Quando chegou à nossa primeira aula, na velhinha Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Nova, ainda a confundir-se com o quartel Trem Auto, no início dos anos 80, com os olhos muito vivos e rolantes, pousados no teto, de quando em vez olhando-nos rasando o alto do cocuruto; os seus esparsos cabelos revoltos, pensei tratar-se de um maquinista de comboio. Não, era o nosso professor de Sociologia, e Sociologia das Religiões, Moisés Espírito Santo Bagagem. Rapidamente se tornou um professor muito querido dos alunos e um mestre. Levava-os em trabalho de campo consigo (célebre ficou a ida à sua aldeia para os lados da Batalha) e discutia com eles no recreio e no bar a religião popular como se de um assunto da maior atualidade se tratasse. A sua humildade talvez lhe viesse do seu peculiar percurso académico: começou como carregador de material necessário ao trabalho de campo de sociólogos belgas, onde se tinha refugiado, e acabou por se licenciar e doutorar na disciplina.
Homem da ruralidade, tinha um sentido de humor fino, e às vezes corrosivo, e às vezes incompreendido, como o provam as dificuldades que parte dos seu pares lhe foi colocando no caminho da sua evolução na carreira.
Morreu hoje um mestre e um amigo. MESB (1934-2025)
PS. Esta página parece ter-se tornado, ultimamente, um necrotério, mas parece ser o destino das impressões de quem já tem uma certa idade.