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Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2012

o negócio das esplanadas

 

Algumas vezes os milagres acontecem

Nas esplanadas do café, não chegam a horas

Para acordar quem precisa de repousar

Das loucas filas que se estabelecem

Nos esconsos armário da felicidade.

 

Há pessoas que tomam pílulas para dormir

Quando descobrem que a vigília é um estado

Terminal que visa perpetuar as conversas ambulantes,

As serpentes que perseguem as caras que emergem das noites.

Pesadelos ambiciosos no sono inútil, cancro que se instala

Nas ideias que fumegam nas chávenas de café.

 

O café é forte e o empregado atende as velhas

Com malandrice concupiscente. Ali, só a morte

Impõe o cumprimento da vida. Se não morrêssemos,

Ninguém largaria uma conversa a meio, ninguém

Se levantaria da esplanada fria sem se despedir

Para sempre. Todos fumávamos e ríamos e troçávamos

Da inflação, não haveria subsídio de férias, nem paraísos fiscais,

Nem mesmo bancos na Suíça. As férias seriam eternas

E a sobrevivência estava assegurada pela imortalidade.

Não haveria ambivalência nos escritórios onde

Se negoceiam as dívidas soberanas e as agências

De rating não fariam poemas atirando dados.

 

Nas esplanadas continuar-se-ia a tomar café,

Talvez aguardente de medronho da serra, as velhas

Seriam mais velhas, pois a morte nunca chegaria,

E os coveiros frequentariam workshops, fazendo

up grade dos ossos que manipulavam,

E passariam a exercer carreiras de sucesso

No mundo da alta finança.

 

No crescente e rentável negócio das esplanadas,

O tráfico de influências daria lugar a happenings

De solidariedade social, performances plásticas

Sem redundância nenhuma, sorteios de ganâncias

Desprovidas de valor ou meetings de pontos de vista dejá vus.

O vil metal chegaria de mercedes-benz, e de carro funerário,

E no coche barroco do falecido d João 5º.

Falecido??!! O que é isso?, perguntariam as crianças

Post mortem. No passado as pessoas morriam,

Ausentavam-se para sempre, explicaria um transeunte

Manhoso, erguendo, respeitosamente, os olhos ao céu.

 

Há cadáveres famosos que nos enformam os desejos.

Teimam, mesmo defuntos – descansados sejam -, em alienar-nos

O pensamento, em gritar fazendo estremecer as pedras

Tumulares. Se não morrêssemos, o futuro não seria o vazio

Que tentamos escravizar, o mundo que não conseguimos

Desocultar quando avançamos na escuridão.

 

Na esplanada os pássaros depenicam partículas

Recebidas por correio eletrónico, provocam os adultos

Com peidos monumentais e sorriem às crianças

Que os escolhem para amigos desinteressados.

 

Se não morrêssemos os cientistas deixariam

De tentar explicar as coisas e tentariam interpretar o nada,

O nada e a sombra que anuncia o fim sem fim. Nem é fácil

Imaginar o poder dos mecanismos que regem os mercados,

Nem fácil colocar bombas nas instalações dos bancos de investimento.

O grito fascista que ecoou na Ibéria profunda encontra

Seguidores nos caminhos irregulares dos desvalidos.

Viva la muerte, será o regresso às origens onde o vento

Açoita a tarde.

 

Nas esplanadas voltarão a ouvir-se os lamentos

Das vozes que reverberam as parangonas dos jornais.

 

VRSA, 21/11/12

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Sexta-feira, 16 de Novembro de 2012

numa tarde de chuva

pintura de Rui Dias Simão

 

Da janela escorria uma camisola ensanguentada.

Pingava na terra encharcando o vazio

Que se assomava por detrás das casas.

Três facadas na carne rasgando

Os tecidos nauseabundos, expulsando

O sangue em golfadas efervescentes.

A minha mãe já não mora aqui e o sangue,

Que também é o dela, cai no pântano

Morno cobrindo o chão da cozinha.

A camisola envenenando as ervas daninhas,

Alimentando os vermes que me consomem o corpo.

 Agarrem-no!, ecoou como lâmina zurzindo

O ar brutal do bairro sórdido, não há crime

Sem castigo!, berrou o homem sem significado

Que assistia a tudo.

Nunca um crime foi sentido por mim

Nas fronteiras da solidão, respondi eu

Cobrindo a retaguarda.

Ratazanas sem compromissos escapuliram-se

Nas sarjetas iluminadas pelo odor dos enjeitados.

O vizinho do 2º dtº deu a primeira facada.

As outras que me rasgaram a pele e trincharam os ossos

Foram, no calor da refrega, atribuídas a incertos.

Conhecidos mas não identificados nas complexas

Poeiras que ensandeciam a tarde. A camisola

Aspergindo o espetro rastejante da pobreza.

Nunca ninguém fugiu de si próprio deixando

Um rasto de informação ofecendo

Aos caçadores de infinitos

O odor que os levará ao covil da presa,

Ao definhar do ritual do fogo e do sangue

Que rege o ordálio crepitando nas mentes

Experimentadas no silêncio, na viagem

Interrompida por deus.

A multidão rumina dissolvendo as persianas

Ululantes das personalidades elementares.

O crime percorre as ruas por entre

Conceitos duvidosos e ideias lancinantes

Abandonadas pelos que temem os estrangeiros

Nascidos entre os nossos. A matéria

Que compõe os heróis regurgita no princípio

Da noite, cadinho onde se fundem as ilusões,

E o crime assume a vertigem da virtude

Incontestável e una.

O sangue que brotoeja das feridas escancaradas

Sacraliza as ruas por onde prossigo procurando

A caverna dos prodígios labirínticos, a degeneração

Do corpo que reproduz o regresso ao fim.

 

Duma janela apontando a noite pinga

Uma camisola ensanguentada.

 

Vrsa 13/11/12

 

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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2012

Minhas mãos sozinhas

 

Um poema de Rui Dias Simão

 

 

Monólogos de Bartolomeu Dias

               na morte de sua esposa

 

1-      Criação:  vivem pelas arqueologias do silêncio

                 reunidos durante as cálidas insinuações

                 do fogo sobre a pedra

 

2-      Orgasmo:  palavras marmóreas aéreas descem

                    à fixidez do vermelho

 

 

 

3-      Morte:  sibilina modorra desprende a língua do fruto

               nas mutações da chuva o rio engorda

               um objecto cortante arde-me frio nos dedos

 

               sei a pulsação do sangue

               digo logo para mim essa nuvem

               rebente profusa em teu nobre peito

 

4-      Solidão:  a solidão transporta o resto para

                a penumbra dos esgotos

                

               única musiqueta de todas as maneiras

                intransponível

                faca

 

                aparecem na babugem os peixes mortos

                até isso me vem parar

                às minhas mãos sozinhas         

sinto-me:
publicado por vítor às 22:45
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Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2010

excrementos involuntários

 

canalsonora

 

O meu amigo, e poeta enorme, Rui Dias Simão foi professor dois anos lectivos. Um em Rabo de Peixe, enquanto passeou, diletante,  os ossos pela Universidade dos Açores e pelos bares de Ponta Delgada, outro em Vila Real de Santo António. Este último ano lectivo foi bruscamente interrompido quando numa tarde, a seguir às aulas, foi beber umas cervejas e jogar snooker com os seus alunos. Enquanto ajeitava o taco para bater a bola branca, um aluno carambolou a frase que interrompeu uma rica, se bem que curta, carreira de docente. "Qualquer dia até o meu cão dá aulas", atirou, batendo com estilo a referida bola. Nunca mais entrou numa Escola... o poeta, bem entendido.

Vem isto a propósito de um certo livro de poesia que certo "poeta" lançou num determinado mês de dezembro, que por acaso é o que corre na graça de deus. Qualquer dia, até o meu cão, o possante Matrix, edita um livro de poesia.

Portugal é um país de poetas. É uma certeza que os portugueses, sobretudo os poetas, gostam de alardear aos múltiplos ventos. É um país de poetas como o são o Canadá, a Venezuela, a Indonésia, o Burkina Faso, a Nova Zelândia ou o longínquo Botão. Tirando o maior dos maiores, o Fernando, o excepcional Luís e o perturbante Aleixo, o resto não sobressai da floresta de poetas que polui e, na maior parte dos casos, corrompe o plasma que nos esmaga.

"Também tu brutus", digo eu a mim próprio associando-me à poluição vigente. São excrementos (da alma?) senhor, não leveis a sério. Necessidades que não pretendem ser mais do que um escape libertador da alma. Reação exigida pela ação. Sendo a primeira pior que a segunda que já não é famosa. O que me consola, que nos consola, é que o produto expelido não incomoda nem se acomoda  nos transeuntes. Não contamina nem dói a quem se exponha. Inocuidade sem mal. O que mais me preocupa são os amigos que, inconscientemente, me afagam o ego acreditando nas palavras incontinentes que se escapam da centrípeta vontade do emissor. Quem me dera nunca ter escrito uma palavra. Só posso prometer contenção, a osmose involuntária só parará com a morte. É uma doença cruel e crónica. O que me consola é a floresta que tudo abafa.

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música: quqlquer uma do zimmerman
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Sexta-feira, 16 de Julho de 2010

um poeta na praia com um grupo de trissexuais

 

Ser editor de um poeta é complicado. Ser editor e amigo de um poeta bêbado, decadente e irresponsável é o inferno. Um inferno fascinante, mas um inferno. O meu amigo Rui Dias Simão é um dos maiores poetas portugueses vivos. No entanto parece constantemente querer desmentir-me: deixar de estar vivo.

Hoje tínhamos combinado ir ao lançamento do livro do Fernando Esteves Pinto, amigo comum, à Biblioteca Municipal de Olhão. Aproveitaríamos para distribuir a alguns amigos o último livro do Rui e das edições CATIVA, Poemas do Banco de Trás. Cheguei a sua casa, kantianamente, à hora combinada. Depois de muito insistir com a campainha, resolvi telefonar-lhe. Atendeu, com uma voz arrastada de bebedeira de três dias, da praia." É pá desculpa lá mas estou aqui na praia com um grupo de trissexuais".

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Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

uma mulher disponível

 

Não tinha pensado nisso. A avenida estendia-se, rude e crua, até ao fim do mundo. Alguns candeeiros iluminavam o nevoeiro morno do Levante. As minhas pernas pareciam moles e frouxas, caminhava cambaleando no alcatrão esponjoso. Nunca tinha pensado nisso: bebia para ocultar a timidez.

Àquela hora da madrugada irresponsável, o calor mantinha-se à superfície das coisas. O ar irrespirável alimentava as insónias dos entes há muito retirados nos leitos burgueses. Nos lençóis encharcados de lama pestilenta. O maléfico soprar das aragens desérticas destrambelhava as mentes sóbrias.

Avanço ao encontro da imensidão da noite. A experiência diz-me que no fundo da avenida, junto ao porto, um bar ilumina as trevas. É o último reduto da loucura ambulante antes do Sol misturar tudo na intensa luz do Levante.

Aquele homem que percorre lentamente a borda da Ria é um poeta. Como todos os poetas procura a embriaguez do abismo profundo e inatingível. Generoso e sem retorno. É uma caminhada dolorosa e sem destino que engole o próprio caminhante. Uma autofagia que vai destruindo o sujeito e o objecto. Uma boca hiante a partir da qual o corpo se vira do avesso, desaparecendo nas vísceras  tetónicas  do inferno emergente. Uma longa batalha entre quem come e é comido, sendo que um e outro são a mesma entidade. Entre o destino e a razão.

Enquanto mija atrás de um contentor de lixo, uma figura mágica espreita por entre os restos nauseabundos. Os excrementos sociais que preencheram as ânsias medíocres da humanidade.

Por deus, é uma mulher!

De olhos muito abertos e uma boca escancarada e vermelha, concupiscente, fita o poeta. Toda ela é desejo e vontade de emergir da putrefação contida.

O poeta sacode a pila e não resiste aos encantos da visão miraculosa. Retira-a cuidadosamente do caixote pestilento e verifica, surpreso, que a mulher é jovem, durinha, leve e bonita. E está nua.

Mãe, telefona-me mãe!, grita na noite incompleta. Tu e eu somos os maiores que as estrelas envolvem. Tu, a melhor mãe que os tempos conheceram e experimentam. Eu, o maior poeta vivo que risca a face do planeta. Telefona-me mãe!, ecoa nas profundas cicatrizes da existência, num rugido lancinante e triste.

Caminha, agora, com a jovem ao colo. Leve como ar de Verão. Leve como algumas palavras que nunca são ditas. A timidez irrompe das entranhas instáveis e, no lento processo de  auto-fagia, nunca se sabe se vem de dentro ou de fora. É preciso aplacar-lhe os propósitos misantropos que atropelam a alma.

 

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publicado por vítor às 17:01
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Domingo, 20 de Junho de 2010

na totalidade dos contrários 2010

 

Rui Dias Simão à conversa com Fernando Esteves Pinto


1 – O surrealismo dá-te muito trabalho?

R: Sobretudo à segunda-feira (sorriso)... A escrita é, em mim, 
quando acontece, uma terapia lunissolar e estruturante; por
 isso, uma atitude 
de trabalho inicialmente se não vislumbra
 e evoca.


2 – A desestruturação mental é uma vantagem para um poeta se

sentir confortável num ambiente surreal?

R: Para já, antes pelo contrário... em boa hora, cada anzol,
 cada peixe; em suma, é preciso estar muito estruturado
para saber finalmente desestruturar.


3 – Imagina que dividimos uma garrafa em três partes

(o fundo da garrafa, o corpo da      garrafa e o gargalo),

as quais representam respectivamentetrês fases do dia

(a manhã, a tarde e a noite). Qual é a fase que te influência

mais no processo criativo?

R: Debaixo da Lua, sem (100) garrafas...


4 – Fala-me dos teus Animais da Cabeça.

R: É um livro que nasce de uns desenhos que fiz por volta 
do ano 2000, os quais estiveram longamente pousados
 sobre um sofá lá de casa, até que.
 

5 – O desenho e a pintura são o outro lado dos teus poemas.

Correspondem à clarificação mental do teu imaginário poético.

O que vês quando escreves poesia?

R: A mulher, a tal, nua, dentro dos translúcidos espelhos.


6 – Tens consciência de que a tua poesia marca uma atitude,

uma linguagem, que é no essencial a tua própria imagem e

comportamento perante a vida e os outros?

R: Tenho. Afinal, talvez não ...


7 – Que realidade entra nos teus poemas?

R: Neste livro ( os animais da cabeça), uma pseudo-realidade quase  
fora de si mesma.

 

8 – Há um diálogo implícito nos teus poemas. Que diálogo é esse e

com quem?

R: Só pode ser com o eventual leitor e a literal surdez do mundo.


9 – O teu último livro “Os Animais da Cabeça” é, quanto a

mim, um breve tratado psico-filosófico sobre o género humano.

É na desconfiguração do quotidiano que investes a tua racionalidade?

R: Parece utópico, mas existe de quando em vez na minha escrita uma  
certa irracionalidade a investir no quotidiano.


10 – Em quase todos os teus poemas verifica-se uma linha bem

definida de transição entre o sentimento pessimista da vida e o

sentimento cómico, risível da vida. Como te defines perante

a realidade?

R: Na totalidade dos contrários...
publicado por vítor às 17:49
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Quinta-feira, 20 de Maio de 2010

poemas do banco de trás, na rua

 

Saiu hoje para a rua. Debruce-se para dentro de nós e entre para o banco de trás. Venha respirar o futuro.

 

 

quando inclino o corpo

 

 

Quando inclino o corpo para a lentidão

redonda dos teus seios, vejo atentamente

que ainda não respiro o futuro.Sabes,

o pólen cai na boca dos que abrem

o silêncio. Sobra talvez uma fuligem em

cada pulso, levanta-se um leve vento,

mas os dias animados sequer encolhem

quando enlouqueces com as tuas baças

unhas amarelas...

 

Não é assim a casa desta manhã quando

os pintassilgos folheiam os cardos, e a cama

é devagar ao lado duma fogueira desmaiada.

As cabeças estremecem um pouco no

regresso do sol das dunas, há um navio

que deambula ainda no corpo, na exígua

memória duma guitarra e outras cordas e peixes.

Sim, alguém se debruça para dentro de nós,

quer sacudir a profunda alegria de sermos

uma realidade com sonho aberto...

 

Todavia temos os castelos que inventámos

após o murmúrio dos pinheiros altos, onde

guardámos as amoras, os medronhos

secos. Bebemos agora a água que resta

doutro vinho, proclamamos a prenhe volição,

a visceral palavra, e embora com uma ramela

a descansar em qualquer labirinto disponível

somos um carrossel de emoções descobrindo

aquilo que pressagiámos durante a vária

areia. Inclinamos o corpo e vemos atentamente

que ainda não respiramos o futuro...

 

Rui Dias Simão, Maio de  2010, edições CATIVA.

 

À venda neste modesto estabelecimento pela módica quantia de 7,5 euros (+ envio).

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música: saiu para a rua - Rui Veloso
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Terça-feira, 13 de Abril de 2010

poemas do banco de trás

Poemas do Banco de Trás

O novo livro do poeta Rui Dias Simão já borbulha, ígneo, nas rotativas do tempo próximo. Poemas do Banco de Trás, assim se nomeará o dito (so?), sairá (saltará)  para a luz dos dias nos alvores de maio. A editora, a de sempre. A que existe para o editar (e celebrar): Edições Cativa.

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Domingo, 11 de Abril de 2010

vens lindo

 

Depois de ter encontrado o Rui em Tavira (vide último post) encontrámo-nos em sua casa à tarde para afinações na capa e no miolo do seu livro último," Poemas do Banco de Trás. Também lá compareceu, como é óbvio, o paginador e gráfico de serviço, o Nuno Viana. Nas Edições Cativa é assim que se trabalha: autor, editor e gráfico, em conjunto, edificando a obra que se anuncia. A tarefa, ou melhor as tarefas, são extremamente complexas e morosas e saímos dali já ao fim da tarde. O trabalho, é claro, foi acompanhado com bastante cerveja e muitos cigarritos.Fomos  em seguida para Cabanas retirar o motor e o panado do imperador da Ria, essa nave lendária que dá pelo nome de Hipantropias. O Inverno especialmente rude deixou estragos no casco da embarcação e é preciso virá-lo, subi-lo para a areia seca  e proceder aos reparos e pinturas necessárias. Originalmente construído em madeira, este Doris saído da mítica oficina do mestre Cagones, o último construtor de barcos de madeira em Tavira, apresenta já hoje o fundo coberto por fibra de vidro. Esta, sendo mais fácil de trabalhar do que a madeira, é, também, mais frágil aos encontros indesejáveis com os fundos rochosos que rasgam a casca sintética sobre (neste caso sob) a madeira original. Dificuldades em encontrar calafates e outro mestres de construção e reparo naval na tradicional madeira, levaram o Rui  a reparar o fundo do Hipantropias com o material mais comum nas embarcações de hoje e com mais técnicos disponíveis. Para além do fundo, o barco apresenta ainda as velhas madeiras originais  do mestre Cagones.

Montados o motor , o panado, os remos e outras partes soltas da nave na minha pick up, deslocámo-nos ao Adriano para beber uma cerveja. Lá chegados encontrámos o amigo Greg e o Baptista e juntámo-nos a beber e a petiscar. Esquecida estava a ideia inicial: beber uma cerveja. O Greg, um lobo do mar inglês que atravessou o Atlântico no seu catamaram, fugido da Venezuela vá-se lá saber porquê, e aportou em Cabanas há já uns anos, falava em Inglês e castelhano, o Baptista, condutor de barcos que levam turistas para a ilha, comunicava em português e castelhano, o Rui, à medida que o tempo passava e as cervejas iam enchendo a mesa, utilizando as línguas referidas e atalhando o francês, eu, que em línguas faladas sou um nabo, lá ia comunicando em português e castelhano, que domino razoavelmente, e à medida que a noite avançava,   aventurando nas línguas de sir Alex Fergunsen e Cantona. Chegou então um pescador que venceu um cancro para continuar a ser o melhor pescador da costa do Sotavento. Já não sei em que língua comunicava. A noite avançava e no meu telemóvel caiam mensagens e chamadas. Temia o pior quando chegasse a casa.Quando finalmente a companhia foi desfeita, não sei bem em que circunstâncias nem a que horas, e me dirigi para casa cautelosamente, fui recebido, para meu espanto, com  sorrisos por todo o lado e com a sempre agradável expressão,  que qualquer homem, ainda por cima já entradote, sempre adora, "vens lindo"!

sinto-me:
publicado por vítor às 22:28
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