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Os corsários regentes

por vítor, em 29.06.18

 

Na periferia da noite, intensa e crua, os corsários regentes das inóspitas paisagens manobram os pardos combatentes da cidade.
Uma mulher velha dança nas ruas desertas, na solidão que desce dos candeeiros lacrimejantes, enquanto o desejo emerge das memórias recalcadas rompendo o passado, gangrenando a carne e estilhaçando os ossos fossilizados.
- Non, je ne regrette rien…
A mulher rodopia tão velha quanto a morte e tão jovem quanto os dias que restarão a quem luta pela irrepetível agonia dos amantes. É bela e não compreende o que lhe chega vindo dos dias sem regresso, de vidas aconchegadas nos corpos dos incautos passageiros da noite. Incautos porque desajustados à inclemente rotina dos dias. À inclemente tortura das horas. Na periferia da noite, intensa e crua, navegam argonautas pelos recônditos acidentes do negro mar, do oceano que encerras em ti e te impede de chegar mais longe.
A mulher velha sente o tempo como se de óleo das árvores se tratasse, como se a calçada lhe prendesse os pés e lhe entardecesse a gaguejante e sinuosa evolução através do cenário da noite fria. Ninguém lhe poderá valer: a aproximação à morte será sempre um caminho feito às arrecuas. O vento, que se apodera de tudo e tudo leva, soprar-lhe-á na face e os seus cabelos ensarilhados apontar-lhe-ão os campos das serpentes caladas que te separam do fim. Andas para trás caminhando para diante, arrastas-te no sentido da música libertadora que te conduz ao fim das palavras. Das palavras silenciosas e vãs, riscando o infinito como cicatriz escaldando a carne, ridicularizando o contrato social, dissolvendo as peias que te envolvem como se fosses uma aranha residente em labirinto concebido e tecido por quem não participa na batalha noctívaga do silêncio. 
A mulher velha dança e dança e dança e dança, e tudo envelhece à sua volta. Dança e viaja à velocidade do tempo que passa, embalada no sibilar doce das mórbidas serpentes e das performances das borboletas assassinas. A mulher que dança, dança na nudez sideral do devir voltando, de quando em vez, à periferia da noite que a todos envolve e a todos seduz. Regressa e exibe, triunfal, a sua juventude resplandecente, retorno ao pecado original onde encontra aquele que não habita a cidade nem nunca encontrara os caminhos que levam ao nada – um homem devastado pelo desejo incontinente do medo. 
Tudo envelhece num vórtice de penumbra na periferia da noite, no limiar do mito. É tarde e nada fará parar a correria desenfreada dos cavalos para a morte. Galopam sem freio rasgando a espessa poeira da noite, galopam sem deixar tatuados os duros cascos na fuligem do tempo. Tudo persegue, e prossegue, o vazio denso da manada. O oco que devagar ocupa o algo que some por entre as mãos postas em prece inútil. Aspirados pela dor que aproxima o abismo, avançamos ensandecidos pelo rasto de luz que a calçada oferta. Rejubilando na noite que se liberta dos entes parasitas que sustentam a cidade. Turbilhão que se afunda no estertor imundo da festa final. Da queda final.
As cobras rastejam, como é da sua natureza, na periferia da noite enquanto um homem que não habitou lugar algum baila, sinistro como faca mergulhando a carne latejante de sangue, com uma mulher jovem. Bailam na periferia do dia que se avizinha. Bailam no silêncio que arrepia.
- Non je ne regrette rien…
Monte Gordo, 27 de junho de 2018

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publicado às 16:26

Um silêncio incomum

por vítor, em 29.06.18


Havia um silêncio incomum na casa do poeta. Uma casa pequena, quase sem móveis. Branca por fora, amarela por dentro. Lá dentro, os livros ocupavam o espaço deixado livre pela vida do poeta. Que era quase todo. Vivia na casa, mas nunca escrevia na casa. Escrevia sempre no café. Sempre no mesmo café. No café central da praça central da pequena vila.
Sentava-se à mesa, quase sempre a mesma, e olhava a rua e as pessoas que passavam e os cães que deambulavam sem sentido algum, aparentemente. As árvores e os pássaros. Olhava tudo longamente e depois escrevia. Longamente. Olhava e escrevia, sempre nesta ordem. Se olhava depois de escrever, era para escrever depois deste último olhar. Nunca saltava olhares. Nem escritas. Uma ordem que lhe ordenava o pensamento e fazia organizar a própria vida. 
Tomava sempre o mesmo: um café e um pastel de feijão, no início da manhã; um galão e uma torrada, no início da tarde.
O dono do café e os empregados eram os seus únicos amigos. Trocavam as palavras indispensáveis para cada situação e sorriam às vezes. Poucas vezes. O jornal, a televisão, o tempo, algum cliente atípico regiam a conversa.
Quando o verão chegava e a esplanada se enchia de gente nova, nova em relação ao lugar porque de idades era muito diversa, alegre e risonha, vinda das grandes cidades, fixava gestos, movimentos dos membros, visíveis, claro, esgares e tiques. Mas o que mais gostava era de se fixar nas bocas que falavam e riam e silenciavam. Era um gozo: lábios, dentes, línguas, comissuras sincronizadas na comunicação sem som. Por pudor, retirava os olhos sempre que o seu olhar se cruzava com outros olhos. Apanhado em flagrante delito, escondia os olhos nas palavras sobre a mesa. Os dias quentes eram dias de trabalho intenso e penoso.
Quando o Sol desaparecia atrás do bairro e a luz esmorecia, despedia-se dos amigos de todos os dias e regressava à sua pequena casa quase sem móveis. Todos os dias os mesmos dias. Todos os dias novas palavras.
Uma tarde, em que se fixara nos lábios vermelhos e carnudos de uma mulher, que achou bonita, palavrosa e de fácil gargalhar, falando sem parar com um homem sombrio, na esplanada quente, os olhos da mulher pousaram, momentaneamente, nos seus. Não conseguiu retirar os olhos a tempo, e a mulher sorriu-lhe. Ruboresceu abundantemente e, nesse, dia, regressou a casa mais cedo.
Sentado num banco de pau a uma minúscula mesa de metal, escreveu um longo texto de amor.
PS1 – Nós, que nada podemos e nada queremos anunciar, suspeitamos que o longo texto, iniciado naquele cair de tarde, foi o preambulo de um romance como nunca ninguém tinha escrito;
PA2 – O poeta que nunca tinha publicado obteve, e isto é factual, um retumbante sucesso com o seu romance, publicado por numa das mais prestigiadas editoras da nação.Nesse ano, abandonando a pequena casa branca, o café da cidade de província e os amigos de sempre, percorreu em triunfo o habitual circuito de festivais literários levado em ombros por pares e leitores em geral.
Monte Gordo, 26-6-2018

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publicado às 16:24


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