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Façam-se trevas por agora

por vítor, em 03.02.21

IMG_20201027_174515.jpg

Talvez a morte nos traga a paz.

Talvez o que parece calma e pousio

Seja apenas uma tempestade passageira

Não sentida pelos outros.

- Eu sou um cadáver abandonado e triste,

Poderia ser o que depois da vida

Traz severidade no trato e frigidez

ao desprezível que pode emergir da sabedoria.

- Não me abandonem, que sou triste e renuncio à catástrofe

Dos dias de antanho, sinto ainda a alma

Presa aos ganchos aguçados da carne,

Do corpo devoluto, o palpitar insuportável

Que se anuncia sem clamor. Levem-me a ver o mar,

A esquecer o olhar sem brilho, sem vida

Da horizontalidade sem fim. Não me abandonem

À cova do devir. Eu serei a vida que se transforma

E ilumina as trevas.

 

Monte Gordo, 18/1/2021 (segundo ano da peste)

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publicado às 13:05

Os segredos das humidades do corpo

por vítor, em 29.01.21

 Tinhas um segredo para consumo nas horas escaldantes, nas encostas finais dos dias. As humidades apareciam nos dias mais inesperados e era imperativo conhecê-las e avaliá-las como se fossem animais em dias de espanto: dias sem fim se tudo não tivesse fim. Dias para trazer as coisas inertes ao palco das confusas circunstâncias. Apareciam a escaldar a carne e as raízes do corpo. Do apatetado corpo das mãos sem braços. Burgueses banqueteando-se de cadáveres em terraços sobre cemitérios. Estarão mortos os que ainda não nasceram? Para que não caias nas rugas profundas do devir, irei escorar o futuro e tanger cavaquinhos ao anoitecer.

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publicado às 14:43

As Gargalhadas de Deus

por vítor, em 05.11.20

O filósofo e poeta Luís Serguilha falando-nos dos tempos de hoje e dos tempos dos tempos.

 

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publicado às 15:25

formosa

por vítor, em 16.08.20

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publicado às 16:26

parati

por vítor, em 16.08.20

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publicado às 16:23

Nos olhos do tubarão

por vítor, em 08.06.20

Retirei os olhos e coloquei-os
Sobre o parapeito da tua janela.
Com o corpo cambaleando, cego,
Entrei pelo mar adentro e
Nadei até perder o pé. Do
Parapeito da janela avistava-se
Um ponto boiando no azul
De chumbo, na boca hiante entre
O céu e o mar.
Quando abriste a janela e
Viste os meus olhos voltados
Ao mar, vimos os dois, da
Janela do teu quarto, um
Tubarão avançando ao meu
Encontro. Sem olhos, o meu corpo nada via. E nadava.
E o grito arrepiante que vibrou no
Ar da tarde que se iniciava
Nunca haveria de chegar ao
Nadador cego que planava nas
Profundezas de si mesmo. Fizera sim,
Tombar os meus olhos na
Areia morna da tarde de outono.
Foi então que a cena que a
Tarde geria se transformou bruscamente
Na peripécia estranha que os
Nossos olhos presenciaram:
O tubarão rodopiou três vezes
No ar que cobria a serenidade
Das águas e apontou
O nariz de lixa às areias sonolentas
Da praia, Chegado ao borbulhar da
Espuma das ondas, aspirou intensamente
O ar que cobria a praia e os meus olhos rolaram suavemente
Na direção da garganta profunda do seláquio.
A menina de tranças e peitos
Inchados que atravessava a praia
Numa corrida desenfreada chegou
Tarde e já não viu o animal
Que os olhos tinha engolido.
Eu também não o vejo, mas vislumbro o nada
Porque os meus olhos estão dentro do tubarão.
A escuridão que me rodeia afasta-me de ti e o mar é imenso.
Os peixes trarão o nosso estranho passado.

Monte Gordo – 8/6/2017

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publicado às 13:41

Demasiado Tarde

por vítor, em 29.04.20

Sabes? Só hoje, tarde, demasiado tarde,
compreendi que quando as sombras se sobrepõem
se tornam mais densas, mais escuras, mais sombras.
Se soubesse disso antes, talvez não tivesse esperado
tanto tempo para te dizer o que não sei bem expressar
e, no entanto, sei tão bem sentir: a inquietude das sombras
que projetas em mim, a opacidade das trevas sobrepostas,
a espessura dessa ausência de claridade, faz de mim
nada, uma figura sem contornos, perdida num mundo
selvaticamente nu onde navego sem ver por
que mares sulco nessa matéria negra que depositas
sobre os meus passos outrora cautelosos.
Se a densa sombra das sombras, das sombras
sedimentadas nos corpos receando a morte,
se alevanta e espreitarmos para lá do que a sombra
cobre na luz que os meus sonhos criam e inventam
emitindo coágulos de sangue para romper as sombras,
o peso das sombras justapostas sobre o meu ser inacabado e breve,
invisível e negro como as noites sem luar e opaco
como a sensibilidade das sombras, o meu corpo
resplandece sob a minha pele.
Se abrisse uma porta deixando entrar a luz do fora rasgando
a sombra do dentro,
como se o interior não fosse mais um oco sem fim, um vazio
pesando sobre o meu peito, um lugar nenhures de um plasma denso e doce
repartindo as emoções dos nossos antepassados num recipiente
sem fundo em que as memórias subissem por capilaridade
até afogar as sombras que te ocultam o pensamento,
na voragem dos dias, colapso de tempo que irradia e seduz
o fogo oprimido e devoluto, venenoso e vital, reparador
dos sinais que a sombra esmaga: uma a uma, na planície
infinita, terreiro dos rufares insanos dos tambores
ecoando nas cristas de cobalto das montanhas ausentes.
O nó que prende a tua alma ao meu desolado coração
não deixará verter uma lágrima,
uma cintilação no olhar
sequer, uma palavra que se aproprie das divindades
que navegam nos territórios inclementes e cruéis da solidão.
Da saudade irrepetível. Nos tempos dos finais sem fim.
Sabes? Hoje, tarde, demasiado cedo, compreendi as impossibilidades
de te voltar a encontrar nos socalcos esmagados das tuas sombras.
Que são também as sombras dos outros.

(acabado) 14/4/2020 (tempos de peste), Cativa

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publicado às 00:28

Trópicos

por vítor, em 21.02.20

O crocodilo nadou até à margem do rio lamacento e para ali se deixou estar abandonado ao sol. A floresta ondulava na suave brisa da tarde.

Um chapinhar, intenso, próximo fê-lo, a custo, abrir um olho. O outro, esse, geria o sono. Ali bem perto, em contraluz, uma manada de dezenas de gnus chegava-se à água prateada. Pardacenta. Nervosamente, a medo, iam entrando no rio e saciavam a sede que a severa seca da savana impunha. Alguns, descontraindo, banhavam-se demoradamente. Gozando a frescura das águas dolentes. Cá fora, o ar convulso abatia-se por sobre a paisagem desfocada da estação seca. Os cornos emergiam das águas lembrando espadas erguidas acima do clamor da batalha. Exibindo o poder das pontas. O poder dos frágeis. O bluff dos fracos.

Um olho refletia as sombras tremelicantes do cenário. Rolava abarcando o mundo à sua volta. O centro do mundo era aquele olhar sem pressa. A espera é a mãe de toda a sabedoria. “Quem espera sempre alcança”.

O vento soprava na direção da manada e o crocodilo escaldava de desejo, deixando-se enterrar prazenteiramente na lama morna da margem. No lodo vital que tudo acomoda: a vida e a morte: o sonho e a realidade.

E como tudo o que se aproxima da perfeição, e corre de acordo com o desejado, nunca é o que deveria ser, eis que, vindo do lado do vento, se anuncia, com grande algaraviada, de música e gargalhadas, um jipe desse de turistas de safari, carregado de gente jovem e despreocupada, atravessando a vida de forma sulfurosa e incônscia, se aproxima do rio.

Os gnus rapidamente se libertam das águas lamacentas e partem em correria louca e desordenada, sob os disparos incessantes das câmaras dos telemóveis. Disparos inofensivos que registam e congelam os animais em cartões minúsculos. A alegria de uns. Sobrepõe-se ao medo dos outros. A tristeza não é o antónimo de alegria. Existe, no fundo das almas carentes, uma alegria intensa que se alimenta da sua própria tristeza.

- água, disse um.

- água, repetiram outros.

O condutor da viatura, na sombra de um velho imbondeiro, gozando o corpo dos banhistas seminus. No conforto da distância.

Um olho, que refletia a tarde tiritante do cenário, deslizou pela lama esponjosa até ao fundo do rio.

Na tarde tudo se anunciava. Nada do que teria sido, foi; e a vida seria sempre o que fora. Na impossibilidade de se viver outra vez.

 

Monte Gordo, 20/02/2020

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publicado às 15:13

Y2 - Palavras para pintura (ppp)

por vítor, em 18.12.19

Sabes? As minhas mãos percorrem as tuas coxas como autómatos cegos. Sobem ao encontro dos húmidos e escaldantes precipícios que se erguem para lá da memória, como se guiados por fios invisíveis de desejo e vertigem. Mergulham como pássaros enlouquecidos, como títeres vagabundos navegando na volúpia da pele, na fragrância das carnes ocultas. Os dedos desesperam. Ocultam-se para lá da penugem que cresce nos vales profundos do corpo. Tudo geme e estremece. E grita na noite sem fim. Nos confins da memória, uma névoa difusa ergue-se envolvendo os socalcos que me foram revelados por deuses desavindos. Não sei se vá para longe, se me enrole em ti. O passado já não existe, se é que existiu mesmo, com a mesma claridade dos dias em que te conheci. Não me consigo lembrar do teu sorriso de outrora. Da tua irresponsável tristeza galopando em gargalhadas indomáveis. O nada vestindo a raiva do desejo. O nada encantando o estertor do encontro brutal dos corpos. Camuflando o que restou depois da tempestade.
Sabes? Se as minhas mãos respondessem aos pensamentos, poderíamos encontrar um caminho mais justo. Mais fácil de percorrer nas noites sombrias do tempo que se anuncia. Do tempo que se esgota quando o amor nos transporta.
As minhas mãos regressam e aquilo que resiste soçobra sedimentando na pradaria coberta de escamas purulentas. Enfim livre, carregando a culpa de não te ter.

Monte Gordo, 17/12/2019

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publicado às 15:41


Quando vens até mim transportando as tuas incertezas no regaço da dor. Quando chegas sem remorso algum em relação aos tempos comoventes da nossa solidão repartida. Quando o vento me diz o que não quero saber, e nunca soube, as confusões construídas por mal-entendidos jamais esclarecidos sobrepõem-se a tudo o que algumas vezes sonháramos.
Não há nas densas sombras das noites um sequer riso que nos descongele as emoções, as impossibilidades de compreender o outro, enfim, os reflexos inertes da esperança por explicar. Desenhos numa face rasgada por cicatrizes voláteis, riscando o futuro como palavras brutais que penetram a música censurada, liberta no éter, atravessando as bocas unidas num coro que vomita acordes fedendo a absinto. Lembramos os tempos já amortalhados na memória abandonada pela voragem incontinente dos mirones que nos acompanham no caminho. Que nos resgatam da carne imagens vazias de antanho. Eu não sou o que fora nos teus braços; a amplitude oblíqua, brusca, do rasgar da pele, do convívio insano da carne, da espiritualidade desconcertante dos ossos, do ainda impossível tráfico das vísceras, rejeita quaisquer sentimentos eruptivos da filogénese que comanda as artes vitais. Do amor. Sem açaime, os órgãos dispõem-se na estrada como animais selvagens colapsando sem rede. Rastejando por entre cardos e pedras latejantes. O caminho estará vedado a quem não acompanha o vil uivar das comadres patrocinadas por empresários bem-intencionados. O uivo das almas de quem não chega a lado nenhum, e inspira os dejetos acantonados no imaginário dos imbecis.
Quando as nossas mãos procuram a lentidão dos gritos esventrados e manipulam ostensivamente o pulsar das criaturas e dos venenos que as encorpam, somos só uma alucinação no clamor da luz que substitui o tempo oculto. O tempo sem fim repetindo a dor que parimos juntos.

Monte Gordo, 17/12/2019

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publicado às 15:38


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