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O Silêncio dos Afectos

por vítor, em 20.07.09

 

O sono paralisa a calma da noite. Paralisa a confluência dos passos na lenta progressão do calendário irreflectido quando gemes nos lençóis periféricos. Enquanto o prazer se esvai nas carnes reflexas e me recusas a humidade inconformada do sexo, ratificas o silêncio dos afectos, o vazio que me enche as apocalípticas memórias, as profundas fracturas rasgando desejos paranóicos que sucumbem no clamor dos instintos liquefeitos.

Quando a boca entreaberta revela a confusão das iniquidades das entranhas no enrugamento periférico do leito encharcado das humidades dos corpos, agarro a luminosidade das nádegas abandonadas, percorro a ausência que se instala entre nós. Uma ausência sem limites onde, por vezes, a multidão irrompe.

Quando o sono envolve a luz convulsa que emerge da carne insaciável, inicio a estrada fetal que me transporta a casa, onde renascerei sem ti.

 

 

(versão para poetas chalados - desculpem-me a redundância)

 

O sono paralisa a calma da noite

paralisa a confluência dos passos

na lenta progressão do calendário irreflectido

quando gemes nos lençóis periféricos

enquanto o prazer se esvai nas carnes reflexas

e me recusas a humidade inconformada

do sexo

ratificas o silêncio dos afectos,

o vazio que me enche as apocalípticas

memórias, as profundas fracturas rasgando desejos paranóicos

que sucumbem no clamor dos instintos liquefeitos.

Quando a boca entreaberta revela

a confusão das iniquidades das entranhas

no enrugamento periférico do leito

encharcado das humidades dos corpos,

agarro a luminosidade das nádegas

abandonadas,

percorro a ausência que se instala entre nós.

Uma ausência sem limites onde,

por vezes, a multidão irrompe

quando o sono envolve a luz

convulsa que emerge da carne insaciável

inicio a estrada fetal que me transporta a casa

onde renascerei sem ti.

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publicado às 20:02

Do Santo Matrimónio

por vítor, em 08.04.09

Ando, já há que tempos, para escrever sobre o assunto. Agora que ele se eclipsou e desapareceu da ordem do dia, aí vai: casamento ... entre pessoas do mesmo sexo. E já agora adopção pelos referidos casais.

 

1 - Sou completamente a favor do  casamento entre pessoas do mesmo sexo. Sou ainda a favor dos casamentos poligâmicos/poliândricos e dos casamentos incestuosos. Ou seja sou a favor do casamento entre pessoas que o queiram. Entre pessoas livres, autónomas e na posse das suas faculdades mentais, todas as formas de casamento são dignas e aceitáveis. A lei tem de ser igual para todos.

Aliás, só não sou a favor do casamento entre um homem (ou uma mulher) e uma formiga, porque nunca esta  poderia dar o seu consentimento na contratualização.

Quando digo que sou a favor, não digo que acho que as pessoas devam casar. Aliás acho precisamente o contrário. Mas se a lei permite a alguns, tem que o consentir a todos. No meu caso, que  vivo há 25 anos com a mesma mulher, nunca senti necessidade de me casar. No entanto, se me fosse vedada esta possibilidade, seria dos primeiros a vir para a rua exigir os meus direitos ao casamento para... não me casar.

 

2 - Quanto à adopção por casais do mesmo sexo, sem ter as certezas que tenho quanto ao ponto 1 (será por ser um devoto de Freud?), sou também a favor. E bastava-me para isso o conhecimento dos maus tratos que casais heterossexuais (os tais ditos normais) exercem sobre os seus filhos. Portanto os casais homossexuais constituídos por gente equilibrada, de bom senso, afectivos e apaixonados (gente normal, diria) serão sempre melhores pais do que os primeiros.

 

3- Em relação aos casamentos polígamos não estou em querer que, nas sociedades ocidentais, tivessem muito significado.

No que diz respeito aos casamentos incestuosos penso que seriam sempre hiper minoritários, até porque o nosso grande Claude Levi Strauss nos ensinou que o tabu do incesto está na génese da cultura.

No entanto se a vontade livremente expressa das pessoas fosse essa não vejo como poderíamos exclui-los do direito ao casamento.

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publicado às 23:00

Sexo Privado

por vítor, em 26.03.09

O Adão regista tudo o que mexe na contra-cultura do sotavento e arredores. Lá esteve ele a filmar a apresentação do livro do meu sócio na 4 águas Fernando Esteves Pinto. Filmou, montou e divulgou.

No final da apresentação gerou-se uma conversa cruzada sobre o livro e o seu tema matricial: o sexo!  Como não podia deixar de ser, a Antropologia também quis acrescentar alguma coisita sobre o assunto. Como sabem, os antropólogos são especialistas nestas obscuras áreas do comportamento humano. O de serviço àquela hora é que parecia estar ressacado. Ou será impressão minha?

 

Filmagem e montagem de Adão Contreiras:

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publicado às 17:36

Oração sem Consequência

por vítor, em 05.01.09

 

 

Apareces sempre que o embaraço escalda

nas ruas onde a impossibilidade espreita

quando a inútil confluência dos afectos

encontra o vácuo ardente das peles áridas.

 

Apareces como espectro sem leitura

oração sem consequência

escarificando feridas húmidas

revolvendo memórias nas prateleiras longínquas

que obscurecem a sexualidade moribunda

sedimentada na poeira da amargura.

 

Apareces acenando ao longe

atravessando o abismo intransponível

da loucura instalada e fácil

carregando sinais que permanecem nas eternas tempestades

convocando gritos que rasgam cenários escuros

da inacabada árvore dos sonhos.

 

Na tua voluptuosa estratégia dançante

arrasas as defesas do destino

as portas que protegem da festa que alicia

os fluxos inertes da solidão.

 

O alvo não é um refúgio sem consequências

um cadinho estanque e frio.

Todos os lugares transportam distopias  carnais e suicidas

tentações brutais que afrouxam a coesão sofrida dos sentimentos.

 

Apareces e nunca ousas mostra-te.

 

Monte Gordo (aula de substituição - 9 B)

5/01/2009

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publicado às 22:59

March 21, 2007

Registo número oito [Registos gerais sem pretensões de diário] — joão bentes @ 3:57 pm

Julgo que a minha educação falhou de alguma forma, e que esse assinalável embuste escapa à capacidade de juízo da minha natureza. Sou por isso uma pessoa amedrontada. Não porque receie que algum desconhecido na rua me esfaqueie a troco de míseras importâncias, mas sim porque a minha lucidez é uma estranheza pouco abrangente. À imagem do meu rosto todos os outros são pouco esclarecidos. É devido a essa falta de confiança que os meus sentimentos são uma névoa de emotividades suspensas num paralelismo sempre ambíguo, desguarnecidos da clareza própria aos homens fortes.

Infelizmente nunca me considero ridículo, nem de algum modo penso que as minhas atitudes podem ser desrespeitosas, pelo que não posso, e ninguém pode, em qualquer situação, colocar a minha seriedade em causa. Não sei se estas observações abreviam-me a indolência, ou se a força da minha expressão terá suficiência redundante.

Não sou um indivíduo político, mas estou guarnecido de tal promiscuidade. Tenho a certeza de que conspiram contra mim, mas a minha fragilidade é hostil e acabarei por me tornar mártir. Tratar-se-á de mesquinhice ou decadentismo senil. Há quem no vulgo me ache a personagem trágica de um enredo extremamente óbvio. Enfim, sempre houve de tudo e para todos. Eu não vou além da minha fúnebre tristeza, do masoquismo da minha melancolia.

March 19, 2007

PS: Se algum estúpido me vier falar de erros ortográficos, que vá levar no cu. O erro ortográfico está para a literatura como o nú está para a arte. Ou como o ânus está para o sexo. Ou como a cegonha está para a maternidade . Ou...é melhor parar por aqui, não me vá sair algum disparate...

PS2: Vou voltar a colocar a tag sexo. Estou tão por baixo nas visitas, e até não vai em contra-mão. Pois não?!

PS3: O joão é meu amigo e ainda vamos ouvir falar,e falar, muito dele.

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publicado às 19:25

Má sorte ser porta

por vítor, em 19.11.08

Levantei-me à pressa e corri a tua casa, que ficava lá para trás da minha janela. Quando cheguei, ofegante e tonto, a porta recusou-se a responder onde estavas. Não tive outro remédio senão a agressão violenta. Arrombei-a. Mesmo assim, ao ultrapassá-la, não se coibiu de me insultar. Moribunda!

Entrei no teu quarto, coração na boca, com as células asfixiadas em tabaco, e não estavas.

Sem descansar, atirei-me à rua procurando o teu odor selvático. A porta, num último esgar de vida, rasteirou-me e caí na rua pestilenta. Na lama da vida.

Ao reparar na multidão que se juntou a apreciar o incidente, reagi à velocidade do som aos insultos histéricos dos amigos da porta e fugi aos trambolhões pelas calçadas íngremes da ignorância empenhada.

Percebendo que não era seguido, abrandei o passo e aspirei o ar profundamente. Tirei um cigarro do colete (encarnado?) e fumei-o num ápice. As forças vieram-me como por milagre e redobrei a procura. Senti então o odor a lascívia, vindo do barranco da aldeia.

Corri à ponte, que unia as margens intocáveis da povoação adormecida, e espreitei, a medo, o túnel de onde emerge o discreto curso de água. O que vi não me espantou nem me confortou: servias os ingleses na posição do costume.

Esperei pacientemente sentado nas guardas do velho pontão, sem intervir.

Depois de amealhado o suficiente para as doses do dia, fomos, de mão dada, aviá-las à do Leonel.

Confortados pelo ardor violento do sangue infectado, contei-lhe o ocorrido e a pressa em contactá-la.

Tinha sonhado com outra vida, outra postura sem remendos na consciência, numa solidão repartida, e tinha tido necessidade de lhe apertar as mãos.

Ouviu sem emitir afectos ou sensações, e, no fim, só lamentou a má sorte da porta de sua casa.

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publicado às 14:57

Embriaguez Total

por vítor, em 19.10.08

 

Sincronizei a respiração com a tua. Primeiro pelo bafo quente que me varria o peito. Depois, sem conseguir sonhar alto, pelo tenaz ardor do sexo. Sendo a respiração una, os corpos gemem ubíquos e ígneos na calmaria da noite. O atrito das peles suadas electrifica e escalda as mentes esgazeadas. Torna-as caudalosas e indeléveis. Simples e vulneráveis.

Os pés rebolam na cama. Sinto o cotovelo a pairar no ar, oblíquo e sereno. Os cabelos, lianas do amor, aspergem os olhos fechados na procura da liberdade insultada por seres sem pulsões derramadas na urbe.

Lá fora a vida percorre os caminhos do costume. A embriaguez total e permanente envolve as avenidas.

Agora sinto os seios, invulgares, na solidão do corpo. Espraio a reacção das ondas preliminares onde, infantilmente, recolho o suco da mãe ausente. Arrepio-me saber-te no meu lugar. Aonde não há esquecimento nem prazer invertebrado e narciso. Se o eterno confluísse no nosso buraco negro, a vida seria, inacreditavelmente, simples e amorfa: osmótica, sábia e pura.

Nos amolgados lençóis, os dedos soltam-se pelas dobras do linho ancestral. A tua voz começa a sussurrar, rouca e prenhe, ecoando nos lares da vizinhança. Num estrebuchar de medo unimos ainda mais as nossas respirações e deixamos a incorrecção periódica dos dias ultrapassar o desgaste rotineiro da vida aprisionada. Aos solavancos trocamos líquidos inquinados e profanamos a inquietude hierofânica das almas. Lavramos a terra rasa de restolho,  entre virilhas tumulares.

Ao fim da noite, fomos expulsar os espíritos selvagens numa mesa de café.

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publicado às 23:25

"Rolinhas" na copa de uma Alfarrobeira

por vítor, em 03.10.08

A rolinha da esquerda, na foto, foi a que recusou a carícia.

 

Sem a minha pick up Ford Ranger e a música que dela emanava, a solidão teria sido insuportável. Ao fundo os fios eléctricos onde o desfecho feliz aconteceu.

 

Acabei finalmente a minha solitária campanha da alfarroba. Fiz a minha dança da felicidade à roda da última alfarrobeira apanhada (para grande diversão do meu vizinho poente, que me observava ao longe) e fui telefonar ao sr. Madeira para mas vir buscar. Às seis da tarde, quando um camião do referido comerciante de frutos secos abandonava, lentamente e carregadinho, a quinta, senti um imenso orgulho de dever cumprido. Para o ano haverá mais.

 

Há uns dias atrás, enquanto me arrastava por baixo duma copa densa de alfarrobeira  enchendo umas caixas do fruto da dita, intui que estava a ser vigiado. Controlado com curiosidade a partir de cima. Ergui-me e deparei com um ninho ocupado por duas opulentas crias. Achei estranho. Por  esta altura do ano já as jovens avezinhas deram à monte e preparam intensamente as suas defesas para o longo Inverno ou para a viagem de fuga a esta estação. Só depois constatei que se tratava de crias de rola. Esta ave cria várias vezes ao ano e daí esta cena outonal. Perante esta aparição mágica, corri a casa buscar a máquina fotográfica e registei a enternecedora parelha. Infelizmente, com a emoção, a maior parte das fotografias ficou desfocada, por isso apresento-vos apenas a que está lá por cima. Não contente com a apreciação visual da cena, estupidamente, estendi a mão para acariciar uma das crias. Como era de esperar saltou imediatamente do ninho e, para meu espanto voou para uma alfarrobeira próxima. Fiquei em pânico: conseguiria sobreviver? Seria capaz de voltar ao ninho? Os pais encontrá-la-iam? Só mais tarde me apercebi que o meu gesto  foi, certamente, guiado por uma pulsão sexual inconsciente (desculpem a redundância). É que por estas paragem é costume nomear o órgão genital feminino de "rolinha". Foi para acariciar uma "rolinha" que a minha mão avançou, inconscientemente, na direcção do ninho. As rolinhas, como as "rolinhas", escapulem-se sempre perante investidas desajeitadas e imprevistas.

Como já era quase noite não pude acompanhar o que se passou a seguir. No outro dia corri à alfarrobeira maternal e... só lá estava a rolinha não acariciada. Da outra nem sinal. E eu destroçado. Pela tarde voltei ao lugar do crime e... rolinha nenhuma no ninho. No entanto ouvi um cu-cu-rru de rola vir de fora do pomar e segui o som. Quando saí do meio das alfarrobeiras, que me limitavam a visão, deparo-me com uma cena amorosa. Nuns altos  fios de electricidade, com ar de felicidade que só os animais conseguem irradiar, pai, mãe e filhotes rolas preparavam o futuro. Senti um alívio enorme. Se calhar até era responsável por uma precoce emancipação dos filhotes vaidosos da sua autonomia.

 

curiosidades: a alfarroba vende-se às arrobas (15 Kgs) e está a ser comprada a 5 euros a arroba. Numa hora apanho entre 3 e 4 arrobas. Parece que o Japão é o grande importador  de alfarroba algarvia ( a que preço será lá a arroba?). Os marroquinos estão a plantar milhares de hectares de alfarrobeiras. Quando estão a deliciar-se com um gelado Magnum, estão também  a apreciar uma parcela de alfarroba neles contida.

 

PS: (acrescentado a 5 do corrente) O maior poeta português vivo e artista plástico, o meu amigo Rui Dias Simão, também andou na campanha da alfarroba para sobreviver. Conseguiu, com os proventos, pagar todas as dívidas acumuladas e amealhar algum dinheiro para o Inverno. Entretanto o seu último livro, Os Animais da Cabeça, está por aí a implodir. Quem já o leu, o que é o meu caso, diz que é verdadeiramente assombroso...

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publicado às 21:51

O infinito e a sua sombra

por vítor, em 16.09.08

 

Olhaste sempre para o lado

não ousando ver a luminosidade

que se desprende do caminho,

 inventando a gestão do futuro,

corrompendo a perplexa realidade.

 

A memória difusa naufraga

nas traseiras da tua casa,

na árvore enraizada do quintal.

 

Vês as galinhas-da-cor-do-gato

alimentando-se de vermes da estrumeira?

Utiliza-as para viajares no tempo

feliz das paisagens encantadas,

no princípio fracturante e inatingível,

mergulhando as mãos na merda-fresca-da-cor-do-gato.

 

Para compreenderes a utilidade da podridão

reboca o teu olhar até à inscrição escravizante

dos  tempos primordiais

que espreitam por debaixo do entulho

onde o medo cresceu.

 

Não mudes,

o passado tem o tamanho do futuro

e a vida é um efémero lampejo de nudez

na anárquica deriva da esfera celeste,

na ausência dolorosa de lucidez.

 

A tua visão lateral é um sopro

nas velas da caotização do cosmos.

 

PS: Qual é a cor do gato?

 

VRSA, 10/9/08

 

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publicado às 22:18

Uma Catacumba Caiada

por vítor, em 28.07.08

 

  

Quando o calor se atirou à aldeia, podre e venenoso, o Zé saiu da taberna ziguezagueando.

  Sabia que nunca mais iria enterrar ninguém. Via-se pregado na parede do cemitério rodeado de aranhas que dançavam titubeantes e macabras.

  Contra o que sempre pensara, não morreria velho e foi-se despedir da espanhola com quem dormira as duas últimas noites.

  Àquela hora  os cães dormitavam nas sombras, abanando o rabo à sua passagem.

  O presidente da junta tinha-o prevenido três semanas antes que a profissão de coveiro era ingrata: - o osso é duro de roer. Mas o importante é que há mais marés que marinheiros.

  Em Lisboa, nos tempos de casado, tivera ofícios duros. Mesmo assim sempre pensou que morreria velho. Nem mesmo a separação da família o desesperou, e a vida era vivida com um sorriso interior, de parietal a parietal.

  Porém, o aviso preocupou-o.

  Caminhou junto à parede para aproveitar a sombra dos beirais. Torneou um barco semi desfeito de saudades. No poial da porta da espanhola estava, despreocupado, o marido desta. Despreocupação de corno manso, pensou.

  Atirou-lhe dez tostões. Para a aguardente de figo.

  O canavial murmurava sons de juventude, levemente embalado no sueste. A velha nora espiava por cima do casario árido vindo do deserto.

  Afastou a rede mosquiteira da porta e entrou no escuro antro dos pobres. Fixou os olhos, sem medo, no Cristo ameaçador do fundo, e releu o prato azul violeta: " o cabelo que foi loiro e depois se debotou, lembra alguém que tinha oiro e em prata se transformou".

  - Romualda , chamou baixinho.

  Os ladrilhos libertavam uma frescura agradável a alfazema. Entrou no quarto e viu-a estendida na esteira, completamente nua. As dobras da barriga pendiam-lhe até ao chão, subindo e descendo ao ritmo da respiração pesada. Não acordaria mesmo que um tubarão entrasse na ria e comesse metade dos homens que dentro de água esquartejavam os atuns do copejo da madrugada. Ficaria para mais tarde. Muito mais tarde...

  Procurou nos bolsos das calças um cigarro, e foi encontrá-lo num da camisa. Acendeu-o ainda dentro de casa e saiu decidido ladeira acima em direcção do cemitério.

  No caminho entrou na tasca do Marcolino - estrategicamente situada entre os mortos e os vivos - que dormia com a cabeça sobre o balcão. Balcão de amendoeira de amêndoa dura, onde se apoiavam as mais diversas vidas, desde o começo dos séculos.

  Serviu-se a si próprio de medronho. Era a única bebida que, no estio, lhe refrescava as tripas.

  As aranhas começaram a movimentar-se no seu cérebro dando-lhe uma sensação de inesgotável prazer.

  O Marcolino mudou de posição, disse alguma coisa arranhada, e continuou ouvido colado aos sonhos infindáveis do balcão. A venda era impotente perante o calor que se ia instalando sem pagar.

  Mais um medronho e saiu levando consigo a garrafa. Pagaria depois. Muito depois...

   "Medronho puro a bebida do futuro", rótulo sem cor sobressaindo da solidão das ruas escaldantes.

 "Nós ossos que aqui estamos pelos vosso esperamos". Entrou. Dirigiu-se à cova que começara a abrir pela manhã. Ajoelhou-se diante dela murmurando álcool para as entranhas da Terra.

  Sem que desse por isso, da catacumba do General, saiu um esqueleto com galões a condizer, armado de martelo e pregos. Com o queixo aprumado, protuberante, e rodando sobre os calcanhares a cada sepultura, chegou-se ao Zé que flutuava a um palmo do solo. Deu-lhe o braço e foram os dois até ao lado Norte do cemitério. Aí, o esqueleto general, pregou o esqueleto do inferno na parede caiada, peça do puzzle infinito da calmaria.

  As aranhas, agora livres, saíram à rua semeando  panfletos incendiários aos transeuntes.

  Duas árvores, frondosas, coraram de cumplicidade.

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publicado às 15:17


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