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As noites da margem esquerda do Gilão/Séqua estão cada vez mais animadas. No Bar Almariado, numa noite tropical, apresentou-se uma mulher disponível...

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publicado às 21:18

numa tarde de chuva

por vítor, em 16.11.12

pintura de Rui Dias Simão

 

Da janela escorria uma camisola ensanguentada.

Pingava na terra encharcando o vazio

Que se assomava por detrás das casas.

Três facadas na carne rasgando

Os tecidos nauseabundos, expulsando

O sangue em golfadas efervescentes.

A minha mãe já não mora aqui e o sangue,

Que também é o dela, cai no pântano

Morno cobrindo o chão da cozinha.

A camisola envenenando as ervas daninhas,

Alimentando os vermes que me consomem o corpo.

 Agarrem-no!, ecoou como lâmina zurzindo

O ar brutal do bairro sórdido, não há crime

Sem castigo!, berrou o homem sem significado

Que assistia a tudo.

Nunca um crime foi sentido por mim

Nas fronteiras da solidão, respondi eu

Cobrindo a retaguarda.

Ratazanas sem compromissos escapuliram-se

Nas sarjetas iluminadas pelo odor dos enjeitados.

O vizinho do 2º dtº deu a primeira facada.

As outras que me rasgaram a pele e trincharam os ossos

Foram, no calor da refrega, atribuídas a incertos.

Conhecidos mas não identificados nas complexas

Poeiras que ensandeciam a tarde. A camisola

Aspergindo o espetro rastejante da pobreza.

Nunca ninguém fugiu de si próprio deixando

Um rasto de informação ofecendo

Aos caçadores de infinitos

O odor que os levará ao covil da presa,

Ao definhar do ritual do fogo e do sangue

Que rege o ordálio crepitando nas mentes

Experimentadas no silêncio, na viagem

Interrompida por deus.

A multidão rumina dissolvendo as persianas

Ululantes das personalidades elementares.

O crime percorre as ruas por entre

Conceitos duvidosos e ideias lancinantes

Abandonadas pelos que temem os estrangeiros

Nascidos entre os nossos. A matéria

Que compõe os heróis regurgita no princípio

Da noite, cadinho onde se fundem as ilusões,

E o crime assume a vertigem da virtude

Incontestável e una.

O sangue que brotoeja das feridas escancaradas

Sacraliza as ruas por onde prossigo procurando

A caverna dos prodígios labirínticos, a degeneração

Do corpo que reproduz o regresso ao fim.

 

Duma janela apontando a noite pinga

Uma camisola ensanguentada.

 

Vrsa 13/11/12

 

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publicado às 16:36

palavras inúteis

por vítor, em 05.11.12

 

 

Agora que tens as tuas palavras

inúteis gravadas no espaço que rodeia

 o teu quintal, ondulando nas cabeças dos vizinhos,

 nas consciências impolutas dos animais

 sentados nas esteiras da necessidade,

 agora, dizia, os inimagináveis dias de antanho
emergirão como batólitos

 de raiva rompendo os estratos superiores

 estranhamente superficiais. Das entranhas

 dessas palavras (ainda inúteis) soltar-se-ão estruturas

vazias como opérculos de peixes vadios

 que vagueiam nas noites de marés

 sussurradas. Nessas estruturas frágeis e silenciosas

 penduras o casaco de sombra que cobre

 o frio da noite, caminhas ao encontro

 da nudez dos círculos de luz que rompem

 os cálidos penedos da sensatez.


VRSA - out. 2012

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publicado às 15:28


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