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rumores antigos

por vítor, em 28.03.11

o ardor que penetra os rumores antigos

inverte o sono das insuportáveis

feridas inscritas no périplo das novas recusas.

Não é uma semente sisuda a desabrochar da morte

que poderá silenciar o apelo das noites pretéritas,

da inerte sofreguidão das pálpebras sulcando

o chão coberto de lágrimas circunstanciais.

 

da responsabilidade que transpira o incómodo

de interpretar a sabedoria que jaz nos corpos

estranhos jorram palavras desistentes,

riscam a penumbra onde os amigos ocupam

o vazio que desoculta a página revelada

no antes impossível, no erro inesperado

que funde as partículas, no fetiche do fim

que dissolve a neblina pintada no cenário

cru da linguagem abjeta. é uma anunciação

reiniciada (toda a linguagem é abjeta) quando

a iniquidade do esquecimento aponta a dor

ao cerne da nostalgia. Cativa os que não entendem

o verdadeiro fingimento que a decadência arrasta,

o fingimento tenebroso que acarreta o medo

que implode nos subterrâneos do diálogo murmurado.

 

de volta ao lugar de onde saíram os vibrantes

desejos de renunciar ao todo e apascentar

gaivotas na ilusão da parede obstinada.

de volta ao fim que inunda o silêncio

e interrompe o ruído das cicatrizes envoltas

em pó petrificado nos esconsos sótãos do sonho.

 

a fuga é um ardor que deslumbra a impotência

dos convertidos à ilusão ruminante das portas.

 

MG 28/03/2011

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publicado às 15:33

a escrita lava mais branco

por vítor, em 25.03.11

 

 

Depois de ocupares o vazio com palavras, deveria a página dizer menos do que revelava antes.

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publicado às 16:29

O Zé Alqueva é o melhor pedreiro que conheço. As obras cá da quinta são todas feitas por ele. Há uns anos, desenhei uma casa e apresentei-lha para a construirmos. É a belíssima casa de turismo rural que temos aqui na Cativa. Com uns reparos do mestre, lá foi, aos poucos, nascendo uma casa de habitação onde antes era o armazém agrícola do meu avô. Construímos é uma forma de dizer: construiu-a o Zé, que eu tenho o meu tempo ocupado a trabalhar para as coisas da mercearia. O mestre Alqueva é um perfecionista. Usa os materiais tradicionais como ninguém e gosta do que faz. Às vezes irritava-se com as minhas sugestões patéticas ou com os materiais que eu arranjava para tornar a casa (achava eu) mais bonita. Curiosamente, e para meu espanto, não levantou objeções a chaminé da lareira que desenhei e que se ergue ao céu. Já com os azulejos da cozinha o homem atirou-se ao ar: cada um é uma peça única no tamanho, na espessura e na textura, o que acarretava um trabalho brutal e moroso de colocação. Um dia, cheguei a casa e encontrei-o a chorar convulsivamente sem conseguir pronunciar uma palavra. Pensei que lhe tivesse morrido um filho, a mulher, o pai ou a mãe, mesmo sem saber se os tinha. Quando, passado um bom bocado, conseguiu balbuciar coisa que se entendesse, disse-me, aos repelões, que tinha morto a Perdida. Atropelou-a quando fazia marcha atrás com o seu pequeno camião. A Perdida era uma cadela. Como o próprio nome revela, apareceu, sem se saber de onde, na Quinta e de cá mais não saiu. Afeiçoámo-nos a ela e, mesmo já tendo um cão (temos sempre um cão, às vezes dois, mas sempre machos pelo que a Perdida seria uma exceção na linhagem dos guardadores cá do sítio), ficámos com ela. O mestre Alqueva era o que mais tempo passava com ela. Os moradores da casa e donos da aparecida saíam pela madrugada e só regressavam pelo final da tarde. A hora do almoço era o grande momento de convívio. Comiam juntos e partilhavam mesmo as refeições. No final davam um passeio entre as laranjeiras. Homem prático, em lágrimas, pegou no cadáver a esvair-se em sangue, colocou-a na caixa do camião e enfiou-a num contentor do lixo. Depois da morte tudo é lixo, disse-me, filosoficamente, ante o meu desagrado com o desfecho. Eu, um sentimental e protetor da saúde pública, costumo dar-lhes (aos meus gatos, cães e galinhas) um funeral mais condigno. Abro uma cova à enxadada, deposito o amigo docemente no fundo e cubro-o com a terna terra da Quinta. Vem este longo confuso texto a propósito de uma certa resposta a uma certa e determinada, e inconveniente, questão que um dia fiz ao meu-mestre-de-obras. Zé!, porque é que não arranjas uma boa equipa e, com a tua arte e sabedoria, não te pões a ganhar dinheiro a sério construindo casas e não te deixas de biscates para a vizinhança? Respondeu-me assertivo e sintético. Eu sou um homem estranho! Nunca mais falámos no assunto e regressámos aos interessantes temas de antanho: mulheres boas e futebol. A supra citada e certeira resposta a uma, também referida, questão inconveniente, deveria ser a deixa às constantes, e seguramente inconvenientes, questões dos meus amigos leitores; e refiro leitores, porque a maior parte dos meus amigos nem lê nem sabe que eu escrevo; que já navegaram nas minhas palavras. Então, quando é que publicas essas escrituras ocultas? Quando é que te podemos arrumar na estante? Se não o faço é porque achariam a resposta um contra senso. Não é o escritor um gajo estranho?

PS: O Zé Alqueva tem uma escrita impressionante, única e idiossincrática, como se quer para quaisquer escritores. Nos papéis que me entregava à sexta-feira para justificar o pagamento, chegava a dar três erros ortográfico na mesma palavra. Por exemplo: “sementu” em vez de cimento ou “cervisu” em vez de serviço. E o que é que isso interessa? Não reparou o escriba das presentes palavras que num poema já blogado e facebucado vinham três, digo três, arreliadoras burradas. Já agora, para o envergonhar, aqui vão elas: embriaguês, perconceito e, vá lá, equilibrio ( fosga-se, o que tive de lutar contra o corretor para as escrever assim). Viva o erro ortográfico, ele representa para a escrita o que o nu representa para a pintura (só para chatear, estive quase a pôr assento, digo acento, agudo no nu).

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publicado às 21:45

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publicado às 01:25

comunhão de iniquidades

por vítor, em 07.03.11

 

Devo, em primeiro lugar, assegurar-vos que este relato é real e verdadeiro. Sim, porque há coisas reais que não são verdadeiras e verdadeiras que não são reais. A bizarria do que contarei em seguida poderá, sempre, fazer torcer o nariz a quem vier a ler essas palavras. Eu próprio hesitei bastante em alinhavar a história que no final do último Verão presenciei com os meus olhos e me envolveu até ao âmago do meu ser. No entanto, por imperativos morais e éticos, não poderia omitir os fatos que abalaram, nesse dia de calmarias, os meus fundamentos filosóficos.

Agora que o frio do Inverno se apoderou dos corpos, alerto já, os possíveis leitores, para os danos intelectuais irreversíveis que a leitura do seguinte relato pode vir a causar. A escritura foi lenta e dolorosa e consumiu a parte da minha alma que tinha resistido ao vórtice dos acontecimentos que aqui partilho. A vida passou a ser outra vida. A decadência psicológica, já abalada pelo vivenciado, acelerou com a fixação do texto maldito que a minha mão lavrou. O medo apoderou-se de mim e pensei não ter forças para o finalizar. Lutando contra forças tenebrosas e ígneas levei a cabo a minha tarefa incontornável e, de certa forma, final.

Aqueles que não souberem transportar a dor que os desligará do passado e atirará, sem dó, no deserto da existência, sem qualquer possibilidade de retorno, deverão deixar, nesta última fase da apresentação, a companhia destas palavras. Minhas senhoras e meus senhores, arregaçai as fímbrias das vossas almas que vamos atravessar o inferno.

O Sol escaldava no final daquela tarde de Verão. A música da paisagem aspergia uma chuva de emoções na sonolência dos que vagabundeavam na cidade adormecida. Os cães procuravam as sombras que se estendiam a caminho do horizonte.

Cortando o tempo parado, surgiu uma mulher caminhando ao encontro do nada parecendo querer ser engolida na tarde que se apagava.

Eu, que o acaso atirara para a cena melancólica, estava esculpido na esquina de duas ruas anónimas. O alcatrão latejava no negro inverosímil da rua. Quando a mulher se aproximou da esquina-centro-do-mundo que me prendia à vida, reparei que a sua beleza irradiava uma serenidade triste e impenetrável. Uma imensidão de luz transportando a saudade  que os dias tatuaram na sua esfinge primitiva.

Petrificado, como lagarto hibernando na noite longa e fria, vi-a aproximar-se da esquina que não ousara dobrar, e fixar os olhos naquele que já não era eu. O tempo ignorara o movimento  astral  e fizera repousar em mim uma solidão possuída pelo sonho, onde o passado e o futuro se extinguiram na desordem inútil da divindade.

Por favor, dirigiu-se-me como uma sereia que se esmera por atrair os ouvintes para o fundo do ser, sabe-me informar onde se situa a rua dos fazedores de sonhos? As nuvens aceleraram no céu esbranquiçado da tarde. A perplexidade da conjuntura atingiu-me como se um rinoceronte vadio me tivesse golpeado as entranhas. Atropelado os pensamentos.

Fazedores de sonhos? Fazedores de sonhos? , balbuciei ruborescendo e fabricando caretas inapropriadas e convulsas no rosto apalermado que os deuses me conferiram. Não, não faço ideia de onde seja. Mas, e as palavras saíram-me sem sequer controlar o seu emergir lamacento do aparelho vocal, sei muito bem onde fica a rua dos paralelepípedos veludosos. É a estreita azinhaga onde descanso os meus dias sem sentido. Interessante, interessante, retorquiu a mulher que já representava o amor absoluto da minha existência, muito interessante.

Demos as mãos e fomos até minha casa. A noite, que adivinhara a hierofânica convergência, envolveu o que nunca pudera intuir na comunhão das iniquidades.

 

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publicado às 14:28

de volta ao lugar de onde nunca saiu

por vítor, em 02.03.11

 

"Estavam calados. A sombra adensava-se no estreito recanto onde estavam estendidos. Numa parede resplendescia o oiro ténue e tranquilo da luz do poente. Ouviam o murmúrio do ribeiro, um leve sussurrar de folhas, algum pio rápido de uma ave, a minúscula obstinação de um insecto solitário.

Diante deles uma pequena janela em parte coberta pela folhagem de um arbusto. Pelo outro lado da vidraça, viam nuvens brancas, vagarosas, leves. Continuavam em silêncio, imóveis, extáticos, possuidores de uma serenidade imensa cheia de luz e sombra. Cada instante era uma longa vibração plena a que outro instante sucedia, igualmente pleno, igualmente vibrante, igualmente sereno. Nada esperavam no seu inteiro abandono fiel à densidade do silêncio. Não havia uma história a contar, uma palavra a dizer, o silêncio inundava-os e a maravilha latente tornava-se uma presença silenciosa, que era tanto do espaço como deles próprios em uníssono com ele."

 

Ramos Rosa como nunca o ... leu.

 

4 Águas Editora

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publicado às 19:29


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