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Embora vizinho da cubista cidade de Olhão, já há alguns tempos que por lá não passava. Hoje atravessei-a pela estruturante "rua" 125 e qual não foi o meu espanto  quando ao passar na zona do velho Estádio Padinha* não o ter vislumbrado. Em lugar das velhas ruínas das fábricas conserveiras que o limitavam a Sul, uma vedação metálica envolvia o espaço sagrado daquele pelado mágico. Na mesma vedação o futuro: Ria Shopping . Mais do mesmo. Um espaço insonso para parolos sem sonhos. Os promotores do novo buraco negro de afecto e integridade, é claro.

Neste estádio  joguei dos mais belos desafios da minha juventude e tive a oportunidade única de conviver com alguns  dos meus ídolos de sempre. Quando o meu Desportivo Tavirense (até se me arrepia a penugem) se deslocava à terra vermelha do maravilhoso pelado,  para enfrentar o mítico Sporting Club Olhanense, aos Domingos de manhã (começo sem falhas às 11), quando à saída do balneário nos deparávamos com os "cromos" da bola que começavam a chegar ao balneário para o desafio da 1ª Divisão, da tarde ou quando me deslocava, fim-de-semana sim, fim-de-semana não, para os grandes desafios do meu Glorioso e dos outros grandes do futebol nacional, aos Domingos à tarde. O fim-de-semana não estava destinado às deslocações ao Estádio Municipal de S. Luís,  9 quilómetros ao lado, onde se exibia o grande rival dos olhanenses, o Sporting Club Farense. Todos sporting ,  mas todos desculpados pela admiração sem fim dum jogador apaixonado. Como tinha cartão de jogador de futebol e passe de comboio porque estudava no liceu de Faro, assistia a todos os jogos do Farense e do Olhanense em casa, sem pagar um tostão.

Como vos disse o Estádio Francisco Padinha* *  já só existe na memória dos que o gozaram até não poder mais, dos que não perdoam a trágica perda e dos que sentiram os travessões e os pitões a agarrar na aveludada terra vermelha. Até a torre de tijolo de burro da fábrica se foi. Aqui onde, por décadas fizeram morada gerações de cegonhas das quais se dizia dependiam os resultados da equipa da casa no seu terreno. Se as cegonhas tivessem no ninho, o resultado seria a contento da equipa da casa, se andassem a petiscar nas lamas dos sapais da Ria, quem  petiscaria seriam os visitantes. Ao menos a alta e esguia palmeira junto aos balneários ainda lá está aspergindo a memória dos que a não respeitam

Não resisto a contar-vos um episódio que, por insólito, me marcou até aos dias de hoje e de sempre. Jogava O Glorioso no pelado do Padinha* um prélio importantíssimo contra o também glorioso SCO . Lotação a 150%, jogo intenso nos primeiros minutos. Guaraci ,  defesa central olhanense,  um guarda-fato da cor do carvão, vindo dos confins do Nordeste (aqui se calhar estou a exagerar, ou é o tempo que o está) dirige-se, qual panzzer , na direcção de uma bola que entra na sua grande área. Na direcção da mesma bola dirige-se, não menos veloz, o gracioso e frágil Nené O choque dá-se em plena meia-lua (estarei a exagerar outra vez na precisão GPS, ou é o tempo que está?) milhares interrogam-se sobre a integridade física do jogador encarnado. Quando o pó assenta, Guaraci está mais imponente do que nunca, Nené (está vive, está vive!) parece um zombie, não sabe o que lhe aconteceu, no entanto mantém, como sempre, os calções religiosamente brancos. Outra figura negra dirige-se agora imperativamente para a poeira suspensa, na zona frontal à baliza. É o suspense total. Leva o braço levantado aos céus e na mão fechado um cartão vermelho agressivo e soberano. Sem hesitações , exibe-o a um ainda apatetado  Nené que,  educado no cumprimento das leis, o aceita humildemente. Nas bancadas os risos, os aplausos e os assobios. O homem de negro introduz o ígneo  rectângulo no traseiro, salvo seja, orgulhoso. Onze rubi-negros contra dez  vermelhos (não me lembro bem o ano - 1976?- mas era certamente pós-25 de Abril). Iria o Olhanense impor a sua superioridade numérica? Sol de pouca dura. O Glorioso, comandado por esse génio de relvados e pelados que dava pelo nome de Vítor Baptista, alavanca-se para uma exibição estratosférica e cilindra os algarvios por sete bolas a uma. Nené, banhinho já dado, sorria no banco.

Foi de certeza a única vez que o jogador dO Glorioso foi expulso ao longo da sua longa e brilhante carreira. Mas a sua conduta irrepreensível não ficou manchada com o episódio. Até, dizem alguns, o envaideceu bastante. Uma pitada de sal numa biografia que até chateava de tão certinha e previsível.

*
O Estádio Padinha* (assim designado em homenagem a Francisco Padinha* * , um grande atleta de Olhão, campeão de luta e de pesos e halteres), inaugurado a 29 de Março de 1923, foi utilizado até 1984, quando o Olhanense se mudou para o actual José Arcanjo. Ali jogaram até à presente temporada as equipas dos escalões jovens, que vão agora mudar-se para o Estádio Municipal (piso sintético).

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publicado às 21:09



Tenho revivido as minha feiras  de Tavira dos tempos de meninice, agora através dos meus filhos adolescentes. Nos meus tempos a minha avó materna dava-nos "as feiras", qualquer coisa como 5 escudos, e eu rebentava com elas no primeiro dia da feira. Digo dia porque de noite não punha lá os pés. Nem a minha mãe tal autorizaria nem os transportes para a aldeia o permitiam. Só lá para os dezassete anos comecei a ficar pela noite dentro. Nos dias seguintes da feira, com uma cara de funeral, assistia ao divertimento dos outros e invejava-lhes a "riqueza. Sim, que só ricos poderiam gozar três dias seguidos  de carrinhos de choque, aviões, carrosséis e casa  fantasma.

Agora as atracções  são muito mais e mais espectaculares (vistas pelos olhos de hoje) e os tais de 5 escudos nem par uma volta de avião daria. Agora os carrinhos de choque são 2 euros e cinquenta, o Street   Figther 3 e e o Canguru 2.5. Uma verdadeira fortuna. Sempre a rodar e sempre cheios de adolescentes felizes e abastados.

Nestes últimos anos, desde que o mais novo dispensou o pai das aventuras a dois nos óvnis e carrosséis ( meduço oblige ), passo as noites de feira nas roulotes-bar bebendo umas imperiais e petiscando um polvo seco, na companhia de outros desgraçados pais que não vêem chegar a hora combinada com os seus rebentos (renegociada pela noite dentro com propostas irrecusáveis dos ditos) para finalmente aterrarem em vale de lençóis.

De vez  em quando os meninos e meninas passam pelo local do convívio paterno ( situado em palanque  privilegiado  de observação das diversões) como combinado previamente ou para reivindicarem   reforço monetário.

Desta vez o meu mais novo até ousou experimentar o famoso canguru. Uma espécie de carrossel que gira a velocidades proibitivas enquanto dá saltos bruscos para a frente e para trás. Os pares a isso o "obrigaram" que ele não estava muito para aí virado porque a primeira vez num instrumento de tortura como aquele mais se assemelha a certos rituais de passagem  para a condição de homem,  que põem a vida dos  ascendentes ao novo estádio em verdadeiro perigo de extinção. Como eu dizia, os pares, e principalmente as pares, fizeram-no correr tal risco que a um pai põe em estado de desorientação total. Não que não tivesse já assistido ao mesmo folhetim com o mais velho que agora, do alto dos seus dezassete anos, até no Street Figther se aventura, uma espécie de rampa de lançamento de foguetões com a técnica das fundas dos pastores, que faz as adrenalinas dos adolescentes atingir os píncaros da Lua. Mas ver um pré adolescente aterrado no meio de uma parafernália de ferros e luzes às voltas e reviravoltas a 10 metro do solo não é, certamente, nenhum regalo para nenhum pai. A não ser para aqueles que nunca conseguiram ultrapassar essa fase estúpida da vida. Estúpida mas a melhor e a mais bela de todas...
O que é certo é que o rapaz, que fez as duas primeiras corridas lívido e apavorado no meio de duas meninas da turma, tomou o gosto e repetiu enquanto houve dinheiro. Escusado será dizer que o pai, assustado mas orgulhoso, ainda contribuiu com mais algum numa negociação de dinheiro por tempo. Mais x euros menos y tempo na feira. Que sim, disse o rapaz rápido no negócio,  sabendo ambos que uma parte do acordado não seria cumprido.

O que é certo é que o heróico atravessador de rituais me chegou a casa todo amassado, com nódoas negras pelo corpo todo e com uma soneira que nem os dentes conseguiu lavar. Eu também não cheguei melhor. 4 horas sentado numa rollote-bar não dão saúde a ninguém. Aquelas cadeiras deviam ser proibidas pela ASAE . E já agora, e se esta diligente agência fizesse uma avaliação rigorosa ao "cangurus" das muitas feiras deste  país? Talvez se evitassem uns acidentes graves com jovens inconscientes (desculpem-me o  pleonasmo) e se contribuísse em muito para a saúde mental dos progenitores. Perdiam-se obviamente uns  quantos heróis mas isso é o que para aí mais há...

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publicado às 21:56

Uma Crise anunciada

por vítor, em 04.10.07


Com O Glorioso, O Grande, O Magnífico nas mãos do sr. Luís Filipe  Vieira, o país nunca mais sairá da crise em que está mergulhado. É pois um imperativo nacional atirá-lo borda fora. Não sei porquê este nome de Luís Filipe não me augura nada de bom nos próximos tempos...

PS: Como eu já tinha adiantado, o espanhol é um bocadinho pior que o grego. E este, como sabemos, de engenharias futebolísticas pouco percebe.

PS1: Cajuda (um algarvio, pois claro) nO Inominável.já!

PS2: (em 10/10/07) Como muita gente se tem lamentado de não reconhecer alguns dos jogadores da fotografia, aqui vão os seus nomes:

Em pé - Adolfo, Malta da Silva, Toni, Messias, Vítor Baptista ( o maior) e Bastos Lopes.
De cócoras - Nené, Bento, Jordão, Shéu e Moinhos.

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publicado às 00:02

Praga de Monte Gordo

por vítor, em 03.10.07


Havia-te dar uma dor tam grande tam grande,  que quanto mais corresses mai  te doesse e quando parasses arrebentasses!

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publicado às 23:08

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