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   João Fonseca Estola nasceu em Tavira cerca de 1861 e morreu por volta de 1935.

   Trabalhava de calafate no Sítio do Registo, na margem do Rio Gilão.

   Desde novo se distinguiu como homem forte, pois no seu trabalho manejava sozinho, com facilidade, grossos toros de madeira, os quais serrava manualmente para fazer e consertar barcos.

   Este homem ficou célebre pela  grande força física que tinha e ainda hoje o seu nome e os seus feitos são recordados por muitos tavirenses.

   Descrevo a seguir algumas das muitas façanhas que durante muitos anos ouvi contar sobre ele.

   Uma vez estava o Estola a trabalhar no seu estaleiro quando ali perto, três pescadores tentavam pôr a flutuar, sem conseguir, um barco que estava varado na margem do rio. Ele pediu aos três para se afastarem e sozinho conseguiu empurrar o barco para a água.

   Outra vez numa taberna cheia de gente, um "valentão" disse-lhe que apesar da sua fama de homem muito forte queria "pedir-lhe meças". O Estola disse-lhe. É para já. E agarrou o "valentão"  encostando-o à parede, com uma só mão. Manteve-o ali imóvel durante alguns minutos enquanto a assistência gozava com a fraqueza daquele seu contendor, que se esforçava em vão para se livrar da situação ridícula em que se encontrava.

   Uma noite ele pretendeu ver se um seu amigo estava no baile. O porteiro era um homem forte e disse-lhe, de forma arrogante, que não entrava ninguém sem pagar bilhete. O Estola retorquiu que não queria ir ao baile, só desejava ver se o amigo estava ali, mas o porteiro disse-lhe secamente que não. Em face disso ele pegou-lhe pela cintura com as duas mãos, levantou-o no ar  e colocou-o um pouco afastado da porta, onde o deixou como que petrificado. O Estola entrou no baile e saiu pouco depois. Voltou a levantar o porteiro no ar e a colocá-lo no local de onde o tinha tirado dizendo-lhe que não tinha encontrado no baile quem procurava.

   Apesar de ser muito forte o Estola tinha um carácter bondoso e muitas vezes utilizou a sua força para separar guerreias e apaziguar contendores.

   Era casado com uma mulher pequena e frágil chamada Ana e sempre houve entre os dois uma perfeita harmonia conjugal. Quando lhe diziam que, sendo ele muito forte e a mulher frágil, ela devia viver intimidada, retorquia a brincar. "A minha Anazinha é muito `senhora do seu nariz` e quando eu me comporto mal ela zanga-se e sobe para uma cadeira e dá-me bofetadas".

   No seu tempo os bombeiros estavam mal apetrechados e quando havia incêndios alguns populares e a tropa colaboravam com eles no combate ao fogo. O Estola quando "tocava a fogo" corria logo a ajudar os bombeiros. Casimiro Anica, no seu livro "Tavira e o seu Termo”, transcreve a comunicação feita pelo Administrador do Concelho para o Governador Civil relatando o grande incêndio ocorrido em 25-2-1891 na Fábrica da Moagem instalada no edifício do extinto Convento das Freiras da Atalaia, onde se dizia que " o mais esforçado elemento no combate ao fogo tinha sido o calafate João da Fonseca Estola que já noutras ocasiões arriscadas havia prestado o seu auxílio com todo o denodo”.

   O Estola era um homem muito forte, trabalhador, honesto, bondoso e capaz de praticar actos heróicos. Por tudo isto deve ficar para a posteridade, pelo que sugiro à Câmara de Tavira que o seu nome seja dado a uma das ruas da sua terra de preferência, na zona próxima dos estaleiros.

 

(texto publicado no jornal Postal do Algarve em Junho de 1998)

 

 

em, Memórias Escritas de Fernando Gil Cardeira

 

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publicado às 21:02



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