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Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

Farejando Notícia

Mexeu-se outra vez e as costas estalaram. A polícia já não é incompetente como dantes.

Lembrava-se de tudo como se presenciasse a cena: à direita um actor de cinema com os olhos em bico do leite de coco com aguardente de cana. O crepitar da fogueira enchia a sala de recordações tristes. Embevecida no fogo estava ela. Porque fora ele meter-se naquele covil de lobos sem unhas?

Bebeu mais um copo. A cabeça recusava-se a pensar nas responsabilidades do dia a dia. Bebeu outro, de um trago só. Maldita cocaína, ouviu a consciência com voz grave de pai dos anos trinta.

-         Por favor, eu tenho um sapato calçado nos pés dela, rugiu à multidão apinhada no bar-semi-escuro.
-         Não ouvem, pensou sorridente.

Lendo uma revista pornográfica, desta vez à esquerda, estava um cavalheiro distinto mas sem gravata. Ela sorria avermelhadamente com a calma de quem jogava. Roleta russa.

Sentia desejos de ir com aquela mulher para a cama. Sim. Ela até era bonita e olhava para ele com uma expressão de talvez...
Mas que confusão lhe atravessava o espírito/ficção banal. Ela era uma visão sem compromissos e até sorria.

Agora era o malvado joelho que teimava em não funcionar. Nem a perna conseguia cruzar. Que pontapé, essa gente devia era ser jogadora de futebol.

Na poltrona do meio dormitava um velho jornalista corroído por notícias de todo o mundo. Tinha sido, até, correspondente na Polinésia.

Que homem viajado, pensou.

Ela chegara-se mais ao fogo como se precisasse de mais calor. Era a sua, dele, hora. Pé ante pé, chegou-se à lareira e, com a tenaz, retirou uma brasa do braseiro. Acendeu o cigarro à americana. Soprou o fumo, primeiro pelas narinas e depois através dos dentes.

-         Magnífica casa, meteu-se, nesta ocasiões transbordo de amor.

Sentiu-se alarmado com as palavras que deixara escapar. O jornalista farejou notícia. O cavalheiro distinto sem gravata ousou mesmo esboçar uma retirada discreta, sem o conseguir. Pela porta dos fundos apareceu quem se esperava: o polícia secreto do governo sombra.

Sem conseguir reagir ao desencadear dos acontecimentos, e com dores acentuadas nas costelas, deixou-se prender por ele e... por ela.

 O actor de cinema, com os olhos em bico, saiu de cena pela porta baixa sorrindo ligeiramente.
sinto-me:
publicado por vítor às 23:21
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Terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Chaminé Sorridente

 

Faltava-lhe um dia de azar para chegar a casa e começou mesmo a ver-lhe já a chaminé sorridente. Na pressa de soltar os pés, tropeçou num ouriço cacheiro vagabundo. E como se a antipatia não morasse ali, encontrou um tipo de chapéu alto, com sapatos bonitos engraxados há cinco séculos.

sinto-me:
publicado por vítor às 19:17
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Terça-feira, 28 de Julho de 2009

Estava Frio na Tarde Poeirenta

Estava frio na tarde poeirenta. Agarrou os sapatos e entrou descalço no cemitério. Algumas beatas místicas adoravam os seus mortos ruminando palavras silenciosas. Percorreu o corredor central e chegou-se à sepultura de uma mulher de óculos escuros sem lágrimas. Pousou os sapatos. Olhou as árvores repletas de caracóis e começou a assoviar baixinho. As beatas ruminavam a líbido esperando compaixão das almas inertes.

Passara um ano sobre a morte da mulher de óculos escuros sem lágrimas. Era a sua primeira visita.

O Outono descia as persianas. O Universo rodopiava, sem pressas, em volta do cemitério.

Subiu a colina suave da sepultura e sentiu os pés descalços a enterrarem-se na terra. À procura da raiz.

Há anos, quando repousava no seu regaço, sentia as mãos tremer de gozo. Lembrou-se das galochas que sempre quisera ter e nunca teve e que os rapazes da rua sempre tiveram.

Olhou o céu à procura de encontrar Deus a sorrir. Não existe. As beatas consumiram-No . Existe. Só existe o que se pode consumir.

Sentiu as mãos tremer de gozo. Os pés terrados .

Bruxas no sabat sem fim aproximaram-se do cemitério. Pensou nos mortos ricos e nos mortos pobres, que foram vivos pobres e vivos ricos. A loucura passa pela maior das normalidades quando tem um espaço onde se projecta. Só quando o pano de fundo desce, a loucura cai à rua: é doido varrido, vê pulgas na opa de sua majestade, quer saudar o infinito, satisfaz-se no vazio. A mais grave.

As viúvas místicas atingem orgasmos na penumbra das sepulturas.

Os espaços sagrados aparecem quando os seres do Além se fundem aos do Aquém e aqui começa o sabat. Fantasmas e vice-versa, num só, debatem os mais prementes problemas da Filosofia contemporânea.

Mãe, por que me abandonas-te? Acaricia-me os pés. Faz-me tremer as mãos. Vamos construir um mundo porreiro sem carimbos na consciência.

Parecia que o tempo não passara mas o Sol caíra atrás da parede do cemitério e como era preciso atravessar o ritual da morte para participar no sabat, o coveiro, homem devidamente encartado para tal, expulsou as almas do outro mundo para o outro mundo.

publicado por vítor às 00:24
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Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Um Macho Sem Dez Tostões

 

  Seguia estrada acima com uma dor manhosa no duodeno. Martelava as pedras do caminho com as velhas botas da tropa, distante, e talvez pensasse em bebidas estranhas de camone. As ervas da valeta exalavam cores abundantes e silvavam, baixinho, o gozo da carícia do Levante. Naquela altura os caranguejos começavam a espreitar, à passagem das pessoas, estendendo as pinças à esmola dos mais avantajados. A crise instalava-se no seio de todas as sociedades, complexas e não complexas, terrestres e marítimas.

Acotovelou um caranguejo à passagem:

·         Xô monstrego de duas bocas sem açaimo.

·         É só pra matar o bicho, pedinchou.

·         Vai trabalhar prá estiva, incapaz.

·         É a espandilose, desculpou-se.

·         A espandilose o caraças, onde já se viu caranguejo com espandilose.

·         É caso único, por isso te rogo dez tostões.

·         Sou macho, muito macho e além disso não tenho dez tostões.

O caranguejo, visivelmente derrotado, voltou ao buraco; estreito e profundo, na lama negra e pestilenta, lavado em lágrimas.

O vento é um eterno agouro, uma voz angustiada de marinheiros que vivem no fundo do mar, sem barcos para navegar.

Escarrou, alto e bom som, sem no entanto parecer indelicado ou mal intencionado. Pensou que os anos não eram mais do que dentes que apodrecem sem razão alguma e que, por isso, são atirados aos telhados das pocilgas onde costumam viver os homens.

É sempre cedo para descontar os impostos dos peixes às mulheres que se vendem por garrafas de champanhe amaricado.

Começou a desafiar as gaivotas sem poder de elevação e enleadas nas nuvens:

·         Então bicos brancos esfarrapados sem tesão, não gritam aos machos que passam? Com que coragem me fixam os olhos de patolas neutros?

Ninguém lhe respondeu e continuou ao acaso em direcção ao ocaso imperturbável. Não há recepção possível por parte dos loucos comuns aos loucos do poder.

Uma vez, quando a mulher das tempestades bonanceiras apareceu ao povo, perguntou-lhe quem era o responsável pelo fluir das bebedeiras dos passarinhos metamorfoseados em passarões com pele de lobo e sentimentos de cordeiro. A resposta foi vaga mas responsável:

·         Um homem foi às traseiras da sua casa numa noite de bonança e se a cidade fosse no seu quintal teria visto toda a confusão da noite na palma das suas mãos.

·         Está bem, disse um amigo de ocasião, e se os anjos fossem realmente bons? A resposta amputaria assim as memórias vazias?

A mulher das tempestades bonanceiras começou a mudar de cores e, quando se tornou amarelada, desapareceu deixando um imenso oceano de respostas nas mentes dos cobardes presentes.

sinto-me:
publicado por vítor às 23:39
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Terça-feira, 5 de Maio de 2009

A Cavalo do Impossível

 

Anselm Kiefer*
A cavalo do impossível cheguei de longe. Era Sábado à tarde já tarde e bebi uma cerveja na tasca da esquina. Livrei-me de conhecer os cigarros já moribundos nos cinzeiros e passei à sobremesa sem grandes pressas.

- Outra cerveja, arrotei, das de exportação.

O homem do fundo levantou-se e saiu aos trambolhões pela janela.

*

Meu Deus.

Parecia que levava os bolsos cheios de lágrimas derramadas ao acaso. Já na rua retomou a compostura e rastejou assoviando às pedras da calçada.

*

Onde mora o encantador de serpentes, perguntei à empregada enfrascada em cebola. Respondeu evasivamente e colocou-se à minha disposição na posição habitual. A quatro é sempre difícil, pensei desabotoando a braguilha. No entanto, para começar não está mal. Fiz o serviço e saí pela janela.

O Sol punha-se atrás do bosque envenenado. As flores do soalho da rua empoeirada exalavam um cheiro acre a bife de vitela mal passado. Eram trinta luas para o fim da exposição final que começava a parecer um cravo espetado nos pulmões da aldeia. Afinal o encantador de serpentes morava no largo fronteiro ao cemitério, já na linha que separava a aldeia do bosque envenenado. Transpus a linha de um salto, que me pareceu mortal mas que afinal foi banal, e bati na janela da casa-sem-convicção. Ninguém, veio à porta. Achei-o meio desfigurado, por entre a amálgama de entes castrados que lhe espreitavam atrás dos braços e das pernas. Vinha um mau hálito, a sardinha crua, da sala do fundo que mais tarde vim a saber era o parlamento do país aos fins-de-semana.

Ninguém apresentou-se, pontapeando os políticos (?) castrados para o parlamento.

*

Sabe, começou.
*

Sei muito bem, interrompi, eu também bebo ao Sábado tardoite.
*

Então vamos ao que interessa, sorriu cúmplice.
*

Então vamos ao que interessa, supliquei.

Entrámos na cochia onde dormia uma serpente quadrada com bigodes de cartão amarelecido. Logo de entrada verifiquei que estava perto do fim da sessão da tarde e que a película estava toda corrompida por sábios estranhos aos desígnios da Pátria.

Ninguém depositou a chave do pensamento nas minhas mãos, coloridas de espanto. Então murmurou sem abrir a boca:

*

Vai.

A cavalo do impossível retirei-me para longe.

 

Curiosidade feliz: Anselm kiefer, um dos meus artistas plásticos favoritos (e um dia destes falarei mais sobre esta minha  fixação) vai instalar na zona da Comporta (costa alentejana) um projecto que liga arte e natureza. Como conheço bem esta região, graças a um grande amigo que aqui passa religiosamente férias de Verão e visito (não tão religiosamente como ele quereria), aguardo ansiosamente o desenrolar do projecto.

sinto-me:
música: confusion will be my epithaf - King Crimson
publicado por vítor às 23:52
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Quinta-feira, 19 de Março de 2009

Um Homem que por Acaso Era Eu

 

 

        Um homem saiu na paragem seguinte. Deixou o chapéu no cabide de espuma entre a noite e o dia. Saiu sem pensar na cor do futuro.

  Algures ( num bar? ) sentou-se alguém. Alguém, que para o caso era eu, pediu um telefixo .

  Do outro lado do mundo (do balcão?) trouxeram-lhe um crucifixo .

  Xô, gritou um homem.

  Os transeuntes apressaram o fluir das horas e fingiram saber como semear amendoins.

  Eu telefonei para longe, para o espaço envolvente dos dias sem sabor. Onde os pássaros não cantam sem apelos da sociedade civil.

  Os transeuntes começaram a chegar a casa cansados dos dias memoriáveis. Os autocarros foram vomitando semáforos enlatados enquanto um homem errava todos os alvos. Excepto o da sua preguiça solitária.

  Eu, um transeunte neutro de civilidade, telecrucifiquei um santo homem.

Xô satanás que arrepias a utopia!

  Um homem, que por acaso era eu, atravessou a rua deixando um sulco de raiva no alcatrão quente. Amarás os transeuntes que param, disse um profeta vindo de mansinho. Alguns ostentam medalhas de medo, comendadores da porcaria, heróis da merda .

  O país encharcou-se de pus putrefacto e casto. Os transeuntes percorrem o caminho sagrado da ignorância uivante. Nas cidades não há sementes de melancia e a violência desperta prenhe e nua. Como as virgens. Liga-se às ruas como mães a filhos sem pais.

  Um homem, que por mero acaso até  era eu, olhou para trás. O que viu aspergiu-lhe a memória de nós. Nós e a morte.

  O candidato sentou-se na escuridão. Era alguém com a violência domesticada e mostrou-o a todos.

  Alguns acreditaram na bondade do crime e aplaudiram implodindo as palavras. 

sinto-me:
publicado por vítor às 17:48
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Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Um Grito de Mercenário

 

Um grito de mercenário. Juro que o imbecil se junta nas herdades desertas da multidão.

Viajo até a solidão se dissipar no atrito do desespero. Aí celebro a infância desmembrada, de amor. Desta vez o sonhar é uma sensação demasiado real para causar dor, demasiado rude para convidar ao reflexo comum do prazer.

Na estrada há um barco angustiado ( talvez  bêbado, como disse o outro ). Centenas de pirilampos jazem nos cadáveres sem apodrecer. A ti envio os meus dedos vestidos de arlequins esverdeados. Não és um desafio porque sabes demais das incertezas do infinito.

Um ser embriagado deu à costa. Bebeu o mar e caiu na calçada, calada, por onde namoriscavam peixes vestidos ao contrário. Ainda vi que eras uma alforreca desmaiada.

Vi- te passar perto de um ser que parecia engolir os destinos. Nem as promessas do homem mentiroso seriam tão vãs. Ele era um deus razoavelmente desprovido de sentimentos sociais.

A mentira é tudo, sendo nada é fogo ateado à imaginação para consumo dos vizinhos. Sem a mentira há medo. A suavidade é a possibilidade de construir o passado em liberdade e acabar de vez com o futuro.

Vais comover o farol das trevas! Entrega-te patrão das sereias iluminadas!

A Europa é um paraíso de opressão.
sinto-me:
música: riders on the storm - The Doors
publicado por vítor às 20:49
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Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

Um Homem Apagado

                                 Anselm Kiefer

 

Sou um homem apagado. Entendo as coisas mas elas não se dão conta que as sinto. Às vezes masturbo-me. Se esvoaçam as meias e as cuecas da vizinha, a punheta é lasciva e violenta. Se nada acontece, acabo a meio gás. Atiro esperma às coisas, através da janela, mas não chego a molhar nada. Se sujo as calças, as nódoas são de gasolina porque lá fora estou sujeito ao ridículo, das pessoas sociáveis. Nunca compreendi porque podem os cães exibir os tomates, sem ninguém corar. Ou o poder de alguns sons, que não podem ser emitidos em público.

 A vida, a dos outros, é composta por sucessos e insucessos. O poder é o insucesso mascarado de sucesso, para iludir os que querem o prazer nosso de cada dia. A carreira ou a vida é um dilema tracejante e de resposta óbvia. Agarrem-me esse palerma! As águas não lavam as mágoas. Só tornam transparentes as emoções obscuras. O local onde se curtem as dores sem sentido da impotência.

 Sou um homem apagado que gasta as horas nas ruas escuras da existência. Entendo as coisas, mas as coisas aspiram a entrar na história e a história é o poder, a repressão do prazer. O pecado solto e desengonçado apela, por entre os valores, asfixiado por normas sociais, a elegantes rasteiras possidónias e patéticas.

  A mim, que caminho ao sabor das ventanias, o tempo flui sem interesses culturais adjacentes. As pedras parecem sapos deitadas na estrada exalando odores ígneos profundamente enraizados nas consciências povoadas de dor.

Acalento ainda a esperança de cumprir o futuro: conhecer a mágoa imprópria da vida.

 Só os sons parecem conhecer as palavras e seleccionar os momentos inertes do silêncio. Eu, não pertenço ao labirinto social complexo das imagens. Não cortejo a roupagem dos imbecis poderosos nem, muito menos, a dos poderosos imbecis.

 Às portas estreitas do vazio correspondem sempre avenidas largas de insegurança magnética e obscuridade flamejante e numinosa : hipantropias seladas contra a solidão imberbe da cultura.

  Sou filósofo do espasmo, acrata do pensamento. Acontece mesmo que sou um homem apagado.

publicado por vítor às 21:42
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Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

Nuvens à Esquerda

 

  Nuvens à esquerda. Qualquer coisa entre mim e o Sol poente.

  Tinha um ar tão grave quanto se podia imaginar e mesmo assim sorria. Sorria às coisas. Pronto. Tudo se passou como uma brisa contra a tempestade ( aliás previra-o ). Quantos calafrios a atravessar a noite poeirenta. A vida.

  Apeteceu-me chorar pedaços de carne. Da minha carne.

  Há um mundo a desabar sobre o meu ( que já não chamarei mundo nem terei coragem de apelidar ), com asas grandes a afastar as únicas borboletas que restam do meu amor. Uma auto - estima inútil e nua. Perdi todas as correntes e esqueci todas as portas. Quase todas... ( é próprio dos moribundos agarrar freneticamente um sonho esfaqueado )

  O céu fundia-se como o ribombar dos trovões na mente dos aflitos. Multidões de gritos, como abutres, esperam o cair da noite. À noite as flores entregam-se a si. À noite ninguém assassina flores.

  Não existem recordações de infância onde os sentimentos flutuam em convulsões febris. A minha dor não tem memória, mesmo não podendo imaginar dores sem memória, por isso é irreversível, sem origem. Como a noite que cai...

  Nas asas do sono brincam sorrisos rodopiando eternamente ao vento.

  Há nuvens à esquerda incapazes de me tocar, receando perder a capacidade de estar sós.

  Perdão, a noite cai. O Sol, e eu, vamos para o outro lado da penumbra.   

sinto-me:
música: Is not time to make a change... Cat Stevens
publicado por vítor às 14:07
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Terça-feira, 26 de Agosto de 2008

No Bar do Costume

Uma mulher entrou de mansinho arrastando as solas dos sapatos na tijoleira vermelha. Apertou a mão a uma salamandra semi-nua, que vagueava ao acaso pelas redondezas, e resolveu pedir um bagaço.

O empregado, senhor de um porte arredondado, serviu com a gentileza do costume.

Deu um trago sem pestanejar e sentou-se na arquibancada do fundo retirando um chupa-chupa da malinha ligeira. Chupa aqui... bebe ali...chupa aqui... bebe ali... e assim vai o relógio do bar consumindo o inexorável fluir do tempo.

Entram clientes, sentam-se, bebem e pagam quase sem falar, enquanto o relógio e o empregado vão servindo sem pressas.

Duas rebimba-corações bebem em silêncio na esplanada. O Sol mergulha no mar e as gaivotas erguem-se nas sombras. Ao longe, um saxofone geme milagrosamente entre a babuja da preia-mar.

A mulher levantou-se e dirigiu-se ao balcão ostensivamente envernizado de espuma.

 - A minha conta, pediu com gestos meticulosamente embaraçados.

O empregado, que presenciara a lenta progressão da elegante senhora no salão, levantou-se cordialmente, do banco atrás do balcão, deixando o jornal, que lia sem interesse, pousar nas imperiais por tirar.

Uma centopeia, sem pernas, gritou na noite. A brisa nocturna, sem devaneios, invadira os lugares obsoletos, mordiscando os pensamentos dos lampiões tímidos da rua.

No instante em que a mulher tirou o montante, exigido pelo bagaço; da malinha, entrou no bar um cavalheiro sem olhar. A noite pareceu mergulhar no vasto oceano, enquanto o saxofone se extinguia entre os barcos sem cais.

Sem retirar o sobretudo, o homem sem olhar, voltou à rua e atirou-se na noite desaparecendo na encruzilhada das trevas.

A mulher, depois de receber o troco, penetrou no ar frio da maresia deixando um rasto de luz no alcatrão ainda quente.

O empregado, retomou a leitura do seu velho jornal: ... a solidão é o império dos sentidos.

 

 


 

música: Show me the way to the next wiskhey bar
publicado por vítor às 22:20
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