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Segunda-feira, 4 de Abril de 2016

Palermices à beira duma pneumonia...

 

Poema "Ossos", nunca publicado em livro, lido, barbaramente, pelo autor, Vítor Gil Cardeira (aproveitando a voz de gripe).

publicado por vítor às 23:42
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Terça-feira, 22 de Março de 2016

anos sessenta...

Porque ontem foi o dia da poesia:

vítor poesia pela paz.jpg

 

Estilhaços

Depois dos românticos, a melancolia é a alma da poesia...
No princípio, era o desejo. Só o desejo.
Na terra dos antepassados que nos pré-existem e que nos sucederão, onde o princípio e o fim, o nascimento e a morte, fecham o ciclo da cultura, apresentaremos o brutal teatro que nos envolve a vida.
A peregrinação é um processo de envolvimento no vazio.
Não acreditem. Foi só uma mudança de pele. Agora, a nossa própria pele.
Quanto mais te aproximas de ti maior é a revolução que se estende para lá de ti.
Antes do recolhimento, o fogo...

A amizade engrandece...
Strange days: já se comem nêsperas em Fevereiro e as gaivotas pairam há um mês nos ares da quinta.
Trabalhar para nada, a mais bela das ocupações...
cada um sofreu à sua maneira, da mesma maneira.
A felicidade é o que temos antes de termos,
Ainda agora os pássaros me seguiam atrás do trator, debicando minhocas e outros entes que habitam nas entranhas da terra...
Quando algo acontece mesmo no fim, então a felicidade dura mais tempo...

publicado por vítor às 00:22
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Domingo, 22 de Novembro de 2015

última dissolvência

 

ela sorriu transportando a paisagem
que reforça o intervalo entre o fim e o
princípio num lago de nudez abreviada,
sorriu e chamou a pertença consagrada
nos limites, parceria indisponível transcrita
no lugar, dúvida importada, preconceito inicial.

O escuro manso dissolveu a responsabilidade
em escaramuças militantes, entendimentos da viagem
desvalorizada, última dissolvência impaciente
perdendo o consenso na distância coreográfica

do sorriso da mulher que percorre o olhar
ingrato da única vitória dos abstencionistas
curiosos, maioria significando a aposta
nas flores, diz-nos da crueza do obstáculo,
da dor na noite recuperada da berma do caminho,
legitimidade do pesadelo indocumentado,
metade da dor marginal, sorriso do poder
que se eleva nas faenas do sexo consumidor
dos corpos raivosos e sectários,
discurso ressentido e parcial

da atenção do outro que não reflete o estado
de embriaguez vazia que conduz
a relativização da evidência, transformação do novo
interpretando a inocente figura que emana
do sorriso absoluto

e gere a desorientação responsável pelo ruído
da alma vestida de palhaço incompleto,
reduz o exemplo da hierofânica verdade dissoluta
no lodo evidente, sonsura dominante nas cicatrizes
do calor, da insânia sedimentada nos ritos
do calendário social que alguém parodiou
no equilíbrio sem paixão dos convertidos, explicação
corrosiva no pó que se eleva nos atalhos
petrificados da memória.

ela sabe como podar as ideias
que se desprendem do oculto sabor a derrota,
mutilar o chão onde navegamos à vista
e contendemos com os ossos que se erguem do tempo.

ela é um implante na paralisia do medo,
na arte de inventar placebos, paixão
na imensidão do caos.

sorri e não colhe. As manadas assentam
os cascos na viscosa película dos afectos.

20140826_195658.jpg

 

publicado por vítor às 23:10
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Quarta-feira, 24 de Junho de 2015

o canto suave das aves negras

Fotografia1623.jpg

 

queria acompanhar os melros ao cair da tarde,
sentar-me nos torrões vermelhos do poente e respirar
o canto suave das aves negras. seguir os passos de veludo
da minha gata aproximando-se por entre as hastes de funcho
penduradas nos caminhos que levam às penugens negras da noite. os grilos preparam-se para invadir o ar húmido e quente
das laranjeiras acabadas de regar. não há melhor hora nos dias
que teimam em não passar do que as do lusco-fusco das tardes
que tombam nas noites mornas de verão, arrastando na sombra espessa os figos lampos inchando o sexo que ressuscita no céu
ardente na serra a noroeste. Os últimos suspiros da luz surpreendem a longa jornada convidando à reflexão os amantes inquietos. Os amantes que se movimentam nas levadas frescas bordejando os caminhos onde as pedras soltas conduzem os passos dos corpos ao silêncio que soçobra em galopes de cavalos inúteis celebrando o solstício.
Regresso aos melros de antanho e converto-me ao silêncio que reverbera no fim da tarde calmosa que nos abandona.


Cativa 22/6/15

publicado por vítor às 21:45
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Domingo, 14 de Dezembro de 2014

tatuagem proibida

sizízia anel.jpg

(foto de Jorge Jubilot)

(Lido ontem na apresentação da "Revista" Sizígia, na Galeria Sul, Sol e Sal, em Olhão)

 

A minha mão como uma pata de elefante
sobre o teu peito, pegada profunda
escarnecendo da memória antiga
à sombra das amendoeiras esbranquiçadas,
a neve clareando o alcatrão, estabelecendo
um contínuo pesar nos lábios, na cortina
que separa a noite das inefáveis
similitudes do amor. O vento
empurrando as águas mornas
para os braços do promontório sagrado,
empurrando as águas revoltas na direção
do oceano sem fim. O teu sorriso atira
mísseis cara-a-cara na efervescência
dos rituais baratos de domingo,
nos corações que a estrada consome.
És presença sem rosto atravessando
a bruma cautelosa na clausura dos armários,
coágulo que range na reverberação
dócil dos condenados. Nas praias deste Sul intenso,
navega um subtil grão de areia rebolando
nos interstícios do verão, na melodia plagiada
infetando o sonho, num odor de alfarroba
interrompendo a dor. Agora que as malditas grilhetas
da paixão afrouxam no seio da nave
perdida nos silêncios, agarremos as mãos pesadas,
erguidas em preces fraudulentas, e arremessemos
o que resta de nós no tatuado fruto proibido.

Cativa,  22- 7 - 2014

 

publicado por vítor às 14:55
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Sexta-feira, 14 de Novembro de 2014

As aprendizagens castradoras dos peregrinos

 

O cadáver bordeja as águas
mornas sussurrando aos amigos
desconhecidos (…), as sombras alongam-se
como serpentes à babuja dos
barcos em decomposição. Navega cadáver
sem rumo que não a podridão indiferenciada
do silêncio das câmaras nupciais, enfunando
as velas latinas do desejo febril,
das peripécias da noite.
Só a ingratidão redige e soletra
o obituário do rebelde que se solta
entre os colapsos da assistência
multitudinária dos que cumprem
os deveres sombrios, os desejos de arenque
fumado contradizendo
os magmáticos murmúrios da ignorância,
os boatos aspergindo as cabeças coroadas,
inalcançáveis, golpeando os peixes
que se levantam na direção do cadáver
desavindo,
à deriva na solidão dos cosmos.
Há mortos incómodos no sótão
da vizinha, esqueletos dançando
na caudalosa poeira das impolutas
lamas incandescentes. Dançando
como crianças sem consciência dos riscos
que da consciência se libertam, se soltam
amarelecendo nos campos de sangue
onde a paisagem fede a nobreza
e lealdade. Féretro que o povo
venera lambendo o cu dos celebrados
heróis de antanho, tecendo a pele que o amortalha
e prende às correntes ígneas das palavras. Só um
cadáver compreende as solicitudes
dos poderosos, as calmarias rangendo nas
cabeleiras sorridentes da apostasia.
A sua caminhada sem destino rasga
as atómicas partículas do corpo, rejeitando
um lastro de perfume acre
no condomínio espectral dos mestres
que conduzem as aprendizagens castradoras
dos peregrinos, o conhecimento inútil da verdadeira
Sabedoria.
O cru transcende a cozedura e as confusões
serão lavradas no epitáfio do cadáver.
A fogo e água.

Cativa, 7/7/2014

As aprendizagens castradoras dos peregrinosO cadáver bordeja as águasmornas sussurrando aos amigosdesconhecidos (…), as sombras alongam-secomo serpentes à babuja dosbarcos em decomposição. Navega cadáversem rumo que não a podridão indiferenciadado silêncio das câmaras nupciais, enfunandoas velas latinas do desejo febril, das peripécias da noite.Só a ingratidão redige e soletrao obituário do rebelde que se soltaentre os colapsos da assistênciamultitudinária dos que cumpremos deveres sombrios, os desejos de arenquefumado contradizendoos magmáticos murmúrios da ignorância,os boatos aspergindo as cabeças coroadas,inalcançáveis, golpeando os peixesque se levantam na direção do cadáverdesavindo,à deriva na solidão dos cosmos.Há mortos incómodos no sótão da vizinha, esqueletos dançandona caudalosa poeira das impolutaslamas incandescentes. Dançandocomo crianças sem consciência dos riscosque da consciência se libertam, se soltam amarelecendo nos campos de sangueonde a paisagem fede a nobrezae lealdade. Féretro que o povovenera lambendo o cu dos celebradosheróis de antanho, tecendo a pele que o amortalhae prende às correntes ígneas das palavras. Só umcadáver compreende as solicitudesdos poderosos, as calmarias rangendo nascabeleiras sorridentes da apostasia.A sua caminhada sem destino rasgaas atómicas partículas do corpo, rejeitandoum lastro de perfume acreno condomínio espectral dos mestresque conduzem as aprendizagens castradorasdos peregrinos, o conhecimento inútil da verdadeiraSabedoria.O cru transcende a cozedura e as confusõesserão lavradas no epitáfio do cadáver.A  fogo e água.Cativa, 7/7/2014
publicado por vítor às 21:50
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Segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

poema falido II

  •  
    sábado
    às 21:45
     
  •  
    Casa Álvaro de Campos - Tavira
     
apresentação - Pedro Jubilot
leitura - Luís Luz
 

poema falido II.jpg

 

publicado por vítor às 18:45
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Quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

terras úberes

sinto-me:
publicado por vítor às 22:02
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Sexta-feira, 8 de Agosto de 2014

o nevoeiro apoderou-se da tarde de verão

 

Hoje o dia pareceu-me enevoado

e a juventude foi-se-me sentar

entre as cãs e os longos silêncios dos peixes.

O meu filho disse-me, depois de uma ligeira

altercação, sem olhar o meu corpo

esparramado comodamente no sofá, tenho lá culpa

de teres atingido a andropausa. Amei e estive

3600.000 dias sem dizer uma palavra.

O banco onde depositava as minhas parcas

poupanças faliu. Fiz sexo com o candeeiro

da mesa-de-cabeceira que teimava

em não se acender quando pretendia ir mijar

pela calada da noite. Mil vezes. O prejuízo

 do meu banco foi de 3600.000 de euros –

bem maior que o meu, está claro

(pobres banqueiros) -, e eu acho que não escaparei

à  morte em 2040. O metano e o dióxido de carbono

farão o trabalhinho de forma absoluta sem

recurso à metafísica. O Tribunal Constitucional,

em que acreditava piamente, ditou

que o roubo aos pobres estava claramente

dentro da moldura penal consignada na lei

Suprema da nação. Quando os senhores doutores

juízes acordarem será tarde de mais. O fim da humanidade

em 2040 foi ontem. Vi, ainda agora, um homem beijar a pata de um cão.

O gesto, sincero, comoveu-me e o meu ventre estrebuchou

chamando a atenção da vizinhança que ruborizou levemente.

O antigo primeiro-ministro, o antes deste,

 foi acusado de corrupção no mês passado.

Defendeu-se dizendo que no mês passado já não era primeiro

nem nada na classificação dos entes candidatos a comprar

o Novo Banco. O que renasceu das cinzas do meu banco, entretanto falido.

Acabei de alcançar o nível 4 num jogo on-line e perdi o resto que tinha ganho

à  sueca com a rapariga do rés-do-chão direito. Era uma madrugada

clandestina a que me esperava. O nevoeiro escondia-a num poema

 de ideias controversas. A andropausa mental

 é muito mais perigosa do que a biologia. Toda a biologia.

Estando esta última por provar que aconteceu.

O maldito candeeiro da mesa-de-cabeceira tira-me

a  tesão toda: só se acende quando quer e eu a espumar

toda a noite. Sinto as articulações cansadas (tendinites?)

só de pensar em 2040. Tomo um chá de galafito com um

placebo qualquer para enganar a ansiedade e elejo a melhor praia da Europa:

Praia de Cabanas!, como nunca poderia deixar de ter sido.

Só por acaso estarei vivo em meados de 2040. Se não me engano andarei pelos…

            2040 – 1958 = 82   posso até assistir no you tube

à minha própria morte. Até, talvez, editá-la.

Desconfio mais da crueldade do metano do que na do dióxido de carbono.

O CO2 é-me muito chegado. Nada de científico, é uma intuição

Que me empurra mais para o metano. Cheira-me a Inferno.

O que pensará o Tribunal Constitucional do fim do mundo?

Poder-se-á considerar o fim do mundo inconstitucional? Até,

anticonstitucional? Nisso não acredito, o fim do mundo está para lá

das jurisdições humanas. Da moldura do Criador. O que só revela

da insanidade geral dos homens e da fraudulenta misericórdia de Deus

para com os banqueiros espeleólogos. É-me insuportável

assistir ao bailado das meretrizes míopes escaldando os pés

no palco de metal que a música consome.

Para entender a convergência da economia paralela,

e  mesmo, ou talvez, sobretudo, a  perpendicular, na direção dos paraísos fiscais

que pululam de Manila às Ilhas selvagens, da Micronésia de Malinowski

à  Macaronésia de Alberto João Jardim, dirigi-me

ao meu psiquiatra e estendi-me no divã

à espera das sombras que envolvem a luz intermitente

do meu candeeiro de mesa-de-cabeceira. Da redenção inicial.

Revelou-me que o meu sono estava desenhado segundo

os padrões internacionais aceites pela Internacional

Socialista e que o humor que transportava

no inconsciente podia muito bem ser fruto

de um resquício de festa de anos celebrada

em Chefchauen em 2004. O perigo, continuou,

seria sempre o de me calar sem antes rejeitar

a simpatia que me ligava ao FMI e esquecer

os dias passados a percorrer as sedes dos bancos suíços

a tentar abrir cofres com um canivete multiusos.

Poderia nem chegar a 2040 e atingir a eternidade antes

do tempo gravado na coronha da espingarda

do meu tetra avô que agora, por acaso, é minha.

Despedi-me atenciosamente e, retribuindo a simpatia,

o  clínico não me levou dinheiro pela consulta.

Parti dali em transe semi-induzido e as insónias

que o tempo adivinhava fizeram de mim

um zombie até aos dias preliminares a 2014.

O nevoeiro apoderou-se da tarde de verão

confessando aos turistas que o suicídio era um privilégio

de banqueiros. Quando a luz do candeeiro de mesa-de-cabeceira

inundou de luz o quarto, atravesso a andropausa e,

para sempre jovem, sento-me na cama à espera de 2040 a ler as aventuras

do cavaleiro da triste figura.

 

Cativa 31-07-2014 (anos do Guapo)

sinto-me:
publicado por vítor às 00:02
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Domingo, 6 de Abril de 2014

O deserto (EP)

Atentai incréus na arte do silêncio.E pur si muove...

 

sinto-me:
publicado por vítor às 15:13
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