Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Trópicos

por vítor, em 21.02.20

O crocodilo nadou até à margem do rio lamacento e para ali se deixou estar abandonado ao sol. A floresta ondulava na suave brisa da tarde.

Um chapinhar, intenso, próximo fê-lo, a custo, abrir um olho. O outro, esse, geria o sono. Ali bem perto, em contraluz, uma manada de dezenas de gnus chegava-se à água prateada. Pardacenta. Nervosamente, a medo, iam entrando no rio e saciavam a sede que a severa seca da savana impunha. Alguns, descontraindo, banhavam-se demoradamente. Gozando a frescura das águas dolentes. Cá fora, o ar convulso abatia-se por sobre a paisagem desfocada da estação seca. Os cornos emergiam das águas lembrando espadas erguidas acima do clamor da batalha. Exibindo o poder das pontas. O poder dos frágeis. O bluff dos fracos.

Um olho refletia as sombras tremelicantes do cenário. Rolava abarcando o mundo à sua volta. O centro do mundo era aquele olhar sem pressa. A espera é a mãe de toda a sabedoria. “Quem espera sempre alcança”.

O vento soprava na direção da manada e o crocodilo escaldava de desejo, deixando-se enterrar prazenteiramente na lama morna da margem. No lodo vital que tudo acomoda: a vida e a morte: o sonho e a realidade.

E como tudo o que se aproxima da perfeição, e corre de acordo com o desejado, nunca é o que deveria ser, eis que, vindo do lado do vento, se anuncia, com grande algaraviada, de música e gargalhadas, um jipe desse de turistas de safari, carregado de gente jovem e despreocupada, atravessando a vida de forma sulfurosa e incônscia, se aproxima do rio.

Os gnus rapidamente se libertam das águas lamacentas e partem em correria louca e desordenada, sob os disparos incessantes das câmaras dos telemóveis. Disparos inofensivos que registam e congelam os animais em cartões minúsculos. A alegria de uns. Sobrepõe-se ao medo dos outros. A tristeza não é o antónimo de alegria. Existe, no fundo das almas carentes, uma alegria intensa que se alimenta da sua própria tristeza.

- água, disse um.

- água, repetiram outros.

O condutor da viatura, na sombra de um velho imbondeiro, gozando o corpo dos banhistas seminus. No conforto da distância.

Um olho, que refletia a tarde tiritante do cenário, deslizou pela lama esponjosa até ao fundo do rio.

Na tarde tudo se anunciava. Nada do que teria sido, foi; e a vida seria sempre o que fora. Na impossibilidade de se viver outra vez.

 

Monte Gordo, 20/02/2020

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:13

Y2 - Palavras para pintura (ppp)

por vítor, em 18.12.19

Sabes? As minhas mãos percorrem as tuas coxas como autómatos cegos. Sobem ao encontro dos húmidos e escaldantes precipícios que se erguem para lá da memória, como se guiados por fios invisíveis de desejo e vertigem. Mergulham como pássaros enlouquecidos, como títeres vagabundos navegando na volúpia da pele, na fragrância das carnes ocultas. Os dedos desesperam. Ocultam-se para lá da penugem que cresce nos vales profundos do corpo. Tudo geme e estremece. E grita na noite sem fim. Nos confins da memória, uma névoa difusa ergue-se envolvendo os socalcos que me foram revelados por deuses desavindos. Não sei se vá para longe, se me enrole em ti. O passado já não existe, se é que existiu mesmo, com a mesma claridade dos dias em que te conheci. Não me consigo lembrar do teu sorriso de outrora. Da tua irresponsável tristeza galopando em gargalhadas indomáveis. O nada vestindo a raiva do desejo. O nada encantando o estertor do encontro brutal dos corpos. Camuflando o que restou depois da tempestade.
Sabes? Se as minhas mãos respondessem aos pensamentos, poderíamos encontrar um caminho mais justo. Mais fácil de percorrer nas noites sombrias do tempo que se anuncia. Do tempo que se esgota quando o amor nos transporta.
As minhas mãos regressam e aquilo que resiste soçobra sedimentando na pradaria coberta de escamas purulentas. Enfim livre, carregando a culpa de não te ter.

Monte Gordo, 17/12/2019

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:41


Quando vens até mim transportando as tuas incertezas no regaço da dor. Quando chegas sem remorso algum em relação aos tempos comoventes da nossa solidão repartida. Quando o vento me diz o que não quero saber, e nunca soube, as confusões construídas por mal-entendidos jamais esclarecidos sobrepõem-se a tudo o que algumas vezes sonháramos.
Não há nas densas sombras das noites um sequer riso que nos descongele as emoções, as impossibilidades de compreender o outro, enfim, os reflexos inertes da esperança por explicar. Desenhos numa face rasgada por cicatrizes voláteis, riscando o futuro como palavras brutais que penetram a música censurada, liberta no éter, atravessando as bocas unidas num coro que vomita acordes fedendo a absinto. Lembramos os tempos já amortalhados na memória abandonada pela voragem incontinente dos mirones que nos acompanham no caminho. Que nos resgatam da carne imagens vazias de antanho. Eu não sou o que fora nos teus braços; a amplitude oblíqua, brusca, do rasgar da pele, do convívio insano da carne, da espiritualidade desconcertante dos ossos, do ainda impossível tráfico das vísceras, rejeita quaisquer sentimentos eruptivos da filogénese que comanda as artes vitais. Do amor. Sem açaime, os órgãos dispõem-se na estrada como animais selvagens colapsando sem rede. Rastejando por entre cardos e pedras latejantes. O caminho estará vedado a quem não acompanha o vil uivar das comadres patrocinadas por empresários bem-intencionados. O uivo das almas de quem não chega a lado nenhum, e inspira os dejetos acantonados no imaginário dos imbecis.
Quando as nossas mãos procuram a lentidão dos gritos esventrados e manipulam ostensivamente o pulsar das criaturas e dos venenos que as encorpam, somos só uma alucinação no clamor da luz que substitui o tempo oculto. O tempo sem fim repetindo a dor que parimos juntos.

Monte Gordo, 17/12/2019

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:38

Loucuras

por vítor, em 03.09.19

Quando cheguei, atraquei de mansinho ao porto – há que oferecer a quem nos espera a ternura da beleza – e saltei da embarcação que me conduzira com uma desenvoltura que me surpreendeu: a velhice lentifica tudo, e tudo aproxima da horizontalidade os dias da proximidade ao indizível silêncio que nos espera. Às gaivotas dolentes, lancei o meu olhar humano de superioridade vulgar e continuei ao encontro do nada embrulhando-me nas ruas estreitas e escuras que deixavam as águas do mar para trás. As ruas que me tragaram de imediato como se engole um engodo pensando do próprio isco se tratar. Uma música ricocheteava nas paredes sujas e gastas da cidade que me conduziam os passos. Os passos e a alma. A alma que se limitava há anos a seguir-me como canídeo obediente e fiel. Domesticada, arrastada pelos caminhos que o destino traçara. Destino de que troçara quando o corpo jovem e cruel rompia a vida caminhando nos limiares resvalantes dos abismos. Corpo e alma correndo por entre as labaredas flamejantes em cavalgadas irregulares e insanas. Corpo cavalgando o desejo da carne, alma navegando as alterosas ondas da inquietude existencial. Uma alma estrangeira, desejando o impossível das desassossegadas tentações, ampliando as liberdades de quem quer o infinito. Quando, cansados da longa correria e da solidão dos caminhos divergentes, pararam e se encararam como nunca fora possível, a alma exaurida conformou-se à sua sorte: o conforto do veículo que a acolheria. A segurança do corpo envelhecido.
Um tango antigo soltava-se da porta de uma taberna escondida. Um corvo acorrentado habitava uma tabuleta com o nome do estabelecimento. Loucuras, disse o corvo. Loucuras, a tabuleta. Entrei, invadindo a penumbra quieta do interior do tasco. Subitamente, a minha alma soltou-se de mim e juntou-se ao corvo no alto da tabuleta. Loucuras, era o nome do corvo. Loucuras, foi o que minha alma lhe pediu.

Monte Gordo, 17/1/2019

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:15

Um Admirável Mundo Novo

por vítor, em 03.09.19

Eu vi os melhores da minha geração soçobrando, vergados, por debaixo das grandes cidades, respirando o fumo tóxico da civilização, renegando as árvores e os pássaros, eu vi-os, mesmo agora, transportando a vilcracia que os escraviza e seduz, incompletos, como serão sempre os deuses que negociam a liberdade. Eu vi-os, e vejo-os, todos os dias, quando acordo devagar e a vida sem amarras me convida a renascer. A procurá-la... eu conheci os tempos sem deuses que libertavam os transeuntes sem finalidade, entrando nos caminhos que tinham sido desenhados por outros, alargando os espaços entre as bermas que se fechavam perante os vossos passos. Não, não é esse o caminho que os pássaros traçam nos ares e projetam na poeira acumulada nos teus dias, nem o caminho que quiseram que seguisses. Eu vi nascerem do nada, sem que algo os suportasse, os fabricasse, os novos deuses que te controlam a vida, que nos ensinam, com gentileza, a troco da tua alma, da tua vida guardada em pastas encriptadas no frio das catacumbas digitais. Tudo apodrece dos dedos que manipulam os dados genéticos do universo, uno e poliédrico, desmaterializado, incompreensível e claro como 1 0 1. Algoritmos! Logaritmos! IA, realidade aumentada, google, facebook, whatsApp, twiter, aplle, Microsoft, snapchat, instagram, huawei; hachers chineses e russos e húngaros e americanos e fake news e deepfakes, explorando as almas até aos confins do que existe e existiu, aspergindo de silêncio a memória dos teus antepassados. Eu vi as catedrais serem ocupadas por descrentes, por homens e mulheres que atravessaram continentes e oceanos sem se aperceber disso, como autómatos embalados em cápsulas siderais. Os peixes ocuparam os ministérios e nadam por dentro de corais de papel, corais de filigrana tecidos por homens e mulheres de antanho, invisíveis, ocultos por mangas de alpaca, esmagados pelas novas tecnologias, pelas insensíveis vontades de poder. Eu acompanhei a perdição e a decadência dos burgueses desorientados perante os tempos novos, arrastados pelas correntezas inescrutáveis do mundo cibernético. Construtores de sociedades e donos e senhores do capital e da moral, atirados dos penhascos mais altos da ignomínia: homens e mulheres de família, respeitadores dos valores da moral e da religião esculpida nos genes, serenos, conservadores como as árvores de grande porte, amantes do risco calculado, homens de automóveis alemães e ingleses frequentando meretrizes espampanantes em cabarets canonizados, acumulando ações de companhias certificadas para os filhos espatifarem e os netos recuperarem, homens com profissões imorredoiras que se herdavam como as cores dos olhos e das peles, homens para quem a mudança era uma pedra entre a vida e a morte, uma mancha imergindo nas águas contaminadas da paixão sem fim. Tudo apodrece e fenece nos palacetes decrépitos da burguesia onde tudo tinha um dono e um patrão: os bancos desfazem-se como pó ao vento Norte, as ações são produtos tóxicos que deixam um rasto de lesados chorando no asfalto, nada se mantém e tudo acelera sem se ver, rapazinhos tomam conta do capital a partir das garagens dos pais que, como Édipo, estão a assassinar, as empresas deixam de ser familiares e unipessoais e são canibalizadas por fundos párias, a volúpia do jogo toma conta dos investidores, o abismo e a pirueta sem rede são o desígnio da economia. Compra-se e vende-se o que não existe, antecipa-se o lucro e a ganância é o motor da acumulação. É preciso ir mais longe: não há profissões, tudo muda a todo o momento, as sensações são para ultrapassar constantemente sem cessar: hotéis de 23 estrelas, viagens interestelares, experiências únicas num mundo físico finito e descontrolado: as águas sobem como no Dilúvio, os elementos enfurecidos açoitam a natureza que desaparece. E o novo homem, snifando uma linha de coca num 57º andar duma torre de babel desenhada por um artista extraordinário, sorri. Ninguém sabe quem ele é. O mundo e a sociedade são um plasma tóxico sem valores, sem moral e sem ética. Um mundo vigiado por cookies. Só o prazer de ponta conduz a humanidade. Apps conduzem-te ao prazer sem desejo. O Everest está pejado de gente, as ilhas Phi Phi, na Tailândia, inundam, selvaticamente, as redes sociais, o Tal Mahal e as envenenadas terras de Chernobyl contendem pela selfie do ano. Veneza afoga-se. O plástico torna-se omnipresente como os deuses. Eu vi, e vejo, e continuarei a ver, impotente como Deus, o vírus humano a contaminar tudo à sua volta. E tudo voltará a ser como dantes como quando eu não existia. No silêncio que sobeja das grandes tempestades.

Cativa, 15 de julho de 2019

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:11

Destroços

por vítor, em 08.04.19

Ele anda comigo para todo o lado. Só tenho um, mas pode-se comprar, e receber, sem sair de casa. Com os portes sai "caro", mas, garanto, vale bem a pena. E, no fim, vai tornar-se barato. Bem barato.🙃
https://www.bubok.pt/livros/11730/DESTROCOS

Antologia de textos retirados de outros livros do autor. Contos absurdos e paradoxais que relatam vidas de vagabundos que se passeiam em vidas inacabadas e estranhas. Antropólogos competentes, coveiros, homens sem vida que se lhes conheça, poetas medíocres, mulheres desprovidas de memória, escritores sem talento, criaturas intangíveis e loucas, enfim, seres idiossincráticos que navegam à vista perdidos na imensa pradaria do sonho. Pesadelos que se impõem como forma de vida.

Nenhuma descrição de foto disponível.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:38

Ossos

por vítor, em 20.01.19

 Atiro os meus ossos aos cães E fico-me prisioneiro da carne, bamboleando Na brisa que sopra da noite enquanto ouço O triturar dos ossos nos maxilares dos animais Vadios, eco sonâmbulo nas vielas estreitas Onde os grafitos assomam da cal solta Das paredes. Inicio a travessia das trevas À procura de luz que me estruture a existência, Me ampare a memória fragilizada. Os cães rosnam Quando passa oscilante a carne dos seus ossos. A carne não exige caninos que trinchem o suporte Inútil da ardente voluptuosidade. O tempo cozerá Uma nova estrutura, uma nova solidez para o ser Esponjoso que se atravessa na ilusão da persistente Procura. Talvez os cães preferissem a carne desossada Que me transporta, a carne fedendo a desejo. Rasgar A carne parece-me, que não conheço o prazer De devorar a vida, mais apetecível do que esmagar ossos para chegar ao tutano oculto e morno. Há gente que só consome carne soldada no esqueleto Dos outros. Que se alimenta dos destroços atirados À rua, destroços que nunca conheceram O todo a que pertenceram. O frágil repugna Os que se alimentam dos desperdícios lancinantes Dos desalinhados. Nunca os veremos a apodrecer nos Espelhos que devolvem a sua imagem aos frios cristais de prata, as personagens que nunca fomos e que apascentam as memórias das criaturas que gemem nos subúrbios da paixão. Abandonados, nunca o devir lhes servirá de desculpa para justificar os desvios que empreendemos quando a solidão fulmina. Há até quem reconheça no bater das asas dos pássaros relâmpagos de dor, excrescências vazias corroendo os ossos devolutos. Os cães vadios que vagabundeiam nas vielas apertadas da cidade ladram aos exilados que se apresentam como heróis assustados, às endorfinas que exalam da pele sacralizada. Na ossatura fossilizada, os caninos rasgam sulcos antigos contaminando os que, como eu, perderam a interioridade palpável, o molde dos sentimentos instrumentais. Resta, restará sempre, o que a vaidade Semeia no olhar dos crentes. Vrsa 29-1-15

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:31

Da soberania da Multidão

por vítor, em 15.01.19

Há que destacar; e só quem não tem competências para desocultar o que está por detrás do que ocorre na sombra da memória o poderá pôr em causa; as consequências brutais do teu gesto. Não será nunca desprezível o elenco de citações que podem interpretar e avaliar a brutalidade da ação.
Eu que conheço a imprevisibilidade do comportamento humano, que aprecio a diversidade e até comungo contigo o prazer da mudança, não sei como a magia dos princípios pode canibalizar o estertor do fim. No meu caso, é a mudança exterior ao pensamento que me habita o cinzel transformador da alma.
Quando vieste até mim, percorrendo o caminho insensato dos sentimentos de antanho, irradiando clareza na confusão inata da nossa vida, reconheci de imediato que nunca tinha sido a ausência a explicação da separação. A proximidade física é uma fonte de mal entendidos. A lonjura atómica potencia a exaltação dos afectos incorruptíveis. Não há distância na solidão. Nem solidão absoluta na imensidão das terras habitadas pela criação cultural.
O teu gesto, que emergiu na noite, é uma aclamação silenciosa e triste. Um salto na vacuidade do sonho, na cumplicidade da mecânica amorosa adjacente.
Sabes o que convoca a dor e almeja a sabedoria, a sabedoria dos relapsos altruístas. Sabes onde a lança penetra as fragilidades da alma. Onde se alojam os trovadores da realidade inatingível, os que conhecem os limites insondáveis do efémero retorno.
Quando o desejo é concorrente doutro querer, rejeitado pelo corpo carente, o parecer favorável da multidão é soberano e requer a impossibilidade do despojo total.
O gesto que ostentas perante a minha inquietude não inscreve a violência que transporta, na carne devoluta que te ofereço. É essa brutalidade do gesto: a violência que desejamos não encontra o alvo do desejo que sempre procurámos. O medo inviabiliza o desejo, ampliando a dor da paixão inerte.
Alguns não desconhecem o que se revolve sob a coberta que esconde da curiosidade sagaz da multidão, os murmúrios do resvalar delirante dos tempos. Serão esses que, um dia, gravarão o gesto na memória do futuro.

Monte Gordo, 19 de Julho de 2010

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:08

A Vetusta Cobertura

por vítor, em 26.12.18


Como vaga de um mar sem fim, a mortalha do poeta cobriu de espanto o pântano das cidades sobrenaturais, e o sangue do cadáver tatuou a vetusta cobertura, revelando o sudário sagrado, o santo sudário ardendo na orla do deserto, escorrendo da lâmina que desenha a silente cumeada do abismo, labirinto onde as hienas desesperam para lamber o desenho morno das palavras, as facas reluzem nas sombras inúteis da tempestade, onde as multidões se atropelam em outlets negociando, a preços de saldo, amor e amizade. Agarro o pano aconchegante da morte e arrasto-o até ao peito, sinto frio nos pés, encolho-me como um político mal nutrido, vagabundo na podridão das insinuantes serpentes, e lanço o olhar através da memória superficial dos outros: a visão que me assombra vem, venenosa e nevoenta, refazer a realidade e mostrar às pedras que me conduzem a caminhada, a linha da vida que traçarás na erva curta que te servirá de alimento e leito. A partir de agora, não desejarás o que te não pertence, não mais poderás atingir a eternidade que a morte contém e guarda. Há de o vento soprar com violência e os sonhos cristalizar no medo. Nascerão, depois de tudo o que conheceste, crianças todos os dias.
Vn Famalicão, 24/12/2018

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:16

Destroços

por vítor, em 20.12.18

 

 

Destroços

E porque as festas estão por todo o lado. E porque ninguém consegue fugir do tempo. Uma boa sugestão para "a passagem das horas". Suas e dos seus. Não é um obra nova, mas é uma nova obra. Tinha sido publicada digitalmente num projeto muito interessante, escritores on-line, que não sei o que lhe aconteceu, e, por isso, publiquei-a aqui. Recebe-se, em papel, em casa.
Devolve-se o pecúlio dispendido se a obra não convencer...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:24


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

4 águas/cativa editoras

5 euros (livro) + 2.5 (portes) = 7.5 euros vgcardeira@sapo.pt


Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D

votação

Pode Portugal sair da crise sem a ajuda da Troika?
Sim
Não
= ver resultados =



partículas




vendo


My blog is worth $5,645.40.
How much is your blog worth?


horas amargas


PRÉMIO CATIVA

07/2007 - Jorge Palma 08/2008 - Ricardo Araújo Pereira 09/2009 - José Bivar 10/2010 - Ana Drago 11/11/2011 - The Legendary Tiger Man 12/12/12 - Ricardo Araújo Pereira 26/12/13 - Rui Costa VII

tradutor