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o negócio das esplanadas

por vítor, em 03.12.12

 

Algumas vezes os milagres acontecem

Nas esplanadas do café, não chegam a horas

Para acordar quem precisa de repousar

Das loucas filas que se estabelecem

Nos esconsos armário da felicidade.

 

Há pessoas que tomam pílulas para dormir

Quando descobrem que a vigília é um estado

Terminal que visa perpetuar as conversas ambulantes,

As serpentes que perseguem as caras que emergem das noites.

Pesadelos ambiciosos no sono inútil, cancro que se instala

Nas ideias que fumegam nas chávenas de café.

 

O café é forte e o empregado atende as velhas

Com malandrice concupiscente. Ali, só a morte

Impõe o cumprimento da vida. Se não morrêssemos,

Ninguém largaria uma conversa a meio, ninguém

Se levantaria da esplanada fria sem se despedir

Para sempre. Todos fumávamos e ríamos e troçávamos

Da inflação, não haveria subsídio de férias, nem paraísos fiscais,

Nem mesmo bancos na Suíça. As férias seriam eternas

E a sobrevivência estava assegurada pela imortalidade.

Não haveria ambivalência nos escritórios onde

Se negoceiam as dívidas soberanas e as agências

De rating não fariam poemas atirando dados.

 

Nas esplanadas continuar-se-ia a tomar café,

Talvez aguardente de medronho da serra, as velhas

Seriam mais velhas, pois a morte nunca chegaria,

E os coveiros frequentariam workshops, fazendo

up grade dos ossos que manipulavam,

E passariam a exercer carreiras de sucesso

No mundo da alta finança.

 

No crescente e rentável negócio das esplanadas,

O tráfico de influências daria lugar a happenings

De solidariedade social, performances plásticas

Sem redundância nenhuma, sorteios de ganâncias

Desprovidas de valor ou meetings de pontos de vista dejá vus.

O vil metal chegaria de mercedes-benz, e de carro funerário,

E no coche barroco do falecido d João 5º.

Falecido??!! O que é isso?, perguntariam as crianças

Post mortem. No passado as pessoas morriam,

Ausentavam-se para sempre, explicaria um transeunte

Manhoso, erguendo, respeitosamente, os olhos ao céu.

 

Há cadáveres famosos que nos enformam os desejos.

Teimam, mesmo defuntos – descansados sejam -, em alienar-nos

O pensamento, em gritar fazendo estremecer as pedras

Tumulares. Se não morrêssemos, o futuro não seria o vazio

Que tentamos escravizar, o mundo que não conseguimos

Desocultar quando avançamos na escuridão.

 

Na esplanada os pássaros depenicam partículas

Recebidas por correio eletrónico, provocam os adultos

Com peidos monumentais e sorriem às crianças

Que os escolhem para amigos desinteressados.

 

Se não morrêssemos os cientistas deixariam

De tentar explicar as coisas e tentariam interpretar o nada,

O nada e a sombra que anuncia o fim sem fim. Nem é fácil

Imaginar o poder dos mecanismos que regem os mercados,

Nem fácil colocar bombas nas instalações dos bancos de investimento.

O grito fascista que ecoou na Ibéria profunda encontra

Seguidores nos caminhos irregulares dos desvalidos.

Viva la muerte, será o regresso às origens onde o vento

Açoita a tarde.

 

Nas esplanadas voltarão a ouvir-se os lamentos

Das vozes que reverberam as parangonas dos jornais.

 

VRSA, 21/11/12

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publicado às 14:59

eu sou a sombra do vento

por vítor, em 18.04.11

Eu sou a sombra do vento,

a silhueta das almas que penetram

a caverna onde repousas os dias

sem retorno. Eu renasço

nos teus lábios quando

a  loucura se esconde no reflexo

do espelho acorrentado, renasço

para morrer em seguida no teu olhar.

Olhar que ampara a dor dos momentos

calados, inerte complexidade da rebeldia

projetada na parede turva do esquecimento.

Eu sou a morte que caminha

ao encontro dos sentimentos que se levantam

na planície instável, ao encontro

dos outros que emergem da noite

e espalham o medo na nostalgia dos incautos.

As tuas mãos afagam-me o cabelo sinuoso

e acalmam a podridão que escorre das pedras.

Só assim se compreende a inquietude das bocas

moribundas, escancaradas na exaustão

das fraturas reverberando o sexo encantatório.

Eu cubro a pele que me recebe pulsando

nas calmarias do pesadelo de sangue, espojo-me

no suor erótico das membranas latejantes

atingindo orgasmos irretletidos.

No barco em que navego ao encontro

das janelas da alma diviso o murmúrio

 dos vagabundos que se aventuram

nos campos ébrios da batalha sem fim,

imprimo os passos que lavram os planos

divergentes da memória coletiva.

Eu sou a sombra do vento e ardo

nas tuas coxas voláteis.

 

Cativa 10/4/2011

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publicado às 15:30

poemas do banco de trás, na rua

por vítor, em 20.05.10

 

Saiu hoje para a rua. Debruce-se para dentro de nós e entre para o banco de trás. Venha respirar o futuro.

 

 

quando inclino o corpo

 

 

Quando inclino o corpo para a lentidão

redonda dos teus seios, vejo atentamente

que ainda não respiro o futuro.Sabes,

o pólen cai na boca dos que abrem

o silêncio. Sobra talvez uma fuligem em

cada pulso, levanta-se um leve vento,

mas os dias animados sequer encolhem

quando enlouqueces com as tuas baças

unhas amarelas...

 

Não é assim a casa desta manhã quando

os pintassilgos folheiam os cardos, e a cama

é devagar ao lado duma fogueira desmaiada.

As cabeças estremecem um pouco no

regresso do sol das dunas, há um navio

que deambula ainda no corpo, na exígua

memória duma guitarra e outras cordas e peixes.

Sim, alguém se debruça para dentro de nós,

quer sacudir a profunda alegria de sermos

uma realidade com sonho aberto...

 

Todavia temos os castelos que inventámos

após o murmúrio dos pinheiros altos, onde

guardámos as amoras, os medronhos

secos. Bebemos agora a água que resta

doutro vinho, proclamamos a prenhe volição,

a visceral palavra, e embora com uma ramela

a descansar em qualquer labirinto disponível

somos um carrossel de emoções descobrindo

aquilo que pressagiámos durante a vária

areia. Inclinamos o corpo e vemos atentamente

que ainda não respiramos o futuro...

 

Rui Dias Simão, Maio de  2010, edições CATIVA.

 

À venda neste modesto estabelecimento pela módica quantia de 7,5 euros (+ envio).

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publicado às 23:07

o albatroz

por vítor, em 16.05.10

 

L'Albatros

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

À peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.


[Baudelaire]

 

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publicado às 20:58


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