nunca incomodar... quanto mais sei mais sei que menos sei

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.votação

Pode Portugal sair da crise sem a ajuda da Troika?
Sim
Não
= ver resultados =

.Abril 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
24
25
26
27
28
29
30

.PRÉMIO CATIVA

07/2007 - Jorge Palma 08/2008 - Ricardo Araújo Pereira 09/2009 - José Bivar 10/2010 - Ana Drago 11/11/2011 - The Legendary Tiger Man 12/12/12 - Ricardo Araújo Pereira 26/12/13 - Rui Costa VII

.tradutor

.links

.subscrever feeds

blogs SAPO

.posts recentes

. Depois da batalha

. Tão velho quanto os pássa...

. O homem que nunca sonhara

. a vaidade

. a vida sem retorno

. um menino sábio

. um casaco negro

. uma camisola ensanguentad...

. Palermices à beira duma p...

. anos sessenta...

.4 águas/cativa editoras

5 euros (livro) + 2.5 (portes) = 7.5 euros vgcardeira@sapo.pt

.partículas

.horas amargas

.marcadores

. 25 de abril

. 4 águas

. actualidade

. adão contreiras

. adolescência

. aldeia

. alfarroba

. algarve

. ambiente

. américa

. amigo

. amigos

. amizade

. amor

. animais

. ano novo

. anselm kiefer

. antropologia

. arte

. bailados na penumbra

. beatles

. benfica

. blogue

. bob dylan

. cabanas

. cacela

. cacela velha

. canalsonora

. capitalismo

. cativa

. cidade

. cinema

. conceição

. contos

. corpo

. cultura

. democracia

. deus

. edições cativa

. educação

. eleições

. escritores

. eternidade

. faro

. felicidade

. fernando esteves pinto

. fernando gil cardeira

. filosofia

. fracturas intermédias

. futebol

. glorioso

. história

. homem

. humor

. jornais

. liberdade

. lisboa

. literatura

. livro

. livros

. loucura

. mãe

. memórias escritas

. mentira

. morte

. mulher

. música

. noite

. olhão

. partículas

. pensamento

. pintura

. poema

. poesia

. poeta

. política

. portugal

. praia

. prémio cativa

. relatividade

. restolho

. ria formosa

. romance

. rui dias simão

. sexo

. sociologia

. solidão

. sonho

. substâncias

. tavira

. teatro

. televisão

. transeuntes

. transeuntes again

. turismo

. últimos

. verão

. viagem

. vida

. vítor gil cardeira

. todas as tags

.vendo


My blog is worth $5,645.40.
How much is your blog worth?

.arquivos

. Abril 2018

. Março 2018

. Dezembro 2017

. Abril 2016

. Março 2016

. Janeiro 2016

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Agosto 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

Segunda-feira, 23 de Abril de 2018

Depois da batalha

 

No campo devastado os cadáveres apodrecem ao Sol. Foi decidido pelo rei 
Que só os necrófagos poderiam tocar nos corpos em sangue. Tens o teu irmão entre os mortos
Que incham ao sol clemente de agosto. Os gemidos varrem a planície da batalha e ninguém
Ousa aproximar-se. Ninguém, sequer, ousa aproximar o olhar.
Tudo apodrece naquela tarde resplandecente de sangue e morte, de heróis mortos, heróis moribundos e mortos. Ninguém festeja nada que a dor se ergue como montanha de medo. Como sabre esquartejando a noite que se aproxima. A noite que tudo esconde e tudo revela: já é noite quando te levantas do catre fedendo a dor; fora da tenda uma Lua febril chicoteia, ao longe, o campo de batalha; caminhas como se fosses um vento sem destino que não a morte; procuras por entre os cadáveres de cavalos e homens – um equino uivante escoiceia o ar carregado de pó e sangue, escoiceia e bufa -; um homem com uma fratura exposta no coração – cedendo perante o abismo de fogo e fuligem escaldante, fundido à espada que o não protegeu – agarra-te a perna tremente. Continuas evitando o ferro e os corpos jazentes, cegaste e nada vês. Só o amor te conduz e pensas-te como criança, os teus pais, os nossos pais e nós. Crianças como todas as outras. Só os adultos têm sonhos para as crianças. As crianças só querem viver. E viver é brincar. Sempre. Com tudo e com nada. E é por isso que não tens como deixar de desobedecer ao teu rei.
Quando te aproximas do teu sangue frio, parado nas artérias e veias que também são tuas, um suor gelado escorre-te do corpo. Os olhos fitam os olhos. Os teus brilhando à Lua fitando o fim. Os meus afogados em lágrimas por tudo o que fomos e ainda seremos. Afogamos em dor. A dor de antanho e a de agora. A dor que transportarei para sempre como para sempre te arrastarei para longe onde não te sintas abandonado.
Era já tarde na noite de todas as decisões, e o rei dormia agitado. Volteava e gritava na noite única e infinita. 
A sombra de um homem carregando o cadáver ainda morno de um irmão escorrendo sangue atravessou o campo de batalha, pisando as almas que se libertavam das armaduras moribundas e tropeçando nos gritos dos cadáveres abandonados. Carregou-o até ser dia e, depois de o ter deixado em paz, voltou para o seu rei.
O dia seguinte seria de festa e júbilo.

marcadores: , , ,
publicado por vítor às 12:00
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 27 de Março de 2018

Tão velho quanto os pássaros

 

Tenho mil anos, nasci em 1018.
Debutava o segundo milénio e ninguém tinha morrido. Ainda.
Era março do ano 19 do século XI. Tudo o que viria a seguir seria a repetição
Do que tinha sido aquele ano. Sou velho e quero a imensidão do infinito a gerar 
Rios de esperança onde há dor e todos querem os sacrifícios para serem jovens e 
Terminarem cedo os dias da incompleta solidão. Não somos o que éramos quando
O tempo vinha de mansinho trazer finitude aos sonhos, finitude aos amigos que deixáramos
na estrada. Nunca há tempo para estar com os outros nas sombras das árvores com pássaros.
Os pássaros voam quando não estamos sós, atravessam o coração de quem é feio e não
Nasceu para ser profeta. Todos os pássaros têm visões do inferno quando sonham alto. 
Todos os amigos te relembram constantemente que as primeiras chuvas de verão são
Vermes sugando o teu sangue nas correntezas do devir. Tenho mais de mil anos
e não sofro de artrites nas mãos. Tenho mais de dez séculos e não corro atrás da passarada dos vizinhos. Na terra em que nasci, os primeiros figos eram para os pardais. Quando a criançada lá chegava não encontrava senão grainhas das vidas passadas, das vidas mais antigas que a minha, das vidas com mais de mil anos. Mais do que eu mas mais novos que eu. Tão novos que, sendo eu novo, até parecia velho. Velho de um milhão de anos. De tempos antes de cristo, antes mesmo de buda e de todos os homens que quiseram ser como eu: apenas pessoas com mil anos. Matusalém podia ter sido meu amigo se os outro não olhassem para ele como se de um velho se tratasse. E, no entanto, era ligeiramente mais novo que eu.
Quantos suspiros tem um homem que atirar na tempestade para que as suas raízes se corrompam antes de morrer? Antes mesmo de deixar os abutres enlutados caírem da escarpa do esquecimento. Tão profunda como o universo que cavalga os titãs da raiva e do desespero.
Não, amanhã não será o dia da despedida. Será, apenas, tarde. E, por isso, levantar-me-ei, como sempre, cedo.

Cativa, 7 de março de 2018, 21:46

publicado por vítor às 17:33
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017

O homem que nunca sonhara

 

O homem que nunca tinha sonhado perguntou:
- Que silêncio é esse que te gela os ossos.
A resposta, seca e corrosiva, que recebeu da rapariga sem imaginação, soou como uma praga de libelinhas.
- Quem não distingue a realidade da metáfora nunca chegará ao castelo do homem velho.
E assim se passaram muitos crepúsculos.
Um dia, igual a tantos outros, o homem que nunca sonhara sentiu-se feliz e compreendeu o significado daquele silêncio oco que esmagava como sombra cobrindo as pegadas dos pássaros, a consciência atulhada de sonhos dos outros.
Levantou-se e não conseguia caminhar. Esqueceu-se de como dar passos na direção da noite. Quando um pé abandonava o outro, um desequilíbrio inexplicável tomava conta do seu andar, impedindo-o de ir em frente.
Agora, inerte na luz, a rapariga dos silêncios sentirá que a vida é um sonho na periferia dos pesadelos da solidão.

publicado por vítor às 14:53
link do post | comentar | favorito

a vaidade

A vaidade, vanitas, é tão antiga quanto o homem. Tão antiga quanto a cultura. É a figura humana, e não a dos bichos, que aparece mais na arte rupestre. O homem precisa de se ver fora de si para se entender. No entanto, a vaidade, vital para a sobrevivência e reprodução das espécies, tornou-se anacrónica. Ritual de aproximação ao sexo que possibilita a perpetuação de nós próprios, bailado nupcial que nos ilumina e altiva, que nos projeta na cena onde se digladiam os aspirantes à eternidade, rito complexo catapultado pela tesão, virou, nos tempos atuais, um comportamento ridículo, grotesco e desnecessário, contraproducente, na maioria dos casos, nas sociedades globais cosmopolitas e digitais. O pavão de antanho corrompeu o bailado e invadiu, ruidosamente, a aula de ioga. Como a feroz apetência pelo açúcar, que sendo raro na natureza nos impelia sem descanso na sua procura, se tornou um empecilho pois continua a atirar-nos para o doce quando ele se encontra por todo o lado e nos mata pela proximidade, ubiquidade e acesso fácil e, invariavelmente, consumo excessivo. A vaidade não mata mas ridiculariza. O que mais espanta é a vaidade dos que tudo isto sabem. Não arrepia o jovem adolescente acelerando a sua mota ruidosa e levantado a roda frontal em erecção brutal. Não perturba o homem feito saindo do seu Ferrari de smartfhone colado ao ouvido e olhando de soslaio os transeuntes. Não espanta mesmo o tolo que comprou o último grito de farda imposta pela moda e se pavoneia ignorante da troça das elites, que já se passaram para o outro grito. A velocidade estonteante da moda desorienta mesmo os criadores que a repetem à exaustão e tornam moderno o antigo. Paradoxo de ser o ontem mais moderno que o hoje. O que arregala os olhos e arrepia as pilosidades dos corpos é a vaidade refinada de escritores, cientistas e outros pensadores. Na mais lamacenta das fluorescências da luz, vivem encandeados com a sua própria beleza. Criadores e criaturas. Narcisos que resistem ao mergulho nas suas luminosidades reflexas. Quem nunca os viu e ouviu e que por eles foi submerso pela áurea divina, que atire a primeira pedra. Pedra de luz, está claro. Meteorito atravessando a sombra do eleito. Suprema vontade de rir, de enlouquecer com a volúpia de ser. Não há escória que resista a tanta luz do metal em fogo. Fundido e fodido. Criaturas nadando na sua própria espuma inútil. E, destes todos, é o escritor o mais altivo e arrogante: veste-se de palavras inúteis, cria um mundo paralelo onde navega, flutuante e besta, no caminho da glória. É certo que o ridículo e a pobreza moral matam. Mas nem a morte os detém. É a eternidade que os motiva, que os anima e conduz. Quando são bons e criadores de excelência, esquece-se o homem e vangloria-se a obra. Quando medíocres, dão dó, pena. Quase todos se autonomeiam de humildes. De apaixonados eternos. Contradições que nem compreendem: a humildade é, hoje, um valor inflacionado e precioso; a paixão, por natureza – e definição – efémera. São todos solitários, como amam a solidão!, veneram a arte e a cultura, o silêncio, oh, o silêncio!, a amizade, o vinho, as mulheres, e os homens, a natureza, a viagem, a margem, ah, a marginalidade divina!; a volúpia do abismo, as requentadas sombras da noite, os tempos de criança, a lembrança dos melhores pais do mundo, ou piores, que vem a dar no mesmo, o primeiro amor, os cheiros da terra quando chove, a eterna juventude! A amizade – a amizade tornada labirinto e leito de vida e de morte, amizade que azeda e vira guerra sem tréguas e fratricida na hora do confronto. Do confronto das ideias e conceitos estéticos. Ninguém aceita ninguém. Ninguém aceita o outro enquanto outro. Se fores outro iguala a mim, és um outro aceitável e meu.

publicado por vítor às 14:51
link do post | comentar | favorito

a vida sem retorno

As folhas das árvores cumprem o seu destino. Eu cumpro a vida. A vida sem retorno. Por entre o murmúrio das vozes polifónicas da consciência esculpida no bloco inatingível do passado, talho a viagem sem destino que o tempo transporta para o fim do futuro. O chão pisado fermenta. Quando pensas no corpo – no teu corpo -, abre-se uma cratera de sonho no desejo que te enforma e conduz. Uma exterioridade donde te contemplas como se fosse uma entidade estranha e o teu corpo um fragmento do desejo dos outros. No silêncio da tarde, apodreces e ficas sossegada vendo o futuro a esvair-se nas memórias esquecidas.

publicado por vítor às 14:49
link do post | comentar | favorito

um menino sábio

Vendendo poesia nos mercados de gado, poemas gordos,
Anafados, cheirando a suor, mancha penetrando
O clamor da clientela, levantando poeira espessa
No chão que as palavras pisam.
- olha!, que animais estranhos, comentou uma criança curiosa.
- Cala-te!, cala-te! ou levas, não vês que as palavras se assustam!,
Cortou a mãe. São tão sensíveis as palavras!...
- são tão lindas as patinhas que as transportam, aventou o filho.
- Não vês que não são patinhas, são sinais do vento agreste
Roçando as proas dos navios qua as transportam, navios sem rosto
Atravessando o sangue vomitado em segredo pelas mulheres
Que cobrem as chagas escarlates, as escaras que balançam nas fezes dos animais.
Animais sem imagem, peados e prisioneiros das metáforas, caminhando pesadas,
Aspergindo as clientelas voláteis com o seu odor silencioso. Palavras
Náufragas nas peles suadas, náufragas na lama paralisante dos dias,
Nos lábios acorrentados à voz púrpura dos rebanhos.
- mas, continuou a criança já exausta, eu só vejo bichos com tabuletas ao pescoço.
Tabuletas com preços e quilos. Tantas tabuletas, mãe!
- Tabuletas, tábuas, palavras. Conceitos indissociáveis. Tudo o que resta será
Pensado outra e outra vez como o tudo que o Álvaro de Campos queimou com um cigarro,
Que o tempo lhe concedeu, o tudo que não era senão a tabuleta do gerente da Tabacaria.
Olha como as palavras se encostam umas às outras como se o amanhã fosse hoje 
E o mar fosse um só. E o infinito afinal não passasse de um sonho que o pensamento
Não faz existir. Foda-se toda a interpretação das palavras, das tessituras da linguagem
E dos malditos que a escarram nas noites de solidão. E blá e blá e blá. E outra vez, blá.
Um dia, que o futuro arrastará até nós, as minhas palavras serão tuas
O menino, sábio, tinha adormecido com o mugir das vacas.
(…)

marcadores: , , ,
publicado por vítor às 14:48
link do post | comentar | favorito

um casaco negro

Agora mesmo, no arame laminoso:

Saio de casa com um casaco negro comprado na zara,
Um casaco de escritor barato e com muitas gavetas, e entro pela rua
Assobiando knockin on heaven's door do dylan. Vou a um festival literário.
O casaco negro está-me largo, mas dá-me um ar gingão, e assim vou
Deslizando na calçada gasta da velha rua. Piso merda de cão, e sou só eu
Que avanço na escuridão dos dias sem regresso. Hotel pago e comida
Num restaurante manhoso, abraços e beijos na passarada envolvente, 
Selfies para sempre com camaradas da arte das palavras e, com sorte,
Com alguma estrela do firmamento distante. Sorrio. O casaco assenta-me tão bem!
Sorrio a quem passa e quem passa pensa que é um doido que passa.
- Com um casaco daqueles…
Espero o autocarro 16 no fim da rua. É que eu vou da Venda Nova e o 16
Começa mesmo ali pelas Portas de Benfica. Foda-se! Não me falem de Benfica que até fico embriagado. 
Da bola não percebo nada, mas sofro por esta merda de clube que só
Me dá desgostos e arritmias.
Cá vou eu no 16 feliz como uma pedra atirada ao ar que cai na cabeça
Duma, foda-se que a minha amiga Ladislaia não gosta nada que se escreva duma;
Digo, de uma criança. O meu casaco ocupa dois lugares no autocarro: o meu
E o que devia de ser da senhora que vai agarrada ao varão vertical do corredor. 
O varão é de metal prata incandescente e faz-me lembrar, ai a puta da memória 
a atirar-me sempre para lugares intangíveis e escorregadios, quando fui com mais
três poetas a uma casa de putas com um varão no meio do salão. Estávamos tão bêbedos
que até eu dancei no varão. E olhem, aqui que ninguém nos ouve, que até tinha jeito .
O pior foi quando uma menina, bem engraçada, por sinal, me meteu a mão num lugar
Que me faz corar só de pensar onde. Os três poetas a gozar o pratinho e eu alumiando a casa 
Com as minhas vergonhas. Mas, foda-se, cá vou eu no autocarro 16 com o meu casaco
De escritor que, diga-se em abono da verdade, me fica um bocadito largo...
Miro-me no vidro da viatura e pareço mesmo quem sou: um palerma vestido de escritor
A caminho de uma festa de palermas vestidos de escritores.
Saio numa paragem qualquer. Knock, knock on the heaven`s door. O casaco esvoaça na brisa
E aperto-o. Como é largo deixa entrar na mesma o frio da maresia que se alevanta.

Cativa 23/11/2017

publicado por vítor às 14:45
link do post | comentar | favorito

uma camisola ensanguentada

ceci n'est pas un poème

Da janela escorria uma camisola ensanguentada.
Pingava na terra encharcando o vazio
Que se assomava por detrás das casas.
Três facadas na carne rasgando
Os tecidos nauseabundos, expulsando
O sangue em golfadas efervescentes.
A minha mãe já não mora aqui e o sangue,
Que também é o dela, cai no pântano
Morno cobrindo o chão da cozinha.
A camisola envenenando as ervas daninhas,
Alimentando os vermes que me consomem o corpo.
Agarrem-no!, ecoou como lâmina zurzindo
O ar brutal do bairro sórdido, não há crime
Sem castigo!, berrou o homem sem significado
Que assistia a tudo.
Nunca um crime foi sentido por mim
Nas fronteiras da solidão, respondi eu
Cobrindo a retaguarda.
Ratazanas sem compromissos escapuliram-se
Nas sarjetas iluminadas pelo odor dos enjeitados.
O vizinho do 2º dtº deu a primeira facada.
As outras que me rasgaram a pele e trincharam os ossos
Foram, no calor da refrega, atribuídas a incertos.
Conhecidos mas não identificados nas complexas
Poeiras que ensandeciam a tarde. A camisola
Aspergindo o espetro rastejante da pobreza,
Nunca ninguém fugiu de si próprio deixando
Um rasto de informação apelando
Aos caçadores de infinitos
O odor que os levará ao covil da presa,
Ao definhar do ritual do fogo e do sangue
Que rege o ordálio crepitando nas mentes
Experimentadas no silêncio, na viagem
Interrompida por deus.
A multidão rumina dissolvendo as persianas
Ululantes das personalidades elementares.
O crime percorre as ruas por entre
Conceitos duvidosos e ideias lancinantes
Abandonadas pelos que temem os estrangeiros
Nascidos entre os nossos. A matéria
Que compõe os heróis regurgita no princípio
Da noite, cadinho onde se fundem as ilusões
E o crime assume a vertigem da virtude
Incontestável e una.
O sangue que brotoeja das feridas escancaradas
Sacraliza as ruas por onde prossigo procurando
A caverna dos prodígios labirínticos, a degeneração
Do corpo que reproduz o regresso ao fim.

Duma janela apontando a noite pinga
Uma camisola ensanguentada.

Vrsa 13/11/12

publicado por vítor às 14:43
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 4 de Abril de 2016

Palermices à beira duma pneumonia...

 

Poema "Ossos", nunca publicado em livro, lido, barbaramente, pelo autor, Vítor Gil Cardeira (aproveitando a voz de gripe).

publicado por vítor às 23:42
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 22 de Março de 2016

anos sessenta...

Porque ontem foi o dia da poesia:

vítor poesia pela paz.jpg

 

Estilhaços

Depois dos românticos, a melancolia é a alma da poesia...
No princípio, era o desejo. Só o desejo.
Na terra dos antepassados que nos pré-existem e que nos sucederão, onde o princípio e o fim, o nascimento e a morte, fecham o ciclo da cultura, apresentaremos o brutal teatro que nos envolve a vida.
A peregrinação é um processo de envolvimento no vazio.
Não acreditem. Foi só uma mudança de pele. Agora, a nossa própria pele.
Quanto mais te aproximas de ti maior é a revolução que se estende para lá de ti.
Antes do recolhimento, o fogo...

A amizade engrandece...
Strange days: já se comem nêsperas em Fevereiro e as gaivotas pairam há um mês nos ares da quinta.
Trabalhar para nada, a mais bela das ocupações...
cada um sofreu à sua maneira, da mesma maneira.
A felicidade é o que temos antes de termos,
Ainda agora os pássaros me seguiam atrás do trator, debicando minhocas e outros entes que habitam nas entranhas da terra...
Quando algo acontece mesmo no fim, então a felicidade dura mais tempo...

publicado por vítor às 00:22
link do post | comentar | favorito