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Não há, não conheci ainda, ninguém como eu a cozinhar couve dourada, a bem da verdade, não se trata de couve, mas de repolho. Talvez porque tenha sido eu a inventar a receita. E é tão fácil confecionar! Talvez por ser tão fácil, ninguém se interesse por aprender a cozinhá-la. A facilidade é uma impostora e, por isso, afasta os que procuram. Aloura-se, no azeite, a cebola em rodelas finas, junta-se o repolho também cortado em rodelas. Quando o repolho fica cozido, junta-se-lhe mostarda de Gijon, quer dizer, de Dijon, e curcuma bem amarela qb. Mistura-se tudo bem com uma colher de pau (a mesma colher com que se iniciou o alourar da cebola) e acrescenta-se o sal. Pouco, que os tempos não estão fáceis para o sal e para os seus apreciadores. A saúde escraviza-nos. Finalmente juntam-se os ovos mal batidos com pimenta preta e folhas de orégão. Sempre revolvendo todo o composto, desliga-se o fogão quando o ovo está cozido. O resultado é uma fusão deliciosa que espanta sempre os comensais. O que não correu nada bem da última vez foi que quando guardava a mostarda no frigorífico a deixei cair no meio da cozinha: havia vidros e mostarda por todo o lado. Depois de tudo limpo, vidros e vidrinhos difíceis de encontrar espalhados pelo chão, juntei-me à mesa feliz que me acolheu como a um herói.



Da cozinha escapava-se um ligeiro odor a mostarda.

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publicado às 14:16

O cru e o frito

por vítor, em 09.06.23






O peixe frito, carapau da costa, para ser sincero, considerava-se tão inteligente, tão lendário, que não admitia ser apresentado conjuntamente com salada. A sua singularidade era o orgulho da tribo, vincava de forma clarividente a clivagem entre o cru e o frito.






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publicado às 14:10

...

por vítor, em 09.06.23




Prolongar uma esperança vã é uma dor esmagadora para quem a espera.














 



 







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publicado às 14:06

Do Determinismo Literário

por vítor, em 02.06.23

 



A cena literária nacional é tão pequena, tão circunscrita, que, quando te pões a falar mal de alguém, se te descuidas, já estás a falar mal de ti próprio. E, para teu alívio, e espanto, isso sabe-te tão bem!

A literatura deixou de servir para inquietar ou contaminar. Sabemos, no entanto, que os agentes literários, leitores, escritores, editores, livreiros, críticos, entidades oficiais e oficiosas, premiadoras do mérito e do demérito, formatados pelas correntes redutoras dos meios artísticos, ao menor desvio da regra não inscrita, do caminho já pisado, fremem de indignação e malham

nos que se atravessam nesta estrada da inquietude oficializada e canónica.

Nada há de mais perturbador do que um sujeito em contramão na

autoestrada. Nadando contra a corrente do rio grosso e manso.

O novo escritor será um mártir literário. Não lhe bastará a pobreza e a inutilidade das escritas, ainda precisa de ser maltratado por leitores, pares e críticos. Quanto mais desconsiderarem e rebaixarem a sua escrita, mais feliz se sentirá. Como a um mártir, o castigo só reforça o martírio: curiosamente, e a cultura judaico-cristã-islâmica é terrível e exemplar nestes domínios do martírio, castigador e castigado, escritor e leitor, retiram prazer do castigo.

Quando alguém elogia o escritor, por caridade, dever ou admiração, vê-lo-emos a planar, sem chão, vazio e aparvalhado. Quase sempre, enveredará por outros caminhos que se afastem da bajulação do leitor: o leitor é, continuará a ser, por incrível que pareça, a medida de toda a escrita.

Criador e criação, sendo um outro e outro um, numa dança sem fim rodopiando convulsivamente ao som de uma música gravada a fogo na memória coletiva da humanidade. A lassidão das peias deterministas, que libera loucos e dementes das pesadas correntes do determinismo social, faz destes os potenciais inovadores mais fecundos de entre os criadores. As obras de ponta serão o resultado, cruel e vazio, de mergulhos, em apneia, de pescadores descomprometidos no profundo e vasto inconsciente. Pescadores

sem rede, de pérolas inúteis.

Tudo o que fazes se liberta do que somos. A autoria é sempre uma obra coletiva sem autor. Inimputável. O que a IA nos vai trazendo, aos trambolhões, não é senão o acentuar e adensar deste pastoso manto que vai transportando e moldando a nova literatura. Resta-nos a voz. A voz que a tecnologia nunca encontrará.



(texto, sobre o tema "o fim da literatura", da Espúria, lido pelo Paulo Moreira no encerramento da Feira do Livro de Olhão)

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publicado às 15:33

estranha luz

por vítor, em 09.05.23
Há uma certa e estranha luz que incide nos corpos nos finais do inverno e impõe neles uma dor antiga, vinda do fim dos tempos, que ninguém consegue explicar. Depois, quando os dias crescem e as noites deixam de assustar os pássaros, e as flores rebentam as cápsulas prenhes, soltam-se as vestes e os jovens riem sem conhecer o porvir. Nessa nova claridade dos dias maiores, os velhos viajam como se o passado fosse uma terra prometida.

As sombras não calam as vozes que iluminam as vidas de quem amanhece todos os dias. É um engano meu amigo. A aurora é um resgate impossível do nada. Dançamos como pedras antigas. Somos o rodopio do vento burilando o tempo.

Tavira, 2 de fevereiro de 2023

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publicado às 01:08

Rio da Morte

por vítor, em 09.05.23

O pus que escorre desta ferida aberta inicia o rio. Onde começa a dor de me tornar velho. Sim, na ferida aberta, a nascente deste rio sem esperança, a viagem cansada por terras estranhas, traga a planície lenta em meandros de sangue azul cobalto desenhando veias e artérias rompendo a pele. O mar imenso da morte espera a corrente que o procura. Tudo desliza para o mar sem fim. Tudo se despenha na renúncia de continuar. É desespero e sapiência a torrente de lama que arrasta os últimos a sorrir. A cobarde morte esconde o trabalho intenso dos vermes devorando a carne devoluta. A podridão da vida.



Oceano emético de pus iridiscente, lavoura sanguinolenta castrando os antigos temores a deus. Nebulosa opaca ardendo no fim dos dias, atraindo os ossos dos defuntos ao abismo das árvores petrificadas, onde o vento range nas folhas tatuadas pelo verbo insano, verborreia inútil no clamor do silêncio. A morte sempre vence as desvalidas carcaças nauseabundas, envergando os paramentos dos profetas fraudulentos como são todos os videntes encartados.

Quando o rio se perde na lagoa que engole a vida, os patrões da noite sem memória atingem orgasmos monumentais roçando o renascimento das almas eméritas. São portas sólidas as que te oferecem para arrombar.

16/17.2.2023

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publicado às 01:07

heróis de antanho

por vítor, em 09.05.23

Se a superação do que julgavas impossível te levar ao trono dos heróis de antanho, podes acenar do alto dos teus sonhos aos que te precederam na cruel jornada.

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publicado às 01:06

Cantando o vazio dos dias

por vítor, em 09.05.23

Queria cantar eventos grandes, dignos de um aedo, mas na minha vida tudo o



que tem acontecido tem sido normal e indistinto. Os meus cavalos mastigam romãs enquanto viajo por pensamentos ignóbeis. Quando vejo o futuro vir ao meu encontro, reparo nos dias inúteis que me esperam. São todos dias sem memória e que se não fossem vividos nada acrescentariam à triste vida que prossigo. Se fosse um homem habilidoso, poderia editar o futuro e transformá-lo a meu favor. Os meus cavalos gostam de romãs. E ouço-os ruminar a carne granulada, sorrindo ao tempo que passa. Se parasse agora, diria que a minha vida não teria valido a pena, mas isso só o sei agora. Não poderia agir sobre nada, como não se pode editar o que vai acontecer sem o conhecer. Agora, que encaro o futuro como se fosse o presente exposto num ecrã à minha frente, posso acreditar na sua manipulação, na possível mutação dos dias inúteis. Poderia, até, tornar muitos dias em dias interessantes e memoráveis. Dias sem história que se pudesse contar aos amigos depois de os ter vivido. Com gargalhadas de gente solitária e ensimesmada. Gente feliz com futuros radiosos resvalando para abismos perplexos. Multidões ululantes construindo felicidade à medida, para todos. Dias repletos de eventos excecionais. Momentos de alegria e paz, de ódio e iniquidade, como são todos os que ficam na consciência coletiva da humanidade. O meu futuro será o meu passado. Continuarei, com a tristeza dos dias comuns, a criar cavalos. As romãs que os equinos devoram livrar-me-ão da insuportável imortalidade.



26.02.2023

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publicado às 01:03

...

por vítor, em 09.05.23

O poema nem interroga, nem responde: o poema é um resgate impossível do nada.



O poema nem interroga, nem responde: o poema é um resgate impossível do nada. Uma porta aberta para o vazio. Ainda antes de ser dito, já fede a cadáver santificado. Antes de escrito revela já a cicatriz que o devora. Só o poeta desconhece a inutilidade da criatura neófita. Tudo o que resta dessa criatura será um rasto de sangue e sombra. Uma cicatriz feita estrada que nos conduz e oprime: um desfiladeiro de dor, grito, escorrendo para a noite. Sentado nas bordas do penhasco, o poeta crê que as acelerações da corrente são o resultado da força impagável das palavras. Varado pelo destino entontecido, perecerá.



março de 2023, Cativa

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publicado às 01:01

Na noite a sua foz

por vítor, em 09.05.23

Se um rio transporta a tua indelével solidão, é na noite a sua foz. Muitos levarão candeias para te procurar. Sem saber que é na luz que se esconde o olhar suspenso das sombras.

Não podemos esquecer o fluir dos dias isentos de dor, inúteis e de efeitos secundários maléficos. Não podemos deixar de saudar os que confortáveis navegam à boleia da corrente.

- adeus amigos, tornaremos a ver-nos no passado! Abracemos o que nunca conhecemos. Adeus!

É então que surgem na paisagem inclemente os indigentes palavrosos exibindo roupagem já gasta pelo futuro. Mentem com a sabedoria misteriosa dos bichos acantonados na tua cabeça. Rompemos a fina película das imagens e atravessamos para o interior desconhecido apenas acessível a quem já morreu.

Pela estrela irregular que o corpo rompeu na citoplásmica fronteira, a luz ilumina as trevas onde navegarás o passado irrecuperável. A quietude dos teus sonhos é um resgate impossível do amor.



Cativa, 21.03.2023

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publicado às 00:57


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