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romãs insondáveis

por vítor, em 30.09.09

 

 

Quando os dias felizes regressam e as paisagens se deixam perpetuar nas palavras distantes. Quando só existem bocados de silêncio nos caminhos insondáveis da memória - taumaturgos que se vergam aos obstáculos tortuosos do labirinto - , encontro a paz das planícies onde os parasitas da alegria jazem sob os sedimentos eternos da sabedoria.

 

Confortavelmente descasco as romãs que me paralisam os afectos e ordenam as físicas dores de antanho.

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publicado às 23:18

àquela hora num cemitério de aldeia

por vítor, em 28.09.09

Anselm Kiefer

 

Hoje, o meu pai fazia anos. Como de costume, vou ao cemitério colocar um raminho do seu pinheiro, junto à sepultura. O pinheiro já tem três metros de altura e foi semeado pelo meu pai numa lata de tinta e depois transplantado para o local onde está. Até há 10 anos atrás, foi ele que o apaparicou e transformou no lindo pinheiro que é. Desde então, tenho sido eu a cuidar dele. Desde então, também eu semeei (e depois plantei, seguindo os procedimentos do meu pai) o meu pinheiro e os meus dois filhos os seus pinheiros. Um sobrinho meu também tem o seu pinheiro. As idades dos pinheiros seguem (sem escala cronológica) as idades dos seus patronos. O do meu pai é o mais velho, a seguir o meu (já com uns magníficos 2,5 m) e, finalmente, o do meu sobrinho, o mais novo de todos nós. Os dois mais velhos, já dão pinhas e pinhões com fartura. Só há 5 pinheiros na quinta.

 

  Ali, junto à sepultura, entre duas alas de ciprestes imponentes, fumo um cigarro e olho para as fotografias do meu pai. Ali estou eu a olhar para mim. Só é pena (pena para mim, é claro)que o cabelo dele não seja o meu. O resto é de uma semelhança perturbadora. Perturbadora mas confortável.

 

Não sei bem porque venho aqui. O meu pai vive na memória das pessoas e, por isso, está mais em mim do que ali naquele buraco dum velho cemitério de aldeia. Talvez seja pelo silêncio. E o silêncio elimina barreiras, funde consciências e ajuda a unir o desunido. Vou ali colocar o raminho de pinheiro duas vezes por ano. No dia em que morreu, e no dia em que fazia anos. 29 de Janeiro e 28 de Setembro.

 

O seu pinheiro está sempre presente na quinta. Passo por lá todos os dias. Afago as folhas com as pontas dos dedos, e às vezes o rosto, todos os dias. Quando as gotas de orvalho e de chuva da manhâ ainda se desprendem das folhas pontiagudas, confundo as minhas lágrimas com as suas.Todos nós somos transportadores de almas. Das almas dos que nos tocaram fundo. Dos que sentimos falta sempre que não estão. Ninguém é só dele. A vida reproduz-se nos outros e sobrevive nos outros. Eu transportarei a alma do meu pai até ela se fundir com a minha. E passaremos a viajar à boleia de outros que nos queiram bem. Os pinheiros da quinta serão testemunhas desta caminhada colectiva.

 

Mas deixemo-nos de nevoeiros mentais que não interessam muito a quem está lá fora recolhendo os raios solares. No cemitério só estava eu e um gato. Lembrei-me de quando deixei de fumar (já voltei ao maldito vício) e vinha ao ritual do raminho,  nesse dois momentos do ano, fumava um cigarrito. Dois cigarro por ano não podiam fazer mal nenhum. Olho demoradamente os mortos vizinhos do meu pai e todos eles foram vizinhos vivos. Nossos  vizinhos. Na aldeia todos são vizinhos.

 

Quando me dirigia para a saída, e depois de ter passado pelas sepulturas dos pais do meu pai, percorrendo a rua dos ciprestes,  rostos conhecidos iam desfilando à minha passagem.

A maior parte das pessoas que conheci e conheço na aldeia já ali estão. Um dia também terei o meu rosto ali vendo passar vivos choramingas transportando almas de gente que não morre.

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publicado às 22:40

Vencedores

por vítor, em 28.09.09

 

Nas eleições de ontem, e para grande tristeza dos animais aqui da quinta, só houve um vencedor. O CDS/PP.

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publicado às 17:32

Prémio Cativa III

por vítor, em 21.09.09

Obra de José Bivar em exposição na nova galeria de Pechão.

 

A escolha foi feita, seguindo a lógica dos dois últimos Prémio Cativa, no dia 9 de Setembro. Só hoje o tempo permitiu a escrita de um post sobre o premiado deste ano. Pela primeira vez, o premiado é meu amigo (como diria um político, com muito prazer e muita honra).No entanto, esta amizade não tem nada a ver com a atribuição do Prémio Cativa deste ano. Ou pode ter, porque só conhecendo o Zé como conheço posso avaliar a sua importância no panorama artístico e assocativo do Algarve. Amigos amigos, prémios à parte.

"José Bivar. Descendente de El Cid, o Campeador, monárquico, neo-ruralista, artista plástico, criador da famosa Bienal de Faro e o homem que inventou a Rua do Crime e a sua primeira e mítica âncora: os Lábios Nus...", escrevia eu, há algum tempo, depois de uma tertúlia memorável em despedida do escritor e actor Valdir "Bujiganga", que regressava ao Brasil. Mas o Zé não é só isso: exilado em Paris, regressa a Portugal a seguir ao 25 de Abril e instala-se no chalé de Bela Mandil que passa a constituir, a partir daí, o maior cadinho de artistas que o Algarve alguma vez presenciou. Músicos, poetas, escritores, escultores, pintores, realizadores, declamadores, actores e gentes de todas as proveniências sociais, geracionais e geográficas tornam Bela Mandil uma referência cultural famejante e universal.

Está ainda para vir o estudo destes anos extraordinários de produção cultural no Chalé Cumano Bivar e a avaliação do trabalho desenvolvido por José Bivar ao longo detes 30 anos em prol do Algarve e do país.

 Homem independente e livre, nada dado a afagos de egos carentes. De rumo impetuoso ao encontro das tempestades, evitando as bonanças apelativas, tem pago cara essa teimosia em viver a sua vida sem ceder a compromissos patrocinais. De tanto dar, hoje é um aristocrata financeiramente arruinado. As instituições fecham-lhe as portas e evitam-no. Um homem livre é sempre um inimigo a abater...

 

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publicado às 14:53

Um Presidente só de alguns portugueses

por vítor, em 19.09.09

 

Se o Presidente é o garante do regular funcionamento das instituições democráticas, o que fazer quando é ele a subverter o funcionamento destas instituições?

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publicado às 00:51

os Génios também se abatem

por vítor, em 16.09.09

Estive até de madrugada a sofrer. Acabou por perder, e bem, na final com o Del Potro. Este minuto e meio resgata-me da dor.

 

 

 

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publicado às 00:13

 


Aí por 1948 realizou-se em Lisboa a Exposição Suíça. Naquele certame podiam ver-se os muitos artigos que os suíços são capazes de fazer apesar da pequenez do seu país, da pobreza do seu solo e da escassez de matérias primas.
A Suíça , mesmo falando várias línguas, tendo várias religiões e estando dividida em vários cantões, tem mantido através dos séculos um estatuto externo de neutralidade e interno de paz e prosperidade, graças à actividade do seu Povo.
Com a realização daquela exposição e doutras semelhantes noutros países, os dirigentes suíços pretendiam expandir a venda dos seus produtos, nos diversos mercados que estavam ávidos de comprar, devido à escassez de manufacturas a que o mundo esteve sujeito entre 1939 e 1945, por motivo da 2ª Guerra Mundial.
Para o acto inaugural daquela exposição foram convidadas as principais figuras políticas e militares, e também da indústria, comércio e agricultura.
O embaixador e a esposa receberam, como anfitriões, os convidados. Esta envergava um valioso casaco comprido de peles, que causou a inveja de todas as senhoras presentes, que por curiosidade lhe perguntaram de que animal era o seu casaco. Foi com surpresa que ouviram como resposta, que o casaco era feito com peles de toupeiras.
Entre os convidados contava-se a esposa dum engenheiro algarvio, que tinha sido ministro da agricultura, agora deputado e membro da administração de diversas empresas e abastado proprietário.
Uma das suas propriedades situava-se na freguesia de Vila Nova de Cacela, e tinha aí um chalé onde vinha passar uns tempos com a esposa.
A esposa sabia que naquela propriedade, bem como noutras da região, havia toupeiras e pensou mandar fazer um casaco igual ao da embaixatriz, com peles de toupeira desta zona.
Como residia habitualmente em Lisboa contactou aí com uma costureira, que se comprometeu a fazer o dito casaco, precisando para isso de cerca de 1200 peles de toupeira bem curtidas.
A senhora resolveu levar em frente a ideia de mandar fazer o casaco e, depois de consultar o feitor da propriedade, optou por pagar 3$00 cada pele ou 2$50 por cada toupeira morta mas não esfolada.
Este preço foi considerado aliciante, pois calcularam que qualquer pessoa munida de uma enxada podia apanhar 7 ou 8 toupeiras por dia, o que dava um salário superior ao dum trabalhador rural, que nessa altura ganhava uns 15$00 por dia.
O feitor contactou os meios locais de difusão de notícias - tabernas, barbeiros e sapateiros - para informarem os seus frequentadores de que, quem pretendesse apanhar toupeiras as podia entregar na propriedade da sua patroa, recebendo ali o preço acima indicado.
A toupeira é um pequeno animal do tamanho aproximado dum rato, que vive em galerias subterrâneas que escava na terra com as patas dianteiras, que estão devidamente adaptadas para o efeito. Alimenta-se de insectos, vermes e cascas de raízes que encontra nessas mesmas galerias. A sua presença nota-se pelos pequenos montículos que forma à superfície do solo, com a terra que retira das galerias, e que empurra para fora sem nunca sair à luz do dia. Por isso lhes chamam também ratos cegos.
Muitas pessoas da zona, ao tomarem conhecimento do prémio pela apanha de toupeiras, aderiram a essa actividade.
As toupeiras que durante milénios viveram, mais ou menos, sossegadas nas suas galerias, viram-se de repente perseguidas e chacinadas para satisfazer um capricho da moda.
Durante vários dias dezenas de pessoas percorreram as propriedades na região em procura dos montículos de terra, que indicavam a existência de toupeiras e quando os encontravam escavavam com a enxada as suas galerias até as apanharem.
Em pouco mais duma semana foram apanhadas as cerca de 1200 toupeiras, pelo que acabou a sua perseguição e as sobreviventes podem talvez contar com muitos anos de vida sossegada.
Esta história teve um epílogo frustrante, pois o casaco não chegou a ser confeccionado , porque o curtimento das peles não ficou em condições e a interessada desistiu da ideia, com medo do ridículo de novo insucesso.
Assim foi em vão o sacrifício das 1200 toupeiras.

 

em, Memórias Escritas de Fernando Gil Cardeira

 


(  Jornal do Algarve em 2 de Abril de 1997 )
 

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publicado às 23:34

qual estrelas de futebol...

por vítor, em 14.09.09

 

Afinal, a crer nas audiências dos debates televisivos (que parecem factuais), os portugueses interessam-se por política, gostam dos seus políticos e querem conhecer as suas ideias para Portugal. Só o futebol parece ombrear com as suas performances no écran.

 

As pessoas, na realidade, estão muito distantes da opinião publicada.

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publicado às 23:59

estranho silêncio

por vítor, em 08.09.09

 

Esta modesta casa apoia com todas as suas forças o Filipe Nunes Vicente.É pena que  as "vozes de esquerda", e eu sou de esquerda, estejam tão quietinhas como a nêspera do outro. Será porque o Filipe apoia nestas eleições MFL?

 

Estranho silêncio...

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publicado às 01:00

dançar até esquecer

por vítor, em 05.09.09

Agora, que entramos em tempos de vórtice, só me apetece dançar. Dançar, dançar para esquecer.

 

 

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publicado às 00:24


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