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visita de estudo

por vítor, em 30.01.11

 

Longe da papelada do dia a dia, até  pareço feliz...

 

Como já aqui tinha referido, o trabalho não me entusiasma por aí além. Mas o que me revolta, na realidade, é fingir que trabalho...

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publicado às 23:32

palavras e ideias

por vítor, em 28.01.11

 

O grande pintor Degas muitas vezes me contou essa frase de Mallarmé, tão justa e tão simples. Degas às vezes fazia versos, e deixou alguns deliciosos. Mas constantemente encontrava grandes dificuldades nesse trabalho acessório de sua pintura.  (Aliás, era homem de introduzir em qualquer arte a dificuldade possível.). Um dia disse a Mallarmé: “sua profissão é infernal. Não consigo fazer o que quero e, no entanto, estou cheio de idéias…”. E Mallarmé lhe respondeu: “Absolutamente não é com idéias, meu caro Degas, que se fazem os versos. É com palavras.” (VALÉRY, 1991, p. 207-208).

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publicado às 19:37

atravessando a calmaria

por vítor, em 25.01.11

 

 

 

às vezes aparecem na cidade

figuras recortadas na paisagem brusca

retirando da luz a sombra que cresce

na calçada pardacenta

 

um homem senta-se numa cadeira

azul e o vento fustiga-lhe o rosto

(quantas vezes já o dissera) imaterial

são três horas na tarde e o crepúsculo

assoma-se por detrás da noite

 

uma mulher, que o sopro da ventania

não incomoda, observa o que as horas

aspergem no desassossego dos sentimentos

criptados, na voragem das palavras cruéis

atravessando a calmaria que a envolve

aproxima-se da cadeira azul enquanto

o relógio da torre açoita o ar diverso

debruça-se, suavemente, sobre a cadeira

e beija o cabelo revolto do homem sentado

 

o relógio repete a linguagem do tempo

três vezes na cidade engolida pela sombra

as árvores despem-se para enfrentar o frio

 

 

o beijo atira o homem até aos confins de si mesmo,

até onde a solidão desaparece e o mar morno

contorna o emergir das palavras

 

a mulher reergue-se do beijo

e desloca-se imparável para o fim da rua

onde a espera a eternidade

 

a noite cobriu de trevas a cidade

e o homem renasce na esplanada

de cadeiras azuis, bebendo cerveja

com figuras que convergem no

esquecimento da dor

 

o caminho divergente acontece

quando as rédeas do afecto

não resistem ao que materializa a solidão

 

contra a tempestade ergues a dor.

 

MG 20/12/2010

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publicado às 19:35

prosas seguidas de diálogos

por vítor, em 23.01.11

A editora 4 Águas apresenta a nova obra de António Ramos Rosa. Prosas Seguidas de Diálogos. Uma pequena, independente e quase desconhecida editora do Algarve incendeia o panorama editorial, editando o maior poeta português vivo.

 

 

 

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publicado às 18:48

filigrana da tecedeira

por vítor, em 11.01.11

Anselm Kiefer

 

no primeiro despertar da sombra/ instalou-se um pesado silêncio/ nos socalcos da memória/ uma clara escritura invadindo/ os sedimentos frios do esquecimento.

todos os insetos da floresta/ sublinharam os nomes que fermentam/ no vazio do plural abstrato,/ a inveja necessária e vã apenas/ excetua os escaravelhos dormentes,/ companheiros dos aldeãos lilases,/ répteis no papel de ourives/ desenhando a filigrana da pele/ nas luzes copiadas e biformes./ é nesse momento que entram as máscaras/ retiradas da gaveta em flexões/ para assistir à partida das frases/ assassinas do covil dos ananases.

um homem comprou um jornal/ por um dólar e o capitão foi almoçar/ com o general. todos os nomes/ verdes e esquisitos almoçaram à parte/ na esteira que confundia a parcialidade/ do chão plural.

o capitão, órfão dos lilases incompletos,/ virou a folha do livro e o barril/ de pólvora iniciou a invenção que a mulher-aranha/ apresentou na noite confusa.

o general barrava o pão com chocolate/ todos os nomes e cada um deles/ desapareceram da frase registada/ na pele da tecedeira,/ tatuagem de bigode ornamentando a boca de vidro.

um moço e uma mulher saltaram o muro/ na ruela vazia para uma/

ilha fantástica na periferia do carnaval enquanto/ embrulham presentes em papel de fogo.

quando a personalidade do assassino/ foi desvendada todos, insetos, homens,/ mulheres e vegetais comungaram do/ ressentimento paradigmático...

não há perguntas difíceis, só convites/ exclusivos par dançar/ o silêncio da sombra.

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publicado às 22:48

vida tão estranha

por vítor, em 08.01.11

 

 

Era certamente eu que ali ia. Não podia haver dúvida alguma, pois o homem que atravessava a tarde gelada tinha, exatamente, a mesma forma estranha de caminhar. Ao longe, ainda hesitei. Mas quando nos cruzámos, na calçada luzidia, perdi toda a esperança de ser outro. De sermos outro. Quando os nossos olhares tristes se fixaram no nosso olhar, a resposta para muitos anos de procura surgiu do nada e emprenhou a nossa consciência apatetada: o eu que procurávamos era um nós estranho que nunca entenderamos. Separámo-nos como se a vida fosse um longo corredor que nos conduz ao vazio intangível. Qualquer que seja o sentido da vida, é para lá que caminhamos.

 

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publicado às 00:26

TAVIRA - 2011

por vítor, em 01.01.11

 

 

Esta cidade mata-me (literalmente...).

 

 

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publicado às 03:45


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