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Uma Catacumba Caiada

por vítor, em 28.07.08

 

  

Quando o calor se atirou à aldeia, podre e venenoso, o Zé saiu da taberna ziguezagueando.

  Sabia que nunca mais iria enterrar ninguém. Via-se pregado na parede do cemitério rodeado de aranhas que dançavam titubeantes e macabras.

  Contra o que sempre pensara, não morreria velho e foi-se despedir da espanhola com quem dormira as duas últimas noites.

  Àquela hora  os cães dormitavam nas sombras, abanando o rabo à sua passagem.

  O presidente da junta tinha-o prevenido três semanas antes que a profissão de coveiro era ingrata: - o osso é duro de roer. Mas o importante é que há mais marés que marinheiros.

  Em Lisboa, nos tempos de casado, tivera ofícios duros. Mesmo assim sempre pensou que morreria velho. Nem mesmo a separação da família o desesperou, e a vida era vivida com um sorriso interior, de parietal a parietal.

  Porém, o aviso preocupou-o.

  Caminhou junto à parede para aproveitar a sombra dos beirais. Torneou um barco semi desfeito de saudades. No poial da porta da espanhola estava, despreocupado, o marido desta. Despreocupação de corno manso, pensou.

  Atirou-lhe dez tostões. Para a aguardente de figo.

  O canavial murmurava sons de juventude, levemente embalado no sueste. A velha nora espiava por cima do casario árido vindo do deserto.

  Afastou a rede mosquiteira da porta e entrou no escuro antro dos pobres. Fixou os olhos, sem medo, no Cristo ameaçador do fundo, e releu o prato azul violeta: " o cabelo que foi loiro e depois se debotou, lembra alguém que tinha oiro e em prata se transformou".

  - Romualda , chamou baixinho.

  Os ladrilhos libertavam uma frescura agradável a alfazema. Entrou no quarto e viu-a estendida na esteira, completamente nua. As dobras da barriga pendiam-lhe até ao chão, subindo e descendo ao ritmo da respiração pesada. Não acordaria mesmo que um tubarão entrasse na ria e comesse metade dos homens que dentro de água esquartejavam os atuns do copejo da madrugada. Ficaria para mais tarde. Muito mais tarde...

  Procurou nos bolsos das calças um cigarro, e foi encontrá-lo num da camisa. Acendeu-o ainda dentro de casa e saiu decidido ladeira acima em direcção do cemitério.

  No caminho entrou na tasca do Marcolino - estrategicamente situada entre os mortos e os vivos - que dormia com a cabeça sobre o balcão. Balcão de amendoeira de amêndoa dura, onde se apoiavam as mais diversas vidas, desde o começo dos séculos.

  Serviu-se a si próprio de medronho. Era a única bebida que, no estio, lhe refrescava as tripas.

  As aranhas começaram a movimentar-se no seu cérebro dando-lhe uma sensação de inesgotável prazer.

  O Marcolino mudou de posição, disse alguma coisa arranhada, e continuou ouvido colado aos sonhos infindáveis do balcão. A venda era impotente perante o calor que se ia instalando sem pagar.

  Mais um medronho e saiu levando consigo a garrafa. Pagaria depois. Muito depois...

   "Medronho puro a bebida do futuro", rótulo sem cor sobressaindo da solidão das ruas escaldantes.

 "Nós ossos que aqui estamos pelos vosso esperamos". Entrou. Dirigiu-se à cova que começara a abrir pela manhã. Ajoelhou-se diante dela murmurando álcool para as entranhas da Terra.

  Sem que desse por isso, da catacumba do General, saiu um esqueleto com galões a condizer, armado de martelo e pregos. Com o queixo aprumado, protuberante, e rodando sobre os calcanhares a cada sepultura, chegou-se ao Zé que flutuava a um palmo do solo. Deu-lhe o braço e foram os dois até ao lado Norte do cemitério. Aí, o esqueleto general, pregou o esqueleto do inferno na parede caiada, peça do puzzle infinito da calmaria.

  As aranhas, agora livres, saíram à rua semeando  panfletos incendiários aos transeuntes.

  Duas árvores, frondosas, coraram de cumplicidade.

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publicado às 15:17

A Mulher Santa

por vítor, em 07.07.08

 

 

  Afinal que faço nesta cozinha sem parafusos? Espreito a confusão da vizinhança para esquecer o nome dos amigos mais inclinados sobre a minha carcaça. Depois há a história do homenzinho que só tinha memória.

  Uma vez encontrei um homem que sabia falar do passado. Disse: eu só sei que não estou aqui, eu ando a viajar no tempo que já existiu antes de parecer que o é.

  Foram os dois, eu e ele, deslizando por entre as colinas rochosas da consciência. Aonde iremos? Pensei eu, rodeando cuidadosamente o cansaço envolvente. Chegaram a um local onde só se via o mar. Ali, disse ele sorrindo sem abrir os lábios, encontrei um dia uma mulher santa. E depois, como se a vida fosse um pião que nunca rodou. Era um dia soalheiro e o mar levantou-se tarde.

  A mulher agarrou-me a mão e disse-me que fôssemos ver as pradarias da neve onde habitam seres sem forma alguma. Fomos, eu e ele, caminhando até perder de vista. Fomos, ele e ela, até perder de vista, onde esperámos alguns amigos.

  Aquele homem contava-me milhares de histórias por onde nunca ninguém tinha passado e onde a criação era tão estética que não existia. Onde as pessoas eram tanto mais úteis quanto mais inúteis.

  Os amigos chegaram, então, entoando canções tristes e fumando caroços de espingardas. Chegaram e dançámos um pouco. A mulher, que mais tarde o homem soube que era santa, não moveu os cotovelos enquanto a música soou.

  Sentámo-nos, eu e ele, falando por entre as persianas do meu quarto.

  A mulher retirou os lábios. Aspirou-os pelo nariz. Todos experimentámos o mesmo, sentindo os pés a desligarem-se do solo. Sensação tal, só se conhece quando se lêem poemas na cama das mulheres que se amam. O homem não pôde conter-se e saiu de perto de mim. Vi que chorava como se fosse a primeira vez que o fazia. Soube mais tarde que não chorava, sentia o tempo.

  Quando puderam parar as emoções imprimidas pela vivência , um a um amaram a mulher. Depois todos. Depois nenhum.

   Mas o amor não é infinito, perguntei eu, talvez ingenuamente. Não, respondeu ele - ou talvez ela, o amor é o fim da imaginação é o princípio da estagnação dos sentimentos. Quem ama não sente, e aliás, nunca se sabe até onde os rios podem ala(r )gar as terras da paixão. Essa sim, infinita, portadora de dor e angústia. A paixão, meu irmão, assim como a saudade, são forças sem fim e sem começo. Na sua linha de contacto existe tudo o que há de bom. Nessa linha  bamboleiam os loucos. Para além dela, encontramos a morte da arte e o presente.

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publicado às 19:17

São cinco horas da manhã na cidade

por vítor, em 16.06.08

 


 

 

 São cinco horas da manhã na cidade. O vento parou um pouco. Entre as sombras gigantes das árvores, passeio confusamente anos acumulados de solidão.

  É triste a impossibilidade de regressar. Regressar a um lugar onde as coisas se ligavam logicamente, formando um corpo coeso e inteligível.

  As ruas arrefecem do longo dia de Verão, é , no entanto, discutível se eu o sinto, porque não há pássaros acordados na noite.

 A cidade define-se por ter bares abertos às cinco da manhã. Não os encontro e talvez não esteja nela. Ou então, maldosamente, fecharam para me impossibilitar o contacto com os outros.

 Sinto-me observado quando dobro as esquinas sujas da minha mente. É uma sensação agradável, mas  portadora de angústia. Angústia porque sei que nada me pode observar como sou e, muito menos, às cinco da manhã de uma madrugada sem Lua. Há um universo de coisas desconexas entre mim e o que pretendo dizer. Um não acabar de estímulos irreversíveis que nunca vou voltar a lembrar: aliás a memória é um instrumento ao serviço do passado e eu sou um deserto sem vegetação primitiva.

  No cais alguns barcos descansam, sentem arrepios  só de pensar nos anos que o mar lhes vai dar de novo.

 Algumas carcaças, como eu,  sonham com a morte, enquanto se tentam roçar nos ventos húmidos da maresia. Descrever a beleza  é uma tarefa vã. Só os loucos a tentam. É voltar atrás para desnudar o futuro. A transgressão dos tabus é um enorme fascínio, a que sempre se resiste enquanto somos homens livres. Os tabus algemam a vontade à sua violação.

  Começa a levantar-se a luz da madrugada - as cinco horas já vão - e as coisas começam a tornar-se feias. Até talvez os pássaros não gostem da madrugada, e o seu cantar seja o repudio pelo renascer de uma morte , que é o sono.

  A angústia apodera-se das minhas forças já frágeis de ousar desafiar a natureza. Os barcos desapareceram para o mar imenso esperando naufragar, a qualquer vaga, nas escuras profundezas do oceano.

   Olho em volta e as sombras transformam-se em luzes coloridas, horríveis a meus olhos. Até as mulheres, anjos da noite, se tornam reprováveis formas fluorescentes.

  Começa a nascer o dia - de parto normal - e tenho a certeza que não vou encontrar ninguém: a esta hora já os autocarros deviam vaguear pela cidade arrancando as pessoas ao sono. Belisco-me. Não sinto dor e por isso estou seguro que estou acordado. A dor é própria  dos eternos sonhadores, convertidos em pus, nas suas camas de luxo.

 Viro a mais uma esquina virtual, de onde posso espreitar o despontar dos comedores de ilusões. Ali, onde o tempo age de improviso e confessa ter um filho que não conhece , onde embarcam os marinheiros aflitos, não vi ninguém. Então, qual ribombar de trovões, vindos de não sei de onde, surgem toneladas de carrascos enlatados, atirados do alto da pirâmide.

  Respondi-lhes com a coragem possível nos dias de hoje:

-         Desculpem mas não podem entrar na minha casa. Na minha casa só entra gente de bem.

Eu sei que às vezes penso que os outros estão a topar as minhas fraquezas, mas isso, sei-o bem, é uma fraqueza da minha parte.

 

 

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publicado às 15:17

Um Juiz Parcimonioso

por vítor, em 25.05.08

 

 
 A minha estrutura óssea tornou-se mole e regressei a casa de táxi. Mas os meus problemas não ficaram por aí: na minha ausência a lâmina de barbear havia sonhado alto e os vizinhos chamaram a polícia.

 Fui por isso preso durante o tempo em que o juiz fumou três maços de cigarros.

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publicado às 01:18

Um Antropólogo Competente

por vítor, em 28.04.08

  Um homem, que pelo que a senhora do café disse, cigano, mijou na casa –de- banho. E onde está o mal pergunta-se?

   Malditos ciganos, não sabia o vento levá-los, guinchou a mulher do café  ( presumo que a dona do estabelecimento, entendendo o café como edifício que alberga efemeramente transeuntes carentes), armada de balde e esfregona farfalhuda.

   Mijou à parede, mesmo ao lado da sanita, nojento! vociferou impiedosamente, colocando uma cara-de-boca-de-cu.

   O homem, provavelmente levado pela ventania, não se encontrava nas redondezas, enquanto a relinchante esfregadora procurava o unânime assentimento dos carentes, efémeros clientes da globalização. Eu, que tudo sei, poderia adiantar que o vi agora mesmo entrar no barbeiro do quarteirão seguinte. Mas que interesse tem isso para agora...

   Depois do árduo trabalho de limpeza da retrete, a senhora empresária sentiu-se aliviada. A sua alteridade reforçara-se. O “nós” consolidara em ritual suspenso e ávido de movimentos de nucas.

   O dia começava a raiar quando o antropólogo entrou no café. Trazia, como sempre que trabalhava no ofício, a pele de outro. Confundia-se com o objecto de estudo. Mimetizava-se de “homo falsus”, para ser levado a sério.

   Sentou-se com a barba de cem dias. Pediu café. E, para agradar aos fregueses, uma aguardente velha. Seguramente mais velha que a sua barba e mais nova que a sua vida. A aguardente é claro. O que nada nos adianta sobre a sua idade. A dos dois é claro. A não ser que ambos tinham mais do que cem dias. O que já antes era óbvio: ninguém, com menos de cem dias, pede uma aguardente e nenhuma aguardente velha que se preze tem menos de cem dias. Que confusão. Quem disse que o caminhante fazia o caminho?! Voltemos ao caminho.

   Tragou primeiro o café com cheirinho e depois, devagar, em pequenos goles a bebida ardente. Socializando-se com gozo. O tempo parou por breves instantes. Só o vento se ouvia inquieto.

   O antropólogo sentia a nova pele aconchegar-se ao "velho" corpo enquanto um prazer intelectual profundo o colocava nos interstícios do tecido social e lhe corrompia a identidade. O tempo, como atrás víramos, parara e era preciso dar-lhe vida. A festa não pode ser eterna. A sociedade é um fluir incessante que não pode parar. Parar, como tão bem Lapalisse frisou, é morrer. Ficar encantado à espera do sapo. Ou do príncipe?

   Esticou o gozo até onde pôde e subitamente levantou-se e pagou. Antes de sair foi ainda à casa-de-banho. Depois, despedindo-se com um claro “até-logo”, entrou no vento e desapareceu rapidamente na direcção do quarteirão seguinte. Alguns fregueses pensaram a medo: que cigano simpático...

  O café entrou no remanso turbilhão (rodando para a direita como sempre acontece no hemisfério norte) da normalidade. As conversas de catação voltaram a escorrer sem fio afrouxando as tensões. Só o vento se ouvia inquieto.

   Mas o tempo, que não é previsível, logo voltou a entrar em turbilhão        ( agora rodopiando para esquerda como sempre acontece, com os turbilhões catastróficos, no hemisfério pobre) gerando uma confusão momentânea na ignorância dos clientes.

    A dona do café, que não era ingénua, tinha ido espreitar à casa-de-banho.

    Malditos ciganos, uivou. Não sabia o vento levá-los, guinchou.

   Alguns fregueses pensaram sem medo: os ciganos são sempre falsos.

   Eu, utilizando as mesmas premissas, cheguei a outras conclusões: nunca se pode confiar num antropólogo enquanto trabalha. E, manuseando outras premissas, diria mesmo: muito menos quando não trabalha.

 

   Seriam umas onze horas, duas horas passadas sobre os dramáticos acontecimentos ocorridos, quando o antropólogo voltou a entrar no dito estabelecimento comercial. Alguns fregueses, especialmente freguesas, seguiram o seu deambular ondulante, pelo café, até à mesa escolhida para pousar. Roupas primaveris e uma cara escanhoada pareciam fazê-lo mais novo. 

Mais novo que certas aguardentes velhas.

   Sentou-se e pediu um café e um queque com passas. Mordiscou o queque enquanto ia bebendo o líquido quente, devagar. Adorava a mistura dos dois. Molhou mesmo o bolo no café.

   O ambiente não se alterou significativamente com a entrada do estranho. Um caixeiro-viajante, pensou uma mulher mais nova, mergulhando em viagens para longe. O vento amainara lá fora.

  O cheiro a mijo ainda não se tinha dissipado completamente apesar da esfregadela profissional. A dona do café estava feliz. A vida corria sem sobressaltos e os momentos eram dentes em roldanas de velho relógio com corda para uma semana.

   Passado um bom bocado, e depois de umas miradas com interesse à telenovela da hora do almoço que corria na televisão, o antropólogo levantou-se, dirigiu-se ao balcão, pagou, foi à casa-de-banho e saiu despedindo-se:” até sempre”. Os fregueses responderam-lhe cordialmente e retomaram a postura de efémeros carentes sem lugar nem futuro.

      O cheiro a mijo tinha aumentado consideravelmente.

   Malditos ciganos.

   A dona do café atribuiu-o ao vento que amainara lá fora.

    

 

 

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publicado às 21:43

Um Homicídio Anunciado

por vítor, em 02.04.08



Há anos que não dava um chá de caridade. Baixou ligeiramente o som do gira- discos. Ópera. Sentiu uma doce alfinetada a dirigir-se, do tórax, em direcção ao púbis e levantou-se para o vazio. O cérebro recusou-se a elaborar a continuação da vida e estatelou-se, desajeitadamente no tapete persa. A emoção traíra-lhe as cruzes.

Quando, minutos mais tarde, reabriu os olhos, pareceu entender tudo o que entrevira antes. Mãos à obra.

Toda a tarde rabiscou cartões a anunciar uma festa para a semana seguinte. Não faltariam ministros, duques, deputados, chefes de, estrangeirados, primos do 7ºgrau , pintores, músicos e amigos chegados.

Durante a semana o reino andou em frenesim. Não se falava noutra coisa.

A misteriosa senhora contratou os melhores mordomos, coisa que sempre dispensou, para a ocasião solene. Segundo se dizia o mordomo é sempre o culpado, e assim, nada melhor para encobrir o imenso crime que se pressentia no ar.

Chegado o dia fatal a anfitriã deslocou-se ao cabeleireiro, que por sinal não estava convidado, para ajeitar as melenas.

·         Faça-me um penteado de peixe, pediu delicadamente.

·         Goraz ou redfish , perguntou sensibilizado com tamanha honra.

·         Nem uma coisa nem outra, preferiria antes carapau alimado .

·         Com certeza , referiu sem se mostrar magoado, vou-lhe fazer um penteado bem avinagrado.

Às seis da tarde o portão do sumptuoso palácio foi aberto de par em par, deixando entrar aos trambolhões os ilustres convidados que se amontoavam à entrada.

Estava ali reunida a nata do reino. Bebericando, petiscando e convivendo sem pressas, o chá foi decorrendo a contento de todos. Foi então que se anunciou o próprio rei:

·         Cá estou eu sempre alegre e fanfarrão que mesmo sem convite vos venho alegrar o serão! Cantarolou entrando ao ritmo de Strauss.

·         O rei vem nu! Gritou uma criança presente, enquanto era arrastada para as masmorras do palácio.

A multidão de convivas espumava de prazer enquanto a dona da casa recebia S A R , dando qualquer desculpa esfarrapada para o facto de não o ter convidado - como se tudo não tivesse sido premeditado...

O monarca compreendeu e juntou-se a um grupo de pederastas, que bebericando o chá morno, lhe apreciavam o minúsculo apêndice do baixo ventre.

Aproveitando o entretenimento geral, a velha senhora retirou-se um pouco e voltou com a maçã envenenada que tinha preparada para executar o projectado.

O rei, já ligeiramente embriagado, rodava de grupo em grupo animando a festa. Agora divertia, com o seu humor imanente, os amigos chegados. As nalgas reluziam-lhe à luz difusa do candelabro.

Meus senhores e minhas senhoras, interrompeu a velha com a maçã na cabeça ( velho costume do reino ), não queria deixar de aproveitar a presença de S A R sem lhe agradecer a honrosa presença nesta modesta casa. E por isso, nesta ocasião especial em que comemoramos; com este singelo chá de caridade; o nascimento do meu segundo dente do siso, gostaria de oferecer-lhe esta simbólica maçã, colhida na árvore da vida.

Romperam os aplausos na sala enquanto o rei recebia em suas mãos tão valioso presente.

Comovido, avançou para o meio do salão para soltar algumas palavras de agradecimento:

Como sabem, começou enquanto deixava escorrer algumas lágrimas pelos ombros abaixo, a maçã é o brasão da minha família desde tempos imemoráveis e esta está tão apetitosa que , com a vossa licença, não posso deixar de a comer já. O ruído da dentadura cariada do rei penetrando a carne viçosa do fruto da árvore da vida ecoou no salão fazendo vibrar os cristais. À segunda dentada o rei revirou os olhos e tombou no gasto tapete persa: estava consumado o regicídio.

A festa continuou até às tantas e ninguém acusou os mordomos do sucedido. Só alguns, por certo maldosamente, acusaram, sem convicção, o cabeleireiro despeitado.

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publicado às 00:21

No Bar do Costume

por vítor, em 26.03.08

Uma mulher entrou de mansinho arrastando as solas dos sapatos na tijoleira vermelha. Apertou a mão a uma salamandra semi-nua , que vagueava ao acaso pelas redondezas, e resolveu pedir um bagaço.

O empregado, senhor de um porte arredondado, serviu com a gentileza do costume.

Deu um trago sem pestanejar e sentou-se na arquibancada do fundo retirando um chupa-chupa da malinha ligeira. Chupa aqui... bebe ali...chupa aqui... bebe ali... e assim vai o relógio do bar consumindo o inexorável fluir do tempo.

Entram clientes, sentam-se, bebem e pagam quase sem falar, enquanto o relógio e o empregado vão servindo sem pressas.

Duas rebimba-corações bebem em silêncio na esplanada. O Sol mergulha no mar e as gaivotas erguem-se nas sombras. Ao longe, um saxofone geme milagrosamente entre a babuja da preia-mar.

A mulher levantou-se e dirigiu-se ao balcão ostensivamente envernizado de espuma.

 - A minha conta, pediu com gestos meticulosamente embaraçados.

O empregado, que presenciara a lenta progressão da elegante senhora no salão, levantou-se cordialmente; do banco atrás do balcão, deixando o jornal; que lia sem interesse, pousar nas imperiais por tirar.

Uma centopeia, sem pernas, gritou na noite. A brisa nocturna, sem devaneios, invadira os lugares obsoletos, mordiscando os pensamentos dos  lampiões tímidos da rua.

No instante em que a mulher tirou o montante, exigido pelo bagaço; da malinha, entrou no bar um cavalheiro sem olhar. A noite pareceu mergulhar no vasto oceano, enquanto o saxofone se extinguia entre os barcos sem cais.

Sem retirar o sobretudo, o homem sem olhar, voltou à rua e atirou-se na noite desaparecendo na encruzilhada das trevas.

A mulher, depois de receber o troco, penetrou no ar frio da maresia deixando um rasto de luz no alcatrão ainda quente.

O empregado, retomou a leitura do seu velho jornal: ... a solidão é o império dos sentidos.

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publicado às 00:13

O Valente Cabo Santos

por vítor, em 19.03.08



Os soldados marchavam no seu passo de ganso sem nunca acabar. À frente o General, mão colada na testa. Óculos escuros.

Foi então que reparei no botão que certo soldado, alto e de queixo aprumado, deixou cair na ampla avenida.

O General tremeu. Os olhares sagazes dos convidados seguiram o rebolar do botão pelo asfalto duro e liso.

O cabo Santos gritou:chão! O General não sorriu. Os convidados precipitaram-se, acotovelando-se, para debaixo do palanque central tapando as cabeças com capacetes anti-qualquer-coisa, enquanto os soldados se espalhavam na cidade, de barriga colada ao chão. O destemido cabo Santos rastejou corajosamente em L, aproximando-se perigosamente do malfa(r)dado botão. Com sibilina destreza soprou-o para a sarjeta.

Ufffffff...fff, soltou, levantando-se e mandando formar a 26.

O General sempre de mão colada à testa. Óculos escuros.

Aproveitei o sinal verde e atravessei a avenida. Missão cumprida.

 

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publicado às 22:31


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07/2007 - Jorge Palma 08/2008 - Ricardo Araújo Pereira 09/2009 - José Bivar 10/2010 - Ana Drago 11/11/2011 - The Legendary Tiger Man 12/12/12 - Ricardo Araújo Pereira 26/12/13 - Rui Costa VII

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