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Poemas de Amigo III

por vítor, em 26.02.07

 

 

 

 

 

A propósito, conheces a destreza dos sinais

do vento, a dissecação de rumores subindo

pelo corpo ao murmúrio dos cabelos. São

desenhos que alimentam o olhar fugidio pela

água parada, a procura de pequenos animais

ancorados numa distância irremediável. Em vão

segregas outros rumos inclinados, pormenores

de infância vaticinam a indolência das palavras

onde escarras os dias. Surge uma casa

ou outra casa onde te convidam ao aconchego

de trocares os atalhos da pele. Saberás,

mesmo no escuro, ler um corpo palmo a palmo,

onde descobres um coração pernoitando só,

ao leres devagar a humidade muita pela

casa acesa.

 

Acordas aí da modorra de pequenos cristais de

solidão, sabes que é inverno e caminharás

para dentro e para fora da indizível língua

de fogo para repousares no vértice da água.

 

 

 

 

 

                        O cavalo acende-se por si

                   quando uma nêspera que cai apresenta 

                   um pássaro comedoiro.

 

                   Quando o animal hipantropo não perfuma

                   os recantos inacessíveis       eis um vento azul

                   que pernoita os sulcos quase verdes

                   da fome e da sombra.

 

                   Mesmo quando se não acende

o animal existe!

Risca a ressaca dos muros com mãos de relâmpago

                   e troveja ainda no crepúsculo dos galos...

 

                   Às vezes sobra a noite quando

                   uma rusga de silêncios

                   cai apagada

                   sobre a fuligem do cavalo.

 

                   O cavalo acende-se por si

                   perante o não sol.

 

                   Mesmo quando a bruma deambula

         de rosto em rosto!...

 

 

 

 

                            Digo o fim da rota

                            remota               

                            enquanto se não reinicia.

                                       

                            Respiro veloz a voz que percorre

                            o rosto da vela inacabada.

 

                            Rente ao fulgurante vento         

                            a esconsa rua

                            o corpo sentado à beira-mar.

 

                            Não vejo os barcos. São mil.

                            Enquanto nómadas no deserto do mar

                            sei

                            da lua não

                            mas os caminhos...

 

                            A parede do gesto repete-se.

                            Digo o fim repetido.

 

 

 

 

 

 

 

                                      ELEGIA DAS BOAS MANEIRAS

 

 

 

 

                   Obrigado obrigadíssimo obrigadinho obrigadão

                   é assim esta canção

 

                   Obrigadão obrigado obrigadíssimo obrigadinho

                   é assim tanto carinho

 

                   Obrigadinho obrigadão obrigado obrigadíssimo

                   é assim o vil ofício

 

                   Obrigadíssimo obrigadinho obrigadão e obrigado

                   já me sinto deslocado

 

 

 

                            Sei que sou por vezes inconsequente

                            porque não entendo

                            a beleza

                            da violência física...

 

 

 

 

                            tenho um grilo em casa                       

                            um charro no bolso

                            alguém no coração

                            um polícia em cada desgraça...

 

                            sou da mulher

o cigano de feira em feira

                            da mulher...

 

                                   será a ideia de deus mais útil

                            do que outra ideia qualquer?...

 

                            quase tudo faremos por uma sanduíche

                            d eternidade...

        

 

                                        MONÓLOGO

 

 

 

                     Criação:

 

                     vivem pelas arqueologias do silêncio

                     reunidos durante as cálidas insinuações

  do fogo sob a pedra

 

  Orgasmo:

 

  palavras marmóreas aéreas descem

  à fixidez do vermelho

 

  Solidão:

 

  a solidão transporta o rosto

  para a penumbra dos esgotos

  única musiqueta de todas as maneiras

  intransponível

 

faca

 

  aparecem na babugem os peixes mortos

  até isso te vai parar

  às tuas mãos sózinhas

 

  Morte:

 

  sibilina modorra desprende a língua do fruto

  na mutação das chuvas o rio engorda

  um objecto cortante arde-te frio nos dedos

 

  sei a pulsação do sangue

  digo logo para mim

  essa nuvem

  rebente profusa em teu pobre peito

( de Rui Dias Simão )

 

 

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publicado às 22:35



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