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Festival Literário de Ovar 2025

por vítor, em 15.12.25
Já aquietado neste cálido Sul - retomada, o que tem que ser, tem que ser, a labuta da alfarroba - não poderia deixar de agradecer o singular e fantástico acolhimento que me (nos) reservaram, no Festival Literário de Ovar, no fim-de-semana passado, que não mais vou esquecer. Esmagado pela qualidade dos participante e dos inúmeros e diversificados eventos ao longo destes dias, nem consigo imaginar o duro, intenso e exigente trabalho que a a equipa organizadora tem de desenvolver para montar, cuidar e acompanhar tão complexo e abrangente edifício.

O FLO tem levado a cidade de Ovar pelo mundo fora. O FLO já era uma referência literária e cultural para mim e para o meu mundo. Nunca tinha imaginado, como nestes dias constatei, da sua magnificência. Da alegria e do entusiasmo dos que nele se entregam e integram, da movida que enche espaços de conferências, debates, tertúlias e performances, que animam as ruas (e o comércio) da cidade dos azulejos, com os seus risos, suas vozes e rituais que celebram a amizade e a alegria. A vida!

Foi um privilégio imenso ter-me juntado a esta festa que celebra a cultura, a arte, a amizade e o futuro. Um futuro melhor: sem gente que se julga superior a outra gente.

Somos todos a mesma gente!

Obrigado Carlos, por este espaço sem tempo que nos ajuda a levitar sobre e sob o mundo e as suas contradições e a refletir sobre como o tornar mais suportável, e a ser melhores pessoas. Obrigado à Maria José e às tuas meninas!

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publicado às 13:42

agropoesia

por vítor, em 15.12.25
O tempo não abranda, e as estações do ano impõem o seu ritmo repetitivo, circular, inadiável. Alguém tem que o fazer, e cá ando eu a filosofar pelo pomar de sequeiro, pelas mais doces sombras das sombras: as das alfarrobeiras. Vizinhos dizem-me que nem vale a pena. Estão a 5 euros a arroba. Mas eu sou como elas, um produto do tempo que vale o que vale, quando vale.

O meu editor telefona-me e manda-me meiles. Os versos são tão compridos, como os vamos espalhar pelas folhas? Vou a casa, abro o texto e envio propostas. Aproveito e vejo o João Almeida a atrasar-se na Vuelta.

Volto. Volto sempre. Voltarei sempre.

PS - Por aqui perto está a sepultura do nosso cão Matrix, que cavei docemente. Guarda a Quinta quando se chega.

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publicado às 13:40

Rabo de Peixe

por vítor, em 15.12.25

Nenhuma descrição de foto disponível.

Em Rabo de Peixe, tudo nos conduz ao Mar.

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publicado às 13:37

Os rios dos laranjais

por vítor, em 15.12.25

Sou eu quem conduz os rios pelo laranjal.



As águas seguem o que a enxada rasgou

Pelos torrões de barro, até às caldeiras

Que ocupam as sombras das árvores. No meio, o mastro de uma nave de frutos luminosos clamando pelos transeuntes.

Na terra sequiosa, as raízes absorvem os nutrientes

Da água que chega, das fissuras da terra que se encharca saem insetos apressados e toupeiras entontecidas pela luz que viola os seus olhos cegos. É um banquete farto para as galinhas da vizinha

Que seguem o mergulhar das águas. Por

Pura maldade, matam as toupeiras que abandonam destroçadas na charca que se esvazia. Fecha-se uma porta e abre-se

Uma outra repetindo o ritual da função que o passado tranporta. O calor instala-se por entre as árvores resvalando do barrocal sem fim. Acendo um cigarro e espero que uma nova árvore se alimente das águas subterrâneas que a enxada lhe oferece. Os pintassilgos cantam anunciando a maturidade dos dias e a plenitude das vidas.

O tempo estaciona em frente das poupas que escavam os caminhos e dos noitibós que dormem nas folhas que forram o chão.

Vindos da casa branca de cal que se ergue do meio do pomar

De laranjeiras vêm chegando risos de crianças.

Trazem os barcos para navegar nos caudalosos rios, e aportar nas mansas e frescas lagoas, nas sombras das laranjeiras.

Perante o espanto receoso das galinhas e o transbordante amor de quem manobra a enxada.

(agora mesmo, sem rede, na Casa Inglesa, em Portimão)

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publicado às 13:34

De lambreta voo

por vítor, em 15.12.25

Levantei-me tarde, como sói acontecer aos poetas num país de poetas, e voei de lambreta até à cidade. Ia oferecer o meu novo livro escrituras a uma amiga. Quando se chega de lambreta à cidade, nunca há problemas de estacionamento. Deixei o motociclo no passeio em frente à casa da minha amiga e toquei a campainha. Espreitou à janela do 1.º andar uma moça nova, bonita e simpática, pedi desculpa pelo engano. Premi a tecla do outro lado e ouvi um clique de porta a abrir no referido andar. Subi constrangido pelo estado em que, supostamente, iria encontrar a minha amiga: sofria de doença cancerígena grave há uns meses. Quando atingi a porta certa, esperava-me sorrindo. De barba e bigode, de pelos à volta dos olhos, sem dentes, de rosto amarelecido e de barriga proeminente. Sorria! As radiações que curam também são as mesmas que matam. A mim só me vinha à cabeça o monstro da bela e o monstro. Sorria! Sorri! Cumprimentámo-nos como sempre. Como se nada do que estivesse a acontecer estivesse a acontecer. Mentindo sem palavras, com apreço um pelo outro. Como fora em dezenas de vezes, em outras circunstâncias.



Ficou muito sensibilizada com a minha oferta. Agradeceu! Agradeci!

Descuidei-me e perguntei-lhe como estava. Que estava bem. Tinha ido ao tratamento no dia anterior. Disse-lhe que, se quisesse, não falássemos nisso.

Queres um café?

Sim, pode ser. Estou com pressa, tenho uma reunião às 4, menti-lhe. Sem saber quanto tempo ia aguentar e preparando a fuga. Levou uma eternidade a fazer o café. Talvez gozando a presença. Quem só sai quando vai ao hospital deve apreciar as visitas.

A casa dava para o rio e entretive-me a ver passar os transeuntes na borda d`água. Quase todos turistas. Como se de um filme se tratasse. Passavam para não mais voltar. As águas da maré subiam a grande velocidade. Marés vivas: Lua Nova: Lua Nova e Lua Cheia maré alta às duas e meia, dizem os antigos. Peguei nuns binóculos que estavam numa estante perto da janela e olhei as margens do rio. As esplanadas dos restaurantes, cheias àquela hora de sol radiante.

Costumo espreitar os caranguejos violino na maré vaza, com eles. Este ano acho-os mais pequenos, não sei bem porquê. Com o café nas mãos. Sorria.

É ainda primavera, no verão serão maiores, aventei, sem que percebesse, ou me interessasse saber, alguma coisa de caranguejos.

Sentámo-nos à janela a tomar o café. Estava bem quente. Como o tempo que parara.

Disse-me que quando ia ao hospital, quando saía, punha a máscara para esconder as pilosidades faciais. Toda a gente o devia fazer, acrescentava eu. Com as bactérias que se apanham por lá.

Falámos dos filhos, dos animais domésticos que tínhamos e dos que tinham partido (não dei pelo gato que sempre teve), de alguns amigos comuns. De alguns, com pinças da minha parte, que haviam falecido. Da autópsia (sempre a morte a vir à tona da mente) que ela, com a minha incompetente assistência, tinha feito a uma araucária da Quinta da Cativa, que, depois de anos de crescimento vigoroso, tinha secado (bem contornada a morte hein) de repente. Autópsia inconclusiva, como era de esperar. Disse-lhe que me ia reformar este ano e ficou contente com isso. Vi-lhe nos olhos.

Acabámos o café em silêncio.

Ainda fumas, perguntou-me enquanto acendia um cigarro de enrolar.

Não, há cinco anos que não pego num cigarro. Com remorsos do tamanho de um pedregulho incontornável.

Há muitas formas de morrer, pensei eu.

Bem minha querida, tenho que ir. A maldita reunião, menti-lhe sem remorsos evidentes.

Despedimo-nos como sempre! Talvez para sempre.

Desci as escadas com os olhos nublados da dor. Dei à chave da lambreta e cavalguei-a para longe. Tão longe que não sei aonde fui parar.



Cativa, 9.5.24

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publicado às 13:25

da negação de um abrigo

por vítor, em 15.12.25

Quem expulsa famílias de casas humildes, feitas com as próprias mãos dos moradores, com materiais pobres e achados no lixo dos ricos, e que não tem outro telhado onde se abrigar, só pode ser cruel e mau. Uma sociedade assim mete nojo!

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publicado às 13:24

o pranto do crocodilo arrependido

por vítor, em 15.12.25

O pranto que por aí vai com o passamento do Jornal de Letras. Meus amigues! Foi só o desligar da máquina: o ruim defunto já estava em estado comatoso há muitos lustros. Acreditem que, talvez assim, possa surgir uma criatura neófita das suas cinzas. Do caldo literário que repousa frio e quedo, neste país acomodado, vai ser difícil nascer algo. Mas acreditemos! Pior, asseguro-vos, não ficamos. E, é sempre bom recordar: é da podridão que emergem as melhores árvores. DEP.

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publicado às 13:20

Tecno-feudalismo

por vítor, em 15.12.25
Vivemos num mundo em que os mais ricos e as maiores empresas do mundo não produzem nada! O tecno feudalismo vive da subserviência dos seus numerosos, e cada vez mais aditos, servos.

P.S. perdão, produzem tolos.

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publicado às 13:19

Acabei de ler a biografia do Herberto Helder, pelo João Pedro George, Se eu quisesse enlouquecia, e gostei muito. Gosto de biografias agrestes e que não bajulem, ou beatifiquem, o autor. Tem falhas? Tem, como todas as biografias. Quem quiser mergulhar na Lisboa do último quartel do século XX, tem aqui um filme denso e fluído, movimentado e pormenorizado da vida nos cafés de muitos dos nossos artistas mais conhecidos.

Só um caso delicioso descrito no livro que cito de memória: tendo saído um livro de António Ramos Rosa, amigo do biografado e seu primeiro crítico, com uma apreciação bem positiva, que foi, vagamente, acusado de conter poemas plagiados a Helder, o poeta algarvio atira-se de uma janela, tentando pôr fim à vida. Por sorte cai em cima de um robusto arbustro que lhe salva a vida. Por acaso, passa na zona da ação uma sua vizinha a poetisa Maria Teresa Horta. Vendo o despeitado escritor aflito, entra num café e telefona para os bombeiros, ou para o 112, ou para a polícia, sei lá. Para espanto das entidades referidas e dos atónitos presentes no café, põe-se, aflita, a gritar para o bocal "depressa, venham depressa! Está um poeta pendurado numa árvore!"

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publicado às 13:16

da deformação do antropólogo...

por vítor, em 15.12.25

A minha deformação de antropólogo faz-me, muitas vezes, deixar o conforto do sofá para, curioso, assistir a eventos estranhos e singulares. Hoje, para mergulhar no maior espetáculo jamais havido em Tavira, lá fui ao tão publicitado concerto dos Calema. Não conhecia nenhuma canção, mas lá me meti a caminho. Como conheço a cidade há muitas décadas, não me foi difícil arranjar um lugarzinho fácil e relativamente perto do evento. Constatei que, realmente, se tratou do maior concerto já realizado na cidade, e manifestamente muito profissional e eficaz. Ouvi os dois primeiros temas e fui-me dali beber uma cerveja ao centro da cidade, estranhamente calmo. No caminho, a análise antropológica foi-me remoendo as sinapses. Paradoxos da vida: milhares de pessoas, sendo no Algarve, e tendencialmente jovens, mais de metade, seguramente, votantes no chega, celebrando dois rapazes negros, imigrantes, de S. Tomé e Príncipe cantando canções com sonoridades africanas! Como quase sempre, a abordagem do antropólogo traz mais, e mais difusas, dúvidas e questões do que interpretações aceitáveis. Já a cerveja só apresenta uma simples questão: sagres ou super bock?

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publicado às 13:14


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