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uma pedra desatenta e fria

por vítor, em 28.06.11

 

Era uma pedra dessas

Desatentas e frias

Dando conta das transferências

Suspeitas do que acontecia

Na planície em fogo destruída

Pelos momentos contidos

Que o medo anunciava.

Dessas sentadas na ordem

Eventual e permanente, no

Inexplicável esquecimento

Reduzido aos arguidos que

Encomendam as lágrimas.

À sua volta tudo mexia:

o pó, a areia, os entes

Que por si se deslocavam,

As árvores esparsas

Tudo se movimentava

Insensível à constância

Da pedra.

Alguns, raros, tropeçavam

Na pedra e interrompiam

A corrente dos que desfilavam

No plasma incontinente.

A gramática da pedra não

Exige compreensão profunda:

uma pedra resiste à análise da sua alma,

Da essência  onde repousa

O entendível. O que resta

Induz o turbilhão e a

Mudança nos fluxos envolventes.

Para o entendimento

Da correnteza é preciso parar.

Na inércia contemplamos

A mudança e abrangemos

Os elementos que se arrastam

Nos atritos que cicatrizam a pele,

As peles diversas que vestem

Os incaracterísticos materiais,

As coisas que flutuam no nada.

No algo que se confunde com

O nada aspergindo o todo

Que projeta e comporta o sonho.

Tropeçar na pedra é um

Jogo de azar que o tempo

Corporiza no pesadelo paradoxal.

Era uma pedra dessas

Desatenta e fria…

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publicado às 15:38

planície hilariante

por vítor, em 17.06.11

 

A paralisia que governa

A papoila delirante

Grita na noite esquecida.

O som que se esvai por entre

O prazer das voltas no leito

Duro das certezas

É um elixir divino rasgando

As vestes da tua irmã. A tua

Irmã que amas sentado

Na escada que conduz

Ao fogo purificador da culpa

Onde a moral asperge

O castigo ancestral da nobreza

Avançando na memória cruel

Do precipício.

Avanças no teu bocado

De amanhã e o dia estende-se,

Sem propósito visível, por entre

Os sacrifícios da canção dolente.

A viagem é definitiva e o acordar

Cerimonioso do coração embriagará

A planície hilariante.

 

Cativa,  11/5/2011

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publicado às 10:56

no infinito não há portas

por vítor, em 05.06.11

Lamento dizer-vos, sobretudo pelos possíveis danos causados às virgens úteis e aos crocodilos do costume, mas aqui tem habitado a melhor poesia dos anos 2010 e 2011. E a provocação nem é muito substancial...

 

No infinito não há portas

 

Apagaram as luzes e as questões ficaram para o fim. A breve história, que te apresentaram como metodologia para te encontrares, é um distúrbio na capacidade de enfrentar a desordem e inverter o processo que conduz à unidade mínima do amor. Queres questionar a fala dos outros, o discurso que avança na escuridão e revela a conversão da memória criando dificuldades à compreensão da linguagem. Apagaram as luzes e as certezas que alimentam as almas discretas recuaram até ao abismo das palavras primitivas. És uma bebé que sai à rua pela primeira vez. O mundo é novo e as folhas das árvores acenam-te da infinidade das almas. Nas trevas impostas, conduzes os passos acompanhando o sussurro da manada. Sem claridade, o melhor é perseguir a manifesta vontade da multidão que caminha flutuando na noite artificial e vazia. Aqui, sentes o reconforto do calor que se escapa dos corpos, a ausência de pensamentos. Só interessa caminhar na direção do infinito. Só o infinito poderá circunscrever o desejo que transportas. Nunca te ajudará a encontrar as saídas das sombras. Só saímos, ou entramos, quando há limites que interrompem as planuras, só ultrapassamos as barreiras quando nelas cavamos portas e janelas. Quando as saltas, por encantatório que te pareça, não ficas a conhecer a sua substância e, assim, não as ultrapassas verdadeiramente. A massa informe que integras, sem conhecer os teus parceiros de caminhada, irá um dia confrontar-se com o fim do pisotear do chão antigo. O mais provável é o voltear de cabeças, o recomeçar da estrada escura até uma outra possibilidade de confronto com o fim. Com a pluralidade da renovação das pegadas na pradaria brutalizada. É quando a horizontalidade esbarra com o muro violento que deves procurar chegar-te ao fim que promete o princípio. A manobra é de uma perigosidade extrema perante a deriva translacional da manada. A liberdade vem sempre após um limbo de perigosidade extrema. Se escapares ao esmagamento da dor que te acompanha, estarás (enfim?), só entre ti e o obstáculo que te limita a visão do que está para lá do fim. Ainda não chegaste aos territórios onde a tristeza é uma forma de ser livre como outra qualquer. Ainda tens que abrir uma passagem no muro de silêncio que se ergue à tua frente. Ainda estás a tempo de voltar e integrar o silêncio, regressar ao conforto dos sussurros que evoluem na obscuridade. (lembra-te que apagaram, há muito, as luzes) A escolha é tua. Só tua. Não é uma questão entre regressar e renascer: o renascimento é, ele próprio, um regresso. Um regresso ao futuro. O futuro é a tua escolha. Ousar enfrentar o desconhecido ou aceitar a benevolente oferta do caminho trilhado no pó que se levanta das trevas. Para lá do muro, existe um mundo sem portas nem janelas pejado de cadáveres que se atreveram a ser livres. O infinito é uma prisão sem referências. Não há portas para abrir na imensa vastidão sem fim.

 

VRSA 24 de Maio de 2011

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publicado às 15:04


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