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Humanidade desumana

por vítor, em 09.06.07

A vida é simples. Toda a gente a anda a tornar difícil. Para além daqueles momentos de deleite que compartimos com os nossos amigos animais, pelo menos com os mais  próximos, como o sexo, a alimentação, o sono, a protecção da família, ou a questão geral da sobrevivência, temos a miríade de bens que a cultura nos proporciona e que, a sermos humildes e realistas, nos podem tornar a vida prazenteira, harmoniosa e mais bela. Quem gosta dos filhos, da família, dos amigos, das pessoas ( por enquanto tudo coisas simples e baratas de conseguir), de ler, de ouvir música, de apreciar artes plásticas, de observar pássaros, de andar a pé (no campo, na cidade, na praia...), de escrever, de pintar, de tocar, de viajar, de preguiçar, etc,etc,etc , não deve ter medo de viver. Não precisa de gostar de tudo o que acima disse e de muitas outras coisas que não referi. Um eremita pode ser sereno e inteiro apenas com o seu silêncio.

 

Claro que é preciso saber ultrapassar (vencer?) as duras armadilhas que se estendem ao longo da vida: a doença limitativa do “ser”, a velhice e a morte. É preciso aprender a lidar com elas como integrantes da vida e não naufragar com elas. De todas elas parece-me que a velhice ainda é a mais difícil de integrar. A velhice transporta as outras duas e, nos nossos dias, está transformada num sepulcro colectivo ante mortem , escondido dos olhares misericordiosos dos transeuntes da vida.

 

Não se trata de ser ou deixar de ser feliz. A felicidade é uma concepção religiosa que as sociedades de consumo adoptaram para impingir coisas, e mais coisas, e mais coisas e coisa nenhuma. Um gato quando captura um rato não é feliz. Um gorila que embala um bebé não é feliz, um homem quando partilha uma refeição com os amigos não é feliz: vive sem fracturas a linha do tempo. Eterniza o efémero. Pára o fluir do tempo (ou torna-o mais lento) e sente a flutuação  eufórica dos desígnios vitais. Relativiza, no caso do homem, os paradigmas brutais da cultura envolvente. Quando, e embora sendo verdade, o homem se torna o centro do Universo, a medida de todas as coisas, a vida torna-se insuportável e perigosa. O outro é sempre o outro e a compreensão da alteridade uma alegoria platónica.

 

O não entendimento da simplicidade da vida, com as flutuações atómicas suas constituintes, leva a alguns paradoxos da sociedade pós-moderna e isto diz respeito apenas a uma parte da humanidade, pese a tão propalada globalização que como toda a gente sabe só é global em aspectos particulares da vida humana, mas isso é uma outra história. Um desses paradoxos é o da monotonia das sociedades pós industriais onde tudo está ao alcance dos cidadãos. Onde a sociedade se está a tornar demasiado perfeita. A revolta contra este “tédio” tem levado às tão mediáticas erupções de violência-sem-sentido ” . Esta violência é sentida como a única forma de assegurar a liberdade individual. Como nos diz J.G.  Ballard “numa sociedade totalmente saudável, a loucura é a única liberdade possível”. O século XXI verá multiplicarem-se estes actos de loucura em que a desumanidade parece imperar mas que não serão senão o regresso ao humano que despontou da natureza há cerca de 100 mil anos. O regresso a um paradigma perdido para reconstruir o “homem novo” anseio de todas as gerações de antanho e configuração do ser humano enquanto produtor de cultura.

 

A vida poderá ser simples. A humanidade nunca escolherá o caminho que pareça mais linear. E parece-me que isto tudo não irá acabar nada bem.

 

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