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o fedor das entranhas

por vítor, em 24.05.12

 

(…) e continuava escavando,

escavando  a água que lhe escorria do corpo,

do interior da carne devoluta.

Atravessou a profundidade do princípio

através de árvores e pássaros

que o cumprimentaram com tristeza

estranhando a ousadia do cavador

desaparecendo na hiante cratera,

revelando o dentro onde a luz

varre a caverna essencial

para sempre corrompida. Cá fora

amontoam-se entranhas putrefactas

e repugnantes, instalação tempestiva

abrigando o futuro sanguinolento e breve.

A negritude das aves que disputam os escombros

traduz a poesia que se desprende das vozes,

do corpo escalavrado. (…)  e continuou escavando,

escavando o sangue que coagulava na ferida rasgada,

nos socalcos da escuridão que cediam à tristeza

dos citrinos. A lâmina dilacerante faísca

ao encontro dos sedimentos mais sólidos da paixão,

rasgando fraturas na indizível serenidade

dos rochedos fossilizados, desocultando

chagas cicatrizadas no antanho das palavras

ornamentais, esquecidas no interior das faces

labirínticas do corpo.

Argonauta no pus amniótico que envolve

a memória,  entranhando-se num mundo

de vísceras sem retorno, esquece a procura

dos primórdios fundadores da complexidade,

dos dias felizes maternais, afagos hipnotizantes.

As forças faltam-lhe por vezes na profundidade

 das sombras fazendo-o parar. Repousando

nos escombros flamejantes da viagem.

Os amigos recentes ficaram para trás e a claridade

da superfície é já um ténue fio acariciando

as paredes mornas da solidão.

Recomeças a perfuração dos estratos

mais longínquos com uma violência que desconhecias.

Voam fragmentos estranhos e incandescentes

sulcando a memória incompleta. Sentes uma

inusitada ereção perante as fêmeas expostas

que se te cravam na carne. Há mulheres saindo

 das sombras que te saúdam com o sexo húmido,

desafiando os medos acumulados em quartos

sem portas nem janelas, em fragmentos inatingíveis,

arquipélagos no imenso plasma do prazer que te

destrói a caminhada. Uma mulher que fodeste

uma só vez num molhe de uma praia deserta

arrasta uma criança que te olha de soslaio.

Só ingerindo a indigesta carne de cabra velha

poderás comunicar com os espectros

que vão pelo rio em sentido inverso.

Em vão agitas os braços, tentando

tocar-lhes com as pontas dos dedos.

Ultrapassas a cintura do sexo e penetras

um sedimento de lágrimas rasgando a lama

escarlate que emerge da sombra espessa e fria.

Ouvem-se gritos de crianças ansiosas, o vento

cala-se como se a noite se tivesse apoderado

de tudo e não precisasses de continuar a escavar

o que já não entendes como teu. Das vísceras revoltas

e ferventes solta-se um berro de recém-nascido.

O teu caminho chegou ao fim e um gato saltou

 para o berço que te acolhe. O choro para enquanto

o felino se enrosca no leito que é também o da tua mãe.

Resta-te, sem possibilidades de regressar aos teus pensamentos,

escalavrar os corpos dos outros.

 

O espelho não é tão aconchegante, mas revela cambiantes

externos que compensam o rumorejar das entranhas.

 

 

MG/VRSA

22/5/2012

 

 

 

 

 

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publicado às 17:04

pássaros vadios

por vítor, em 18.05.12




a porta abre-se

escancarando, subitamente,

as entranhas da tua moradia.


espreitam pássaros

vadios.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:19

cicatricem

por vítor, em 10.05.12

 

Ontem, aquilo que te preocupava foi apagado

da memória e empacotado em livros discretos,

suportes de um tempo lavrado na cal das paredes

expostas ao cruel sonho da opressão, ao medo

que estilhaça a caminhada pelo pó onde

os pés rangem na noite espessa e sussurrada.

 

Ontem, os escombros que rejeitaste no novo dia,

ainda palpitantes e revoltos da edificação caótica

da véspera, esconderam para sempre as cicatrizes

que te vincavam o caminho silencioso, tatuagens

efémeras queimando a pele, incendiando

o caminho sombrio que o vento açoita.

 

Eis que de súbito, ontem ainda, se levantam

ondas alterosas arrastando os que ousam enfrentar

o desconhecido, que desenham caminhos utópicos

rasgando o apocalipse, os ciclos repetindo o tempo.

Esta repentina alteração na dança dos dados lançados

na planície apanha-te – nos princípios – desprevenido

e à deriva. Reaprendes a erguer-te da superfície instável

do devir, os olhos procuram outros olhos que te guiem

na imensidão do caos. Reaprendes a conhecer o que

importa na voluptuosa insolvência dos incautos.

 

Quando a correnteza das águas amaina, compreendes

que estás só, que os que te acompanhavam seguiram

outras  veredas por entre os obstáculos salpicados

na imensidão do futuro. O tamanho dos dias que se estendem

diante de nós representa uma barreira na progressão, mas,

ao mesmo tempo, um desafio maior que te espera:

o curto espaço entre a vida e a morte onde

a cópula desoculta o caminho.

 

MG/VRSA   4/2012

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publicado às 16:52

 

Meto-me em cada uma... o que me consola, pouco, é que há palermas, poucos, maiores ...

 

Tavira, 2 de maio, na Biblioteca Álvaro de Campos, perante uma plateia em estado de espanto com as diatribes do introdutor da obra.

 

Por pudor, e para vos poupar, apresento-vos somente a 1ª parte...

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publicado às 22:10


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