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Caminhos Sem Retorno

por vítor, em 31.03.09

 

Alguns ficaram para trás

o caminho tinha buracos e sabiam-no

abismos laterais

e não os temeram.

Uns soçobraram nos primeiros palmos da curta jornada

atarantados pelo súbito levantar dos cabelos.

Os que presenciaram a aspiração das almas,

caíram um pouco com eles, mas continuaram a trilhar

a poeira dos atalhos.

 

As linhas que conduzem os gritos

levam-me a terras estranhas

onde os moradores enlatam sonhos

que engolem os que não sabem esperar

pelas imposições agrestes da morte.

 

Em Marrakesh dormimos nas açoteias doridas

do barro tecido a kiff.

Em Amesterdão dormimos com as mulheres

que não sabiam podar laranjeiras.

Em Bordéus dormimos no átrio da estação de comboios

com lágrimas partilhadas por todos.

Quando acordámos, muitos tinham voltado atrás

o medo toldara-lhes o futuro

as suas mães cantavam nos mares originais.

 

Tapámos os ouvidos com cera

e os pés voltaram a rasgar as sendas desconhecidas

do acaso.

 

Para onde queres ser levado?

Pareceu-me ouvir

vindo da intolerância espiral

das atitudes ateológicas.

 

Nunca um amigo uivará na noite

sem que tudo pare

sem que o rastejar dos sentimentos

se esboroe na areia das engrenagens.

 

Depois do amor chegam aqueles que o amor contem

os que não deixarão de nos acompanhar

os que são a carne que restará da carne

que a terra nunca há-de aceitar.

A carga tornou-se pesada

 e os pés afundaram-se nas águas rasgando o caminho,

impossibilitando a progressão de alguém na poeira lavrada.

Mesmo assim teimámos seguindo os mortos esquecidos

os sem rosto ecoando  antanho nos labirintos.

 

És a espuma silenciosa que se alevanta na proa

revolvendo as correntes inadvertidas do tempo

o nevoeiro que oculta a insensata correria

dos deuses.

 

Os homens não são o que a natureza quis para si,

os frutos contêm os genes da podridão

que alimentam o que renasce da escuridão prenhe de sabedoria

 

Olhas, então, para trás.

Nada do que vês te é íntimo.

As pegadas cruzam-se em bebedeiras estéreis,

em estratagemas frágeis que ocultam a memória.

Voltar atrás será uma aventura tão rude

como seguir em frente.

És tu que tens que decidir

sou eu quem escolherá o destino.

Resolvemos recomeçar os trilhos invisíveis

que se estendem pela imensidão do deserto!

 

Quantos ainda nos acompanharão?

Quantos desistiram exaustos?

Quantos voltaram a pisar os mesmos pés que os pés calcaram?

 

Nada interessa.

O que fazemos hoje iniciará pensamentos

anacrónicos amanhã.

E tudo recomeça a partir do lodo inicial,

nos primórdios da caminhada.

 

Eis senão que alguns se adiantam

 e se despenham na sofreguidão da jornada

no abismo que ampara e enternece.

Refulgem na noite e alcançam

as esculturas da libertação da morte.

 

Nada disso me interessa, nos interessa.

 

Fico só

eu e a imensidão dos nossos.

Ninguém é ele próprio

todos caminham à boleia de todos.

Só quando nos excluirmos da globalização da consciência

sairemos para sempre de deus.

O esquecimento varrerá as partículas que restam

e nada será tudo (como sempre foi)

A marcha que nos conforta a respiração deixará, então,

a podridão alimentar o retorno dos corpos.

 

(Este será o poema que encerrará o livro "Partículas" que com ele finda até ao fim dos dias)

 

 

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publicado às 18:38



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