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torpor erótico

por vítor, em 11.06.09

Anselm Kiefer

 

Trago os braços caídos. Dizem-me que é a mais triste das decisões.O peito não acompanha a marcha que empreendo. Mas a decisão está tomada. A partir de agora o caminho em que projecto as sombras do meu corpo será o mesmo em que imprimirei os pensamentos que elaboro. Poucos, que o tempo devora as ideias e, até, as ideologias.Os que me chamam das peneplanícies adjacentes, dos abismos perpendiculares, vão ter uma surpresa que os atormentará: levo os braços caídos e a mente não responde às interpelações gritantes que me tentam amparar.

Agora, o destino que aceito  é uma estrada que rasgo na direcção que nunca intersecta vidas tracejantes. Num sentido que é único e não admite desvios ou regressos. Não me venham acenar afectos. Não sorriam ao passar dum sujeito que se centrifugou, condensou toda a sua matéria gregária e se transformou numa negritude de chumbo de onde nada se escapa e onde nada se reflecte ou penetra. "Transforma-te naquilo que tu és" dizia, e dirá para sempre, Nietzsche.

O drama desta decisão é que ela, assentando no mais profundo dos sedimentos da irracionalidade, me é consoladora. E, racionalmente, aceite sem convulsões idiossincráticas. Um torpor erótico sem necessidade do outro. Um tempo que não resiste ao tempo e que perpétua a dormência matricial da memória que se apaga.

Transporto os braços cansados e o que os olhos me transmitem não fixo no pano oblíquo da memória. As longas jornadas que me restam riscarão o chão de forma imperceptível. Ninguém me poderá seguir, nem sequer detectar. Na imensidão das vidas dos outros, espectro e matéria, na incompreensível correnteza dos dias, irei conquistando a solidão. Quanto mais se amplia, mais e mais confuso será o caminho a percorrer. A solidão que emprenha dilata os campos a peregrinar. Peregrinação sem objecto. Viagem ao encontro do nada. Ilusão que confunde os que observam tão estranha caminhada.

Em alguns momentos reparo nas sombras que se deslocam acompanhando as trasladações do corpo. Do meu, que os outros vão longe e a horizontalidade das suas sombras confundem-se com a penumbra do chão difuso. As sombras que que abandono nos calhaus do caminho não contêm a posição dos braços. Caídos. Nelas, os braços apresentam o movimento pendular inverso normal dos braços dos caminhantes. Um avança, enquanto o outro recua. Os meus braços balouçam, levemente, como ramos de árvore na brisa. Vão e voltam com o capricho do acaso. Gémeos no movimento e no desespero. Sinais que rumorejam abandono e desistência. Um mundo neutro onde não há gozo nem dor.

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publicado às 21:58



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