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àquela hora num cemitério de aldeia

por vítor, em 28.09.09

Anselm Kiefer

 

Hoje, o meu pai fazia anos. Como de costume, vou ao cemitério colocar um raminho do seu pinheiro, junto à sepultura. O pinheiro já tem três metros de altura e foi semeado pelo meu pai numa lata de tinta e depois transplantado para o local onde está. Até há 10 anos atrás, foi ele que o apaparicou e transformou no lindo pinheiro que é. Desde então, tenho sido eu a cuidar dele. Desde então, também eu semeei (e depois plantei, seguindo os procedimentos do meu pai) o meu pinheiro e os meus dois filhos os seus pinheiros. Um sobrinho meu também tem o seu pinheiro. As idades dos pinheiros seguem (sem escala cronológica) as idades dos seus patronos. O do meu pai é o mais velho, a seguir o meu (já com uns magníficos 2,5 m) e, finalmente, o do meu sobrinho, o mais novo de todos nós. Os dois mais velhos, já dão pinhas e pinhões com fartura. Só há 5 pinheiros na quinta.

 

  Ali, junto à sepultura, entre duas alas de ciprestes imponentes, fumo um cigarro e olho para as fotografias do meu pai. Ali estou eu a olhar para mim. Só é pena (pena para mim, é claro)que o cabelo dele não seja o meu. O resto é de uma semelhança perturbadora. Perturbadora mas confortável.

 

Não sei bem porque venho aqui. O meu pai vive na memória das pessoas e, por isso, está mais em mim do que ali naquele buraco dum velho cemitério de aldeia. Talvez seja pelo silêncio. E o silêncio elimina barreiras, funde consciências e ajuda a unir o desunido. Vou ali colocar o raminho de pinheiro duas vezes por ano. No dia em que morreu, e no dia em que fazia anos. 29 de Janeiro e 28 de Setembro.

 

O seu pinheiro está sempre presente na quinta. Passo por lá todos os dias. Afago as folhas com as pontas dos dedos, e às vezes o rosto, todos os dias. Quando as gotas de orvalho e de chuva da manhâ ainda se desprendem das folhas pontiagudas, confundo as minhas lágrimas com as suas.Todos nós somos transportadores de almas. Das almas dos que nos tocaram fundo. Dos que sentimos falta sempre que não estão. Ninguém é só dele. A vida reproduz-se nos outros e sobrevive nos outros. Eu transportarei a alma do meu pai até ela se fundir com a minha. E passaremos a viajar à boleia de outros que nos queiram bem. Os pinheiros da quinta serão testemunhas desta caminhada colectiva.

 

Mas deixemo-nos de nevoeiros mentais que não interessam muito a quem está lá fora recolhendo os raios solares. No cemitério só estava eu e um gato. Lembrei-me de quando deixei de fumar (já voltei ao maldito vício) e vinha ao ritual do raminho,  nesse dois momentos do ano, fumava um cigarrito. Dois cigarro por ano não podiam fazer mal nenhum. Olho demoradamente os mortos vizinhos do meu pai e todos eles foram vizinhos vivos. Nossos  vizinhos. Na aldeia todos são vizinhos.

 

Quando me dirigia para a saída, e depois de ter passado pelas sepulturas dos pais do meu pai, percorrendo a rua dos ciprestes,  rostos conhecidos iam desfilando à minha passagem.

A maior parte das pessoas que conheci e conheço na aldeia já ali estão. Um dia também terei o meu rosto ali vendo passar vivos choramingas transportando almas de gente que não morre.

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publicado às 22:40


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