens, a natureza, a viagem, a margem, ah, a marginalidade divina!; a volúpia do abismo, as requentadas sombras da noite, os tempos de criança, a lembrança dos melhores pais do mundo, ou piores, que vem a dar no mesmo, o primeiro amor, os cheiros da terra quando chove, a eterna juventude! A amizade – a amizade tornada labirinto e leito de vida e de morte, amizade que azeda e vira guerra sem tréguas e fratricida na hora do confronto. Do confronto das ideias e conceitos estéticos. Ninguém aceita ninguém. Ninguém aceita o outro enquanto outro. Se fores outro iguala a mim, és um outro aceitável e meu.

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publicado às 14:51

a vida sem retorno

por vítor, em 14.12.17

As folhas das árvores cumprem o seu destino. Eu cumpro a vida. A vida sem retorno. Por entre o murmúrio das vozes polifónicas da consciência esculpida no bloco inatingível do passado, talho a viagem sem destino que o tempo transporta para o fim do futuro. O chão pisado fermenta. Quando pensas no corpo – no teu corpo -, abre-se uma cratera de sonho no desejo que te enforma e conduz. Uma exterioridade donde te contemplas como se fosse uma entidade estranha e o teu corpo um fragmento do desejo dos outros. No silêncio da tarde, apodreces e ficas sossegada vendo o futuro a esvair-se nas memórias esquecidas.

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publicado às 14:49

depois da chuva...

por vítor, em 15.04.15

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 De onde vens, se o outono passou e não podes mais brincar aos meninos? O tempo foge-nos quando tentamos abraçá-lo e entendê-lo. Como Santo Agostinho, sei o que é o tempo mas ao tentar explicá-lo, foge-me por entre os dedos como areia. Ainda ontem, corria pela praia como se não houvesse futuro. O vento fazendo ondular os cabelos que se derramavam até às costas. Os meus pais queriam que fosse menina. A primeira fotografia tirada nos Estúdios de Fotografia Andrade, junto ao mercado das verduras, mostra-me de vestidinho branco e um longo cabelo negro atado por cima da cabeça. Um totó, parece-me. Já me sentava sozinho, e por isso já devo ter um ano. Era mais eu que eu.
Depois, depois tornei-me num rapazinho solitário que gostava de chuva. Quando o cheiro da terra aspergia o ar às primeiras chuvadas do outono, gostava de passear descalço recebendo as quentes e grossas pingas no rosto. Coitado. Faz tanta pena, diziam em surdina os aldeãos com sinceridade. Ninguém deseja mal a uma criança. A minha mãe não queria saber de excentricidades. Muito menos no seio da família. A vassoura trabalhava em funções estranhas ao seu destino. Nada me demovia. A chuva que me escorria pelo corpo era a euforia que me faltava para as outras coisas que, supostamente, deviam ser do interesse das crianças. Cresci à chuva. Um dia, a minha mãe passou-se e passei a interessar-me mais pelo verão… tinha ido de comboio para Tavira. Chovia lá fora. Nariz colado ao vidro da carruagem que corria pela paisagem que não me interessava. Só a obliquidade da água que riscava o vidro sujo da janela. Desembarquei no apeadeiro da Porta Nova e pus-me a caminho de casa. Cinco quilómetros até casa sob as nuvens generosas. Nas valetas corriam riachos que desembocariam em ribeiras que levariam a chuva ao mar. Ao mar próximo que sempre me acompanhou. Até ao fim.
Quando passei a amar o verão, descobri as raparigas. Quando passei a amar as raparigas, descobri os livros. E quando os livros entraram na minha vida, o tempo passou a funcionar de uma outra maneira. O que é o tempo? Um rio que corre do passado, atravessa o presente e perde-se, ao longe, fora da vista, no futuro que ninguém deseja. Todos sabemos que um dia irá desaguar no mais incompreensível oceano, o futuro do futuro, a noite mais escura de todas, as trevas mais escuras das trevas: a morte. Agora, o tempo deixou de ser linear, e o antes confunde-se com o depois, que se confundem com o agora e mesmo com o que nunca aconteceu ou acontecerá. Passei a viver em mundos que se cruzam e entrecruzam, mundos que me prendem e arrastam, e amalgamam, e confundem, me transportam para onde não sei se poderei ir, para onde vou sem saber se fico, como folhas num dia ventoso de outono.

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publicado às 19:20

o esquecimento é a vida

por vítor, em 05.03.15

Mais uma página do romance sem fim. "Últimos".

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Há um tempo para tudo. E tudo poderá ser o mesmo que nada. O tempo funde o tudo numa amálgama disforme e primordial. A memória revolve o tempo tentando reconstruir uma narrativa linear e cronológica, partindo da ausência assume a postura de um construtor de mecanismos coerentes que sustentem uma moral para o indivíduo se poder encaixar no coletivo que o arrasta e sufoca nos irrefutáveis labirintos da verdade. O tempo e a verdade, conceitos que se sobrepõem, coexistem na imensa pradaria das falsidades. Se os outros nos convencem que a vida é um fluir de eventos numeráveis e distintos no tempo, o melhor seria deixar de representar o papel que o inconsciente e o determinismo social nos impingem e conduzem pelo infinito que nos enforma. O esquecimento trará sossego e renascimento. O empecilho para este desiderato é a sedimentação dos destroços dispersos no fundo da memória. Quando adormecidos parecem inertes e inférteis, desaparecem sem rasto nos confins da memória. Quando emergem dos estratos pesados, profundos, impulsionados por estímulos incontroláveis e selvagens, rasgando o esquecimento e emergindo à superfície, manipulam a vontade e impõem condutas irracionais e bruscas que nos desenham bailados irracionais e projectam quais sombras teatrais no pano de fundo que se move nas paisagens irreais das traseiras da existência. Não entender os humores dos outros causa desconforto e ansiedade, fecha-nos sobre nós próprios, colapso brutal que nos esmaga. Não entender o que de nós se desprende sem controlo, que aspergimos nas histórias dos outros, pode ser, nos primeiros tempos, confortável por nos revelar a fragilidade dos que se sentem metralhados pela incandescente energia que se liberta; mas, no médio e longo prazo, o seu poder destrutivo levar-nos-á a desistir do que julgávamos ser o caminho dos nossos sonhos. A desilusão perante o enfrentamento com o que de nós é mais visceral e verdadeiro, poder-nos-á fazer soçobrar e desistir de tudo o que, até aqui, construíramos. Conhecermo-nos é destruirmo-nos.
Só o esquecimento nos levará até lugares mais próximos da realidade e, por conseguinte, à vida. Quanto mais escavas em ti para extrair das trevas de ti próprio os fluídos que pensas que irão renovar-te, mais perto caminharás do precipício. E por muito gozo que as vertigens do abismo, do fim, te anunciem tempos de volúpia, de desafio e prazer, a morte ronda os teus passos e o sofrimento apodera-se do teu corpo manipulando o futuro. Manipulando o que pensavas ser a liberdade. E ninguém será mais limitador do livre arbítrio do que tu. O mais difícil será sempre contornar a memória. A vassoura do esquecimento nunca atingirá os recantos mais sombrios de antanho, o que resta impedirá o prosseguimento do caminho ao encontro de ti, as aprendizagens que julgavas libertadoras são, afinal, peias que te castram os tempos que terás ainda que percorrer.

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publicado às 23:47

a ausência recompensa os amantes

por vítor, em 23.01.15

Lê no meu corpo a escritura do silêncio. Navega, sem medo, através da pele fremente. As mãos celebrando os caminhos enquanto vagabundagem no crepúsculo do morno fragor do corpo, planando baixinho, roçando a penugem ondulante. Electrizando o relevo da carne. Da convulsa agonia dos vales incandescentes emerge a voz impercetível que guia as mãos ao magma que brota das entranhas ensandecidas. Embriagada, conduz os teus passos ao sabor das brisas impiedosas do desejo. Cambaleia, erra, pelas pradarias do sonho, entrega-te nos braços anestésicos de quem te recebe em sua casa. A ligeira penumbra que te tolda, mansamente, a vista impede a objetivação dos impulsos primários. Combustível que te atira irracionalmente contra as paredes da loucura. Caminhada sem dor amputando as banalidades putrefactas e entrópicas da loucura. O onanismo canibaliza a vontade dos ausentes, regurgita, convulsivamente, restos da memória que se escapam pelos esquivos e irregulares interstícios da moral burguesa. Quando as mãos se reencontram na praia súbita do ventre, a carne penetrada intumesce e rejeita o corpo estranho, abandonando-se na nudez da poeira difusa desfoca-o no tempo. Everything is out of the time. Agora será o tempo do puro e do cristalino: o vagar da realidade. O retomar das rotações nas roldanas dentadas arrastando as correntes do devir. Será inverno e o frio vem para sedimentar os dias. A sede de visita que nos trouxe aqui aplacará e semearemos ausência na ocupação do espaço que projetas em mim. Será um silêncio sem fim roubando a solidez dos nossos apetites vorazes sobre o outro. O outro que se confunde com o outro e, nunca rejeitando quaisquer identidades, castra e liberta, conduz, sem dó nem piedade, o corpo e alma até os envolver no plasma evanescente da solidão. Um rolo sem fim de sentimentos, de desejos, a explorar até que um dos outorgantes deste contrato efémero e, ao mesmo tempo, eterno rompa as vicissitudes da natureza e se transforme no todo que, mar e fogo, dilui as formas e atira os limites do horizonte para mais longe que o longe. Inalcançável e corrupto. Errante enquanto ilimitado. A pureza não nos transporta a lado nenhum. Ao outro lado das portas. A normalidade é sempre pura. O que se destaca e ilumina, infecta e corrompe, estará sempre nos antípodas do puro e do divino: para o pior e para o melhor. A cerimónia continuará pela noite fora, ululante e repetitiva como são todas as festas, desestruturando, e, depois, implodindo, a comunidade. A comunidade que a sustenta. Dos estilhaços incandescentes, da fusão das poeiras quedas, ressurgiremos, alguns dirão “ressuscitaremos”, envoltos em fluídos criacionais que o sexo asperge. Recompomos, sem reconhecer o horrível que nos rodeia, o que fora nosso e nunca soubéramos. A ausência recompensa os amantes, ofertando uma condensação de tempo que brota, como cogumelos selvagens, através dos poros e contaminam a carne sequiosa de amor.

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publicado às 23:54

De onde vens, se o outono passou e não podes mais brincar aos meninos? O tempo foge-nos quando tentamos abraçá-lo e entendê-lo. Como Santo Agostinho, sei o que é o tempo mas ao tentar explicá-lo, foge-me por entre os dedos como areia. Ainda ontem, corria pela praia como se não houvesse futuro. O vento fazendo ondular os cabelos que se derramavam até às costas. Os meus pais queriam que fosse menina. A primeira fotografia tirada nos Estúdios de Fotografia Andrade, junto ao mercado das verduras, mostra-me de vestidinho branco com um longo cabelo negro atado por cima da cabeça. Um totó, parece-me. Já me sentava sozinho, e por isso já devo ter um ano. Era mais eu que eu.
Depois, depois tornei-me num rapazinho solitário que gostava de chuva. Quando o cheiro da terra aspergia o ar às primeiras chuvadas do outono, gostava de passear descalço recebendo as quentes e grossas pingas no rosto. Coitado. Faz tanta pena, diziam em surdina os aldeãos com sinceridade. Ninguém deseja mal a uma criança. A minha mãe não queria saber de excentricidades. Muito menos no seio da família. A vassoura trabalhava em funções estranhas ao seu destino. Nada me demovia. A chuva que me escorria pelo corpo era a euforia que me faltava para as outras coisas que, supostamente, deviam ser do interesse das crianças. Cresci à chuva. Um dia, a minha mãe passou-se e passei a interessar-me mais pelo verão… tinha ido de comboio para Tavira. Chovia lá fora. Nariz colado ao vidro da carruagem que corria pela paisagem que não me interessava. Só a obliquidade da água que riscava o vidro sujo da janela. Desembarquei no apeadeiro da Porta Nova e pus-me a caminho de casa. Cinco quilómetros até casa sob as nuvens generosas. Nas valetas corriam riachos que desembocariam em ribeiras que levariam a chuva ao mar. Ao mar próximo que sempre me acompanhou. Até ao fim.
Quando passei a amar o verão, descobri as raparigas. Quando passei a amar as raparigas, descobri os livros. E quando os livros entraram na minha vida, o tempo passou a funcionar de uma outra maneira. O que é o tempo? Um rio que corre do passado, atravessa o presente e perde-se, ao longe, fora da vista, no futuro que ninguém deseja. Todos sabemos que um dia irá desaguar no mais incompreensível oceano, o futuro do futuro, a noite mais escura de todas, as trevas mais escuras das trevas: a morte. Agora, o tempo deixou de ser linear, e o antes confunde-se com o depois, que se confundem com o agora e mesmo com o que nunca aconteceu ou acontecerá. Passei a viver em mundos que se cruzam e entrecruzam, mundos que me prendem e arrastam, e amalgamam, e confundem, me transportam para onde não sei se poderei ir, para onde vou sem saber se fico, como folhas num dia ventoso de outono.

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publicado às 13:41

últimos (despedida) página 112

por vítor, em 13.05.14

 

"Saímos já a noite se prepara para deixar a cena e a abóbada celeste resplandece estrelada. A chuva acompanhou a noite e com ela voltará. Outras vezes. Sempre. Sempre para nos aconselhar. Juntas ou separadas, para confortar a nostalgia. Bandos de gaivotas guincham no crepúsculo seguindo o rasto das traineiras que regressam da faina. Amanhecia com a luminosidade dos dias que procedem a chuva. Ainda havia luz no Texas. Penetramos na penumbra fosca da casa. Nat King Cole e a filha, Natalie, amparam o único casal que dança no centro da pista. Toda a luz lhes pertence. E a música. Unforgettable. Quase não se mexem. O homem, velho sem idade, sobrecasaca até aos joelhos, olhos cerrados, repousa os lábios, adivinham-se baços, num seio desnudo da companheira, jovem como o dia. (Rosa incandescente iluminado a noite.) Regresso ao amojo materno. Dançam como se o tempo se tivesse esgotado e esperassem outro combustível que o pusesse em marcha para continuar a vida de todos os dias. Desse vida à pesada engrenagem do devir. A realidade impositiva.
Vendo-nos no hall de entrada, um empregado sonolento explica-nos que espera o fim da dança para fechar a casa. O homem é cliente antigo e a cliente antigo nada se nega. Saímos surpreendidos com a claridade da madrugada. O empregado diligente presenteou-nos com duas cervejas. Caminhamos pela Ribeira das Naus e acabamos a noite, e as cervejas, no Cais das Colunas.
O Sol, erguendo-se na lezíria, incendeia o Mar da Palha. De ouro e bronze. Será a última vez que nos vemos. A distopia vencerá a eternidade. Para sempre restarão os sorrisos cúmplices varrendo a alegria de viver. Não haverá mais tempo para reencontrar o que é surpreendente sem causar espanto. O espanto nunca existiu. É apenas um rumorejar na noite dos tempos que contempla o cenário dos malditos aprendizes de ilusões. Agora, é tempo de recuperar os dias votados às aprendizagens inúteis. Deitar fora o que não marcou o corpo, sinais inscritos no que mais importava. Para isso, viver será o derradeiro desembarque na música celestial. Nas abóbadas do mal. No mundo regido pela embriaguez da tempestade. Colapso marcando o final do ciclo que nos trouxe até aqui. É já na eternidade do silêncio que caminhamos, costas com costas, quando os nossos passos se afastam. Se afastam de nós. Numa eternidade que é o reverso de toda a eternidade.

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publicado às 23:19

últimos - página do dia 6

por vítor, em 06.12.13

 

"últimos"

Página do dia:

Na rua, uma aragem fresca varria as ruas antigas, os transeuntes que as ousavam sulcar nos primórdios da noite derradeira. Como navalha riscando a pedra. O alcatrão amarelecia à luz fosca dos candeeiros generosos, acolhendo as sombras no vazio da viagem. Atravessamos o Largo da Misericórdia e dirigimo-nos, autómatos na noite incompleta, para o tasco da memória antiga. O Estádio estava, àquela hora incomum, com dois ou três clientes dispersos pelas mesas de sempre. Dispersos pela vida de nunca. Bebemos dois medronhos ao balão e zarpamos, regressamos à luz que amarelece. Pouco faláramos até aqui. Nem uma palavra sobre a tragédia que nos levara um ao outro. Ao reconfortável silêncio dos dias de antanho.
Penetramos no Bairro Alto à antiga. Como o fizéramos sempre. O álcool a latejar nos pensamentos. Felizes e ausentes da realidade. Com a certeza de que não encontraríamos ninguém. Ninguém conhecido como nos tempos da Faculdade. Nesses tempo gloriosos, sobretudo aos sábados, nas ruas, nos bares, nas discotecas, nas tascas, a noite era um templo onde os amigos festejavam a juventude e a loucura. Tropeçávamos em gente conhecida a cada esquina, a cada soluço do tempo. Escorriam as horas em conversas intermináveis, abraços e risos interrompiam a noite e estabeleciam ritos e rituais de aproximação à eternidade. Éramos infinitos e sentíamos o todo como partículas integrantes da imensidão do cosmos. Nas noites intermináveis fortaleciam-se laços de amizade para sempre, procurávamo-nos ansiosamente. A nós e ao outro para sedimentar a identidade do futuro. O sexo era um pretexto para amar. Nada se interpunha entre a alegria e a tristeza. Nestes tempos pré SIDA, a sexualidade impunha os ritmos à vida e a efemeridade dos sentimentos parecia não contender com a força de ir ao encontro das realidades por inventar. Sex and drogs and rock n rol. O que não entendíamos era o que nos moldava a sagacidade da rebeldia. Até ao fim das madrugadas, as dúvidas e os impossíveis fundiam-se numa massa fluída e difusa morna e adocicada, qual sopa genética inicial, penetrando os corpos enlameados e sem fronteiras. Noites paralelas ao mundo que bramia lá fora, enquanto o resto, que era maior do que o todo, medrava silenciosamente nos interstícios do dever. A dança. Ah! A dança! Expulsava os demónios e os deuses e, contaminando o desassossego do conhecido e previsível, fazia emergir do nada um novo sagrado a cada palavra. A cada gesto. O gesto que veio, ainda antes, do verbo. Hierofanias volúveis e sincréticas recriando a formação do mundo. O mundo em si mesmo, uno e diverso como o vazio das tempestades. Todos éramos deuses e não sabíamos. O que para trás ficava, para trás sedimentava nas profundezas dos socalcos do esquecimento. A música amparava o que não tinha sustentabilidade, era a continuidade do nós. Proibido proibir, façam amor não a guerra, no nukes, sea sun and sex, amor livre, maios e depois abris. Um plasma majestoso inebriando as valetas nauseabundas da sociedade, as paredes sensíveis da cultura revelada e infecta.
Agora, desconhecidos num mundo estranho, penetramos o tempo injetando de melancolia a noite. Libertos pelo álcool e pela dor – pelo reverberar dos tremores da alma -, avançamos pelo silêncio do passado. Dos muros antigos, da cal escalavrada, da argamassa exausta deslizam monstros tenebrosos, figuras emergentes das sombras, dos desfiladeiros inóspitos do amor e do ódio, da raiva, envolvendo os transeuntes e conduzindo os seus passos. Arrastando-os na nebulosidade da luz noturna. Ninguém escapará aos demónios da noite, as consciências rastejantes avançarão na lama do devir, sinuosas e uivantes, as cavernas hiantes abocanharão os incautos e os crentes: as peripécias que o sonho comporta se a agonia refrear os impulsos do coração contrafeito. Viajamos no passado, percorrendo o futuro por cumprir. As memórias são, agora, correntes ascendentes ao encontro do delírio. Disforme, enleia factos e fantasias.Tudo não passará de uma construção de realidades pré-cartesianas. Nada existe para lá do sonho. Voltamos atrás, ou melhor, tentamos voltar atrás, percorrendo caminhos de antanho. Pisados por outros pés desenhando as mesmas pegadas no pó rarefeito. Mas o que procuramos não nos espera onde seria expectável. Há locais que desapareceram na voraz fabricação do tempo. Outros, julgando vencer a compressão do que existiu no condomínio de mentes paralelas, ainda exibem vestígios do passado entranhado no esquecimento. A nossa demanda confunde-se com uma arqueologia dos sonhos, uma procura no infinito da frase. Por cada socalco que atinges, novo abismo se abre. O nevoeiro que vem e tudo cobre, faz-te voltar atrás. Não entendes um degrau quando a escada se estende pela lonjura da memória, sem pontos de referência onde te apoies. Se fosse possível atravessar a densidade das memórias, os destroços espalhados pelo caminho, constataríamos que o mundo conhecido de uma vida contém todo o passado da humanidade, sendo que esse passado seria, sem dúvida nenhuma, o cosmos que tudo comporta e manipula.
Entramos no Arroz Doce.

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publicado às 16:41

últimos

por vítor, em 13.11.13

 

Já tem nome: últimos. Será o dito.
Continuo a saga pelos caminhos inconclusivos do inferno...

Quando morremos, nunca morremos sós. O nós não existe apenas na nossa alma. Estilhaços da nossa consciência, ou seja lá o isso for, exista ou não infinitude dos tempos, alojam-se nos outros e contaminam existências que vivem as suas próprias espiritualidades. As suas sobrevivências no efémero que transportamos. Cada um percorrendo caminhos autónomos, carregando múltiplas identidades e confrontando condicionalismos diversos, forma-se, constitui-se e constrói-se a partir dos avatares que circulam na proximidade oceânica da vida. Às vezes na contramão do devir. Alguns constituem-se somente da bebedeira dos outros. Essa embriaguez que é percecionada, para lá da realidade, como se a realidade fora. Cada um entende a si mesmo e o que o é possível receber do espaço extrassensorial de diversas maneiras. Inadvertidamente, o fora e o dentro confundem-se e confundem-nos para lá das circunstâncias. O eu múltiplo existe e subsiste fora do ser que o asperge nas palavras dos outros. Fora de mim, de nós, navega, argonauta oculto na penumbra de um plasma iniciático, ecrã onde se projetam e reproduzem as sombras dos sonhos embrionários, paradoxais, um eu desconhecido, arquipélago da consciência deslaçada desejando o todo numinoso. Inatingível. Muitas vezes, a maior parte de mim acontece fora de mim. Na periferia dos companheiros que viajam na perplexidade da planície habitada. É por isso que a morte acarreta uma derrocada em dominó dos que nos acompanham na efémera caminhada. Hoje e ontem e ainda mais para lá de nós. Quem não tem medo da morte não investe na vida. A vida é um embuste para os que se libertam da ameaça da morte. Os que a temem e reverenciam desenvolvem toda uma panóplia de estratagemas, ações e omissões para a ocultarem. Nestes, os artistas são os mais engenhosos mas, recorrentemente, os piores sucedidos. Ocultam a morte como ninguém…

A foto é de um amigo que já partiu. Foi personagem d`"Uma Mulher Disponível" e da minha vida.

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publicado às 21:18

últimos - romance sem fim

por vítor, em 21.07.13
Deixo-vos aqui as palavras que ombreiam a antecâmara da maior das solidões que podem submergir uma criatura. As portas do inferno. A minha descida ao mundo apocalíptico do romance. Se acaso conseguir encontrar o caminho de saída desta escur...idão labiríntica, darei notícias. Se não...não.

A noite cai do silêncio das árvores. A luz, que se retira, incendeia o céu para os lados da cidade. Agora a solidão é maior. Maior mesmo que a noite que se avizinha. Que as noites que virão. Os passos que invadem o crepúsculo crescente dirigem-se ao encontro do nada. Onde a máscara rege o destino das ilusões compreensíveis. Diante do silêncio das árvores. Os passos de um homem aproximando-se de si próprio. Um homem atravessando a noite inicial, contornado a inquietude seráfica do real.
Nada do que transporta na memória lhe interessa. A vida resume-se à noite que anuncia o recomeço do tempo que se repete. Caminha, porque caminha, como um cão vadio, sem destino, reprimindo o desejo de voltar atrás. Aonde, sabe, imprimiu as pegadas na poeira incontornável. Na vida que também pertence aos outros. É, agora, uma imagem fossilizada que o futuro e o cansaço restituirão ao nada.
Mais uma noite inscrita na recomposição das palavras vazias, inúteis, no preenchimento das horas que antecedem a madrugada. Será assim porque será assim. Repetindo o ritual incontinente anunciado nas entrelinhas que o antanho teceu. O sacrifício é como lama à beira do precipício. Nela banharás os teus restos até ao fim dos dias. Não cairás na obscuridade do vazio infinito. Não tornarás ao chão seco da arbitrariedade.
Beberás as mesmas cervejas, soltarás as mesmas palavras, encontrarás as mesmas falas, os mesmos companheiros na tristeza envolvente; até o pensamento se confundir com a escuridão da noite.
Quando os pássaros se levantam no céu em labaredas, voltas a casa. Ao sono convulso e breve. Até à noite que se anuncia, que virá depois da luz, mergulhas no deserto branco, na imensidão vazia da página oculta onde estampas os sinais vitais que te restam. Rasgar o suporte das palavras, comportaria a libertação a que anseias. É este o dilema que te dilacera a carne. Escrever ou não escrever. Se não escrevo, morro; se escrevo, não vivo.
Sem deixar marcas na poeira da madrugada irrepetível, voltas a casa. Na Côncaba que acorda sem destino.

 

 

 

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publicado às 16:52


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