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Um Juiz Parcimonioso

por vítor, em 21.09.06

 

 

 

 A minha estrutura óssea tornou-se mole e regressei a  casa de táxi. Mas os meus problemas não ficaram por aí: na minha ausência a lâmina de barbear havia sonhado alto e os vizinhos chamaram a polícia.

  Fui por isso preso durante o tempo em que o juiz fumou três maços de cigarros.

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publicado às 17:45

O Outono, a chuva e as alfarrobas

por vítor, em 21.09.06

O Outono começou em pleno:  calendário e estado do tempo irmanados.

A chuva caiu por toda a tarde no Sotavento. O odores levantaram-se das terras embriagando.

A chuva é dos espectáculos mais deslumbrantes da natureza. Na cidade, alguns, chamam-lhe "mau tempo", eu passo horas a olhá-la e a abençoá-la. Às vezes sem me dar conta que me misturo nela. Foi assim que hoje entrei, pelas 13 e 30, completamente encharcado no café Veneza, para honrar um compromisso.

Ainda por cima a chuva impediu-me de continuar a minha tarefa sazonal de fim de tarde. Hoje não varejarei nem apanharei alf@s . A vida no campo é tão dura...

 

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publicado às 16:27

Blivro

por vítor, em 15.09.06

Descobri no outro dia que os bloguers quando utilizam este meio para escrever um livro lhe chamam blook. Como sou português e abomino anglicismos tais como air bag, vou passar a apelidar o meu livro "Transeuntes" de blivro (não se riam,não!).

A partir de agora "Transeuntes" passa a ser definitivamente um blivro!

PS: É tão óbvio que de certeza já alguém p descobriu antes.

 

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publicado às 00:08

O Biógrafo de Hitler

por vítor, em 14.09.06

Morreu Joachim Fest que, entre diversas obras, escreveu a mais conhecida biografia de Hitler (1973).

Lutador incansável contra o conformismo desculpante dos "não sabia de nada" e "não podia ter agido de outra maneira", usado por tantos para fugir ao peso das memórias chamuscantes, passou os últimos meses da vida a lutar contra a morte de forma a concluir o livro de memórias Ich Nicht (Eu Não) que será lançado a 22 de Setembro e que fechará um ciclo e uma vida notáveis de dignidade, temperança e autenticidade.

Conta Fest neste livro  que, quando tinha nove anos, ele e o irmão espiavam uma discussão dramática entre os pais em que a mãe tentava convencer o pai a aderir  ao NSDAP( Partido Nacional Socialista Alemão). "É só uma filiação nada mais. Nós permaneceremos os mesmos". Sem qualquer exitação o pai responde:"Iria mudar tudo!" A mãe esforcava-se: " A hipocrisia sempre foi um meio dos pequenos se defenderem dos poderosos". O pai respondeu-lhe serenamente: "Nestas questões não somos pequenos". 

Deliciosa história para ler nos dias que correm...

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publicado às 23:35

Um Homem Apagado

por vítor, em 11.09.06

 

 

  Sou um homem apagado. Entendo as coisas mas elas não se dão conta que as sinto. Às vezes masturbo-me. Se esvoaçam as meias e as cuecas da vizinha, a punheta é lasciva e violenta. Se nada acontece, acabo a meio gás. Atiro esperma às coisas, através da janela, mas não chego a molhar nada. Se sujo as calças, as nódoas são de gasolina porque lá fora estou sujeito ao ridículo, das pessoas sociáveis. Nunca compreendi porque podem os cães exibir os tomates, sem ninguém corar. Ou o poder de alguns sons, que não podem ser emitidos em público.

 A vida, a dos outros, é composta por sucessos e insucessos. O poder é o insucesso mascarado de sucesso, para iludir os que querem o prazer nosso de cada dia. A carreira ou a vida é um dilema tracejante e de resposta óbvia. Agarrem-me esse palerma! As águas não lavam as mágoas. Só tornam transparentes as emoções obscuras. O local onde se curtem as dores sem sentido da impotência.

 Sou um homem apagado que gasta as horas nas ruas escuras da existência. Entendo as coisas, mas as coisas aspiram a entrar na história e a história é o poder, a repressão do prazer. O pecado solto e desengonçado apela, por entre os valores, asfixiado por normas sociais, a elegantes rasteiras possidónias e patéticas.

  A mim, que caminho ao sabor das ventanias, o tempo flui sem interesses culturais adjacentes. As pedras parecem sapos deitadas na estrada exalando odores ígneos profundamente enraizados nas consciências povoadas de dor.

Acalento ainda a esperança de cumprir o futuro: conhecer a mágoa imprópria da vida.

 Só os sons parecem conhecer as palavras e seleccionar os momentos inertes do silêncio. Eu, não pertenço ao labirinto social complexo das imagens. Não cortejo a roupagem dos imbecis poderosos nem, muito menos, a dos poderosos imbecis.

 Às portas estreitas do vazio correspondem sempre avenidas largas de insegurança magnética e obscuridade flamejante e numinosa : hipantropias seladas contra a solidão imberbe da cultura.

  Sou filósofo do espasmo, acrata do pensamento. Acontece mesmo que sou um homem apagado.

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publicado às 00:59

Amizades Bafientas

por vítor, em 11.09.06

 

 

    -         Palavra!

   Sorriu ajeitando o cotovelo.

-         Nem mais uma única vez!

-         ??? !!!!

  Era Sábado à tarde. Já tarde. O vento do costume censurando a conversa. Os dois ali, especados, especulando restos do debate televisivo.

O amigo atónito.

-         A mim nunca mais ele me apanha o voto, incisivo, barbaridade! E tinham sido amigos tanto tempo. Lagarto seja.

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publicado às 00:45

Barriga de Atum

por vítor, em 08.09.06

A barriga de atum é um petisco fabuloso. Aqui para nós, que ninguém nos lê (literalmente), sou um belíssimo cozinheiro de barriga de atum. Prefiro-a grelhada na brasa e por isso especializei-me nesta variante. Uma brasa homogénea e não muito forte, sem deixar passar muito. Um fiozinho nho,nho ) de azeite (do melhor). Uma salada de tomate, alface, pimento assado e... orégãos (bem secos), regada, agora generosamente, com azeite e vinagre. Dio Mio!

Dirigi-me hoje ao mercado para comprar, entre outras coisas, umas belas postas de barriga de atum. Depois de correr os meus habituais fornecedores e outros vendedores, constatei tristemente que não havia, nem tinha havido nos últimos dias, sinal de tão distinta iguaria.

Intrigado, resolvi indagar o motivo de tão arreliadora ausência. Explicaram-me então, fonte segura e sapiente, que as barrigas de atum voam agora quase em exclusivo para o Japão. Mais se pescara e mais voaria. Os japoneses, tal como eu, são doidos pelas barriguinhas e pagam pelas ditas, segundo a minha fonte, 150 e 200 euros por kilo . Ao nosso alcance, e cada vez menos, ficarão apenas as barriguinhas que não passam os difíceis testes de calibre e qualidade nipónicos.

Espero bem que as rejeitadas pelos testes de qualidade também o sejam pelas nossas "redes" de avaliação da dita. Quanto ao tamanho é o menos porque elas continuam a ser espectaculares mesmo pequenas.

Uma coisa vos garanto! Não vou deixar de continuar a cozinhar e  a deliciar-me com as minhas barriguinhas. Nem que me dedique à pesca do atum.

 

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publicado às 23:35

Um Homem que por Acaso Era Eu

por vítor, em 07.09.06

 

 

 

 

 

   Um homem saiu na paragem seguinte. Deixou o chapéu no cabide de espuma entre a noite e o dia. Saiu sem pensar na cor do futuro.

  Algures ( num bar? ) sentou-se alguém. Alguém, que para o caso era eu, pediu um telefixo .

  Do outro lado do mundo (do balcão?) trouxeram-lhe um crucifixo .

  Xô, gritou um homem.

  Os transeuntes apressaram o fluir das horas e fingiram saber como semear amendoins.

  Eu telefonei para longe, para o espaço envolvente dos dias sem sabor. Onde os pássaros não cantam sem apelos da sociedade civil.

  Os transeuntes começaram a chegar a casa cansados dos dias memoriáveis. Os autocarros foram vomitando semáforos enlatados enquanto um homem errava todos os alvos. Excepto o da sua preguiça solitária.

  Eu, um transeunte neutro de civilidade, telecrucifiquei um santo homem.

Xô satanás que arrepias a utopia!

  Um homem, que por acaso era eu, atravessou a rua deixando um sulco de raiva no alcatrão quente. Amarás os transeuntes que param, disse um profeta vindo de mansinho. Alguns ostentam medalhas de medo, comendadores da porcaria, heróis da merda .

  O país encharcou-se de pus putrefacto e casto. Os transeuntes percorrem o caminho sagrado da ignorância uivante. Nas cidades não há sementes de melancia e a violência desperta prenhe e nua. Como as virgens. Liga-se às ruas como mães a filhos sem pais.

  Um homem, que por mero acaso até  era eu, olhou para trás. O que viu aspergiu-lhe a memória de nós. Nós e a morte.

  O candidato sentou-se na escuridão. Era alguém com a violência domesticada e mostrou-o a todos.

  Alguns acreditaram na bondade do crime e aplaudiram implodindo as palavras. 

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publicado às 23:16

Novo PGR

por vítor, em 06.09.06

Continuo a achar a Drª Maria José Morgado a melhor para ocupar o lugar!

Estamos mesmo a precisar de um Baltazar Garzon.

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publicado às 21:59

Uma Chaminé Sorridente

por vítor, em 06.09.06

 

 

 

  Faltava-lhe um dia de azar para chegar a casa e começou mesmo a ver-lhe já a chaminé sorridente. Na pressa de soltar os pés, tropeçou num ouriço cacheiro vagabundo. E como se a antipatia não morasse ali, encontrou um tipo de chapéu alto, com sapatos bonitos engraxados há cinco séculos.

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publicado às 21:56


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