Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



A Cavalo do Impossível

por vítor, em 05.05.09

 

Anselm Kiefer*
A cavalo do impossível cheguei de longe. Era Sábado à tarde já tarde e bebi uma cerveja na tasca da esquina. Livrei-me de conhecer os cigarros já moribundos nos cinzeiros e passei à sobremesa sem grandes pressas.

- Outra cerveja, arrotei, das de exportação.

O homem do fundo levantou-se e saiu aos trambolhões pela janela.

*

Meu Deus.

Parecia que levava os bolsos cheios de lágrimas derramadas ao acaso. Já na rua retomou a compostura e rastejou assoviando às pedras da calçada.

*

Onde mora o encantador de serpentes, perguntei à empregada enfrascada em cebola. Respondeu evasivamente e colocou-se à minha disposição na posição habitual. A quatro é sempre difícil, pensei desabotoando a braguilha. No entanto, para começar não está mal. Fiz o serviço e saí pela janela.

O Sol punha-se atrás do bosque envenenado. As flores do soalho da rua empoeirada exalavam um cheiro acre a bife de vitela mal passado. Eram trinta luas para o fim da exposição final que começava a parecer um cravo espetado nos pulmões da aldeia. Afinal o encantador de serpentes morava no largo fronteiro ao cemitério, já na linha que separava a aldeia do bosque envenenado. Transpus a linha de um salto, que me pareceu mortal mas que afinal foi banal, e bati na janela da casa-sem-convicção. Ninguém, veio à porta. Achei-o meio desfigurado, por entre a amálgama de entes castrados que lhe espreitavam atrás dos braços e das pernas. Vinha um mau hálito, a sardinha crua, da sala do fundo que mais tarde vim a saber era o parlamento do país aos fins-de-semana.

Ninguém apresentou-se, pontapeando os políticos (?) castrados para o parlamento.

*

Sabe, começou.
*

Sei muito bem, interrompi, eu também bebo ao Sábado tardoite.
*

Então vamos ao que interessa, sorriu cúmplice.
*

Então vamos ao que interessa, supliquei.

Entrámos na cochia onde dormia uma serpente quadrada com bigodes de cartão amarelecido. Logo de entrada verifiquei que estava perto do fim da sessão da tarde e que a película estava toda corrompida por sábios estranhos aos desígnios da Pátria.

Ninguém depositou a chave do pensamento nas minhas mãos, coloridas de espanto. Então murmurou sem abrir a boca:

*

Vai.

A cavalo do impossível retirei-me para longe.

 

Curiosidade feliz: Anselm kiefer, um dos meus artistas plásticos favoritos (e um dia destes falarei mais sobre esta minha  fixação) vai instalar na zona da Comporta (costa alentejana) um projecto que liga arte e natureza. Como conheço bem esta região, graças a um grande amigo que aqui passa religiosamente férias de Verão e visito (não tão religiosamente como ele quereria), aguardo ansiosamente o desenrolar do projecto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:52


3 comentários

Imagem de perfil

De Pedro a 06.05.2009 às 15:19

pois...da mesma forma que nunca tinha pensado "benzer" como bendizer,também o religar nunca me tinha passado pela conjectura.

Um abraço ó tretas

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2014
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2013
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2012
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2011
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2010
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2009
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2008
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2007
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2006
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D