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últimos - página do dia 6

por vítor, em 06.12.13

 

"últimos"

Página do dia:

Na rua, uma aragem fresca varria as ruas antigas, os transeuntes que as ousavam sulcar nos primórdios da noite derradeira. Como navalha riscando a pedra. O alcatrão amarelecia à luz fosca dos candeeiros generosos, acolhendo as sombras no vazio da viagem. Atravessamos o Largo da Misericórdia e dirigimo-nos, autómatos na noite incompleta, para o tasco da memória antiga. O Estádio estava, àquela hora incomum, com dois ou três clientes dispersos pelas mesas de sempre. Dispersos pela vida de nunca. Bebemos dois medronhos ao balão e zarpamos, regressamos à luz que amarelece. Pouco faláramos até aqui. Nem uma palavra sobre a tragédia que nos levara um ao outro. Ao reconfortável silêncio dos dias de antanho.
Penetramos no Bairro Alto à antiga. Como o fizéramos sempre. O álcool a latejar nos pensamentos. Felizes e ausentes da realidade. Com a certeza de que não encontraríamos ninguém. Ninguém conhecido como nos tempos da Faculdade. Nesses tempo gloriosos, sobretudo aos sábados, nas ruas, nos bares, nas discotecas, nas tascas, a noite era um templo onde os amigos festejavam a juventude e a loucura. Tropeçávamos em gente conhecida a cada esquina, a cada soluço do tempo. Escorriam as horas em conversas intermináveis, abraços e risos interrompiam a noite e estabeleciam ritos e rituais de aproximação à eternidade. Éramos infinitos e sentíamos o todo como partículas integrantes da imensidão do cosmos. Nas noites intermináveis fortaleciam-se laços de amizade para sempre, procurávamo-nos ansiosamente. A nós e ao outro para sedimentar a identidade do futuro. O sexo era um pretexto para amar. Nada se interpunha entre a alegria e a tristeza. Nestes tempos pré SIDA, a sexualidade impunha os ritmos à vida e a efemeridade dos sentimentos parecia não contender com a força de ir ao encontro das realidades por inventar. Sex and drogs and rock n rol. O que não entendíamos era o que nos moldava a sagacidade da rebeldia. Até ao fim das madrugadas, as dúvidas e os impossíveis fundiam-se numa massa fluída e difusa morna e adocicada, qual sopa genética inicial, penetrando os corpos enlameados e sem fronteiras. Noites paralelas ao mundo que bramia lá fora, enquanto o resto, que era maior do que o todo, medrava silenciosamente nos interstícios do dever. A dança. Ah! A dança! Expulsava os demónios e os deuses e, contaminando o desassossego do conhecido e previsível, fazia emergir do nada um novo sagrado a cada palavra. A cada gesto. O gesto que veio, ainda antes, do verbo. Hierofanias volúveis e sincréticas recriando a formação do mundo. O mundo em si mesmo, uno e diverso como o vazio das tempestades. Todos éramos deuses e não sabíamos. O que para trás ficava, para trás sedimentava nas profundezas dos socalcos do esquecimento. A música amparava o que não tinha sustentabilidade, era a continuidade do nós. Proibido proibir, façam amor não a guerra, no nukes, sea sun and sex, amor livre, maios e depois abris. Um plasma majestoso inebriando as valetas nauseabundas da sociedade, as paredes sensíveis da cultura revelada e infecta.
Agora, desconhecidos num mundo estranho, penetramos o tempo injetando de melancolia a noite. Libertos pelo álcool e pela dor – pelo reverberar dos tremores da alma -, avançamos pelo silêncio do passado. Dos muros antigos, da cal escalavrada, da argamassa exausta deslizam monstros tenebrosos, figuras emergentes das sombras, dos desfiladeiros inóspitos do amor e do ódio, da raiva, envolvendo os transeuntes e conduzindo os seus passos. Arrastando-os na nebulosidade da luz noturna. Ninguém escapará aos demónios da noite, as consciências rastejantes avançarão na lama do devir, sinuosas e uivantes, as cavernas hiantes abocanharão os incautos e os crentes: as peripécias que o sonho comporta se a agonia refrear os impulsos do coração contrafeito. Viajamos no passado, percorrendo o futuro por cumprir. As memórias são, agora, correntes ascendentes ao encontro do delírio. Disforme, enleia factos e fantasias.Tudo não passará de uma construção de realidades pré-cartesianas. Nada existe para lá do sonho. Voltamos atrás, ou melhor, tentamos voltar atrás, percorrendo caminhos de antanho. Pisados por outros pés desenhando as mesmas pegadas no pó rarefeito. Mas o que procuramos não nos espera onde seria expectável. Há locais que desapareceram na voraz fabricação do tempo. Outros, julgando vencer a compressão do que existiu no condomínio de mentes paralelas, ainda exibem vestígios do passado entranhado no esquecimento. A nossa demanda confunde-se com uma arqueologia dos sonhos, uma procura no infinito da frase. Por cada socalco que atinges, novo abismo se abre. O nevoeiro que vem e tudo cobre, faz-te voltar atrás. Não entendes um degrau quando a escada se estende pela lonjura da memória, sem pontos de referência onde te apoies. Se fosse possível atravessar a densidade das memórias, os destroços espalhados pelo caminho, constataríamos que o mundo conhecido de uma vida contém todo o passado da humanidade, sendo que esse passado seria, sem dúvida nenhuma, o cosmos que tudo comporta e manipula.
Entramos no Arroz Doce.

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publicado às 16:41

últimos

por vítor, em 13.11.13

 

Já tem nome: últimos. Será o dito.
Continuo a saga pelos caminhos inconclusivos do inferno...

Quando morremos, nunca morremos sós. O nós não existe apenas na nossa alma. Estilhaços da nossa consciência, ou seja lá o isso for, exista ou não infinitude dos tempos, alojam-se nos outros e contaminam existências que vivem as suas próprias espiritualidades. As suas sobrevivências no efémero que transportamos. Cada um percorrendo caminhos autónomos, carregando múltiplas identidades e confrontando condicionalismos diversos, forma-se, constitui-se e constrói-se a partir dos avatares que circulam na proximidade oceânica da vida. Às vezes na contramão do devir. Alguns constituem-se somente da bebedeira dos outros. Essa embriaguez que é percecionada, para lá da realidade, como se a realidade fora. Cada um entende a si mesmo e o que o é possível receber do espaço extrassensorial de diversas maneiras. Inadvertidamente, o fora e o dentro confundem-se e confundem-nos para lá das circunstâncias. O eu múltiplo existe e subsiste fora do ser que o asperge nas palavras dos outros. Fora de mim, de nós, navega, argonauta oculto na penumbra de um plasma iniciático, ecrã onde se projetam e reproduzem as sombras dos sonhos embrionários, paradoxais, um eu desconhecido, arquipélago da consciência deslaçada desejando o todo numinoso. Inatingível. Muitas vezes, a maior parte de mim acontece fora de mim. Na periferia dos companheiros que viajam na perplexidade da planície habitada. É por isso que a morte acarreta uma derrocada em dominó dos que nos acompanham na efémera caminhada. Hoje e ontem e ainda mais para lá de nós. Quem não tem medo da morte não investe na vida. A vida é um embuste para os que se libertam da ameaça da morte. Os que a temem e reverenciam desenvolvem toda uma panóplia de estratagemas, ações e omissões para a ocultarem. Nestes, os artistas são os mais engenhosos mas, recorrentemente, os piores sucedidos. Ocultam a morte como ninguém…

A foto é de um amigo que já partiu. Foi personagem d`"Uma Mulher Disponível" e da minha vida.

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publicado às 21:18

últimos - romance sem fim

por vítor, em 21.07.13
Deixo-vos aqui as palavras que ombreiam a antecâmara da maior das solidões que podem submergir uma criatura. As portas do inferno. A minha descida ao mundo apocalíptico do romance. Se acaso conseguir encontrar o caminho de saída desta escur...idão labiríntica, darei notícias. Se não...não.

A noite cai do silêncio das árvores. A luz, que se retira, incendeia o céu para os lados da cidade. Agora a solidão é maior. Maior mesmo que a noite que se avizinha. Que as noites que virão. Os passos que invadem o crepúsculo crescente dirigem-se ao encontro do nada. Onde a máscara rege o destino das ilusões compreensíveis. Diante do silêncio das árvores. Os passos de um homem aproximando-se de si próprio. Um homem atravessando a noite inicial, contornado a inquietude seráfica do real.
Nada do que transporta na memória lhe interessa. A vida resume-se à noite que anuncia o recomeço do tempo que se repete. Caminha, porque caminha, como um cão vadio, sem destino, reprimindo o desejo de voltar atrás. Aonde, sabe, imprimiu as pegadas na poeira incontornável. Na vida que também pertence aos outros. É, agora, uma imagem fossilizada que o futuro e o cansaço restituirão ao nada.
Mais uma noite inscrita na recomposição das palavras vazias, inúteis, no preenchimento das horas que antecedem a madrugada. Será assim porque será assim. Repetindo o ritual incontinente anunciado nas entrelinhas que o antanho teceu. O sacrifício é como lama à beira do precipício. Nela banharás os teus restos até ao fim dos dias. Não cairás na obscuridade do vazio infinito. Não tornarás ao chão seco da arbitrariedade.
Beberás as mesmas cervejas, soltarás as mesmas palavras, encontrarás as mesmas falas, os mesmos companheiros na tristeza envolvente; até o pensamento se confundir com a escuridão da noite.
Quando os pássaros se levantam no céu em labaredas, voltas a casa. Ao sono convulso e breve. Até à noite que se anuncia, que virá depois da luz, mergulhas no deserto branco, na imensidão vazia da página oculta onde estampas os sinais vitais que te restam. Rasgar o suporte das palavras, comportaria a libertação a que anseias. É este o dilema que te dilacera a carne. Escrever ou não escrever. Se não escrevo, morro; se escrevo, não vivo.
Sem deixar marcas na poeira da madrugada irrepetível, voltas a casa. Na Côncaba que acorda sem destino.

 

 

 

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publicado às 16:52


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