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cadáveres no restolho

por vítor, em 04.06.09

 

Ouço-a. Geme ao longe através do restolho que morde os tornozelos. Vem ao encontro dos dias parados.A minha guitarra conhece os meus dedos perros. Os meus amigos sabem que ela cansou de me consolar. Enquanto os filhos cresciam, adormecia-os nas noites longas de Inverno. Quando as meninges se agitavam nas convulsões da adolescência, encheu o meu coração - os nossos corações - , de orgasmos  avulso. Agora jaz encostada à coluna do átrio sem vida. É imensa a solidão do que resta. Das vidas ceifadas precocemente. David Carradine apareceu hoje. Amanhã será o dia de outros que não cabem na vida e adormecem nas inconstantes ondulações do cereal que espera. Que consome o húmus que a penumbra esconde. Os cadáveres antigos não distinguem a carne que ainda palpita, mas não sabe que o futuro resvala sempre que os dias se atropelam nas madrugadas silenciosas, das memórias que rastejam nos milénios que soçobram. Os velhos e os novos divergem apenas na rigidez da podridão que fermenta.

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publicado às 17:12

e tu não cruzas a ponte

por vítor, em 02.06.09

 

Esplanada deserta                                                            e eu

Vénus sobre a cidade                                                        e tu

a espreitar por trás da consciência

 

Um martini

com gelo e limão, só limão

 

Um euro e cinquenta

e um leve almareio

 

A cidade cresce das mesas até

às ameias onde espreita a noite

e tu não esperas por um ser

sentado na esplanada deserta                                          e eu

 

O rio passa por baixo

de Vénus e tu não cruzas a ponte                                      e eu

espero na esplanada deserta

 

Um euro e cinquenta

de vinho escarlate antes de jantar

para amaciar o tempo

 

A calçada rejubila, lisa,  nos milhões

de anos das pedras cansadas

 

E se não apareceres no canto da esplanada

onde se calam as aptidões inconfessáveis?

 

Beberei outro martini?

 

Com limão, caravela na solidão embaciada?

 

O empregado conhece-me

e convida-me a entrar

 

A noite é fria

e o silêncio embaraçoso.

 

Recuso o amparo do balcão

gasto em  noites e dias sem  nexo

por sedimentos de emoção carenciada

 

Quando chegas, a embriaguez

aprofunda a realidade ficcionada.

 

Os lábios tocam-se e vou para casa jantar.

 

 

 

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publicado às 19:27

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