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As Gargalhadas de Deus

por vítor, em 05.11.20

O filósofo e poeta Luís Serguilha falando-nos dos tempos de hoje e dos tempos dos tempos.

 

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publicado às 15:25

formosa

por vítor, em 16.08.20

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publicado às 16:26

parati

por vítor, em 16.08.20

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publicado às 16:23

Nos olhos do tubarão

por vítor, em 08.06.20

Retirei os olhos e coloquei-os
Sobre o parapeito da tua janela.
Com o corpo cambaleando, cego,
Entrei pelo mar adentro e
Nadei até perder o pé. Do
Parapeito da janela avistava-se
Um ponto boiando no azul
De chumbo, na boca hiante entre
O céu e o mar.
Quando abriste a janela e
Viste os meus olhos voltados
Ao mar, vimos os dois, da
Janela do teu quarto, um
Tubarão avançando ao meu
Encontro. Sem olhos, o meu corpo nada via. E nadava.
E o grito arrepiante que vibrou no
Ar da tarde que se iniciava
Nunca haveria de chegar ao
Nadador cego que planava nas
Profundezas de si mesmo. Fizera sim,
Tombar os meus olhos na
Areia morna da tarde de outono.
Foi então que a cena que a
Tarde geria se transformou bruscamente
Na peripécia estranha que os
Nossos olhos presenciaram:
O tubarão rodopiou três vezes
No ar que cobria a serenidade
Das águas e apontou
O nariz de lixa às areias sonolentas
Da praia, Chegado ao borbulhar da
Espuma das ondas, aspirou intensamente
O ar que cobria a praia e os meus olhos rolaram suavemente
Na direção da garganta profunda do seláquio.
A menina de tranças e peitos
Inchados que atravessava a praia
Numa corrida desenfreada chegou
Tarde e já não viu o animal
Que os olhos tinha engolido.
Eu também não o vejo, mas vislumbro o nada
Porque os meus olhos estão dentro do tubarão.
A escuridão que me rodeia afasta-me de ti e o mar é imenso.
Os peixes trarão o nosso estranho passado.

Monte Gordo – 8/6/2017

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publicado às 13:41

Demasiado Tarde

por vítor, em 29.04.20

Sabes? Só hoje, tarde, demasiado tarde,
compreendi que quando as sombras se sobrepõem
se tornam mais densas, mais escuras, mais sombras.
Se soubesse disso antes, talvez não tivesse esperado
tanto tempo para te dizer o que não sei bem expressar
e, no entanto, sei tão bem sentir: a inquietude das sombras
que projetas em mim, a opacidade das trevas sobrepostas,
a espessura dessa ausência de claridade, faz de mim
nada, uma figura sem contornos, perdida num mundo
selvaticamente nu onde navego sem ver por
que mares sulco nessa matéria negra que depositas
sobre os meus passos outrora cautelosos.
Se a densa sombra das sombras, das sombras
sedimentadas nos corpos receando a morte,
se alevanta e espreitarmos para lá do que a sombra
cobre na luz que os meus sonhos criam e inventam
emitindo coágulos de sangue para romper as sombras,
o peso das sombras justapostas sobre o meu ser inacabado e breve,
invisível e negro como as noites sem luar e opaco
como a sensibilidade das sombras, o meu corpo
resplandece sob a minha pele.
Se abrisse uma porta deixando entrar a luz do fora rasgando
a sombra do dentro,
como se o interior não fosse mais um oco sem fim, um vazio
pesando sobre o meu peito, um lugar nenhures de um plasma denso e doce
repartindo as emoções dos nossos antepassados num recipiente
sem fundo em que as memórias subissem por capilaridade
até afogar as sombras que te ocultam o pensamento,
na voragem dos dias, colapso de tempo que irradia e seduz
o fogo oprimido e devoluto, venenoso e vital, reparador
dos sinais que a sombra esmaga: uma a uma, na planície
infinita, terreiro dos rufares insanos dos tambores
ecoando nas cristas de cobalto das montanhas ausentes.
O nó que prende a tua alma ao meu desolado coração
não deixará verter uma lágrima,
uma cintilação no olhar
sequer, uma palavra que se aproprie das divindades
que navegam nos territórios inclementes e cruéis da solidão.
Da saudade irrepetível. Nos tempos dos finais sem fim.
Sabes? Hoje, tarde, demasiado cedo, compreendi as impossibilidades
de te voltar a encontrar nos socalcos esmagados das tuas sombras.
Que são também as sombras dos outros.

(acabado) 14/4/2020 (tempos de peste), Cativa

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publicado às 00:28

Trópicos

por vítor, em 21.02.20

O crocodilo nadou até à margem do rio lamacento e para ali se deixou estar abandonado ao sol. A floresta ondulava na suave brisa da tarde.

Um chapinhar, intenso, próximo fê-lo, a custo, abrir um olho. O outro, esse, geria o sono. Ali bem perto, em contraluz, uma manada de dezenas de gnus chegava-se à água prateada. Pardacenta. Nervosamente, a medo, iam entrando no rio e saciavam a sede que a severa seca da savana impunha. Alguns, descontraindo, banhavam-se demoradamente. Gozando a frescura das águas dolentes. Cá fora, o ar convulso abatia-se por sobre a paisagem desfocada da estação seca. Os cornos emergiam das águas lembrando espadas erguidas acima do clamor da batalha. Exibindo o poder das pontas. O poder dos frágeis. O bluff dos fracos.

Um olho refletia as sombras tremelicantes do cenário. Rolava abarcando o mundo à sua volta. O centro do mundo era aquele olhar sem pressa. A espera é a mãe de toda a sabedoria. “Quem espera sempre alcança”.

O vento soprava na direção da manada e o crocodilo escaldava de desejo, deixando-se enterrar prazenteiramente na lama morna da margem. No lodo vital que tudo acomoda: a vida e a morte: o sonho e a realidade.

E como tudo o que se aproxima da perfeição, e corre de acordo com o desejado, nunca é o que deveria ser, eis que, vindo do lado do vento, se anuncia, com grande algaraviada, de música e gargalhadas, um jipe desse de turistas de safari, carregado de gente jovem e despreocupada, atravessando a vida de forma sulfurosa e incônscia, se aproxima do rio.

Os gnus rapidamente se libertam das águas lamacentas e partem em correria louca e desordenada, sob os disparos incessantes das câmaras dos telemóveis. Disparos inofensivos que registam e congelam os animais em cartões minúsculos. A alegria de uns. Sobrepõe-se ao medo dos outros. A tristeza não é o antónimo de alegria. Existe, no fundo das almas carentes, uma alegria intensa que se alimenta da sua própria tristeza.

- água, disse um.

- água, repetiram outros.

O condutor da viatura, na sombra de um velho imbondeiro, gozando o corpo dos banhistas seminus. No conforto da distância.

Um olho, que refletia a tarde tiritante do cenário, deslizou pela lama esponjosa até ao fundo do rio.

Na tarde tudo se anunciava. Nada do que teria sido, foi; e a vida seria sempre o que fora. Na impossibilidade de se viver outra vez.

 

Monte Gordo, 20/02/2020

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publicado às 15:13

Y2 - Palavras para pintura (ppp)

por vítor, em 18.12.19

Sabes? As minhas mãos percorrem as tuas coxas como autómatos cegos. Sobem ao encontro dos húmidos e escaldantes precipícios que se erguem para lá da memória, como se guiados por fios invisíveis de desejo e vertigem. Mergulham como pássaros enlouquecidos, como títeres vagabundos navegando na volúpia da pele, na fragrância das carnes ocultas. Os dedos desesperam. Ocultam-se para lá da penugem que cresce nos vales profundos do corpo. Tudo geme e estremece. E grita na noite sem fim. Nos confins da memória, uma névoa difusa ergue-se envolvendo os socalcos que me foram revelados por deuses desavindos. Não sei se vá para longe, se me enrole em ti. O passado já não existe, se é que existiu mesmo, com a mesma claridade dos dias em que te conheci. Não me consigo lembrar do teu sorriso de outrora. Da tua irresponsável tristeza galopando em gargalhadas indomáveis. O nada vestindo a raiva do desejo. O nada encantando o estertor do encontro brutal dos corpos. Camuflando o que restou depois da tempestade.
Sabes? Se as minhas mãos respondessem aos pensamentos, poderíamos encontrar um caminho mais justo. Mais fácil de percorrer nas noites sombrias do tempo que se anuncia. Do tempo que se esgota quando o amor nos transporta.
As minhas mãos regressam e aquilo que resiste soçobra sedimentando na pradaria coberta de escamas purulentas. Enfim livre, carregando a culpa de não te ter.

Monte Gordo, 17/12/2019

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publicado às 15:41


Quando vens até mim transportando as tuas incertezas no regaço da dor. Quando chegas sem remorso algum em relação aos tempos comoventes da nossa solidão repartida. Quando o vento me diz o que não quero saber, e nunca soube, as confusões construídas por mal-entendidos jamais esclarecidos sobrepõem-se a tudo o que algumas vezes sonháramos.
Não há nas densas sombras das noites um sequer riso que nos descongele as emoções, as impossibilidades de compreender o outro, enfim, os reflexos inertes da esperança por explicar. Desenhos numa face rasgada por cicatrizes voláteis, riscando o futuro como palavras brutais que penetram a música censurada, liberta no éter, atravessando as bocas unidas num coro que vomita acordes fedendo a absinto. Lembramos os tempos já amortalhados na memória abandonada pela voragem incontinente dos mirones que nos acompanham no caminho. Que nos resgatam da carne imagens vazias de antanho. Eu não sou o que fora nos teus braços; a amplitude oblíqua, brusca, do rasgar da pele, do convívio insano da carne, da espiritualidade desconcertante dos ossos, do ainda impossível tráfico das vísceras, rejeita quaisquer sentimentos eruptivos da filogénese que comanda as artes vitais. Do amor. Sem açaime, os órgãos dispõem-se na estrada como animais selvagens colapsando sem rede. Rastejando por entre cardos e pedras latejantes. O caminho estará vedado a quem não acompanha o vil uivar das comadres patrocinadas por empresários bem-intencionados. O uivo das almas de quem não chega a lado nenhum, e inspira os dejetos acantonados no imaginário dos imbecis.
Quando as nossas mãos procuram a lentidão dos gritos esventrados e manipulam ostensivamente o pulsar das criaturas e dos venenos que as encorpam, somos só uma alucinação no clamor da luz que substitui o tempo oculto. O tempo sem fim repetindo a dor que parimos juntos.

Monte Gordo, 17/12/2019

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publicado às 15:38

Loucuras

por vítor, em 03.09.19

Quando cheguei, atraquei de mansinho ao porto – há que oferecer a quem nos espera a ternura da beleza – e saltei da embarcação que me conduzira com uma desenvoltura que me surpreendeu: a velhice lentifica tudo, e tudo aproxima da horizontalidade os dias da proximidade ao indizível silêncio que nos espera. Às gaivotas dolentes, lancei o meu olhar humano de superioridade vulgar e continuei ao encontro do nada embrulhando-me nas ruas estreitas e escuras que deixavam as águas do mar para trás. As ruas que me tragaram de imediato como se engole um engodo pensando do próprio isco se tratar. Uma música ricocheteava nas paredes sujas e gastas da cidade que me conduziam os passos. Os passos e a alma. A alma que se limitava há anos a seguir-me como canídeo obediente e fiel. Domesticada, arrastada pelos caminhos que o destino traçara. Destino de que troçara quando o corpo jovem e cruel rompia a vida caminhando nos limiares resvalantes dos abismos. Corpo e alma correndo por entre as labaredas flamejantes em cavalgadas irregulares e insanas. Corpo cavalgando o desejo da carne, alma navegando as alterosas ondas da inquietude existencial. Uma alma estrangeira, desejando o impossível das desassossegadas tentações, ampliando as liberdades de quem quer o infinito. Quando, cansados da longa correria e da solidão dos caminhos divergentes, pararam e se encararam como nunca fora possível, a alma exaurida conformou-se à sua sorte: o conforto do veículo que a acolheria. A segurança do corpo envelhecido.
Um tango antigo soltava-se da porta de uma taberna escondida. Um corvo acorrentado habitava uma tabuleta com o nome do estabelecimento. Loucuras, disse o corvo. Loucuras, a tabuleta. Entrei, invadindo a penumbra quieta do interior do tasco. Subitamente, a minha alma soltou-se de mim e juntou-se ao corvo no alto da tabuleta. Loucuras, era o nome do corvo. Loucuras, foi o que minha alma lhe pediu.

Monte Gordo, 17/1/2019

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publicado às 22:15

Um Admirável Mundo Novo

por vítor, em 03.09.19

Eu vi os melhores da minha geração soçobrando, vergados, por debaixo das grandes cidades, respirando o fumo tóxico da civilização, renegando as árvores e os pássaros, eu vi-os, mesmo agora, transportando a vilcracia que os escraviza e seduz, incompletos, como serão sempre os deuses que negociam a liberdade. Eu vi-os, e vejo-os, todos os dias, quando acordo devagar e a vida sem amarras me convida a renascer. A procurá-la... eu conheci os tempos sem deuses que libertavam os transeuntes sem finalidade, entrando nos caminhos que tinham sido desenhados por outros, alargando os espaços entre as bermas que se fechavam perante os vossos passos. Não, não é esse o caminho que os pássaros traçam nos ares e projetam na poeira acumulada nos teus dias, nem o caminho que quiseram que seguisses. Eu vi nascerem do nada, sem que algo os suportasse, os fabricasse, os novos deuses que te controlam a vida, que nos ensinam, com gentileza, a troco da tua alma, da tua vida guardada em pastas encriptadas no frio das catacumbas digitais. Tudo apodrece dos dedos que manipulam os dados genéticos do universo, uno e poliédrico, desmaterializado, incompreensível e claro como 1 0 1. Algoritmos! Logaritmos! IA, realidade aumentada, google, facebook, whatsApp, twiter, aplle, Microsoft, snapchat, instagram, huawei; hachers chineses e russos e húngaros e americanos e fake news e deepfakes, explorando as almas até aos confins do que existe e existiu, aspergindo de silêncio a memória dos teus antepassados. Eu vi as catedrais serem ocupadas por descrentes, por homens e mulheres que atravessaram continentes e oceanos sem se aperceber disso, como autómatos embalados em cápsulas siderais. Os peixes ocuparam os ministérios e nadam por dentro de corais de papel, corais de filigrana tecidos por homens e mulheres de antanho, invisíveis, ocultos por mangas de alpaca, esmagados pelas novas tecnologias, pelas insensíveis vontades de poder. Eu acompanhei a perdição e a decadência dos burgueses desorientados perante os tempos novos, arrastados pelas correntezas inescrutáveis do mundo cibernético. Construtores de sociedades e donos e senhores do capital e da moral, atirados dos penhascos mais altos da ignomínia: homens e mulheres de família, respeitadores dos valores da moral e da religião esculpida nos genes, serenos, conservadores como as árvores de grande porte, amantes do risco calculado, homens de automóveis alemães e ingleses frequentando meretrizes espampanantes em cabarets canonizados, acumulando ações de companhias certificadas para os filhos espatifarem e os netos recuperarem, homens com profissões imorredoiras que se herdavam como as cores dos olhos e das peles, homens para quem a mudança era uma pedra entre a vida e a morte, uma mancha imergindo nas águas contaminadas da paixão sem fim. Tudo apodrece e fenece nos palacetes decrépitos da burguesia onde tudo tinha um dono e um patrão: os bancos desfazem-se como pó ao vento Norte, as ações são produtos tóxicos que deixam um rasto de lesados chorando no asfalto, nada se mantém e tudo acelera sem se ver, rapazinhos tomam conta do capital a partir das garagens dos pais que, como Édipo, estão a assassinar, as empresas deixam de ser familiares e unipessoais e são canibalizadas por fundos párias, a volúpia do jogo toma conta dos investidores, o abismo e a pirueta sem rede são o desígnio da economia. Compra-se e vende-se o que não existe, antecipa-se o lucro e a ganância é o motor da acumulação. É preciso ir mais longe: não há profissões, tudo muda a todo o momento, as sensações são para ultrapassar constantemente sem cessar: hotéis de 23 estrelas, viagens interestelares, experiências únicas num mundo físico finito e descontrolado: as águas sobem como no Dilúvio, os elementos enfurecidos açoitam a natureza que desaparece. E o novo homem, snifando uma linha de coca num 57º andar duma torre de babel desenhada por um artista extraordinário, sorri. Ninguém sabe quem ele é. O mundo e a sociedade são um plasma tóxico sem valores, sem moral e sem ética. Um mundo vigiado por cookies. Só o prazer de ponta conduz a humanidade. Apps conduzem-te ao prazer sem desejo. O Everest está pejado de gente, as ilhas Phi Phi, na Tailândia, inundam, selvaticamente, as redes sociais, o Tal Mahal e as envenenadas terras de Chernobyl contendem pela selfie do ano. Veneza afoga-se. O plástico torna-se omnipresente como os deuses. Eu vi, e vejo, e continuarei a ver, impotente como Deus, o vírus humano a contaminar tudo à sua volta. E tudo voltará a ser como dantes como quando eu não existia. No silêncio que sobeja das grandes tempestades.

Cativa, 15 de julho de 2019

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publicado às 22:11


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