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Terça-feira, 20 de Julho de 2010

UGH

 

alguns médicos aconselham a respirar fundo todas as pessoas que se sintam vivas. depois de “revolução ontem”, sai amanhã “utopia agora”; no fim-de-semana terminará a trilogia com o volume “os abutres também dançam”. poeta morre acidentalmente afogado em questões de estética após ter escrito um decassílabo sem querer. certos índices aumentaram mas outros continuam a descer, enquanto as percentagens, pouco sujeitas a este tipo de flutuações, continuam relativamente estáveis. o conselho reuniu de urgência, certas medidas foram tomadas e os resultados serão revelados assim que for possível. o caso está a chocar as autoridades e as pessoas mais tristes. quem estiver farto que se atire. corroboro disse ele, mesmo antes da sobremesa.

 

João Bentes, em "Agonia.

 

(um outro escritor - fora de jogo - da ria)

sinto-me:
música: Like a rolling stone
publicado por vítor às 13:09
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Segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

quando o verão salvou um trabalhador que escreve e descansa

 Uma pequena parte do  imponente cemitério de âncoras do Barril

 

O Verão continua por estas paragens do Sul. 30 graus durante o dia. No outro dia fui ao Barril dar o último mergulho da temporada. Simplesmente do outro mundo. Longo passeio a pé atravessando o sapal, a miríade de canais da ria e o cordão dunar. Com a Serra Algarvia a correr a Norte, cinzenta e ondulada: com os sobressalentes Mama Gorda, Cerro da Cabeça e Cerro de S. Miguel a iluminarem o mar. Marcas de terra de pescadores e outros navegadores, ao longo dos tempos. Os aglomerados populacionais brancos de Cabanas, Conceição, Vale Caranguejo, Tavira e Santa Luzia a espreitar a Ria. Quem não se sentir com forças para os 3 kms (ida e volta) da viagem a pé, há sempre o comboinho que faz o trajecto pachorrentamente.

Junto à praia as magníficas construções da antiga Armação do Barril (pesca do atum), agora transformadas em apoio turístico, proporcionam um bom descanso para a jornada de volta.

Na praia, quase deserta, um longo banho nas águas quentes do Atlântico, uma boa companhia, um dormitar sobre as areias finas, enfim... quase o dito paraíso. Mesmo para quem não acredita.

Quando era adolescente, passava o Verão na praia: manhãs, tardes e...noites. Noites longas à luz da fogueira, guitarras espalhadas pela areia e as francesinhas do Club Mediterrané acariciando o luar.Tornava-me castanho escuro, os cabelos (longos) ruivos e o corpo salgado de meses. Agora, que cheguei à meia-idade (?), raramente vou à praia. Nada me faz passar horas a escaldar ao sol. Só os longos passeios, os mergulhos no mar e os amigos me conseguem levar algumas vezes até ao areais da Ria Formosa. Chego a ir mais vezes de Inverno do que de Verão. As multidões que se apinham à beira-mar deprimem-me e não gosto muito de voltar aos lugares onde fui feliz. Ao Verão de outrora.

O Verão continua sem sobressaltos e eu não estou inquieto como de costume, quando isso se verifica. Estou em plena campanha da alfarroba e não quero que chova. Se chove não se pode andar na labuta e as ervas dificultam bastante a apanha do chão, Este ano atrasei-me bastante na apanha e tive até de contratar um trabalhador que tem feito a maior parte do trabalho. Afazeres múltiplos e um filhote que foi este ano para a universidade em Lisboa têm-me  impedido de participar em pleno na campanha tradicional de fim de Verão. O trabalhador que contratei também não tem ajudado na velocidade de cruzeiro da apanha: vem um dia, falta dois; vem dois dias seguidos, falta o resto da semana; pago-lhe o salário, falta uma semana. O trabalhador é uma figura grada da literatura portuguesa, o que muito honra a Quinta, e  só isso  impediu a sua dispensa por negligência no trabalho. O Verão tem estado do seu lado e isso é bom para os dois: patrão e trabalhador. Quanto ao escritor, deixo para um próximo post a sua identidade. Para quem conhece a sua obra, aqui deixo um dos seus poemas.

 

Que nuvem se desfez sobre aminha cabeça

arrancando o verde do verde

apagando o azul do mar do mar azul

abatendo meus barcos na inavegável babugem?

 

Quem cobriu de fuligem o sol branco dos malmequeres

quem construiu casas vazias por cima dos caracóis

quem mandou à merda os pássaros perdoáveis?

 

Que nuvem era essa

com figura de humano

a tirar macacos do nariz?

 

Há noites assim...

a cabeça não se deita deitada...

um imorredoiro assobio percorre,

                                                   percorre...

 

Penetro os assuntos das mobílias interiores

apanho uma lua, quase apanho uma lua

 

Há noites assim:

companheira companheira

apenas a irresistível cadeira...

 

 

Quem adivinha o nome do trabalhador intermitente?

 

sinto-me:
música: summertime
publicado por vítor às 16:18
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Domingo, 14 de Junho de 2009

um domingo como outro dia qualquer

 

De Santa Luzia a Cabanas em canoa. Toda a manhã percorrendo canais e aportando em ilhas e praias espantosas para dar uns mergulhos. Final da viagem no restaurante da Noélia em Cabanas. Um dos melhores restaurantes de Portugal (excepto em Julho e Agosto).

 

Final da tarde: um dramático jogo de Padel. 2-1, eu e o meu amigo Guapo só por  incontornável falta se sorte carregámos para casa a amarga derrota.

 

Com mais uns Domingos assim, perco a barriguita e vou a Londres em 2012.

sinto-me:
publicado por vítor às 23:21
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Sábado, 7 de Fevereiro de 2009

Primeiro dia de Sol: uma tarde na Quinta

 

Primeiro dia de Sol no Algarve (o tal das milhares de horas que quase perfazem as horas todas do ano de possibilidade de...). Na quinta isto significa montes de trabalho acumulado nestes dias de chuva e frio.

 

Pôr o tractor a trabalhar para carregar a bateria (não é tarefa fácil tirá-la e levá-la à oficina carregar), podar umas árvores, cortar lenha para a lareira, arejar o armazém, vazar a fossa e o poço roto (sim, aqui no campo não temos os esgotos da cidade), tapar os buracos do caminho e... o mais agradável: dar uma volta de mota para carregar, também, a bateria.

 

Duro duro é cortar e rachar lenha à machadada (não me apeteceu aturar o barulho e as tremideiras da moto-serra). Durante muitos anos a quinta era auto suficiente em lenha para a lareira. E ainda é. Só que já não tenho tempo para a cortar. Agora, já há uns dois anos, telefono ao Sr. Custódio da Fonte do Bispo para me trazer uma tonelada de lenha, antes do mês de Novembro. Homem afável e conversador, é imbatível no preço e, como sou repetente, ainda não me aumentou o preço desde a primeira vez. A dita tonelada não chega para as necessidades que completo com alguma lenha recolhida na quinta. Este ano, demasiado frio e chuvoso, a tonelada já se foi e ainda temos mais 40 dias de lareira pela frente. Teimosamente, resolvi não comprar mais. Por isso tenho que cortá-la, transportá-la para sítio abrigado, até ao fim. Hoje foram duas horas a cortar e rachar. Como via fazer aos cavadores do meu avô, na minha meninice, cuspo nas mão e... pimba. Nunca soube se é para agarrar melhor o cabo, se para não maltratar tanto as mãos. Depois de algum tempo de massacre na lenha e nas costas e mãos e a ser açoitado pelo aquilão ( estou a ler a Eneida de Virgílio e aprendo lá esta palavras caras. Aquilão é somente o ... vento do norte) intervalei para dar a tal volta na minha velha e querida Honda. Rumo: Fábrica e Cacela Velha.

Tenho a sorte de viver bem pertinho de uma das mais belas regiões costeira do mundo. A fatia que vem de Faro até à Manta Rota e que se agiganta neste último quilómetro do Levante da Ria Formosa.

Na Fábrica, fumei um cigarro deitado no muro de granito (não sei porquê granito no Algarve mas é bem bonito) que ladeia a ria. Com a pedra irregular massajando as costas e o sol a aquecer o rosto, fui vendo a maré baixar e os conquilheiros avançar para os baixios da ilha. Ao fundo, pareciam astronautas. Os arrastões às costas mimavam  escafandros lunares.

Dali segui para Cacela Velha, o mais belo promontório da costa portuguesa. Espreitei o velho cemitério onde me recolhi perante o túmulo do meu antepassado matador de cobras, dei uma volta pelo povoado, observei o mar e a ria, Espanha e Monte Gordo (onde trabalho para ganhar o pãozinho) e fumei mais um cigarrito. Quando voltei,a  acelerar pela estrada fora, já com um frio de cortar, e guardei a velhinha viatura, já o Sol se escondia por detrás do Cerro de S. Miguel. Óptimo, podia recolher-me a casa, acender a lareira e... finalmente pôr-me a ler o Expresso.

 

Neste tempo todo, os meus filhos não deixaram, por um só momento, o ecrã do computador...

 

publicado por vítor às 22:26
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Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

Atira-te ao mar e diz que te emperrarem

Quando nos idos anos 70 (depois do "25")o Domingos nos encantava com a sua guitarra no comboio para Faro, onde frequentávamos o Liceu (no Sotavento só havia 6º e 7º ano - antigos- em Faro, pelo que o comboio de Vila Real a Faro era um autêntico regabofe de adolescentes cabeludos), sempre pensámos que aquele mosse haveria de revolucionar o rock no Algarve. Assim veio a acontecer e, mesmo com vicissitudes várias , entre as quais a marginalidade a que são votadas as almas criadoras que não pululem pelas sagradas terras da capital e a desarmante humildade deste músico extraordinário, o Domingos e os seus Íris são hoje a face visível de uma nova música a que, por falta de outro termo, chamaremos rock algarvio ( ou, como outros lhe chamam, rock da ria, tendo em conta a Ria Formosa onde babujam músicos e notas). Para além de músico de eleição, forjado nas cordas mágicas de outro monstro da música algarvia: Telmo Marroquino (de quem um dia falaremos com tempo),o Domingos entrega-se de corpo e alma à sua escola de música na Fuseta, viveiro  que perpetua a herança de músicos fusetenses como Zeca Repolho, Badalo e outros.

Lembrei-me desta música a propósito da volta ao trabalho. Mais valia atirar-me ao mar e dizer que me emperrarem...

sinto-me:
música: atira-te ao mar e diz que te emperrarem - Íris (Domingos)
publicado por vítor às 22:36
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Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

Contos da Ria

 
MICROFICÇÃO

pedro jubilot                                                    

‘atira-te ao mar’

contos na ria formosa

 

 

 

-Marque! Ó Marque! Alevanta-te! -gritava o avô à porta da salinha dirigindo-se para a cozinha de chávena de tófina na mão.

 -Conte na valia aquele cafézinhe chê de borras que tu me fazias-me com sopas conde ê cá endava da secada, desabafa António José.  

Ao que obtém a resposta da mulher:

-Pô era...e sejava cafeteras, fegão...e o moçe cada vez tá pior. Côme chega cêde ainda se põe a ver vides da telervisão até de manhazinha.

Mestre Toino foi de novo à porta da sala um pouco mais chateado e gritou :

 -Marque Entoine! Alevanta-te já desgraçade! Daqui a pouque tenhe o barque em seque.

 Pegando no boné saiu falando entre dentes:

  -O tê pai e a tu mãe é que tom bem lá da alemonha e ê que me charingue páqui  contigue. Vô ma é endande pá do 7 estrelas. Se na apareces lá daqui a dé menutes bem podes ir trabalhar pá zobras que cá nan te dô ma denhere denhum pó reste das féras.

 A avó liga a radio atlântico(ela gostava mais da antiga radio restauração do sr. Julinho, ali ao pé da rua de faro mas agora mudaram aquilo e só tocam músicas estrangeiras e estão sempre a falar das bichas de carros em lisboa) e locutor fala pelos cotovelos:

  -São 8 e 49 estão já 22 graus e agora o novo êxito dos Iris da Fuzeta para este verão: “Atira-te ao mar”. A avó aproveita a embalagem: -Marquinhe, vai já ter com o tê avô ca maré hoje é boa pa ganhares uma nota.

Por fim o rapaz levantou-se, meteu um ice-tea no bolso e foi comendo uma sandes de queijo preparada pela avó. Levava também, mas metida na cabeça a música com que acordara, e já se sabe o que acontece nestes casos -ela não nos larga para o dia.

Apanhou o avó à porta da taberna: - Tá no ir ó não.

Mestre Toino que já tomara 2 de 5 resmungou:

-Vê lá se te alevantas má cêde quê já tô velhe pa trabalhar pa ti… ainda ê usava fraldas e já ia ó mar.

Ao que o Marco comentou trocista:-devia ser même bué da fixe o avó de dodotes assentade a borde do savêre. E o velho deu-lhe uma carolada na orelha enquanto retorquia: 

-Se calhar pensas que do mê tempe avia cá essas mariquices.

 Lá empurraram o barco para a água e fizeram-se à Ria Formosa, que já era tarde e o calor apertava. Daí a pouco começaram a labuta.

Mas a teimosa melodia lá vinha à boca do neto:

Mó, o qué que fazes aqui».                                                                                         

O avó esclareceu-o: -Pouque barulhe qu’zolhes das amenjoas se fechem.

Mas mesmo com tanto suor entre as cavadelas fundas feitas na areia Marco não conseguia deixar de pensar na música:

Má per qué que me dexaste da mão».

Passadas umas boas 3 horas de trabalho à torreira do sol o avô decidiu dar por terminada a tarefa e de regresso ao barco continuava a canção do momento :

Dá-me um bêje da boca e chama-me trazan».

O velho pescador já nada dizia, apenas abanava a cabeça, pensando com os seus botões, enquanto se dirigiam para o bote. Quando foi ver o resultado da apanha pelo neto não se conteve em puni-lo:

-Même assim ainda apanhástes muntas amenjoas...com um côrpe desses. Tem ma é vergonha, tem.

E como se fosse uma desgarrada, agora o moço:

Tá o mar fête dum cão, nan à choque nem brebegão».

Resposta pronta de Mestre Toino:

-Já me tás a enretar com essa merda de múseca. Ainda levas ma é uma cheparlada do mê da cara.

Para piorar a situação o motor do barco não parecia responder ao apelo manual de iniciar marcha, pelo que Marco se tornou voluntário à força:

-Agarra ma é dos rémes. Do mê tempe e até do tempe do tê pai conde era môçe remávamos o dia tôde. Estes moçes dagóra parecem fêtes de caca.

Ao ver-se ofendido o rapaz usou de novo a canção:

Tens cá uma mania que até dá dó».

Mestre Toino percebera a indirecta e quando o jovem se levantou para pegar os remos, ele desviou-se  bruscamente para o mesmo lado do barco em que Marco se encontrava, e então -homem ao mar!.. ou melhor, moço ao mar.

Marco esbracejava estragado da vida enquanto na sua cabeça estalava novamente o refrão, desta vez entoado pelo avô:

Atira-te ó mar e diz que te empurrarem».

Mas dá a sensação que o Sr. António já tinha aquela fisgada, pois o motor do barco, que se afastava com a corrente, pegou logo a seguir. Marco, esse teve de nadar até à doca, que apesar de tudo não era muito longe.

À noite, depois do jantar, Mestre Toino e a mulher sentaram-se como de costume à porta de casa a falar com os vizinhos, comentado a quantidade de água gasta pelo neto, que finalmente vinha a sair, e ainda magoado com a partida do avô apenas dirigiu um:

-Boa noite avó, até amanhã!

Ela chamou-o: - Olha Marquinhe, espera aí que o tê avô tem uma coisa pa te dar.

Cinco contos para gastar no Festival do Marisco dessa noite. Marco agarrou na nota, que afinal era a paga do seu trabalho, e foi orgulhosamente rua abaixo sem agradecer ao avô.

Mestre Toino não resistiu e comentou:

-Fó mó, o chêre a prefume é má que munte. Tu é que tens uma mania que até dá dó. 

 

(Um conto do meu amigo Pedro tecido (bilros?) com uma música  dos Íris da Fuzeta, onde nos podemos deliciar com o

extraordinário falejar de Olhão)

sinto-me:
música: atira-te ao mar e diz que te emperrarem - Íris
publicado por vítor às 00:30
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Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

Um Verão Tardio

 

O Verão no Algarve começa em meados de Maio. Este ano veio mais tarde. Depois de um Maio frio e chuvoso, só hoje fez a sua aparição nestas paragens do Sotavento. Chegou sem se anunciar e no esplendor da sua força: 34 graus à sombra pelas 15 horas. Eu que gosto de todas as estações recebi-o com entusiasmo. Só que... tinha já decidido acabar com os matagais  e as ervas secas em zonas da quinta que podem constituir um  perigo em caso de incêndio.

 

Faz agora quatro anos que tive que evacuar a família no intervalo do Portugal-Holanda do euro 2004, quando o fogo desceu da serra quase chegando ao mar. Eu resisti até ao nascer do dia empapando as terras à volta de casa. Felizmente o fogo manteve-se respeitosamente afastado e não chegou à  casa. Nesse ano  a Serra algarvia ardeu durante todo o escaldante Verão. Depois desse susto não posso descuidar-me.

 

A seguir a um almoço frugal de rabanetes, tomates e cebola apanhados na horta, misturadas a uma lata de atum, meti mãos à obra. Montei o meu velho Deutz, D 4006,  de 1970 e penteei a terra enquanto o Sol escaldava. Quando passava por debaixo de uma oliveira, um ramo atrevido riscou-me  um  sulco de sangue  no  pescoço, do couro cabeludo até às costas. A compensação foi que andava com umas dores na coluna há umas semanas que, com os saltos e os solavanco da máquina, desapareceram completamente. Massagens gratuitas e eficazes...

 

Ao fim da tarde deliciei-me com um magnum de amêndoa numa esplanada com as  serenas águas da  Ria Formosa a meus pés. Uma tarde espantosa antes da invasão que não tarda.

 

 

sinto-me:
música: Summertime
publicado por vítor às 23:12
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Sábado, 16 de Fevereiro de 2008

Cacela-a-Velha, deuses e demónios

Cacela Velha é um lugar fantástico. Onde convergiram e convergem epifanias diversas dando a este monte- sobre-a-ria um magnetismo inexcedível . Estou a esta terra profundamente ligado desde os tempos da minha mais tenra meninice. Cacela, embora pertencendo a outra freguesia e a outro concelho, integrava-se na paróquia da Conceição e o padre das duas povoações era, portanto, o mesmo. Desta forma o pároco transportava no seu automóvel (raro naqueles tempos) os jovens da Conceição, onde residia, para o ajudarem na missa e noutros serviços religiosos. Eu, embora não baptizado e filho de ateu militante, lá ia às escondidas: a minha perdição era o repicar dos sinos. Sim porque o toque dos sinos é uma arte semiológica complicadíssima que não vem agora ao caso. Enquanto o padre despachava assuntos do foro clerical e outros..., nós batíamo-nos em jogos de futebol com os "serrenhos" de Vila Nova de Cacela ou calcorreávamos falésias e sapais somente pelo gozo de cabriolar. Brincando às escondidas ou procurando, sei lá, os deuses naquela sua morada.
Também me ligam a esta pérola-sobre-o-mar a "última morada" de muitos familiares como é o caso, entre outros, do mais ilustre: José Gil Cardeira. O "bom filho e esposo, pai e amigo" que jaz no único sepulcro que restou no cemitério velho aquando da abertura do "novo" cemitério.
É por isso que me custa o estado de abandono e de desleixo a que está votada a praça forte que foi conquistada  não pela sua importância estratégica ou política, mas pela sua beleza. Como tão bem o cantou Sophia num dos seu poemas mais de fazer pele de galinha.

Par vos mostrar beleza e desleixo deixo-vos com alguma fotografias recentes por mim registadas.

PS: Para saber mais sobre a vida deste aventureiro que jaz no cemitério velho e do qual corre nas minhas veias o mesmo sangue, consultar o livro "Memórias Escritas" onde, para além de outras histórias sobre a região, meu pai, Fernando Gil Cardeira, conta as mirabolantes estórias deste alentejano de Alvito e da "cobra  grande", que enviou para o seu Alentejo natal e que "depois de morta foi transportada em três carros de bois e o rabo ainda ia arrastando pelo chão".











Monte Gordo ao fundo,


A flamejante Ria Formosa, que aqui começa e aqui acaba...






Não se poderiam esconder fios e antenas?

E agora o desprezo:

Casa Paroquial

Uma casa de taipa ao sabor dos elementos...


O meu parente abandonado e salpicado de cal...



Uma curiosa chaminé Allgarvia ...

Há mais, muito mais mas dói-me trasladá-las para este post
publicado por vítor às 15:31
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Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008

Hipantropias nas águas da ria



Edições Cativa apresenta... tcharammm ....

Só hoje vos apresento a primeira obra editada pelas "Edições Cativa" porque só agora consegui "roubar" a capa de um blogue por onde passei. Por preguiça não a procurei nos meus suportes digitais por onde deve jazer.

A obra vai  já na segunda edição e continua a vender a bom ritmo. Não fora o seu autor o celebrado poeta Rui Dias Simão, que a seguir "vos deixo" com o maior poeta algarvio de todos os tempos (e um dos maiores de todo o lado e de sempre) António Aleixo.



O poeta, ainda, lendo no histórico (sobretudo para a poesia portuguesa) Café Aliança, em Faro...

sinto-me:
publicado por vítor às 22:52
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